sexta-feira, 3 de março de 2017

Sem desistir

- Eu não faço da minha vida uma constante crítica aos outros para me valorizar!... Eu não tenho a pretensão de ser perfeita como tu!...

E, como se poderá calcular, diz estas frases no fundo da sua humildade, reconhecendo que é a aceitação de tudo e de todos, bem como o seu mundo é uma construção diária.
Dá meia volta, levanta ligeiramente o traseiro para equilibrar a coluna pois o queixo sobe no ar empinando o nariz...
E a história começa onde todas as novelas de qualidade duvidosa começam, num mal de amor. Como suportar uma perda do amor da vida e, ao mesmo tempo, dedicar algum afecto a alguém que se  reconhece indubitável qualidade amorosa. Não é romance, não é amor, não é nada mais que um aguenta aí a minha falta de amor. Contudo, no pequeno mundo em que vive, esse não amor é sempre visto como um romance. Que fazer com isso? Como explicar que não é nada disso, sem ter que explicar ao outro que ele não é isso? Que explosão de irritação sempre que há um olhar, uma expressão, um vago comentário ou insinuação. Ninguém entende.
O tempo passa e todo este tema passa a obsessão ao ponto de gerar mal entendidos e até pequenos conflitos que chegam a um inequívoco:
- Vai para o caralho!
E a novela, com o tempo adensa-se. As estruturas defensivas formais vão se consolidando em fronteiras formais e relacionais. Sabe que, no fundo, tudo aquilo é um erro colossal, mas já não há volta a dar, já não há retorno. Seria necessário reconhecer erros, enganos e desvios. Dizer desculpa a si mesma.
Mais tempo que passa e mais definha a possibilidade que sair do buraco. De aceitar, até, pequenas pontas que possam vir a desembrulhar a falta de futuro do erro.
E insiste:

- Eu não faço da minha vida uma constante crítica aos outros para me valorizar!... Eu não tenho a pretensão de ser perfeita como tu!...

Não sou capaz de admitir os meus erros, de me criticar, de me corrigir, de baixar a cerviz...

Será isto um episódio ou a história da minha vida?
 

Sem comentários: