sábado, 15 de julho de 2017

desconsolando

Uma pessoa que cada vez mais ignorava pensando que a conhecia, escreveu isto "Quando a vida te dá cem motivos para quebrar e chorar... mostra a vida que você tem um milhão de motivos para sorrir e rir!!!!". E escreveu em inglês para, seguramente, dar um tom menos pessoal à questão.

Ora o tempo vai correndo e noto, com rara facilidade, que os motivos profundos das suas cem causas para quebrar e chorar nascem na sua inabilidade de lidar com a adversidade, com a diferença, com outras opiniões e com a perda de posição social que ambiciona. O riso é amarelo, falso, fraco e fugaz. Mas pior que tudo isso, é solitário e vazio.

Um desconsolo

Desenhos vários de vária qualidade








Pastel testando





Pastel


Poema a uma mulher

Pensei...
Analisei...
Olhei,
Recolhi
E, até meditei.
Quase encontrei.

Deduzi,
Sobre tanta meditação,
Silogismos,
Sequências,
Conclusões...

De tudo o que tentei,
Falhou-me o essencial,
A pedra de toca, ´
O que faz a diferença,
O capricho.

Afinal, era uma mulher

Pastel de óleo

Desde a minha tenra idade, digamos 6 ou 7 anos, criei uma imensa aversão ao lápis de cera. Detestava pintar ou desenhar com semelhantes instrumentos. Ora errava grosseiramente na forma, ora no desenho. Para quem seja vagamente letrado nestas matérias, sabe que o lápis de cera, vulgo pastel, deixa um lastro com meio centímetro no mínimo e, pior de tudo, só é perceptível na forma quando levantamos a mão. Nunca me dei com o dito lápis de cera.
Acontece, porém, que recentemente, por via de uma aquisição um nada de impulso, me veio parar às mãos um manual de utilização de pastel. Primeiro resmunguei com a minha fatal sorte para ficar o o que ninguém quer, mas depois fui ler. E, ( sou tão influenciável!) fiquei entusiasmado com a ideia. Levei 2 dias para ir comprar umas amostras de pastel.
Gostei.
Repeti.
Consegui interpretar o meio.
É limitado, mas com potencial.
Pode-se usar sem sujar a casa, sem montar um estardalhaço. É maneirinho.
Amanhã darei novas de algumas experiências.

 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lendo 240

"Quando confrontado com a traição ( real ou imaginada), o nortenho mata a mulher em nome da honra; quando confrontado com a possibilidade de ser corno, o alentejano salva a honra masculina de outra forma: mata-se."
Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 92

Lendo 239

"Não é novidade para ninguém que a fraca religiosidade é uma alavanca suicida"

Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 86

Não é tanto uma questão de fé, mas de dimensão de mundos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Pobres dos estúpidos

Por vezes, e por pura cobardia, os estúpidos são instigados a tomarem posições. E, claro, o estúpido é como um carro pesado numa descida, mal começa apenas acaba na parede com a qual confina a estrada.
Ficará pois, completamente exposto que foi utilizado, sem a mínima noção, que não entende, nem nunca entendeu o que se passa.
E claro, imbecilmente seguro, que fez o que [alguém a quem pede pressurosamente amor] estaria numa determinada aceitação.
Males de amor.

E porque estamos no Verão

O perfume não dispensa o banho e muito menos o desodorizante.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Meditação

A divisão de uma unidades em partes é o caminho certo para o fim dessa unidade pois cada parte tenderá e encontrar a sua unidade desvalorizando o restante.

sábado, 8 de julho de 2017

Entre poema e curta

Tomas o meu braço e nele descansas os teus dedos finos.
Olho para esse braço e gravo esses passar de dedos.
Sabes o que entendes com esse passar dos dedos, Mas não tens força para manteres essa ignição e logo afastas.
Voltas ao costume, ao usual. Defensiva. Com receio.
Mais tarde, e porque acompanhado, voltas a uma marcação. Dirás posição.
O tempo escoa. Não tens segurança. Não tens certeza. Temes.
O tempo passa ainda mais.
Devolves agressão. Lenta, dissimulada, disseminada.
É o peso da frustração.
Da tua impossibilidade.

