quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quando se desata um laço

Rasgou todos os laços.
Os possíveis e os outros.
Tentou o limite,
A quase impossibilidade.

Rodeou-se de todos os nãos
Obrigou tudo a isso,
Zelosamente
Insistentemente

E, aos poucos,
Mesmo subindo as saias
Abrindo o decote
E pintando os lábios

Tudo lhe ía sabendo,
Cada vez mais,
Ao pó que pesa quando
Todas as janelas se fecham.

À vulgaridade que prevalece
No mastigar da novela
O vazio que emudece
E o olhar que deixa de ver.

E consistentemente
Tudo se arquivou numa saco
Preto onde se arrumou
No fim da arrecadação.

Nada sei do futuro
Da irrelevância
Não reza a história
Nem dela se gera memória.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Por uma dança

O tempo abriu, trouxe o Sol e a sua luz. A temperatura subiu. Ainda com calças até aos pés, preferiu calçar umas sandálias. Um vermelho forte, carnal mesmo, ponteavam os dedos. Pelo canto do olho ouvi o seu caminhar decidido. Tomei-lhe a mão e fi-la rodar e ficamos presos dedos nos dedos. Um ar risonho e surpreso rapidamente se tornou num olhar incomodado. Por uns fugazes instantes o sonho aconteceu.
Baixei a cabeça e sussurrei um desculpa com o olhar nos dedos dos pés dela que choravam por terem parado de se surpreender a dançar. Altiva, atirou o nariz para o ar e afastou-se ainda mais decidida. E acabei acusado de assédio.
Mas podia ser diferente, podiam os pés terem tomado conta e numa volta encostavam-se aos meus obrigando que as suas pernas se juntassem às minhas, os braços nos meus e com os troncos colados, os olhos ficavam sem capacidade de parar de seguirem-se. E juntos ambos dançávamos a mesma ilusão.

Nada tem que acontecer mesmo, basta que aconteça na nossa cabeça. E essa ideia valeu a dança que ficou por acontecer.

Hoje apetece-me um tango

Apetece-me um tango...
Agarrar com intensidade,
Segurar com suavidade
E togar com intencionalidade.
Manifestar um querer
Pronto para ser
Uma entrega total
Em despojo sensual.
Corpo em corpo
Que se encaixa
Se abraça
E se enleva

Apetece-me um tango
Ser homem
E tu, toda mulher
Jogo sem jogar
Intenção para provocar
Seduzir para preparar
Ir para concretizar

Hoje apetece-me um tango
Sem meia luz.

sábado, 27 de maio de 2017

Histórias de pequenos nadas

Um dia dei com uma mulher que não sabia bem como lidar com o seu presente. Caminhava cheia de incertezas, em terrenos mal definidos e, sobretudo amontoando equívocos, seja sobre si ou sobre o seu futuro e o seu passado.
Dei-lhe a ler, entre mais uns tantos, um excerto de uma história em que, também, se narrava um equívoco muito curioso seja pela potencial cómico, seja pelo lado cruel do engano.
Um dos terceiros que o leu, amiga, como se poderá deduzir, incapaz de entender os vários sentidos da história do autor já há muito falecido, consegue deturpar de tal modo que transforma o excerto numa injúria intencional para afrontar a sua amiga.
Alheio a tudo o que se passava nessa conversa, claramente de casa de banho, recebo, atónito, um inexplicável:
 - Fulano, vai para o cara###!
E, assim, de um engano mal interpretado, mal lido e tolamente descodificado, abre-se uma roptura, uma pequeno fosso. O orgulho entreteve-se a cavar fundo, inundando-o de outros tantos equívocos. Hoje dificilmente poderá haver pontes que o ultrapassem.

O mundo feminino tem estas pequenas nuances. Conseguem fazer de um nada um tudo carregado de impossibilidades quando a impossibilidade está nelas mesmas.

Mini curta

No quarto casamento de um amigo
 - A verdade é que a ambição de um homem é sempre chegar ao quarto.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Uma explicação tardia

Rolava o vento da libertação.
Há quem diga que é o suão.
Vento quente, louco e envolvente...
Temporário, como uma enfatuação
Impossível em si mesmo.

E nele se marchou o exército
Onde militaram todas as armas.
Se fizeram, até, motivação.
Chegando a tomar como pitonizas
Pequenos abutres transfeitos de pombas.

