quinta-feira, 30 de março de 2017

O grupo

No intervalo mais longo da manhã reunia-se sempre um grupo de alunos que era muito fechado e pouco dado a reagir com a restante população no recreio. Ficavam num canto, sempre o mesmo canto e, de certo modo, nas mesmos lugares de sempre. Falavam e divertiam-se para dentro desse grupo e com muito dificuldade era permitida a entrada ou participação de qualquer outra pessoa.
Era um clube quase exclusivamente feminino, pois que apenas um rapaz era autorizado. Diga-se, também que, apesar de ser um rapaz com buço e borbulhas, imaginando que a puberdade também se diversificaria pelo restante corpo, não apresentava outras características masculinas. A voz tardava a ganhar um tom baixo, mantendo-se a raiar o falsete, e, por norma, as mãos tombavam-lhe pelos pulsos como se fossem um peso morto que por ali ficava. Andava com elas, conversava com elas, partilhava dos seus segredos, enfim, era uma delas como, por natureza própria dos outros rapazes desse universo escolar, o diziam por chacota inconsequente. Era o irrelevante.
Não podíamos dizer que o grupo fosse homogéneo que não o era. Era até irregular, com entradas e saídas em função do jogo de afectos que a adolescência joga com superior mestria e amplo desconhecimento. Era assim porque sim e nada havia que justificar, ainda que, essa fase da vida provocasse conversas infindas sobre todos os temas, mas, e por regra, nunca o do afecto. Não havia tempo para discutir afecto, apenas, e só, para viver o amor.
O grupo existia e resistia fora do ambiente escolar, pois que a vida de cada um gerava limitações intransponíveis e outras posições inconfessáveis ao grupo.
Como em todos estes tipos de grupo havia a líder. Característica especial? Era a mais engraçada e a com mais sucesso no mundo masculino. Sem dúvida a reprodução do mundo animal onde a fêmea mais cortejada ganha o lugar de líder, ou as duas coisas em simultâneo e derivadas de si mesmo. O facto de ser mais aceite era o modelo, o facto de ser o modelo, era a líder, e por isso a mais aceite. É, sem dúvida um pensamento em círculo do qual dificilmente se sai.
Tinha, às suas ordens dois lugares tenentes, que funcionavam como guardas e defesa pessoal impossível de passar. Se algum rapaz se atrevesse com ela, podiam contar com um olhar esguio sempre que passasse, uma desconsideração, ou, o mais usual, a ignorar evidente. E era tão evidente que deixava de ser ignoração. Não eram almas gemelares. Impossível que fossem. Cada uma tinha a sua razão para ser defesa da líder. Uma por absoluta inconfessável inveja da amiga chefe, do seu corpo, dos seus olhos e do seu sucesso. De tal modo que contava um sem número de aventuras e desventuras onde o seu sucesso era a tónica permanente. Fatalmente acabava por namoriscar de quando em vez com quem lhe aparecesse, sem que fosse os atletas olímpicos com cabeça de Einstein com que enchia a boca. Era uma evidência que não se falava. Um segredo por todas guardado. Fazia parte do acordo se pertencer ao grupo. Silêncio absoluto pela realidade cruel de cada uma e defensa de qualquer modo e feitio do que de algum modo possa evidenciar esse segredo.
A outra lugar tenente, com fraca figura, mas aguçada intuição feminina e alguma acertividade, jogava essas suas artes de modo um pouco dúbio, não deixando nunca de lançar a sua cortante e seca observação se se sentisse atacada. De resto pontuava a sua acção pelo silencio e o olhar como se fosse um bloco de notas onde tudo se regista. Pode haver um dia, ou uma ocasião. Raramente baixava as guardas. Metódica e completamente previsível.
Havia a pobre de espírito que existe em todo o lado. Sofrida, cheia de mágoas de si mesma e por isso mesmo incapaz de ser de outro modo que não fosse sempre contra alguém. Construía ódios de estimação para evidenciar o seu pobre e desolado mundo onde suspirava um qualquer sossego que apenas se atingia sem esses ódios. Chegou mesmo, um dia atentar odiar a chefe. Claro que se deu mal, redimiu-se, achincalhou-se, maltratou-se e foi de novo aceite. Funciona, no grupo, como arma de arremesso embora, muitas vezes, se torne apenas, no termómetro do grupo.
Havia, de pois, uns anexos que aproveitavam e entravam no grupo como quem apanha boleia do mesmo guarda chuva. Era-o por questões mais funcionais do que de facto. Estava, até, um pouco na fronteira entre ser um personagem que vagueia solitário, que age individualmente mas, e por uma questão táctica, adoptava a posição do grupo. Sabia que, com isso, também se protegeria do resto da população que durante aquele tempo do dia andava por ali.
Falta a chefe, a líder do grupo. Era, como já se disse, dotada de algumas particularidades físicas que
lhe proporcionavam a também já referida notoriedade, mas, para lá disso, transbordava uma imensa insegurança que manifestava em todas as questões em que se via envolvida. Utilizava, por diversas vezes, a lágrima fácil, para infligir no agressor um sentimento de agressão sabendo que, com isso, terminava o que quer que fosse e voltava para o seu mundo. E, apesar de toda a sobredita aceitação, escolhe, bizarramente, a preferência da companhia masculino do elemento masculino com as mãos tombadas. Por ventura por essa preferência se recolhe a sua aceitação no grupo. Nunca se percebe se o faz pelo tal afecto que não se confessa se, tal como no mundo selvagem, para defender uma cria que de outro modo teria dificuldade de sobreviver no mundo real.
Fatalmente, e como modo justificativo da sua permanência enquanto grupo, tinham que ter inimigos objectivos. Não bastava apenas a defesa comum para o dia a dia, havia que ter um conjunto de indivíduos escolhidos criteriosamente. Funcionavam como um elemento agregador.
Lá vem o fulano, e o grupo juntava-se, ora com a líder à frente, como se fosse fazer uma pega, com a altivez demonstrada pelo nariz a apontar o céu, e a matilha por trás com um olhar de hienas à procura já do resto da matança.

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