terça-feira, 4 de julho de 2017

A um mal de amor

Olhava para o ar para tentar suspender a imensidão de mar que começa a encher-se nos olhos.
Como teria sido mais fácil sobreviver se tivesse havido um tempo, pequeno que fosse, de um nós. Em vez disso, um nunca chegar a ser, uma intenção que não é capaz de florir. Não chega a haver espaço para ter saudades, coisa para sorrir e um calor a revisitar. Apenas um buraco vazio, negro e muito espesso. Aos poucos, e na sua melancolia, vai preenchendo esse espaço com todas as suas rejeições, todos as suas tristezas e mágoas. Já não é só esse mal de amor de outrém, é o seu mal de amor a si mesmo que se recolhe ali mesmo, à sua frente, e se estende sem limite.  
Ser desamado é uma mágoa que ainda assim deixa passado. Não chegar a ser amado é uma sentença sem nota de culpa.

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