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segunda-feira, 28 de março de 2016

Lendo 142

"Os que se assemelham a nada
assemelham-se
a Deus"

Pde José Tolentino de Mendonça, in “A papoila e o monge”, Assírio e Alvim, Lisboa 2013, pág 51

Mais uma liberdade linguística. Eventualmente poesia, eventualmente figurada, eventualmente qualquer coisa.

O que é assemelhar-se a nada? O que é nada? Nada é ausência de tudo, nomeadamente de ser. Ora Deus é por excelência e é quem dá existência a tudo, nomeadamente às coisas e às pessoas mesmo as que se recusam a ser e se querem assemelhadas com a ausência.

Não sigo, definitivamente, esta liberdade linguística.

Lendo 141

"Em silêncio o rochedo
vê chegar e partir
as estações."

Pde José Tolentino de Mendonça, in “A papoila e o monge”, Assírio e Alvim, Lisboa 2013, pág 29

E que esse silêncio que não seja estático. Há um crescimento que tem que acontecer. O tempo é devir, é acontecer, é somando as passagens desse pelo como esse tempo nos faz dele. Que o silêncio seja cheio de ruído de conversas dentro do rochedo dando-lhe mais estrutura para podermos ir sendo cada vez mais um marco de nós.

lendo 140

"Deus está vazio
de todas
as suas obras"

Pde José Tolentino de Mendonça, in “A papoila e o monge”, Assírio e Alvim, Lisboa 2013, pág 67

O discurso figurado é sempre complicado. Deus NUNCA ESTÁ, pois Deus, em bom rigor É sempre e totalmente. Deus não entra no tempo, não tem tem estado ou circunstância. O Homem é que tem estados, modos e circunstâncias. Contudo, sejamos simpáticos para o autor e admitamos que entendeu ele escrever este trio, este haiku, com o sentido de ser/fazer queixinhas da ausência de Deus no homem. O homem saiu de Deus deixando, pois, enquanto sua obra, vazios Dele. Mas, e ainda assim. voltamos a um homem maior que o seu sentido. Esse homem não está vazio de Deus, mas distraído de Deus. Olha para o mundo muito convencido de si mesmo e da sua pequena razão que lhe dá muitas certezas, muitos raciocínios e sequências sentenciais que o afastam da sua interioridade.

Prefiro sempre levar o homem para si mesmo e, nessa medida, a Deus, do que esta modalidade verbal. Enfim... haiku.


Lendo 139

“Todo o Inverno
O solitário bambu
Mediu forças com o vento”

Pde José Tolentino de Mendonça, in “A papoila e o monge”, Assírio e Alvim, Lisboa 2013, pág 144

Há, neste haiku, uma ideia mais próxima do pensamento japonês, pelo menos daquilo que posso eu entender como tal, que coloca o homem na natureza e como o tempo lhe é manifestamente exterior e ao qual o homem se expõe. Falhará, todavia, na medição de forças, pois que o homem deve integrar a força do vento invernio e em vez de medir forças com ele, entender e viver de acordo com a força desse vento.

O Papa Francisco pede-nos para fazer pontes e não para nos medir com a natureza.


Rectificação

Afinal, o que li do Padre José Tolentino de Mendonça são poesias suas ( dele ) no modo Haiku.

Em breve mais sugestões minhas da leitura de tais haikus......

domingo, 27 de março de 2016

Poesia, fé e tolerância

A ler um livro do Padre José Tolentino de Mendonça sobre um livro de Jack Kerouac de poemas japoneses conhecidos como "Book of haikus".

De uma base de mais de 1.000, Jack Kerouac escolheu cerca de 500 e JTM filtra apenas 150. Este tipo de poesia é mais métrica, mas, e ainda assim é poesia.

Desconheço se existe um pensamento subjacente na poesia Haiku, ou se um nexo filosófico, mas há, como em todas as manifestações intelectuais do homem, pensamentos com alguma metafísica. Da escolha destaco a primeira frase do primeiro poema "O silêncio só raramente é vazio (...)" o que abre, desde logo, uma enorme porta à meditação. A expectativa fica, portanto elevada, mas poema após poema, começa a cair no rame rame das frases feitas sem novidade. Diria mesmo, uma certa forma e modo de alguns doutores da nossa Igreja de falarem. Uma presunção enfática de certezas que fecham portas à reflexão. Ora conhecendo alguns textos orientais, que, de fundo, apelam à meditação, à redução ao tamanho ínfimo do homem, ao seu singular lugar no cosmos de coisa que passa e que se deve sempre ligar ao tempo e ao mundo, fico sempre desolado com o afastamento desta religiosidade.
Sinto-a intolerante para com o Homem.

"O silêncio
não é o oposto
mas o avesso"

"As palavras ferem
o amor
como tudo o mais"

"Muitas vezes Deus prefere
entrar na nossa casa
quando não estamos"

Esta postura sapiencial é adversa a uma demanda séria, honesta e filosófica. Volto à frase de abertura "O silêncio só raramente é vazio", que apesar de continuar com uma vacuidade
"diz alguma coisa
diz o que não é"
Deixa uma abertura que depois se fecha. Admito que os restantes 850 haikus mereçam mais que a selecção do Pde JTM.

Nota fora do tempo: Afinal, o que li do Padre José Tolentino de Mendonça são poesias suas ( dele ) no modo Haiku.