sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aforismo

Nunca discuta com alguém que acredita nas suas mentiras.

Um minuto de silêncio

Decorriam os trabalhos da Assembleia Municipal e pelo motivo do desaparecimento físico de um filho da terra que se notabilizou pela escrita, nomeadamente a poesia, todos os elementos do dito orgão se unem na intenção de um voto de pesar. O mesmo é aprovado por unanimidade. Após isso o presidente da mesa diz:
- Vamos, então, fazer um minuto de silêncio.
O silêncio instala-se depois de todos se terem colocado em pé.
Noto que o presidente carrega no cronómetro do seu relógio para medir o minuto...

Como o formalismo se apodera das intenções que se tornam, afinal, figuras de estilo. Pobre poeta que nem na tua terra te respeitam. Tiveste sessenta rápidos segundos que ninguém sabia ao certo o que fazer... E, pior, seguiu-se novo voto de pesar pelas vítimas do incêndio de Pedrogão... Outro momento de cronómetro....

Quão mais eficaz teria sido rezar um Padre Nosso e uma Avé Maria....

Reflexão

Há aquele prazer mórbido que quando se passa por um acidente todos abrandam para tentar ver se há sangue a escorrer. Ninguém tem, por isso, mais ou menos amor pelo acidentado. Apenas um desejo interior de ver a ferida. Ferida que gera ansiedade e esta adrenalina. Depois do choque, tapam a cara e viram a cara para outro lado como quem diz "Ainda bem que não sou eu e que nada tenho a ver com os eventuais estropiados."

Por vezes

Onde apetece estar
Não é um lugar,
Mas um sentir
Que acontece
Fora do tempo.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Um desastre matinal

Toca o telefone e atendo:
- Está
- Está.
- Estou a falar com fulano?
- Sim, está
- Daqui fala a Carla assistente do consultor imobiliário José dos Anzóis
( assistente de consultor imobiliário?????)
- Sim.
- O senhor é o proprietário de um T2 em Lisboa
- Não ( estou a vender um T4)
- O senhor não tem um T2 para vender em Lisboa?
- Não
- Mas desculpe.
- Queira desculpar-me, mas tome nota do seguinte. Por respeito a si enquanto pessoa não vou prosseguir esta conversa, quando o dito senhor que se afirma consultor imobiliário quiser angariar a minha casa certifique-se primeiro que é ele que me telefona, segundo qual é a casa que tenho para vender. Em opção, poderá sempre mandar o dito senhor à outra parte, pois quem assim se apresenta deve ser tão detestável que não me apetece fazer qualquer negócio com ele.

A rapariga podia ter-se apresentado assim: Daqui fala o tapete onde um imbecil esfrega a sua auto estima e valorização pessoal. Que caminho seguem algumas pessoas.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Uma triste realidade

Descobri, ou melhor, reconfirmei ( quer dizer voltar a confirmar o que não é o mesmo que duplicar a mesma confirmação!) que uma alminha com quem trabalho se deu ao trabalho de me bloquear nas aplicações do Facebook e do Instagram. Trocado por miúdos, entende essa alminha, que na sua pueril dimensão, produzirá conteúdos tão extraordinários e reveladores e tão únicos que a minha pessoa não está apta a visualizá-los. Coisas tão extraordinárias como "Treta 36", viva o Benfica e mais 
lucubrações metafísicas de igual jaez.
Sim, é uma atitude liceal para não dizer pior.
E, creio profundamente, que tudo o que eu registe nessas benditas redes sociais, entram debaixo do diáfano manto do lápis azul que esconde a realidade que não se quer ver. Já se sabe que este tipo de atitude, também conhecido como esconder a cabeça na areia, dá resultados duvidosos, mas enfim, se preferem viver assim, que se poderá fazer?

E, meus poucos, mas muito bons leitores deste espaço, não foi por coisas que lá escrevi, que lá disse, ou o que quer que fosse lá ( este lá, bem entendido, refere-se às redes sociais), é o resultado de uma atitude pensada e ponderada. E o juízo lançado, tomado a firme com pancada de martelo, feito sentença que não poderá recorrer a instâncias superiores, pois se trata do tribunal da alma, é de CULPADO! Sim, sou o culpado. Hei cometido um crime de lesa qualquer coisa e como tal deverá o criminoso ser banido. Para além de estar todo o santo dia de costas viradas para o plenário de juízes, será banido de todos os verdadeiramente extraordinários acontecimentos que nalguns time-lines do facebook se passam.

