quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ao meu Alentejo

Recordo, com saudade, um Alentejo que conheci.
Era um Alentejo de Setembro, cheio de ar quente e seco. Havia pouca água e a terra variava entre pó e torrões de pasta de lama que ressequiu. O ar era azul forte como o céu que se abria em todo o lado sem uma única nuvem. Apesar dos dias estarem a ficar mais pequenos continuavam tão longos como o tempo que devagar passava. Em nada havia pressa, nem nas corridas.
E havia o cantar das andorinhas no final do dia. Rodopiavam imensas no pátio da entrada onde, no alto dos beirais juntavam bolas de lama e construíam incontáveis ninhos chegando uma só telha a albergar mais de três.
A noite era carregada de estrelas e um ar doce com sabor a laranjas.
Neste meu Alentejo o branco sempre foi a luz dominante. Desde as entradas das casas, as pedras da rua diariamente lavadas, que faziam um caminho entre um chão alaranjado das poeiras. As casas desse branco imaculado feito com brochas de cal que refrescava apenas de se lhe chegar as mãos. E, nesse toque, a mesma rugosidade das mãos de quem as pintou ano após ano, deixando, pelos pelos já tortos da brocha a sua impressão.
O horizonte era a perder de vista, sempre numa linha que juntava o castanho com o azul forte onde ponteava, aqui e acolá os sobreiros parados e abandonados num qualquer tempo onde persistem em se manter. Sem montes ou montanhas, apenas barrigas de terra que vagamente subiam e desciam até se alcançar a vista.
E dentro de casa, dentro das casas, todas já antigas, havia sempre uma frescura e tempo para parar, sentar e calmamente respirar.

Este Alentejo que é meu, das minhas vivências, apenas existe em mim. O tempo actualizou-o com a mesma força e vontade em que eu o fossilizei em mim. Nunca mais voltei a comer um pão com o cheiro, a crosta grossa e a densidade do meu pão alentejano. Já não há mãos para amassar a farinha, nem água para o fazer, nem mantas para o fazer crescer ou fornos para o cozer. Tudo ficou perdido num tempo que se tornou ideal.

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