sexta-feira, 10 de março de 2017

Histórias reais

Hoje um amigo com quem trabalhei cometeu o derradeiro acto. Não sei com que dor, com que drama, com que desespero, com que impossibilidade. Soube apenas que deixou a sua vida.
E que soube e fui sabendo mais? Que preparou o momento. Tratou de alguns assuntos de ordem jurídica e levou uma arma de fogo para o local onde a utilizou. Ninguém faz isto sem previamente ter pensado e maturado no assunto. Não é um acto impulsivo. É um acto determinado.
No seu carácter podíamos ler este tipo de acto? Nem por isso. Jovial, bom vivant, com gosto pela natureza, pelo belo sexo, montava a cavalo, havia feito projectos de futuro e apreciava os 50 anos que já havia vivido. Não era homem de se meter em conflitos e gostava de não ser notado ainda que socialmente bem aceite.
Nos últimos tempos, no seu local de trabalho, a miséria humana que nos tem habituado sobrepõe-se à moral e oferece desconsiderações sucessivas ao limite de o deixar sem funções durante um mês. Depois disto oferece como recompensa de 25 anos de trabalho soluções que não se enquadram no seu perfil. Pouco importa a história concreta, porque o desfecho deste relato anulam por si qualquer outra dedução.
A uma hora que foi a hora dele, entra no gabinete da sua hierarquia e sabendo da sua ausência, marca a vermelho a alcatifa definitivamente.
Quem pode ser chefe e desconsiderar um ser humano a ponto de receber esta "nota de despedida"?
Quantos chefes há assim? Iludidos, cheios de soberba, convencidos de tudo, capazes de toda a insensatez que o seu orgulho lhes pede, donos de "lições exemplares"...
Cada vez mais vejo fugir a dimensão moral aos homens.

Todos perdemos. Ele a vida, a mãe um filho, o irmão um irmão, a filha o pai, a namorada o seu amor, os amigos um amigo, o seu chefe a sua paz interior. Ninguém, estou certo, ganhará alguma lição.

Descansa com a paz com que te conheci e que era marca da tua vida.

O mundo está carregado de filhos da puta que não merecem que ninguém morra assim por eles.

32 comentários:

Anónimo disse...

Está tudo dito, não conhecia pessoalmente mas era um colega e fico imensamente triste com este desfecho...ninguém merece

Anónimo disse...

Triste fim para quem luta para dar milhoes de lucro aquem só vê numeros....Descansa em Paz Companheiro!

Anónimo disse...

Felizmente consegui sair a tempo,mas com grande depressão! Ao contrário do infeliz colega, passou-me pela cabeça ter uma atitude radical, mas totalmente oposta. Objectivos, objectivos, objectivos, era de loucos!
Paz à alma do colega!

Anónimo disse...

F'sDP ... rebentam com as pessoas ... esses é que queriam um tiro na tola.

Unknown disse...

Em sua homenagem e à sua causa, não vendam nada que não seja a pedido do cliente por um período de um mês.

Anónimo disse...

Descansa em paz companheiro. A tua entidade patronal não te merecia.

Teresa Jesus Sousa disse...

Muito triste! O mundo actual é demasiado desumano com uma ambição desmedida que só nos traz infelicidade.

Inês Botto disse...

Muito triste e sei qual é o sentimento que leva a tal acto! Mas por questões monetárias nunca o faria, mas sentimentos são o que são. Paz à sua alma.

Anónimo disse...

Que descanse em paz. O texto só peca numa coisa, muito possivelmente um chefe desse calibre não perdeu paz interior coisa nenhuma.

vieiragomes disse...

A miséria das organizações. o lucro acima de tudo.

Anónimo disse...

Um acto de desespero ? Talvez mas pensado e cheio de mensagens, certamente.
Ninguém ficara indiferente a este gesto e nada será igual a partir daqui. Descanse em paz e muita força para os seus.

Anónimo disse...

Sou obrigado a concordar. A única coisa que o deverá preocupar é saberem que ele não tem valor nem como lider nem como ser humano e isso afectar algum prémio próximo.

Anónimo disse...

Infelizmente estes diretores sem escrúpulos têm aumentado e como são assim não descansam enquanto não criam uma equipa à sua imagem. Quem não alinha é despojado da sua dignidade, os seus colegas de equipa mais fracos colocados contra eles, dinheiro subtraido ao rendimento do seu trabalho. E as administrações parecem fechar os olhos promovendo estes párias.

Ana Reis Leitão disse...

Ainda estou com o coração apertado e quase parece mentira tudo o que aconteceu. Primeiro instala-se a tristeza e depois surge a revolta. Eu, e muitos outros sabemos o que é o assédio moral, só lamento que fiquem impunes aqueles que levam os outros a perpetrar actos destes.
Que fique em paz, nós ficamos com a saudade.

Anónimo disse...

um ato trágico como este sucede normalmente por um conjunto de causas entre as suais poderá estar o assédio moral. e o chefe também sofria assédio moral? casos como estes não se poderão evitar com caças às bruxas. a saúde mental é fundamental, evitar o assédio no local de trabalho é importante, mas garanto-vos que muitos trabalhadores estão no mercado laboral com graves problemas de saúde mental que nada têm a ver com o assédio, embora os torne mais expostos ao mesmo. lamentável que a segurança e saúde no trabalho não se preocupe minimamente com questões como a psicoterapia e o apoio psicológico, muito mais importante do que análises regulares à pressão arterial ao colestrol.

