quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Piadola

Estou aqui para te dizer uma, mas a verdade é que quase vejo a dobrar, pelo que me ficarei pela metade. Amanhã digo o resto...

Bela foto

Fui à procura de ti
Por via de uma bela foto
Em que, indubitavelmente,
Te vejo feita deusa, sereia ou musa.

Esperei, confesso, encontrar,
Não o intrincado novelo de confusões,
Nem a auto dramatização
Nem, sequer, a vitimização.

Contava, é seguro, encontrar
O que a foto mostra,
Isso, um ser humano,
Uma alma.

Mas, afinal,
Tudo não passa de engodo
Para prender a estima alheia
Para afagar a minha.

Bela foto.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Curta

Ou é como eu quero ou não é.
Aos poucos as coisas deixaram de ser.

Lendo 243

"- Sim, claro mas enerva quando se confunde relações profissionais com quezílias pessoais.
- Amélia sempre foi assim será sempre assim em todo o lado, as pessoas são pessoas."

Rodrigo Guedes de Carvalho in O Pianista de Hotel, Dom Quixote, Lisboa 2017, pág 261

Voltamos, aqui, novamente à mesquinhez do ser humano. Incapaz de ser ver no espelho, de se encontrar com o seu lado não sobrevalorizado, para não se confrontar com o que precisa de trabalhar para ser um melhor ser humano, entra sem rodeios em disputas inacreditáveis. Muitas delas com prejuízos para si mesmo. 
O mundo do trabalho está carregado de gente que é incapaz de erra grosseiramente e quando alguém sugere ou refere mesmo o erro, em vez de olhar para o assunto, gera uma guerra pessoal cujo fim é tão somente manter o seu estado de alma imaculado. Soluções? Não existem. As pessoas são pessoas.

Lendo 242

"A mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos, e não descansará, nunca, enquanto não eliminar o animal raro que lhe faz sombra, que não deixa dormir, a mesquinhez baixinha e insegura é eternamente agitada porque o animal raro, simplesmente, existe. Todos os outros pecados mortais, combinados, são uma mera brincadeira comparados com a inveja."
Rodrigo Guedes de Carvalho in O Pianista de Hotel, Dom Quixote, Lisboa 2017, pág 233

Podia dizer tantas outras coisas mais, mas a frase condensa, e muito bem, a razão profunda da maior parte das motivações dos diferendos. Não se luta, não se discute, não se debruça sobre um tema. Inveja-se e, depois, corre-se a todos os tipos de jogos baixos para suplantar esse nada.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Novamente

Num imenso enfado, onde repetia mecanicamente as tarefas de sempre e acumulava processos acabados que iriam para uma pasta de cartão castanho e se colocava ao lado de outras pastas que íam enchendo armários até ser altura de os atar e enviar para grandes armazéns onde repousavam sobre o pó de vinte anos... Fazia com os olhos semi cerrados com um sonolência febril de quem se esquece de tudo. Olhava para os lados e, assustado, havia quem estivesse satisfeito com o que fazia. Olhei para baixo, para os meus papéis e revendo-os um a um, levantando-os, cheirando-os, sentido mesmo o paladar... procurava onde é que podería alguém encontrar algum motivo para ter satisfação nesta coisa mecânica, vazia, repetitiva e sem novidade...
Volto a levantar os olhos, marejados de desespero, e noto que mantém um sorriso estúpido e imbecil na cara.
Não é possível.
Levanto-me discretamente como se fosse à casa de banho e passo junto a esse colega. No meio dos seus braços, escondido sobre o tronco arqueado o mesmo livro de banda desenhada da escola secundária.....

Sou um sonho mau que me persigo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A vida alheia