Por mais ar anedótico que tente dar a esta circunstância, isso acontece no século XXI, com pessoas com perto de 50 anos. Isto é confrangedor. Medíocre. Rude. E, sobretudo, muito mal educado.


Depois de um café


Ficou uma mancha na folha de papel. O lápis fez o resto.

Mais um


Mais bonecada



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Lendo 234

"O amor a ninguém dá honra, e a muitos dôr."
Fernando Pessoa in Provérbio Populares, Ática, Lisboa 2010, pág 49

E o amor honrado?

domingo, 25 de junho de 2017

Experiência


Recriando o crisma da Teresa e da Matilde




desenho


Gostava

Gostava de largar passados
Como se fossem dispensáveis
Mas dores desses momentos
Retornam insistentemente.

Gostava de largar lágrimas
Como se fossem bálsamos
De todas as feridas
Que insistem em não sarar

Varrer-me por dentro
Despejar cantos da alma
Remover impossibilidades
E nascer oportunidades.

Gostava de fazer
Nascer futuros
Com um sorriso
Tranquilamente.

Madrugar

Corro para a madrugada
Quando a luz,
Um azul que se fazendo,
Desenha o ar
Deixando ver
E reconhecer.

Antes que o tempo avance
E, de novo,
E me furte a promessa,
A possibilidade de vir a ser.
Uma penumbra que, devagar,
Se vai desfazendo,
Como uma ilusão.

A aurora é uma ar,
Um brisa renovada
Que se expande
Fresca e nova
E se multiplica
A cada inspiração.

Tento parar o tempo,
E aumentar a impressão
De cada cor que se abre,
Cada sombra que revela
E futuro que se abre.

A cada dia que recomeça
Sou eu todo que volto
Para insistir em ser
A minha possibilidade.
Na frescura aromatizada
De uma luz que me ilumine.

Lendo 233

"Às vezes, gagueja e engasga-se quando diz que há mais de vinte anos está casado contra ela."
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 67

De interpretação livre. A reter: "está casado contra ela." Um sentimento muito popular.

Lendo 232

"Enfia um homem uma argola no dedo e outra no tornozelo, rédea curta."

J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 66

O homem tende a ver o casamento assim, sobretudo porque muito da sua estimulação sexual provém da visão. A parte animal que se coloca em posição de perseguição da presa assim que vê um peito feminino, umas ancas torneadas, um traseiro arredondado ou umas pernas adelgaçadas. Depois sente a argola no tornozelo e suspende o movimento. A boa vontade acredita que com o tempo esse impulso cessará....

Lendo 231

"Claro que isso só se alcança à custa de poderosos ingredientes, carnes bem criadas e bem talhadas, francas gorduras, vinhas d'alhos de alquimia secular, mas também pela aplicação do bom senso e desdém das patetices da modernidade."
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 53

Coisas que não me canso de repetir. Os tempos actuais vivem o vício de uma modernidade vazia, sem fundamento e sem efectiva novidade. Pretendem, tão somente, viver um experimentalismo que surpreenda os sentidos e as emoções. Colocam, sistematicamente, a mente a anos de distância para não se incomodarem com a reflexão do seu entendimento das coisas e do mundo. Quem consegue hoje pensar-se a terminar o dia às 6 da tarde e ocupar o tempo até serem horas de dormir com leitura, pintar, conversar, fazer trabalhos com as mãos, demorar-se apenas a olhar e a pensar?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Técnicas novas



Muito borrão


Nem sei


Um esquilo

Encontrei um esquilo assustado que era incapaz de amar. Dizia que já tinha tantos quantos podia amar e fazia a sua vida nos mesmos caminhos, saltando nos mesmos ramos e vivendo nas mesmas árvores.
O esquilo dizia que era feliz e por isso ria muito e muitas vezes. Encontrava sempre motivo, quando estava com os seus, para se fazer divertido.
Havia, no entanto, uma melancolia atrás do olho que quando estava só o esquilo aparecia. Dias havia em quase era lágrima, outras apenas tristeza e solidão. Conformava-se o esquilo que tudo mais não era que saudades de quem lhe fazia falta. Havia, assim, uma saudade ancestral que o acompanhava e que, por tempos o tomava. Sempre assim fora. Não sabia de onde vinha, porque vinha, apenas se instalava essa saudade e o esquilo limitava-se a suspirar. Talvez por isso o esquilo se rodeasse sempre dos mesmos.