Sem o lastro do tempo,
Vagando no sabor da circunstância,
Imperiosa necessidade de confirmar
Mais que a circunstância
A impossibilidade de ser derrota.

O tempo, essa inevitabilidade,
Inimiga de todas as simulações
Corrige indelevelmente o passo.
E, fatalmente, vai surgindo o lado inverso,
Da dupla realidade unificada.

Quem pode contra o seu passado,
O seu passo confirmado e afirmado?
Apenas uma visão mitológica,
Um dragão que fustigue a história
E limpa toda a impressão passada.

E restará o tempo a vir.
Com os monstros sugeridos,
Bestas de tudo capazes,
Mas reduzidas a mitologia
Que sustém impossibilidades.

Fica, assim nesse mundo
Quem nele habita
E dele se faz vida.
A mitologia dá asas
A quem pode voar.

Estar

Estou a fugir
Pensas tu
De ti...
Do mundo
Das coisas
De tudo...

Apenas fujo para mim
Para completar
O inexplicável
Alfa até Ómega.

Se sares de ti
Conseguirás chegar
Onde tens de começar
Onde todos estamos

A serenidade da demanda.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O progresso

Eles correm,
Quase se atropelam
Ao fundo, o destino
Descrito em letras
E N O R M E S
Para que não se percam
Nem a meta.
E correm
Sem olhar para trás
Numa luta contra o tempo
Correm mais,
Sempre mais
Gloriosos de cada pedaço
Cada pequena passada
Ou largo passo
Mas, e sempre descontentes
Por ser pouco
Quase nada
E correm
Correm sempre
Não há tempo para parar,
Para respirar
Para confirmar
É preciso mais
E correm,
Correm tudo
E sobre tudo
Querem chegar primeiro
Estar à frente
Na primeira linha
E correm
A meta é só uma

O progresso.

O que quer que isso seja

De uma discussão

De frase fácil, rápida e tantas vezes irreflectida acabou por ser presa de si mesmo. Sempre tão fácil de ser apanhado nas voltas das desinterpretações da comunicação até que começou a aprender a calar. E foi, aos poucos, deixando de falar.
Começava a discussão e passou a sair do corpo que esta na discussão e, alheado das respostas, passou a ouvir mais e a mastigar não a discussão, o que se discutia, mas porque é que se discutia. O que gerara a discussão e o que ela visava.
Sem surpresa, entende que a discussão não visava debater qualquer tema, mas sobrepor uma forma de estar, impor um modelo, forçar uma opção. Não importava a argumentação, nem sequer as palavras. Nada, a bom rigor importava. Apenas um ego.
Calou mais.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

E a conculsão

Estava a escrever uma história de amor e, num momento em que ele se emociona com a ideia peuril de uma conquista, ela, com a mesma intensidade, lastima-o.

Já não há história pois não há amor, nem afecto, nem inclinação. Apenas tempos comuns.

Devaneio

E ela sai... E leva consigo, naturalmente, as suas exuberantes mamas.....

Há lá coisa mais ficcionável que o peito generoso de uma mulher que o exiba com orgulho e alguma generosidade? Qualquer homem faz logo, não um mas vários filmes e todos tão rápidos e fugazes que desaparecem no segundo seguinte. Fica apenas um sorriso na alma.

sábado, 13 de maio de 2017

Tempos tempo

Retornam, agora, aos 3 F's de Salazar. A Fé, a Alma e os costumes colectivos. Andou, a esquerda, como em tantas outras fantasias, a vender uma mentira para construir uma ilusão fantástica de Salazar e do Estado Novo. Hoje, curiosamente, é a população, o povo, os trabalhadores que se revêm nos ditos 3 F's de Salazar. No fundo, sempre foram os seus. A mentira, como diz o ditado, tem uma perna curta. Falta desmascarar as restantes. Temos tempo. A Verdade pode tardar, mas não falha.

Nada

Perdi as letras
As mãos e os sentidos
Desliguei-me por dentro
Fiquei aos pedaços.

Havia um todo
Uma continuidade imaterial
Que ligava o que era importante
Fiquei, apenas, desligado.

O tempo passou a cortes
Acontecimentos apenas
Coisas desligadas
Portanto, sem sentido.

O espaço ficaram lugares
Ilhas que se visitam
Entre mares vazios
Onde nada existe.

