sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Lendo 216

"(...)
Nessa caixa de nada não tardará depois
a não estares só tu,
a não estar só eu,
a estarmos só os dois."

Pedro Tamen, in Rua de Nenhures, Dom Quixote, Lisboa 2013 pág. 19

Enfim...a síntese do amor

Lendo 215

"Não me vejo no espelho em te miro, (...)"
Pedro Tamen, in Rua de Nenhures, Dom Quixote, Lisboa 2013 pág. 19

O que encontrei de belo nesta frase é a possibilidade do poeta entender que, nunca declaração de amor, se sente ausente desse amor, ou seja, que na pessoa amada não se encontra. É a falta da peça que se chama "nós" no amor.

Uma curta para animar

Foi verificado o óbito. Já não respirava, nem o coração batia. Chamaram o médico para assinar a devida certidão de óbito.
O médico analisou o cadáver e após breves momentos ditou o motivo:

- Racionalizou o amor.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Lendo 214

"(...)
2. Não sei o que te invento
se amo mesmo quando não és

Não sei o que te amo
se te invento como és
(...)

Mia Couto in raiz de orvalho e outros poemas, Editorial Caminho, Lisboa 1987, 6ª edição, pág 78

Lendo 213

"(...)
Se chorasse, agora
o mar inteiro
me entraria pelos olhos"

Mia Couto in raiz de orvalho e outros poemas, Editorial Caminho, Lisboa 1987, 6ª edição, pág 73

Muitas vezes, na poesia, são pequenas frases que me encantam.

Poema

Quero planear um amanhã
Que me faça sentir
Satisfeito de ter tido
Esse passado.

Poema redondo

Onde mora o amanhã?
Saiu para parte incerta
E supõe-se que virá
No dia depois de hoje...

Mas tudo não é mais
Que meras suposições,
Pois que o amanhã
É um certo modo
De ser o nunca,

Estou, pois condenado
A ser sempre
O hoje,
O agora.

Amanhã.....
Pois...
Talvez...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Nasci em hora aziaga

E todos os dias,
À mesma hora,
Revivo o tormento
Daquele momento.

E é em absoluta solidão
Que me foge o chão
Onde tudo gera incerteza
À excepção do nada.

E corro atrás do tempo
De todas as referências
De um outro passado
Para vencer o sentido.

Ao findar da hora
Quando a ansiedade
Cansada desiste,
Fico exausto de mim.

Como ser sempre
Esse passado sem futuro?

Caminhos


sábado, 21 de janeiro de 2017

O inverno

O Sol acaba de se pôr numas nuvens que tomam a cor de fogo que se desvanecerá num lilás. A temperatura vai correr atrás desse Sol que teima em se ir embora cedo demais. É o Inverno!

Tirar um pouco de água


Ponte na Lagoa de Óbidos


Parque D. Carlos, Caldas da Rainha


Praia do Rio Cortiço


Lagoa de Óbidos


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Verdade e verdades

Num outro dia, e sobre um tema relacionado com o conceito de verdade, fui surpreendido com o comentário que, de cor, transcrevo:
- Não existe uma verdade. Existem várias verdades, tantas quantas as interpretações.
Como de costume, e método, calei-me para poder pensar. Há coisas que carecem de silêncio e tempo de alma para se poder encontrar não só a resposta, mas, e sobretudo, a motivação da resposta.

Verdade só existe uma. Não haja a mais pequena dúvida sobre o tema. A multiplicidade produz a sua negação. Verdade só tem sentido enquanto unidade.

Qual o sentido dessas "verdades"? O que se passa é que perdemos o esforço de pensar e entender para introduzir o sujeito e todos os seus vícios, hábitos e, sobretudo afectos, para adequar algo ou alguma coisa a um propósito que lhe interessa. Não se distancia o suficiente do que se está a meditar de modo a afastar o sujeito que o está a pensar. E deste mau hábito nascem todas as guerras, todos os desentendimentos, todos os mal-entendidos. Quando não se é capaz de pensar fora do "nós" nunca chegaremos a um ponto válido.