E volto a saco de boxe.
Outra vez.
Todas as vezes.
Sempre.

As mulheres

- Detesto-o! Ele é inacreditável. Impossível de se trabalhar....
- Porque é que continuas a insistir?
- Eu não insisto nada. Por amor de Deus. Ele é impossível...
- Mas....
- Mas, o quê? Não consegues ver?
- .... bom..., às vezes...
- Pois, isso é contigo! Imagina comigo!
- ?
- Sim..., não reparas?
- No quê?
- Naquele modo como me olha e pergunta...
- Como?
- Sim... aquele olhar preso...
- Mas ela não está de costas para ti?
- Querias que eu o sentasse frente a frente comigo, não?
- Claro que não!
- Vês?
- .... ( amén.... Assim seja a tua vontade)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

"Eu é que sou a que sabe".

"Eu é que sou a que sabe".

Frase típica do género feminino que, seja em que situação fôr, sintetiza a sua determinação perante o mundo. Obviamente que jamais se trata, a rigor, numa tema relacionado com sabedoria, sageza ou, até, intuição. Por regra reduz à necessidade de ver o mundo de acordo com os seus desejos e, sobretudo, caprichos.
Não vale a pena discutir, fazer enquadramentos históricos, fazer provas de física, matemática, regras lógicas ou exercícios filosóficos sobre a raiz do pensamento e de como a dedução, exigência ou posição resulta de uma absurdo.
É uma expressão do género. Aquela coisa que alguns acham que não existe, que é livre, que é optável, que reside numa mera opção sociológica ou educacional. Não, e com todo o respeito pelas doutas opiniões ( opiniões, reforço) o género reforça-se, faz-se, pensa e é pelos actos que produz. E o supra exposto é um desses.
Poderá, no entanto, com o tempo fazer alterações. E aqui o facto tempo não é minimamente importante, dependerá, apenas da distância da circunstância que levou à tomada de posição. Um nada de reflexão com o ambiente adequado e sem pressão, ela rapidamente muda de posição mais sensata, pois entende, também que a raiz da sua posição era meramente uma posição de afirmação pessoal e não do conteúdo que afirmava.
A mudança também dependerá do valor que o homem dê à opinião que foi emitida. Se desprezar e se desinteressar do assunto por completo, tudo falecerá à razão do micro-segundo. A mulher queria afirmar a sua posição para ser ouvida, para chamar a atenção do seu homem para ele confirmar que ela é a mulher dele. Caso o homem corra qualquer intenção de debater, discutir, dar, no fundo, qualquer relevo à opinião emitida, será, irremediavelmente, agredido numa série de argumentos que, na pior das hipóteses chegarão à mãe dele. Ela não quer discutir, é insensato tomar as palavras dela como uma fonte de discussão, ou o que disse, uma afirmação de vontade. É, tão somente, linguagem cifrada que pede um pouco de desinteresse para que ela o possa cativar novamente.
As mulheres orgulhosas levam mais tempo a entender isto, mas acabam por o fazer. E, com o tempo, mesmo nestas, a insistência na opinião diminui.

É bom que não se confunda estas opiniões com questões importantes, pois nessas talvez seja melhor tomar posição caso contrário de natural macho alfa se passa a imbecil.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Lendo 238

"Queria ficar calado e entrar rapidamente na carrinha. para se dirigir ao café-restaurante onde Ana haveria de olhá-lo como se fosse o primeiro homem via naquele dia e talvez sorrisse."
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 60

A ambição do homem, seja ele de que género fôr, é ser amado, ser desejado, ser sorrido. Sobretudo se a carga emocional que o rodear for inversa. A pulsão humana é para o amor. Quando se age noutro sentido, fatalmente, é por não conseguir suplantar uma dor interna e, nestes casos, por regra, o tempo ajuda.

lendo 237

"Sabia que, mais tarde, as coisas iriam ficar progressivamente vazias e estimava a relação com a mulher, dando-lhe cada vez mais um cunho de despedida e de perda."
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 57