Perdi-me, algures,
Numa qualquer caminhada
Que, fatalmente,
Me trouxe a este nada.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O corpo feminino


É sempre um encanto.

Um retrato


O rosto humano é sempre um desassossego. E, com variações no mesmo tom também não ajuda. Ainda assim menos mal.

Testes de relevo


Aplicando claros e escuros para dar a ideia de relevo. Apesar do pouco rigor na aplicação da cor, de modo a obter uma graduação sucessiva da suposta tonalidade da parede, o contraste claro/escuro permite supor uma morfologia.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Aguarela


Desenho a partir de uma foto no computador. Não foi utilizado lápis. No joelho, o traço foi um descuido que, por ser aguarela e a preto é extretamente difícil de corrigir.

terça-feira, 9 de maio de 2017

De uma amiga



E se o céu fosse amarelo


Mais um esboço/estudo


Equilibrado. Objectivo cumprido.

Testando um pincel


Feito com um pincel largo comprado no museu Grão Vasco. Fiquei surpreendido com a leveza das cerdas.

E o meu imaginário segue sempre para o Oeste e as suas encostas junto ao mar.

Tipo frases do Facebook


Para gostos diversos.

Obviamente que feito no PC era mais limpo, mais homogéneo, mas a mão, sobretudo a minha, é sempre o que é.

Tentado conceptrualizar



As cores representam algo, mas não consegui o que queria. Ficam uns registos interessantes nos castanhos. A mancha vermelha expandiu-se de modo curioso e, novamente o castanho entrou no azul com harmonia e alguma estática.

Uma experiência grosseira de fé.


Uma experiência grosseira de fé.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A herança é um karma

Quem sai aos seus é uma frase cruel, contudo carregada de verdade. Mas aquele que repete os erros grosseiros dos seus sem crítica, sem razoabilidade, sem reconhecer o que faz, torna-se duplamente mais errado. Conhece e reconhece o erro, mas insiste.

Falta apenas quebrar o escadote do orgulho para se reconhecer.

sábado, 6 de maio de 2017

Para o sempre do costume

Fui ao fim da rua
Para te saudar
E, também, te rever...
Fui, acreditando,
Não tanto em ti,
Menos ainda na tua vontade,
Mas naquilo que, talvez,
Se quisesses mesmo
Poderia ser.

E fui, na mesma...
Insisti, como sempre,
Como o voltarei a fazer.
Fui e volto a ir
Ao fim da rua
A fim de todas as ruas
E, sei, que nunca,
Nunca te irei ver
Menos ainda,
Te rever.

Um dia,
Seja ele qual for,
Em que momento acontecer
Onde quer que seja
As ruas serão as mesmas.
Quem sabe se lá,
Nesse algo,
Nesse tudo, dizem,
Nos encontremos.

E chegaram as tangerinas



em caminho



Primeiro borrão




quarta-feira, 3 de maio de 2017

O efeito do elogio

Cedo na minha vida descobri que das piores coisas que se pode fazer é elogiar uma pessoa menos dotada intelectualmente. É que, irremediavelmente, abrem uma caixa de Pandora assustadora. E esta é uma das razões que suspeito sempre do que digo depois de me elogiarem.

O passado

O tempo é como um cilindro que vai comprimindo tudo de modo a que apenas se fique com um fina ideia do que se passou. E por ser assim fina, cada um vê no passado o que quer ver. Se esse passado for colectivo o diagrama de tons expande-se inimaginavelmente. Chega mesmo a tons que incapazes de serem vistos pelo olho humano.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Desmontando

Ao desmontar uma casa
Desmonto-me também...
São mil peças,
Mil coisas,
Mil pedaços
E tantos outros sonhos
E possibilidades...

Presos, agora,
A cem metros quadrados amontoados
Que perdem todo o sentido.
Passam a ser aquilo que são
Coisas empilhadas
Sem o sonho que tinham
A poder vir a ser.

Nunca chegamos a ser
Todas essas intenções
Mas fomos essa vontade
De ser, sonhar e fazer
Um pedaço de céu.

E, aos poucos, eu sei,
A voracidade do tempo
Sarará esta separação
Esta ausência
E encherá outro espaço
Que será mais um afecto
Que fica no caminho.

Quase carvão


desenhando


desenhando