Conheci, em tempos, uma pessoa
que tinha dizia que problemas na sociabilização. Dizia-se que era tímido. Que
tinha vergonha de estar com pessoas, com muitas pessoas. Refugiava-se, por
isso, no seu mundo, mantendo um acesso muito reservado.
Acontece, todavia, que o mundo e
a vida em sociedade é, sobretudo, relacional, ou seja, é impossível manter-se
num estado de contenção de relacionamentos. Todos os dias, por mais que executemos
repetidamente as mesmas tarefas, percursos e hábitos, há sempre o imponderável
da liberdade dos outros que podem fazer surgir alterações, perturbações e,
naturalmente, novidades. E nessas circunstâncias reagia de cara fechada, olhar
parado, ainda que observador e retirando as suas conclusões sem deixar a mínima
abertura para a convivência. Poderíamos, até, dizer que agia não como uma
pessoa, mas como um adereço de circunstância no ambiente onde se colocava. No
seu mundo falava, conversava, contava coisas e até ria. Uma dualidade evidente.
Com o tempo foi recebendo
progressões profissionais que obrigaram a ter que ter relações com terceiros.
Havia que ir a reuniões, fazer parte de equipa de trabalhos, fazer parte de
decisões e reagir. Com a habilidade de escuta e observação que havia treinado
toda uma vida, ganhou facilmente muita habilidade nesses momentos. Continuava a
reagir como sempre. E nunca gostava que lhe pedissem opinião, ou que deduzisse
uma conclusão. Era um processo fácil e que estava feito na sua cabeça mas, sabia
que, inevitavelmente, iria gerar diálogo. E que este tinha boas possibilidades
de abrir em confronto, em troca de opiniões.
Tinha, nesse campo, uma particularidade
comportamental. Evitava o confronto, não por não ter gosto em conversar, mas
porque não estava disposto a abdicar das suas posições, muito menos coloca-las
em causa. Reagia, inevitavelmente, sob o signo de um orgulho que impedia de se
confrontar. As leis do mundo foram sendo adaptadas às suas circunstâncias,
toldando a sua entourage a esse desígnio, mesmo que para isso tivesse que
circunscrever ainda mais o seu mundo.
Quando se confrontava com
opiniões que de algum modo colocavam em causa o seu status quo e as suas
certezas, ficava calado mas com umas mãos invisíveis afastava esse personagem
da sua vida. E foi acontecendo com chefias profissionais às quais respondia com
um riso diplomático e um gelo verbal. Foi assim com colegas em equipas de
trabalho, onde já nem sorrir valia o esforço. Foi assim com projectos onde
apenas resistiu um vago esgar. É assim.
Recolhe-se sempre ao seu mundo.
Certificado e já absolutamente ajustado. Não há espaço para divergências, para
opiniões, para versões e muito menos discussões. Aplica a sua tirania funcional
e não há espaço para liberdades ou inovações. E todos os dias recolhe à casa de
partida.
Acredito que faça a sua reflexão,
que medite e que pense a sua vida. Fará seguramente isso, mas nunca dará o
braço a torcer. É as suas certezas.