A antecipação do final da relação evoca, naturalmente, um efeito de vazio, uma expectativa de perda, mas, e a rigor, com o tempo, esse vazio enche-se de todas as memórias da relação e a sensação de perda acaba por ser, também, a memória de um tempo de conjunto, de agregação e, sobretudo de comunhão.
A dedução a quente tem todas as consequências que os actos feitos a quente. Emoção apenas. Mais tarde o entendimento varre o que pouco presta e o que está a mais, integrando e explicando tudo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A rapariga da papelaria

Todos os dias que eram dias de ir comprar o que fosse à papelaria parava o pensar e pousava a ideia na figura feminina que estava atrás do balcão. 

Ela recebia todos os seus clientes com um rosto absolutamente mudo e imóvel e sem ponta de expressão. Educada quanto baste, respondia num quase sussurro ao bom dia e, perante um agradecimento levantava levemente os cantos da boca sem nunca mostrar os lábios. Perante um pedido, não só era solícita como, caso não tivesse no momento o artigo desejado, tudo fazia para que no menor espaço de tempo possível o que quer que procurasse estivesse disponível. E, novamente, abria a linha onde se uniam os seus lábios com uma ligeira subida dos cantos. O cabelo, fruto de uma qualquer moda tinha sempre um ar molhado e o tom amarelado da última pintura já havia passado por algum tempo situando-se agora perto das suas orelhas o que, em vez de desleixo, lhe dava um certo tom que abria a face. E o nariz… mas que nariz. E ela sabia que tinha esse nariz. Presumo que nos tempos da adolescência não fora um apêndice fácil de lidar com, mas agora, mulher madura, era uma fonte de personalidade que trancava o semblante e protegia mais que a ausência de comunicação facial. Era, em formato delicado, o desenho de um nariz turco. Forte e projectado, com algum corpo mas feminino. 

Com o decorrer do tempo começou a existir alguma proximidade. Já sabia o que queria, antecipava os meus gostos e a conversa passou a ter limites mais amplos que o jornal, o totoloto e a revista. Um dia contei-lhe, por via de uma circunstância noticiosa qualquer uma graça. E a cara abriu, a boca sorriu mostrando uns dentes brancos e bem tratados, até os olhos ficaram mais claros. 

Noutro dia vejo-a com um rapaz com aquela idade em que ainda não é homem, mas já não é miúdo e que já leva mais de uma dezena de anos. Significa que já passou a barreira dos 30 anos. A natureza tem sido generosa, pois nessa idade misteriosa que a mulher atinge o pleno, ela está-o.

É, claramente, uma mulher inibida, mas não se fecha nessa inibição, pois que, depois dos pequenos momentos que se vão somando, ela se abre e dispõe-se a criar os laços possíveis e desejáveis com os seus clientes.

Lendo 236

"A sua mulher foi honesta, porque lhe disse o que se passava na vida dela e nos seus sentimentos. Pronto, o amor e a amizade são assim, acabam quando têm de acabar. "
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 25

Tenho alguma afeição à simples descrição dos sentimentos tão profundos e complexos como o amor e a amizade. Tem o amor de acabar? Conseguimos viver sem amar? E termina mesmo o amor? Não sei se acaba. O amor toma outras vestes, transfigura-se, mas não desaparece.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Estou cansado

Estou cansado
Da mentira e mentirola
Da inversão das palavras
Do esquecimento voluntário
Dos actos omissos

Estou cansado
Desta peça de teatro
Dum enorme acto
De mísero conteúdo
E fraca prestação

Estou cansado
Deste julgamento
De veredicto consumado
Sem prova provada
Nem sequer arguido chamado

Estou cansado
Deste novelo viciado
De ser violentado
Numa desconsideração
Generalizada

Estou cansado
Sem defesa,
Apelo ou
Mera contestação
Apenas crucificado

Estou cansado
Demasiadamente cansado
De ser pasto a abutres
Desdentados
E mal amados

Estou cansado.
Desolado
Desgastado
Incomodado
Ponto.