Todos os dias quando entrava no autocarro fazia os mesmos movimentos de sempre, tirar o passe, passar na máquina e seguir pelo corredor e sentar-me no primeiro lugar que encontrasse. Preferia quando me sentava em frente a outros passageiros, frente a frente. Durante os 20 a 30 minutos do percurso aproveitava para inventar histórias, conteúdos e vidas que se enquadrassem nas caras das pessoas.
Lembro uma rapariga nova, talvez vinte, talvez vinte e cinco, talvez dezoito. Tinha uns olhos negros e incrivelmente vazios. O seu semblante era fechado. No Verão utilizava uns óculos escuros onde se isolava ainda mais. Era misteriosa.
Aos poucos comecei a admitir uma conversa impossível com quem evitava a todo o custo estabelecer contacto e comunicação.
- Chamo-me Margarida. Sim, tenho o nome de uma flor. Mas é apenas o nome.
E depois continuava
- Porque é que queres saber de onde venho? Já sabes que é complicado, que é difícil e, até, difícil de confessar. Mas gostas deste tipo de conversa sórdida. Achas que irás entender porque é que não olho, de que fujo e o que procuro...
Olha para a janela e ajeita os óculos à cara.
- Não há muito a contar que não tenha já sido contado. Tu vês filmes, não vês? É mais ou menos isso, um filme. Mas não é uma novela, porque as novelas são falsas, entretêm-te durante meses a fio e depois tudo é fantástico e acabam todos aos beijos. É tudo mentira. É feito para te viciar na compaixão, na pena...
Sou a personagem de um filme. Aos poucos sei que o filme vai deixar de ser de muitos e vai passar a ser só meu. O meu filme, a minha história. Ah! podes dizer a minha versão da minha história. Mas, e quero lá saber no que penses, pois que a minha história, o meu filme vai ser isso mesmo. Meu. A minha história. A minha versão.
E continuei a vê-la, fechada, com a cara virada para o vidro em silêncio...
- O meu passado? Importa isso? Sim, há maus tratos, violação, abuso... queres pensar em algo mais? Preferes que tenha sido na escola? No bairro? Por um amigo? Primo? Pai? É irrelevante quem foi ou onde foi. Aconteceu e queimaram-me os olhos por dentro.
- Ultimamente, e desde que trabalho, estou quase a ganhar a minha autonomia. Vou sair. Vou deixar para trás esse vício de sofrer.
Vês esta saia? Já fui eu que a comprei. Teve que ser até aos pés. E fechada. Mas liberta-me, é minha e é o meu corpo dentro dela.
Sabes que estou quase a chegar à minha paragem. Tens fé em mim? No futuro? Em Deus e na bondade? Se tens, acredita que a minha vida vai ser boa. E que a minha história vai mostrar essa volta.
Sorri-lhe
Sem me dar conta, ela ao levantar-se esboça um muito ténue sorriso.

Voltava de férias

Voltava de férias... férias? Se podia dizer dos 10 dias passados a correr em casa de uma tia ao pé da praia. Ainda trabalhava mais para não sobrecarregar a tia que dava tecto e cama para si e para os seus rapazes. Desde o supermercado à culinária, passando por tratar da casa e da roupa, ficava com o sabor das férias naquelas horas escassas que vestia o biquini e deixava-se escorregar para cima da toalha. E era capaz de assim ficar, passar até pelas brasas, antes de descer à beira mar e refrescar os pés.
Voltava de férias e tinha deixado o sorriso na praia, nas ondas que iam e vinham, tal como o seu olhar se perdia nesse movimento de avanços e recuos. Por vezes sentava-se na areia ainda molhada e assim permanecia.
Voltava de férias, com a pele cheia de sol, ainda quente, mas com a alma vazia, sem ter com quem partilhar esse calor.
E os dias iam passando, tal como o calor e o sabor salgado das férias. Aqui e ali, o sorriso voltava.
E um dia, olhando-se para o espelho, já não notava a marca branca do biquini, até isso se havia esbatido. Com o olhar no outro lado do espelho vestiu o soutien, ajeitou o peito e vestiu as cuecas de renda mais confortáveis. Deu três passos atrás e sentou-se na cama a olhar o espelho, como se fossem as ondas do mar. Era domingo, estava de férias....

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meditação do dia da Assunpção

Tudo gira à volta dos afectos, as nossas casas de segurança, reduto último da certeza. E o pior que podemos fazer é mentir ou simular. Todo o tempo que perdurar esse engano, mais que tempo perdido, é tempo que deixou de ser vivido.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Voltei

Voltei à poesia
E tu não estavas lá.

Voltei onde volto sempre
À poesia.

Sincera recorrência
Triste insistência.

Fui

Fui
Atrás de mim,
Do meu passado,
Das minhas origens,
Da minha questão
Filosófica ou metafísica,
De ser isto,
Esta circunstância,
Esta questão no tempo...
Fui,
E volto sempre a ir,
Recorrentemente,
Pois que nada é certo,
Nem a morte,
Pois de fim a passagem,
Ou outro mundo,
Ou, até eternidade,
É toda uma imensa possibilidade
Em que, invariavelmente,
Me perco a pensar.
Prós e contras,
Sentido e vazio,
Razão e adesão...
E vou, mais uma vez,
E nada tenho a dizer,
Nenhuma conclusão,
Nada certificar,
Concluir ou aderir,
Somos um mundo aberto
Que, quando assim calha,
Encostamos a porta,
Jamais seguros de a fechar.

