quarta-feira, 20 de setembro de 2017

domingo, 10 de setembro de 2017

Poesia política do século XXI

O cerco

Venho aqui pedir desculpa
de não ser evoluído,
apesar destas campanhas
na rádio, na televisão,
em toda a parte, insistindo
na urgência do assunto…
Eu não consigo gostar;
- não consigo mesmo, pronto.

Sei que pertence ser gay,
toda a gente deve ser.
Mas eu, lamentavelmente
não sou como toda a gente;
Como aconteceu... não sei,
peço desculpa por isso,
mas confesso: sou… diferente.

Sei que vos pode ofender
esta minha enfermidade,
pois um gajo que assim pensa
hoje em dia, não tem nexo;
deveria ser banido,
expulso da comunidade.

É uma vergonha indecente
Gostar de mulher, ter filhos
Casar, afagar, perder-se
Com pessoa doutro sexo!

Uma nojeira repelente;
Dar-lhe, até, beijos na boca
em público! E declarar
Esta sua preferência
Que eu nem sei classificar!
Tenho uma vergonha louca
E desejo penitência
por tal desconformidade,
retardamento, machismo,
doença, fatalidade!

Já tentei tudo: - inscrevi-me
em saunas, aulas de dança
cursos de perfumaria
origami, greco romana,
ioga - para ter ousadia
boxe - p'ra ganhar confiança...

Mas quando chega o momento
De optar… sou… decadente,
Recorrente e insistente.
Opróbrio raro e demente,
Ver uma mulher seduz-me,
Faz-me vibrar, deslumbro.
Vê-la falar, elegante;
Vê-la deslizar, sensual
Como vestal, deslumbrante
Seu peito assim, saltitante
Sua graça embriagante
olho com gosto, caramba,
lamento ser tão ...normal.

Mas eu confesso que sinto
- neste corpo tão cansado
Que da vida já viu tanto...
Ainda sinto um desejo
Que m' envergonha bastante
Por ser já tão deslocado
tão antigo, assim tão fora
do mais moderno critério.
Valia mais estar calado
Mas amigos, já agora
Assumo completamente:
- Tenho esse problema sério.


Nunca integrarei partidos
Onde não sou desejado.
No planeta das tais cores
não tenho dia aprazado,
nem bandeira, nem veado,
nem “orgulho” especial!
Sou mesmo do “outro lado”
dito "heterossexual"
e já me chateia um bocado
Ter que dizer, embaçado,
que me atrai o feminino
e sou apenas “normal”!
- e, portanto, avariado.

Mas… mesmo assim, - saudosista,
imensamente atrasado,
terrivelmente cercado,
conservador nesse ponto,
foleiro, desajustado...
perdoai-me tal pecado
- Não me sinto ...assim tão mal!

Pedro Barroso

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Aforismos

Somos apenas os afectos que vamos deixando e construindo ao longo da vida.

Meditando

Ortega Y Gasset disse “Nós somos nós e a nossa circunstância.” E somos essa circunstância no tempo e em cada tempo. Somos sempre devir.

Juventude

A uma jovem adolescente ou mesmo nos vinte anos que exibe um corpo próprio dessa idade, bem como a frescura e o encanto que lhe são devidos pela natureza logo, logo surge uma voz que diz:
- Está igual à mãe. Impressionante.
Para lá da verificação, que pode ser incontestável e absolutamente evidente, surge uma mínima luzinha que pergunta:
- Será, também, igual à avó?
- E à bisavó?
E, de repente, a beleza, o encanto, a aura, perde a propriedade da progenitora e começa a difundir-se em todos os elos genealógicos, em todas as mulheres que na sua juventude encantavam com a sua graça, as sua formas delicadas, com o peito firme, com a pele suave e delicada...Já não é a mãe a ver-se ao espelho, a re-exibir-se e voltar a encantar-se consigo e o seu passado, são todas as mães. São os ciclos do tempo.
E todas as mulheres que lhe antecedem na hierarquia genealógica admirando a jovem, sentem-se felizes por ela e, individualmente, por cada uma, pelo seu passado.