A minha formação obriga-me imensamente a isto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Ser o eu

De que vale a assinatura
Que figura no rodapé?
Nunca sei o que é isso
De ser o eu que assina.

Meditação

Somo cadernos e folhas cheias de palavras e desenhos que vão acabar num contentor azul de reciclagem de papel. Ou seja, sou um fornecedor de pasta de papel. Mas com convicção!

Todo o ser é sempre uma tentativa.

Todo o ser
É sempre uma tentativa.
Às vezes resulta,
Outras é irrelevante,
Indiferente
E até não.

Nada é a certeza,
O tudo fechado,
Certo, correcto e absoluto.
Apenas o que pôde ser
Naquele instante
E que todo o passado
Se sintetizou no
Que dele resultou:
Uma tentativa de ser.

E dela se farão
Tantas outras
Que serão como esta,
Mais uma tentativa da possibilidade
Da liberdade do ser
Que vai sendo
Sentido de vida.

Ature-se

Sobrevivi assim!
Deste modo de mim
Que não se explica
É-se!
Tal como sei
Ser como sou
Assim!

Nem vale a pena
Pensar em ser outro.
Ou no outro que ficou por ser
Ou deixou de ser.
Sou isto
O que resultou.

Há melhor?
Há pior?
Há o possível
E é o que há!

Ature-se.

Exasperei-me

Sempre o mesmo
As mesmas dúvidas,
As mesmas respostas,
As certezas,
Os motivos
E as convicções.

Um caderno vazio
Mas cheio de frases feitas
Dos argumentos e afins
Que apenas afastam o medo
De lhe dizer que sim.

E o erro,
A queda,
A fatalidade, até.
Sempre o mesmo.
Incorrigível tendência
Para ser o que sou.

Como me exaspero de mim
Que me faça novidade
Que me faça diferente
Que me ouse
Avance e
Seja o que tem que ser

Um eu novo e pronto a viciar.

Onde

Todos os dias o Sol nasce
E a noite sucede-o...
Um ciclo continuo
Sem um pausa sequer.
Onde se pode colocar uma dúvida?
Em que canto do mundo
Que até é redondo
Se pode parar para pensar?

Assim foi um dia

Mataram-me à nascença...
Mas com tal ineficácia
Que me deixaram assim...
Numa lenta e suave agonia.



domingo, 15 de janeiro de 2017

Lendo 212

"(...)
Meu amor
o verbo amar
não nasce
de fora para dentro."

Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 137

Sem mais que possa dizer.

Lendo 211

"vou desistir de ti.
És-me intermitente.

Preciso de alguém
que embora inútil
esteja presente."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 133

Isto é, dramaticamente, o resumo de algumas vidas que com quem convivo. Precisam de inúteis com quem convivem. Secaram-se.

Lendo 210

"(...)
Nasci.
Foi talvez mal."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 127

Poderia ter escrito e assim não me explicava.

Lendo 209

"Quando não se dorme
está-se à escuta
doque a nossa voz
no silêncio enorme
tem pra nos dizer.
(...)"
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 91

Aquele que não teve uma insónia que atire a primeira pedra

Lendo 208

"(...)
Saudade
é uma palavra
a semear
(...)
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 85

A saudade é um sentimento de amor, pois que só tenho saudade do que amo, do que amei e do que vou amar.

Lendo 207

"Vivo noutro mundo
a fingir de gente

E assim me afundo
fisfarçadamente"
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 83

A arte da sobrevivência que, às vezes, não passa de um suicídio adiado.

Lendo 206

"(...)
Porque o prazer amor
não sabe ser maior
que o desejar."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 67

O verdadeiro prazer, aquele que se sente demoradamente, é a saudade do beijo de ontem que se poderá repetir no amanhã eterno.

Lendo 205

"Nunca te amei
(Nem no princípio nem no fim)

Mas o teu amor fez-me tão bem!

Ensinou-me a gostar de mim
como nunca gostei de mais ninguém."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 63

O desastre anunciado. Ser amado sem amar. E sê-lo para si mesmo, em vez de ser para o outro. Diria que devia estar descrito nos mandamentos de Moisés, ou no código civil. Não serás amado se não amares também.

