quinta-feira, 9 de março de 2017

Lendo 217

"Critica o Infante [D.Pedro, 1º Duque de Coimbra 1392-1449] a tendência para, entre nós, esquecermos o principal em nome do acessório e para sobrecarregarmos o trabalho com minudências dispersivas,  pois que, como se diz, em Portugal "as obras necessárias são muitas vezes esquecidas e sobre as voluntárias [leia-se : não necessárias] se dá grande trabalho ao povo e se faz grande despesa", colocando-se assim o esforço colectivo ao serviço de vontades arbitrárias e de interesses pessoais."
Pedro Calafate in Portugal, um perfil histórico, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016 pág, 25

Já no século XV se identificava o grande vício da gestão em lato senso que se aplica em Portugal. Se a esse tempo a gestão era da grande coisa pública ou dos homens de grande concentração de poder, hoje esse vício conseguiu invadir todo o pequeno espaço onde a responsabilidade da decisão se difunde nas cadeias hierárquicas. O Estado continua invadido, mas também as empresas públicas ou privadas. A decisão deixa de estar motivada pelo mais elevado interesse da entidade (pública ou privada) mas grosseiramente imiscuída das necessidades ou erro intencional de origem moral ou emocional que gera, inevitavelmente, atrasos e grandes factores de impossibilidade de conclusão das tarefas com o sucesso desejado.
O objectivo de realçar este dado não é apresentar nenhuma solução, pois que, e a rigor, a solução estará apenas na dimensão ética do homem, mas sim trazer a uma certa evidência da transversatilidade deste erro e deste modo de agir.
Casos como os do político Sócrates, do banqueiro Salgado (BES), da pedofilia na Casa Pia, e tantos outros que chegam à nossa vizinhança ( os conflitos nos condomínios) são exemplos cabais desta observação.
A diminuição da espiritualidade do homem só piora as coisas. É mais fácil errar se a nossa dimensão moral e espiritual for menor.

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