Um dia o nosso esquilo simpático e sorridente recebeu um grande ligeiro encontrão e uma das árvores que tomava como certa de apoio e recolhimento é tomada para outro fim e sai da sua pequena floresta. Sem perder o seu rir, o esquilo refugia-se e fica mais desconfiado. Aceita apenas o que lhe é indubitável e torna-se mais desconfiado. Sem dar por isso, acentua mais a sua saudade original.

A floresta do esquilo é limitada, amplamente conhecida nos seus limites. Os limites da sua segurança. Limite, também da sua saudade. A mesma e a de sempre. E agora, com menos uma árvore, menos um espaço, menos esse conforto e esse apoio, que pode o esquilo ousar para ganhar outros caminhos? Outros afectos?

Numa primeira fase o esquilo fechou-se na sua floresta diminuída. Aninhou-se em campos mais curtos, mais fiáveis e seguros. E, apesar de se sentir mais protegido sentiu a sua saudade aumentar e com ela um melancolia e tristeza que o faziam menos simpático, menos sociável. Por mais que a primavera florisse à sua volta e as árvores se enchessem de companhias foi-se mantendo no seu canto, mais emsimesmado.

Um dia em que mal havia dormido sentiu-se incomodado com a luz que o solstício lhe dava, directamente nos olhos. Fechou os olhos e começou a sentir um calor e um conforto. Era como se esse Sol fosse um Sol mágico e naqueles raios havia uma força que lhe derrubava o cansaço. Num ápice, e sem pensar, pôs-se de pé e desatou a saltar em direcção ao raio de Sol. E correu satisfeito, confiante e alegre. Saltou de ramo em ramo, de tronco em tronco e de árvore em árvore. Quando deu por ele, estava em frente a um lago belíssimo com uma água fresca a cristalina, carregado de vida e animação. Vários esquilos juntavam-se em redor do um enorme monte de avelãs frescas que caiam das árvores. Olhou para trás para tentar ver a sua floresta e não a conhecia reconhecer no meio de tantas e tão diferentes árvores à sua volta.

Desceu e juntou-se aos outros esquilo que alegremente conversavam e comiam. Rapidamente se sentiu como se estivesse na sua floresta. Olhou para o Sol e agradeceu ao raio por o ter trazido para ali.

Lições de vida

Escondeu-se nas portas dos fundos da alma e fez-se refém de um remoinho de ideias que rodopiando à volta de si mesmo não permitiam resposta ou solução. O tempo passou e foi estabelecendo pontos de referência nessa turbulência onde, a tempos, repousava a sua confiança. Aos poucos a tranquilidade já só nesse turbilhão encontrava.

Como tudo tem um fim, um anjo desceu, nas suas vestes brancas, e estende uma mão com a pele mais macia e doce, de aromas encantados e aos poucos sacode o atordoamento e trás de volta à pele dessa alma. Sossegada nas asas de algodão repousa, finalmente um sono tranquilo.

Ainda que recuperada, a alma reviverá sempre os fundos e os turbilhões mais vezes que a pele doce e macia do encantamento.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Coisas que guardo

Guardo perto
Muito junto
E numa pequena caixa
Aquele odor único
Que, de olhos fechados,
Fico,  um ápice,
Lado a lado
Mesmo junto a ti.

E guardo mais,
Guardo o teu sorriso
Quando cheirava
Um cheiro assim.

Desabafando

Fui, mais uma vez, até à coisa pública pedir meças do seu agir. Perdi tempo, golfadas de ar quente, e muito entusiasmo, até aqueles que humildemente me deveriam escutar se disporem a perder o seu pequeno tempinho a me ouvir.

Há, cada vez mais coisas que, na democracia, me fazem sentir viver na mais dura tirania.

Com abandono

Ai....
E se...
O mundo,
As nossas certezas
Não fossem mais
Que o que corre,
A quente,
Nas nossas veias...

Haveria tanto que
Na força da consequente
Intimidade
Não mais seria
Que o sangue quente
Que jorra a cada batida
De um coração

Mais desenhos




sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quotidiano

Porque é que guardas tantas fotografias de mulheres nuas?
Um dia talvez as vá desenhar.

Hoje fui um desses dias.

Ao velório

Apenas um caixão,
Como tantos,
Tantos que já vi.

Entre tantas flores
E outros odores
Um foto de ti.

Como pode ser
Que sejas tu
A estar ali.

Apesar de ser certo
Isto da Morte
É coisa que nunca entendi.

Mágoa, tristeza
Vazio e perda
Foi o que senti.

E foi por ti,
Para os teus
E para ti.

Somos passagem
Apenas o que tocamos
Vale por si.

A vela que se apaga
É, também a dor
Que morreu por ti.