Meditação avulsa

A mulher quando está com os azeites é azeiteira?

Lendo 204

"O desamor dos outros
quase não faz mal.

De pouco monta
a indif'rença alheia.

O problema real
aquele que conta

é o ficarmos sós
com a ideia

de termos deixado
de gostar de nós."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 55

O amor, o desamor e a nossa auto-estima. Um desamor é uma certificação da nossa incapacidade de amar e de sermos amados, até por nós mesmos.


Lendo 203

"É um parar de vez
este ficar calado

Entre nós os três
Tu eu e o passado."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 49

Quando o passado ganha autonomia, onde aconteceu esse tu e eu, ganha uma certa autonomia ontológica e passa a existir como coisa que interfere.

Lendo 202

" Tu  Eu
Dois continentes em fogo
Frente a frente

E entre ambos
um corredor de vento"
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 47

Não é o vento, essa fonte de oxigénio, que alimenta os fogos?

Lendo 201

"(...)
Esquecer-te não bastou.

Preciso de esquecer
que esqueci de ti."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 17

Quando para lá da memória, é preciso rasgar o tempo.

Aforismo

O gesto que toca, toca, por vezes na eternidade.

Lendo 200

"A Eternidade
É cada gesto

que uma vez feito
não se pode
desfazer."
Maria Luísa de Bívar in Escorpião é mulher, Átrio, Lisboa, 1990, pág 15

A eternidade não tem que sem o fica para além do tempo, mas o que residirá em todo o tempo. Será a dessacralização da ideia de eternidade? A sua democratização? A sua irrelevância? Não o creio.
Sigo mais a ideia que um gesto simples como passar os dedos macios sobre um braço, um momento inesperado de ligação, pode ser eterno porque jamais desfazerá a impressão que deixou.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Na memória

Quando chego à tua memória em mim
Não é o corpo que encontro
Nem é o rosto
Nem as formas
Ou o sexo sequer.
É sempre uma ideia
Uma sensação
E um estar.
Contudo é,
Também,
Por ser esse rosto
E por serem essas formas
E esse sexo
Que resiste essa memória

Lendo 199

"(...)
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar
(...)"
Mia Couto in raiz de orvalho e outros poemas, Editorial Caminho, Lisboa 1987, 6ª edição, pág 20

Ler este excerto é tocar em alguma coisa maravilhosa e partilhar dessa beleza.

Tempo emprestado

Somos coisa que passa
Num tempo emprestado
Que por aqui gastamos

Palavras que não lês

Escrevo palavras que não lês.

Coisas que ficam, assim, ditas,
Algumas sentidas,
Outras lastimadas,
Umas tantas calorosas,
Tal como inflamadas
E aquelas saudosas
E até chorosas, também.

E insisto...
Não só nas letras,
Como, também, em ti.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O meu público

Ter um caminho,
Uma estrada para correr,
Por mais turbulenta que seja,
Aziaga até,
Controversa
Ou meramente desinteressante...
É o meu caminho.

E não te creias sozinho,
Ou único
Nesse banco crítico,
De alta voz,
Até palestrante...
Não!
Nada disso.
Tens uma fila atrás de ti!

E sou eu que a encabeço!

Ser grande

Cheguei à sala da minha alma
E disse:
"Quando for grande
Vou ser poeta!"

E fica-me a pergunta:
"Quando é que vou ser grande?"

Lendo 198

"(...) é necessário um peso de
mágoa acumulada para
que uma gota de chuva se disponha
a ser lágrima(...)"
João Luís Barreto Guimarães in Mediterrâneo, Quetzal, Lisboa 2016, pág 34

Nada a acrescentar.

Lendo 197

"(...) Deus ainda acredita em Deus?(...)?
João Luís Barreto Guimarães in Mediterrâneo, Quetzal, Lisboa 2016, pág 20

Gosto de desafios quando leio poesia. E esta frase é um bom desafio, melhor, é um bonito desafio. Se nos demorarmos a pensar nela pode acabar por perder o encanto. Não se refute, não se critique. Ouse-se apenas.

