quarta-feira, 5 de julho de 2017

A rapariga da papelaria

Todos os dias que eram dias de ir comprar o que fosse à papelaria parava o pensar e pousava a ideia na figura feminina que estava atrás do balcão. 

Ela recebia todos os seus clientes com um rosto absolutamente mudo e imóvel e sem ponta de expressão. Educada quanto baste, respondia num quase sussurro ao bom dia e, perante um agradecimento levantava levemente os cantos da boca sem nunca mostrar os lábios. Perante um pedido, não só era solícita como, caso não tivesse no momento o artigo desejado, tudo fazia para que no menor espaço de tempo possível o que quer que procurasse estivesse disponível. E, novamente, abria a linha onde se uniam os seus lábios com uma ligeira subida dos cantos. O cabelo, fruto de uma qualquer moda tinha sempre um ar molhado e o tom amarelado da última pintura já havia passado por algum tempo situando-se agora perto das suas orelhas o que, em vez de desleixo, lhe dava um certo tom que abria a face. E o nariz… mas que nariz. E ela sabia que tinha esse nariz. Presumo que nos tempos da adolescência não fora um apêndice fácil de lidar com, mas agora, mulher madura, era uma fonte de personalidade que trancava o semblante e protegia mais que a ausência de comunicação facial. Era, em formato delicado, o desenho de um nariz turco. Forte e projectado, com algum corpo mas feminino. 

Com o decorrer do tempo começou a existir alguma proximidade. Já sabia o que queria, antecipava os meus gostos e a conversa passou a ter limites mais amplos que o jornal, o totoloto e a revista. Um dia contei-lhe, por via de uma circunstância noticiosa qualquer uma graça. E a cara abriu, a boca sorriu mostrando uns dentes brancos e bem tratados, até os olhos ficaram mais claros. 

Noutro dia vejo-a com um rapaz com aquela idade em que ainda não é homem, mas já não é miúdo e que já leva mais de uma dezena de anos. Significa que já passou a barreira dos 30 anos. A natureza tem sido generosa, pois nessa idade misteriosa que a mulher atinge o pleno, ela está-o.

É, claramente, uma mulher inibida, mas não se fecha nessa inibição, pois que, depois dos pequenos momentos que se vão somando, ela se abre e dispõe-se a criar os laços possíveis e desejáveis com os seus clientes.

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