Anónimo disse...

Ele devia era ter levado o seu opressor/chefinho com ele....

Anónimo disse...

Infelizmente existem cada vez mais casos destes, não são divulgados porque a entidade patronal não é uma Instituição Pública. Que a sua alma descanse em paz na casa do Senhor.

Anónimo disse...

É verdade, ninguém ajuda quando à depressão. Ainda ajudam a deitar mais a baixo. Ficar sem trabalhar um mês,e sem explicações. Somos um número, exiges menos um, só isso. O chefe vai ficar contente, menos um para se preocupar, quem vem a seguir?

Anónimo disse...

justiça nao condena. Acionistas sem moralidades. Alta direção sem escrúpulos. Chefias ambisiosas sem limites. Paz à sua alma e muita força para familia e colegas próximos.

Anónimo disse...

��

Anónimo disse...

Há 4 anos atrás trabalhei numa multinacional. Serviu para ficar preparada para o mundo. O assédio moral existe. Sobrevivi agarrada à ideia que um dia seria o último dia naquela sala. Obrigada por ter desde cedo trabalhado a minha inteligência emocional. Mas confesso que os primeiros dois anos após ter saído tinha de forma recorrente pesadelos. Lamento desfechos destes. Longe destas organizações onde o valor vida só o usam nos discursos. Longe os não se olha a meios para atingir os fins. Infelizmente não é só nos filmes...

Must disse...

Sofri na pele o assédio moral no trabalho no BPI. Fui despojado de toda a minha dignidade. A auto-estima pereceu e fui quase levado ao desespero e tudo isto apesar de cumprir com as minhas obrigações. Já ouviram certamente falar do Pitt-Bull das vendas. Um nasco que serve de exemplo pela administração. Claro que a administração nunca chega a saber.

ana silva disse...

E mesmo que a entidade patronal seja uma instituição pública... Passa-se exatamente o mesmo!
As pessoas são colocadas perante 3 ou mais cargos que são obrigados a aceitar, perante a lei. Há horas para entrar, picar o ponto de 45 em 45 minutos e não há horas para sair. Tanto pode ter que trabalhar até às 17, 19, 23, ou mesmo até às 4h da manhã, sem receber nem uma hora extraordinária... E Ainda leva a pasta para casa, com 20 relatórios para ler e avaliar... mais 5 penes com legislação que tem que ler, conhecer e aplicar em conformidade... Quem tem cargos de gestão intermédia sofre pressões constantes dos diretores, para supervisionar os colegas, pois aqueles que não engraxam são alvos a abater...
Após 38 anos de ensino fui obrigado a sair (com rescisão de contrato) e sem reforma à vista durante 10 anos. Saí com uma depressão grave que me levou ao hospital psiquiátrico por ter deixado de dormir e de comer. Agora, 2 anos depois de me ter afastado, a saúde melhorou significativamente, mas estou velho para trabalhar noutro local e não tenho idade para a reforma... o que me resta? Esperar que os dias passem e ir sobrevivendo, mas pelo menos com mais saúde... E é isto a vida de quem começou aos 18 anos, na profissão que escolheu, para a qual estudou, trabalhou, cumpriu...

Anónimo disse...

Este texto é brutal !! Parece-me que só se enganou quando disse que o chefe perderia a paz de espírito... Já partilhei no facebook e por mail. Para ser lido, partilhado e nunca esquecido.

Felicidade

Stelamaris disse...

Um sinal de alerta. Uma estória dramática ainda mal contada. Grave e muito preocupante!

Unknown disse...

Quando se trabalha seja lá onde for (excepto escravidão )é obrigado a lá estar. ...sentimentos à família

Anónimo disse...

Aguenta,aguenta.... Quem disse isto ? lembram-se foi o Sr. Dr. Fernando Ulrich, este colega pelos vistos não aguentou, e agora Sr. Dr. qual vai ser a sua atitude ??, como sempre a do costume, "que se lixe não fui eu, lá temos de substituir mais um... ou terá sido, ainda bem temos o problema resolvido por natureza". Pois é sei bem do que falo, com 44 anos e depois de ser pau para toda a obra,e sempre com promessas, no dia em que fiz 30 anos de banco saí do balcão hás 10 da noite e hás 11 estava no hospital com um enfarte agudo do miocárdio. Passei de bestial a besta em três tempos.RIP colega.

António Leite dos Santos disse...

Amigo, não te conheci e já deixei a instituição vai para 18 anos.
Atitude tão extrema, não é merecedora ninguém, muito menos um chefe, ou será um pseudo chefe que resolveu tirar algum partido de qualquer coisa que nos ultrapassa.
És merecedor do nosso respeito.

henrique disse...

Sinto imensa pena por este colega e por todos aqueles que sofrem no dia a dia pressões enormes e insuportáveis de energúmenos que nem categoria tinham para varredores se não fossem uns lambe botas sem escrúpulos.

Maximo Domingos disse...

Não sejamos ingênuos, as ordens vêem das administrações, estas dos grupos financeiros acionistas, estes do sistema capitalista, etc

Maximo Domingos disse...

Ingênuo

Anónimo disse...

Esses filhos da puta que proliferam nas nossas vidas, sejam de que quadrantes forem, é que deviam levar com um balázio nos cornos.