Amanhecer

São sete da manhã,
De um dia de Inverno,
Janeiro já,
Abro a janela
E o dia que se antecipa
Vem como me deitei
Carregado de nuvens cinzentas.
Só que desta feita mais claras,
Mais longínquas
E mais difusas.
Tarda o azul turquesa,
Forte de Sol,
Intenso de certezas.

A mim também.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Aforismo

Só me decepciono com quem tomei por maior do que na realidade é. A dúvida é saber se foi um erro meu de análise ou uma incapacidade bem dissimulada.

Resumo

Para se ser resumo
Há que se saber
Do que se resume.
Pode isso ser tão denso
Que o resumo perca o essencial
Que pode, também
Ser apenas o resumo.

Melhor que a história toda
Coisa que nunca acabo
É a parte que me cabe,
A camisa que me veste.

Insónia

Acordo a meio da noite
Preso a uma frase
Que se quer poema
E diz-se plena de sentido...
Singular resumo de uma ideia
Que, depois de reflectida,
Pensada e amadurecida,
É sempre mais um mundo,
Cheio de coisas minhas
E algumas, poucas,
Da frase em si
Que era para ser
O tal poema...

Marasmo

As palavras cansam
Porque referem sentidos
Que uma vez pensados
Compelem para um agir.
E como a acção
Determina uma posição
Prefere-se o silêncio
Onde nada se passa...

E tudo o mais corre
Na conta de terceiros
Que, descansado, observa
Sem nenhuma expectativa.

Paradigma de um erro

Encontrei a minha cara-metade
Mas ela não me encontrou
Nem sequer se demorou
Meramente passou.

Existe uma desconformidade
Que mina a existência
Querer ser para outro
O que o outro não quer para si.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Ao essencial

Para que quero a tua nudez
Se não tiver a tua intimidade?

luz que se apaga

Luz que se dissipa
No negro e escuro horizonte
Assim se aparta
A minha ideia
De ti em mim.

Diria,
Por mera conveniência,
Que são luzes que se apagam
Sem saber
Se num amanhã
O dia voltará a nascer.

Do silêncio

Insistes no silêncio
Como discurso completo
De uma torta intenção.

Pode o futuro ter
Palavras que perguntem
Que resposta poderia ter?

E, desse futuro,
Só existe onde se quer
E não no tempo dele.

Mas sempre mulheres

 



  

Sempre mulheres

 

 


Mais desenho

 


  



domingo, 8 de janeiro de 2017

Aí que me dóis tanto

Dizes que as palavras
Fazem par com o vento
E voam
Como se fossem sem sentido.

Dizes que, como o vento,
Tudo não passa de um sopro,
Uma impressão
Que interfere na temperatua.

Dizes...
E não ouves a lágrima
Que te força a emoção
Anterior à negação.

Sustentas tremulamente
A galopante emoção
Sem saberes se és suficiente
Para a simples emoção....

De permeio
Perco-me
Desastro-me
Desaspero-te.

Queria...

Queria escrever-te

O Poema

Não as palavras,
O sentido sugerido,
Apenas um sentimento,
Como um calor
Que chega a ti
E se devolve
Derretido em mim....

Se soubesses
Como pode ser inteiro
Um singular momento assim
Onde o que tem que ser
Apenas é

Sem dúvidas
Sem questões
Sem medos
Sem o ontem
Sem o depois
Sem nada mais...

E que isso mesmo
pode ser em qualquer agora?

Aos irrelevantes

Parte,
alguma,
irrelevante saber quanto,
parte apenas,
chora lágrimas de crocodilo
de quem já não suportavam
e que se demorava a morrer.

Cansados da espera,
auspiciam um futuro impossível
feito, é claro, a essa imagem.
Um profundo egoísta,
inenarravelmente egocêntrico,
basicamente anárquico de si mesmo.

Querem levantar a bandeira.
Jamais a dele,
um imenso maçador,
incontrolável rebelde,
até de si mesmo,
sei regra alguma
que possa ser tida
como Lei.