Questão

Aquele que se esconde, fá-lo por medo ou apenas por insegurança?

Lendo 230

A sociedade do século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas, sim, uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não são, por sua vez, “sujeitos de obediência”, mas, sim, sujeitos de produção. São empresários de si próprios.

Byung-Chul Han in A sociedade do cansaço, Relógio D'Água, Lisboa, 2014, pág 19

As mudanças de paradigmas são evidentes.

Aforismo

Esconde-se o que teme o que tem para mostrar.

Paradigmas

Vivemos numa veloz mudança de paradigmas, sobretudo, pela velocidade com que vivemos o tempo. Como tudo tem que caber no mesmo nanosegundo, não resta, pois, um minuto, sequer, para pensar menos ainda, tempo para o tempo que se demora a reflectir. E sem reflexão, não há moral que permaneça. tudo corre rapidamente para o mesmo destino do consumo, o lixo.

Medo

De que se pode mais ter medo? De alguém ou da capacidade do seu pensar?

Fico tão preso a mim, às minhas certezas que a ousadia do outro pensar me deixa apavorado. Não havendo barreiras físicas ao pensar, resta-me, apenas, fugir ao estar. Desesperadamente.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Lendo 228

"O próprio afirma-se no outro quando nega a sua negatividade."
Byung-Chul Han in A sociedade do cansaço, Relógio D'Água, Lisboa, 2014, pág 13

Quando o diálogo se estabelece no mundo amoral

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Nada

Nada...
E assim devia ser
Nada.
Nem um acrescento
Apenas o que deduzo,
Que apreendo,
Que, no fundo,
Entendo....

Incapaz de me conter
Apenas comigo
Com o meu passado,
A minha história,
A minha experiência....

Nada...
Quero voltar a esse
Nada.

Pois....

Andamos satisfeitos na nossa, sobretudo porque é a nossa e, por regra, o que nos rodeia se adequa às nossas expectativas. E, mesmo quando desejamos, esse objecto desejado voa da realidade para o que nós desejávamos que fosse, mesmo que isso nos obrigue a afastar da realidade.
E não é que aparece um malandro de um chifrudo que nos obriga a ver a realidade em vez da nossa ilusão? Não podia o imbecil ficar no estupor do sítio onde estava?

Nota: Quem é que tem capacidade para se reenquadrar? É tão mais fácil encontrar um demo, um culpado, um diabo enfim....

Desculpem, mas a realidade é assim. Não como eu quero, mas como ela é.

sábado, 10 de junho de 2017

O caminho do possível

Se eu não fosse eu,
Que outro seria?
Em que tempo poderia
Dar outra mão a mim
E seguir no caminho do outro?
E, esse outro,
Não poderia ser,
O ser que sou?
Meditando por ser
O ser que é.

Mas somos como um rio,
Da nascente à foz,
Sempre a correr no seu leito.
O caminho do possível.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Com uma esferográfica na mão

 Menina com os dedos na boca - notícia do correio da manhã
 Arrumando coisas
Piscando o olho

quarta-feira, 7 de junho de 2017

English poems

How could I
Go to you
To your open body
And say in my simple way
That what I want
Lies above your lies

Ah.....

Quero o ar!
A impressão apenas...
A ilusão que fica
Que, por fugazes instantes,
Do que partilhamos....

Chega-me isso.

Teatro?

E corre para a boca de cena
- Perdi
E agitasse com frenesim, quase num ataque histérico
- Perdi!
E do fundo do palco, pesaroso, aproxima-se um volume sobre certa escuridão, mas com audível passo.
- Que perdes-te tu?
Ainda dentro da sua excitação, repete-se
- Perdi!..... perdi....
Os passos tornam-se mais lentos, muito lentos
- Dizem alguns da ciência que nada se perde...
- Ah! Que sabes tu! Perdi!
- Onde algo falta, n'algo se acrescenta.
- Ah... é tão fácil filosofar..... Perdi.
- Onde algo falta, algo se acrescenta.

E a cena pára.

Para esta, que algo perdeu nada se acrescentou, pelo que de nada vale insistir na cena.

A peça era boa, a ideia era boa, mas se não se entende de nada vale.

Suspirando angústia

Passas por mim
Sem cheiro
Sem cor
Sem luz
Sem movimento
Sem ar
E sem fulgor...

Mas, e ainda assim,
Porque é que se me
Acelera o coração?

Animal concupiscente
Preso à forma ancestral
Do movimento da alcateia
Que recolhe desse meio
Não a vontade,
Não a intenção,
Nem o desejo,
Apenas a fixação
De ser reprodução.