A juventude tem um encanto único moldado no paraíso e na terra encantada do sonho.

lapsos

Sinto um movimento perto de mim e, ao fundo, o meu nome entra nos meus ouvidos. Retiro os auriculares e rodo a cabeça no sentido em que o som poderá ter vindo.
- Bom dia. Olha acabo de receber informação que fulano virá mais tarde, pois passou mal a noite. Podes assegurar as tarefas?
- Sim, claro. E tu?
- Como?
- Passaste bem a noite?
- Hahhhh, sim, eu durmo sempre muito bem.
E termina a frase já a distanciar-se para o seu local de trabalho.
Eu fico a pensar que sorte, pois eu não tenho essa facilidade. Tem dias. Uns bons, outros estupendos, outros péssimos....
Curiosamente, e depois de alguma reflexão, entendi que leu na minha pergunta uma questão à sua consciência...

Ás vezes é difícil ser gente social.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Aforismo

Não discutas com uma mulher, sobretudo quando ela está de cabeça perdida. Apenas lhe estarás a dar argumentos que ela distorcerá na próxima discussão em que estiver com a cabeça perdida.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Piadola

Estou aqui para te dizer uma, mas a verdade é que quase vejo a dobrar, pelo que me ficarei pela metade. Amanhã digo o resto...

Bela foto

Fui à procura de ti
Por via de uma bela foto
Em que, indubitavelmente,
Te vejo feita deusa, sereia ou musa.

Esperei, confesso, encontrar,
Não o intrincado novelo de confusões,
Nem a auto dramatização
Nem, sequer, a vitimização.

Contava, é seguro, encontrar
O que a foto mostra,
Isso, um ser humano,
Uma alma.

Mas, afinal,
Tudo não passa de engodo
Para prender a estima alheia
Para afagar a minha.

Bela foto.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Curta

Ou é como eu quero ou não é.
Aos poucos as coisas deixaram de ser.

Lendo 243

"- Sim, claro mas enerva quando se confunde relações profissionais com quezílias pessoais.
- Amélia sempre foi assim será sempre assim em todo o lado, as pessoas são pessoas."

Rodrigo Guedes de Carvalho in O Pianista de Hotel, Dom Quixote, Lisboa 2017, pág 261

Voltamos, aqui, novamente à mesquinhez do ser humano. Incapaz de ser ver no espelho, de se encontrar com o seu lado não sobrevalorizado, para não se confrontar com o que precisa de trabalhar para ser um melhor ser humano, entra sem rodeios em disputas inacreditáveis. Muitas delas com prejuízos para si mesmo. 
O mundo do trabalho está carregado de gente que é incapaz de erra grosseiramente e quando alguém sugere ou refere mesmo o erro, em vez de olhar para o assunto, gera uma guerra pessoal cujo fim é tão somente manter o seu estado de alma imaculado. Soluções? Não existem. As pessoas são pessoas.

Lendo 242

"A mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos, e não descansará, nunca, enquanto não eliminar o animal raro que lhe faz sombra, que não deixa dormir, a mesquinhez baixinha e insegura é eternamente agitada porque o animal raro, simplesmente, existe. Todos os outros pecados mortais, combinados, são uma mera brincadeira comparados com a inveja."
Rodrigo Guedes de Carvalho in O Pianista de Hotel, Dom Quixote, Lisboa 2017, pág 233

Podia dizer tantas outras coisas mais, mas a frase condensa, e muito bem, a razão profunda da maior parte das motivações dos diferendos. Não se luta, não se discute, não se debruça sobre um tema. Inveja-se e, depois, corre-se a todos os tipos de jogos baixos para suplantar esse nada.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Novamente

Num imenso enfado, onde repetia mecanicamente as tarefas de sempre e acumulava processos acabados que iriam para uma pasta de cartão castanho e se colocava ao lado de outras pastas que íam enchendo armários até ser altura de os atar e enviar para grandes armazéns onde repousavam sobre o pó de vinte anos... Fazia com os olhos semi cerrados com um sonolência febril de quem se esquece de tudo. Olhava para os lados e, assustado, havia quem estivesse satisfeito com o que fazia. Olhei para baixo, para os meus papéis e revendo-os um a um, levantando-os, cheirando-os, sentido mesmo o paladar... procurava onde é que podería alguém encontrar algum motivo para ter satisfação nesta coisa mecânica, vazia, repetitiva e sem novidade...
Volto a levantar os olhos, marejados de desespero, e noto que mantém um sorriso estúpido e imbecil na cara.
Não é possível.
Levanto-me discretamente como se fosse à casa de banho e passo junto a esse colega. No meio dos seus braços, escondido sobre o tronco arqueado o mesmo livro de banda desenhada da escola secundária.....