Choram o dia,
um dia,
um momento,
uma raiva calada
contra um pior Salazar
uma esquerda radical,
tenebrosa.

Ninguém tomou o pulso ao tempo
Que passou
e o desacreditou
o anulou
o desfez
o desmistificou
o irrelevantou.

E choram,
quais crocodilos,
uma lágrima ideal
que, nunca foi dele,
por ele
ou, sequer,
por causa dele,

Apenas uma lágrima
por cada um
e pela ambição
de poderem ser
tão egoístas
quanto ele foi.

Adeus.
A Saudade não tem a tua silhueta.

Lendo 196

"Génesis

e no princípio
era o silêncio

e Deus
criou o verbo

e aprisionou para sempre
o solêncio dentro do homem."
Ozías Filho in Páginas Despidas, Ardózia, Lisboa 2005, pág 13

A liberdade da escrita e, também da poesia, permite dar outros sentidos às palavras e com elas, depois,montar a forma que nos leva a caminhos de meditação e reflexão. E, nesse sentido, este poema tem um carga poética interessante, pois que, inevitavelmente, é do silêncio aprisionado em nós que nasce a reflexão, a meditação que nos leva a tudo, nomeadamente à poesia. E nesse sentido apreciei muito este poema.

Numa dimensão filosófica fico aquém, pois que "No princípio era o verbo" não significa o verbo, a palavra, mas sim o espírito com sentido, o Ser, a inteligência onde tudo cabe e de onde tudo retira o sentido. Ora, assim sendo, e tendo esta descodificação da frase bíblica nunca o silêncio se pode sobrepor a Deus, pois que o silêncio é, a bom rigor, uma ausência de som e, portanto, tem que pre-existir o som para que este deixe de existir ou estar presente.

Sem filosofia e com poesia, insisto que gostei do poema.

Trabalho em andamento


Uma visão do cabo Espichel em 20 por 20, acrílico sobre tela.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Hoje

A uma morte anunciada respondi em três planos.

Confirmei que a minha bandeira é azul e branca.
Lembrei que o meu país se fez em 874 anos e com gente de enorme valia.
Reforcei a espiritualidade do Portugal que tem sentido para mim.

Percebo que todos prefiram o mundo das telenovelas, eu continuo a preferir a parte menos ficcional da vida.

Lendo 196

"Temos um passado mas
tão breve, e onde está,
onde pode estar agora? Procura
entre os arbustos, dizes. "
Pedro Mexia in Uma vez que tudo se perdeu, Tinta da China, Lisboa 2015, pág 32

Quando ainda restarem arbustos,
Tudo farei para te encontrar
Não me mandes para o deserto
Era capaz de chegar a ir.

Manterei o temos
Mesmo que seja apenas eu
A ter
A reter
A manter.

Lendo 195

"Derrotado pelos acontecimentos
como a amizade, vaso

partido que perdura no
esquecimento porque

estava tão vazio."

Pedro Mexia in Uma vez que tudo se perdeu, Tinta da China, Lisboa 2015, pág 24

Curiosamente li este excerto hoje pela manhã
Pela tarde partiu-se um vaso
Que, afinal, estava vazio...
E eu que cuidava que guardava mais
Quase afecto, até, no limiar, amor.

Tudo é fugaz
Somos espuma de um tempo

Lendo 194

"Foi
com certeza um perfume. Um desses
mais decotados
(...)"
João Luís Barreto Guimarães in Mediterrâneo, Quetzal, Lisboa 2016, pág 20

Fico sem palavras, pois são todos os sentidos que me levaram... fiquei com a saudade do gosto salgado desse decote.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Silent Night


Bugalhos de inverno 4


Bugalhos de inverno 3


Bugalhos de inverno 2


Bugalhos de inverno 1


Bugalhos de inverno


Lendo 193

Futuro anterior

Um contentamento tão contente.
Uma acção que não aconteceu
e descrevemos concluída.
Uma anterioridade de um tempo futurível
ou de um modo imperativo.
Um facto terminado e garantido
como acreditávamos.
Também exprime, segundo a gramática,
um caso hipotético.