Dizia o poeta

"O mundo pula e avança...."
Mas, às vezes, a impressão que dá é que se acomoda à mentira, ao engano, à torpeza, à imoralidade... e todos viram as costas quedando-se em meras questões de detalhes do momento, da circunstância, do imediato.... Por onde anda a poesia?

domingo, 6 de agosto de 2017

Lendo 241 - As 1001 noites

A ler as 1001 noites que o Expresso partiu em 7 e vende à razão de 3,5 euros oferecendo um monte de folhas impressas de reduzido interesse a que chamam um semanário.

Retenho como primeira nota que é um livro escrito, ou reescrito após o século VII, pois assume, em quase todas as histórias a religião monoteísta, o que, só com Moamé foi unificado nos países do Norte de África. E é curiosa a denominação de "Chefe dos crentes" feita ao califa. 
A segunda nota o determinismo do destino. Há uma história, um dito, um fado sobre determinado indivíduo que acontecerá, e a história narrará uma série de tentativas de fugir a esse destino que acaba por se cumprir, invariavelmente, introduzindo a perturbação anunciada. Seja pela virtude, seja pela acção de fadas ou génios, o efeito da perturbação acaba por ser anulado, ou reconstruíndo outra forma de organização dentro da moral.
A terceira nota é que as histórias tendem todas para um fim Bom. A harmonia vence a desorganização e o mal.
A quarta nota é para verificar que algumas histórias acabam por ser lições comportamentais como se fossem um normativo moral.
Por fim, o papel da mulher... Nada tem de similar com a nossa civilização portuguesa, profundamente matriarcal, nestas 1001 histórias a mulher é quase nada. Pouco importa. Pode ser cobiçada, mas depois de feita a "tomada de poder" desfazem-se todos os encantamentos e desaparece. Um senão, apenas, é no caso em que se torna adultera, aí, não só se transforma em início de muitas histórias, como, também, o fim da sua vida, pelo menos na forma em que a conhecíamos, tomando formas diversas, sobretudo de animais.

Muito interessante, muito agradável e, sobretudo, educativo. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O pecado da mulher que ousou amar

Aconteceu num lugar o singular facto de uma mulher, um dia, encontrar o seu amor num colega. Deixou para trás a sua casa, o seu marido e a vida que tinha e passou a amar esse outro homem. E a ele começou a dedicar todas as atenções, todos os minutos e todos os sorrisos.
Ciosa da sua privacidade, entendia que esse amor seria apenas seu e de mais ninguém. Ninguém poderia saber ou sequer entender que amava aquele outro homem. E assim passou a viver num certo conto de fadas em que deleitando-se sobre qualquer dito do seu novo homem tinha a certeza que ninguém entendia que estava a viver uma segunda primavera e que todo o seu tempo eram momentos de pombos a arrolhar.
O tempo diabolicamente insiste em passar segundo após segundo e tem o perverso efeito de destruir o efeito da novidade e dar-lhe o gosto de hábito, perdendo o tempero único do encantamento. E, ao se desencantar, nota que aquilo que admitia como passeios a dois num infinito areal era uma exposição do artigo mais cobiçado na montra da inveja humana e, por tal, comentado à exaustão pelo universo que com ela convive. Ninguém faz por maldade, mas por não ter outro motivo tão ardente ou picante para comentar. Que sensaboria relatar a triste viagem da casa para o emprego mas que gosto em verificar os olhares, o terno encosto da cabeça, até o passo que é feito a par...
E, ao tempo que surge o bocejo, a previsão de algo que ganha monotonia e, até, um certo bafio, e todos esses pequenos nadas começam a transformarem-se em incómodo interior, ou não fora de uma mulher que se trata este relato. E, enquanto empina o nariz, levantando o queixo e apressando o passo determinado, resolve promover para a montra o fim de algo que era já uma muito pálida sombra do que fora.
 Apesar do sabor doce desse amor, dessa vontade de calor, da saudade ao fim do dia que lhe dava um frenesim ao acordar, ousara amar e admitia que seria um pequeno segredo partilhado apenas no seio do encantamento. Vivia a saudade desse sentir e a melancolia de o ter perdido.
Sendo o ser humano feito para amar, estava, pois nesse limbo do amor que cessa e que não deixa futuro.
Ousou amar sem consequência e agora mortifica-se numa solidão. Espalha, pois, pequenos afectos como outros pequenos desamores para temperar equilíbrio. Ousara amar e agora tinha que desamar, não o amor, mas outros desamores.

E é assim de uma fonte de água cristalina pode, um dia, correr pedra seca e oca.