Dedicado aos colegas com quem passo os dias.

A um mal de amor

Olhava para o ar para tentar suspender a imensidão de mar que começa a encher-se nos olhos.
Como teria sido mais fácil sobreviver se tivesse havido um tempo, pequeno que fosse, de um nós. Em vez disso, um nunca chegar a ser, uma intenção que não é capaz de florir. Não chega a haver espaço para ter saudades, coisa para sorrir e um calor a revisitar. Apenas um buraco vazio, negro e muito espesso. Aos poucos, e na sua melancolia, vai preenchendo esse espaço com todas as suas rejeições, todos as suas tristezas e mágoas. Já não é só esse mal de amor de outrém, é o seu mal de amor a si mesmo que se recolhe ali mesmo, à sua frente, e se estende sem limite.  
Ser desamado é uma mágoa que ainda assim deixa passado. Não chegar a ser amado é uma sentença sem nota de culpa.

Lendo 235

"Dar um beijo implicava um plano de negócios."
Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 32

O autor refere esta circunstância a um tempo de um passado. E, curiosamente, é também num tempo de um passado que a ideia de dar um beijo, ou apenas o beijo, era motivo de um, dois, vários, imensos planos e estratégias. Coisas da proto-adolescência e dos proto-beijos. Recordo com doce e calorosa saudade. Quanta ingenuidade.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

curta da segunda

Numa ansiedade crescente, chega antes da hora. Criança, infantil, espera, ansiosa, a volta de férias do seu encanto. Ela olha, espera e desespera. Tem vontade de rir mas ele não conta nenhuma piada. Tem vontade de largar a sua emoção de dias a fio da sua ausência e nada mais que umas cócegas....
E, apesar do intencional decote, sugestivo de um deleite sensual, de uma emoção que se agarra com as mãos cheias em modo de acolhimento, nada acontece, nada se passa, apenas umas míseras cócegas...
Com frémito no olhar, com expectativa na narrativa, onde se propõe a ser a substituta de qualquer aventura, suspira amargamente a narrativa da aventura profundamente desinteressante. Insubstante...

Olha em redor... predador de ausências recolhe as suas presas de eleição.

Mais que compensação, acabam por ser, à distância, razões da sua triste e injustificável opção...

liberdade ou não

Podia ter o teu braço,
A tua mão, suave,
Pousada nele,
Um caminho,
Percurso,
Um fim.

Calhou outro braço
Desgastado,
Diminuído,
Básico 
E enviesado
Numa tortura
De passado.

E, de futuro,
Só a liberdade,
Não a minha, 
Nem a tua, 
Nem a da literatura,
A outra, 
A de facto.

Arrelias

E entra segunda-feira como se fosse o dia do fim do mundo. Atrás das caras de enterro surgem a face de uma raiva incontida.

Mas como foi o teu fim de semana para estares assim?

Não ouvi respostas....... Deve ser apenas feitio.

Dedução para uma segunda-feira

A cada dia que nasce, cada Sol que desponta, uma mulher nunca sabe em que circunstância vai encarar o mundo. Tudo dependerá da disposição com que vai olhar para o guarda fato. É dessa natureza vai reflectir a natureza da escolha da indumentária e, com ela o que vai calçar.
A altura da inclinação do pé reflectirá a posição da coluna e desta o modo como vai olhar: Se em linha, se modestamente por cima, ou se claramente sobre o seu mundo.
Seja de que modo for, haverá sempre algo que despertará a atenção ao homem. Faz parte da natureza de ambos.

Um homem e uma mulher

Ele falava com ela.
Dizia-lhe o que lhe ía na alma e o seu modo de pensar, bem como interpretar, determinados assuntos.
Ela ouvia. Não o que ele diz, mas o seu modo de entender esses assuntos. Colocava uma caixa sobre a argumentação de modo interpretar os vocábulos ditos no que queria ouvir.
A rigor raramente ouvia.
Limitava-se a ouvir-se.
Replicava-se num filme mal dobrado.