Pedro Mexia in Uma vez que tudo se perdeu, Tinta da China, Lisboa 2015, pág 14

Como um poema sério pode ser uma boa sessão de humor. Retenho "Uma acção que não aconteceu
e descrevemos concluída." O mundo está carregado destes futuros anteriores de tal modo que em vez de serem tido como a gramática os define, casos "hipotéticos", são tomados por "factos e garantidos como acreditávamos" porque fazemos fé no actor dos factos. Haverá fé na salvação? É a minha luta.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Primeiro dia de trabalho de 2017

Pois é. Dia 3 e nada de novo. Tudo na mesma.

Nada mais tenho a dizer do que já disse. Todos esperaram que alguma coisa mudasse e esqueceram-se que os outros também contavam que elas mudassem. Fica, portanto, a frase "alguém terá de mudar", sendo que o sujeito desta oração ( e pode ser mesmo uma oração noutro sentido) é indeterminado. Somos todos e não é ninguém.

Portanto todos festejaram uma intenção. Não está mal para retrato da actual sociedade. Promove-se um paradigma, todos se associam ao paradigma. Depois de feita a festa, vamos a correr para o novo paradigma. Saltamos de intenção em intenção sem nunca haver a preocupação de execução do mesmo. E não, a culpa não é da internet. A culpa, a razão, a motivação profunda é o alheamento instalado. Nada interessa verdadeiramente a não ser que me afecte pessoalmente.

E esperto ter acabado as reflexões do retorno ao princípio do ciclo eterno.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2017

Vamos em Paz e que o Senhor nos acompanhe!

Escatologia do ano novo

Há pouco, enquanto cortava as unhas pela primeira vez no ano de 2017, perguntava para os meus botões, qual o significado escatológico de estar a cortar as unhas pela primeira vez em 2017? Quantas vezes mais o vou fazer? Terá algum sentido subentendido? Estarei a cortar bocados de mim ao longo do ano?

Para lá deste discurso absurdo e sem sentido, o ano novo puxa sempre para reflexões desta natureza. Não do corte de unhas, evidentemente, mas de todas as questões que rodeiam uma qualquer vulgaridade praticada e os sentidos que pode ter numa reflexão sobre o homem, o seu lugar no mundo e a eternidade. Temas, como se pode verificar, estão completamente ligados às unhas.

2017 em modo reflexivo, portanto.

Registos de para um diáro

Lisboa, 30 de Dezembro às 17.14
"A fazer os preparativos para a hipocrisia doa ano. Desejar um Bom Ano para quem andou a tornar o meu ano num inferno..."

Já passou. Atirei para atrás das costas. Que se lixe! Por mais que insista, sei que não estão preparados para ser de outro modo. Uma falha emocional serve para tudo. Encho o peito de ar, suspendo o meio segundo e expiro profundamente.


Ao dia que nasce

Lá fora o dia nasce lentamente. Aos poucos o céu ganha tons progressivamente mais claros. A luz da rua, amarela, vai diminuindo a sua auréola. Eu continuo a olhar para a janela e a confiar que o dia novo seja maior que ontem, mais luminoso e mais esclarecedor.
É assim nos primeiros dias do ano. Entra na minha reflexão a insistência de um dia melhor, de um mundo melhor e, sobretudo de um eu melhor. Não consigo dissociar a ideia de qualquer coisa melhor sem que o meu eu seja melhorado antes, durante e depois. Somos sempre uma história inacabada e cheia de um sem número de detalhes cuja expressão nem sempre se ajusta ao melhor que podemos ser e fazer. E esse é o verdadeiro esforço do novo ano, do novo dia, de cada momento.

Veremos e confiemos que o amanhã seja melhor que hoje e muito melhor que ontem. Haja fé. Pelo menos em nós.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Ano Novo

Dia de balanços e de estatística. Sobretudo de estatística. Ainda fica espaço para intenções e previsões. Portanto um dia reflexivo. Tóxico, mas reflexivo.