Como integrar isto
No ser inteligente?
Carne ou sublimação?

Suspirando angústia
Rodopio pensamentos
Inexplicados
Reprimidos
Desautorizados
Continuo a suspirar
Menos volúpia
Até ficar sem me perder.

Perguntei à Morte

Perguntei à Morte
Sombria e de negro
Gélida cortante
Que tinha ela, afinal,
Para me oferecer.

Sem suores frios
Medos ou suspeitas
Sem intenção também
Suspendi os movimentos
E serenamente aguardei
Silenciosamente.

Comigo,
Dentro de mim,
Em absoluta solidão
E olhos nos olhos
Perguntou-me:
O que te oferece a vida?

O entretanto.

Do horizonte

Apenas chora quem ama.
E, má sorte esta,
Que quando choraste
Não foi por amor...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Provérbios

A três homens Deus deu má mulher - a meu sogro, a mim e a outro qualquer
Fernando Pessoa in Provérbios portugueses, Ática, Lisboa 2010, pág 31

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema para canção

Tenho o dedo cansado
De tanto se repetir.
E, quando ouso mudar,
Dobro o triste sentir.

Não apenas as mágoas
Aquelas que são minhas
Mas as dos outros,
Dores que não tinha.

Má ideia, esta agora
De escrever este desatino
De ousar conviver
Dentro doutro tino.

Vou deixa-me disto
De me falar diferente
Pois apenas se concebe
O que se tem em mente.

Nem vale o esforço
De sair para o outro
Cada uma fecha-se em si
E o resto sai sempre torto.

Vou para o meu fado
Para a minha dor
É que acaba por ser
A que me dá calor.

A metafísica do erro

Uma história é feita de um qualquer movimento que afecta o mundo ou a alma de, pelo menos, uma pessoa. Nada acontece sem esse movimento.
E, acontecido esse movimento, a sua justificação só colhe quando é favorável ao narrador do movimento. O resto será adversidade gerada nas almas impossíveis de coexistir, dada a incompatibilidade de naturezas.



O eunuco

Segunda feira de manhã. O grupo de meninas junta-se para conversar sobre todos os acontecimentos do fim de semana, sejam eles escaldantes ou tão vazios e entediantes como só o género consegue gerar. Instala-se a animação. No meio está sempre um único homem. É aquele cuja sexualidade se encontra entre o indefinido e o ausente. E o lado maternal das mulheres recolhe-o como se recolhe e trata do aleijado, o coitadinho da aldeia. Passado algum momento da risada generalizada do mundo feminino, começa o pobre rapaz a fazer movimentos com o corpo simulando um papel de profundo estímulo humorístico, como se estivesse em pleno extâse hilário. É a sua forma de fazer parte do grupo, de acompanhar o que se conversa. Tal é a sua convicção que se o tema mudar radicalmente para um drama profundo, suspende de imediato o esgar silencioso e franze as sobrancelhas numa solidariedade profunda já não com a suposta anedota, mas com o suposto drama. Ele precisa de estar ali e acompanhar a opinião dominante de modo a manter-se protegido por todas aquelas asas.

Terá consciência que ele é que é a comédia e o drama do qual se ri e chora.



Lendo 227

"Sem ciência em que me apoie, valho-me aqui de num remoto passado ter lido que as saociedades ocidentais se caracterizam por um sentimento de culpa, e nas sociedades orientais predomina o sentimento de vergonha."
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 35

Gosto muito desta ideia, tanto mais que numa está implícita a auto-crítica, a reflexão e uma dimensão do eu, e na outra, na ocidental, a acusação, a desresponsabilização e a ausência de consciência crítica do eu.
Não podia estar mais de acordo.

sábado, 3 de junho de 2017

Lendo 226

"Vivo e rijo está o Senhor Antero. Vamos juntos no enterro da Ermesinda, um pouco atrás dos outros, porque ele manqueja, agarrado a dois varapaus que, previdente, há anos cortou dum olmo para quando as pernas lhe começassem a faltar.
Digo-lhe que os varapaus me parecem grandes demais e desajeitados, talvez se remediasse melhor com duas bengalas.
Ele sorri, mas não zomba da minha ignorância de citadino. Com o pouco tamanho que deus lhe deu, como é que com uma bengala ia varejar figos? Ou as amêndoas, As Azeitonas?"
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 10

Ou a importância do saber de sempre que faz as coisas porque antevê as suas necessidades e não embarca nas modas da modernidade e afins. Além de ter uma maravilhosa carga poética.