Sou um sonho mau que me persigo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A vida alheia

Todos os dias quando entrava no autocarro fazia os mesmos movimentos de sempre, tirar o passe, passar na máquina e seguir pelo corredor e sentar-me no primeiro lugar que encontrasse. Preferia quando me sentava em frente a outros passageiros, frente a frente. Durante os 20 a 30 minutos do percurso aproveitava para inventar histórias, conteúdos e vidas que se enquadrassem nas caras das pessoas.
Lembro uma rapariga nova, talvez vinte, talvez vinte e cinco, talvez dezoito. Tinha uns olhos negros e incrivelmente vazios. O seu semblante era fechado. No Verão utilizava uns óculos escuros onde se isolava ainda mais. Era misteriosa.
Aos poucos comecei a admitir uma conversa impossível com quem evitava a todo o custo estabelecer contacto e comunicação.
- Chamo-me Margarida. Sim, tenho o nome de uma flor. Mas é apenas o nome.
E depois continuava
- Porque é que queres saber de onde venho? Já sabes que é complicado, que é difícil e, até, difícil de confessar. Mas gostas deste tipo de conversa sórdida. Achas que irás entender porque é que não olho, de que fujo e o que procuro...
Olha para a janela e ajeita os óculos à cara.
- Não há muito a contar que não tenha já sido contado. Tu vês filmes, não vês? É mais ou menos isso, um filme. Mas não é uma novela, porque as novelas são falsas, entretêm-te durante meses a fio e depois tudo é fantástico e acabam todos aos beijos. É tudo mentira. É feito para te viciar na compaixão, na pena...
Sou a personagem de um filme. Aos poucos sei que o filme vai deixar de ser de muitos e vai passar a ser só meu. O meu filme, a minha história. Ah! podes dizer a minha versão da minha história. Mas, e quero lá saber no que penses, pois que a minha história, o meu filme vai ser isso mesmo. Meu. A minha história. A minha versão.
E continuei a vê-la, fechada, com a cara virada para o vidro em silêncio...
- O meu passado? Importa isso? Sim, há maus tratos, violação, abuso... queres pensar em algo mais? Preferes que tenha sido na escola? No bairro? Por um amigo? Primo? Pai? É irrelevante quem foi ou onde foi. Aconteceu e queimaram-me os olhos por dentro.
- Ultimamente, e desde que trabalho, estou quase a ganhar a minha autonomia. Vou sair. Vou deixar para trás esse vício de sofrer.
Vês esta saia? Já fui eu que a comprei. Teve que ser até aos pés. E fechada. Mas liberta-me, é minha e é o meu corpo dentro dela.
Sabes que estou quase a chegar à minha paragem. Tens fé em mim? No futuro? Em Deus e na bondade? Se tens, acredita que a minha vida vai ser boa. E que a minha história vai mostrar essa volta.
Sorri-lhe
Sem me dar conta, ela ao levantar-se esboça um muito ténue sorriso.

Voltava de férias

Voltava de férias... férias? Se podia dizer dos 10 dias passados a correr em casa de uma tia ao pé da praia. Ainda trabalhava mais para não sobrecarregar a tia que dava tecto e cama para si e para os seus rapazes. Desde o supermercado à culinária, passando por tratar da casa e da roupa, ficava com o sabor das férias naquelas horas escassas que vestia o biquini e deixava-se escorregar para cima da toalha. E era capaz de assim ficar, passar até pelas brasas, antes de descer à beira mar e refrescar os pés.
Voltava de férias e tinha deixado o sorriso na praia, nas ondas que iam e vinham, tal como o seu olhar se perdia nesse movimento de avanços e recuos. Por vezes sentava-se na areia ainda molhada e assim permanecia.
Voltava de férias, com a pele cheia de sol, ainda quente, mas com a alma vazia, sem ter com quem partilhar esse calor.
E os dias iam passando, tal como o calor e o sabor salgado das férias. Aqui e ali, o sorriso voltava.
E um dia, olhando-se para o espelho, já não notava a marca branca do biquini, até isso se havia esbatido. Com o olhar no outro lado do espelho vestiu o soutien, ajeitou o peito e vestiu as cuecas de renda mais confortáveis. Deu três passos atrás e sentou-se na cama a olhar o espelho, como se fossem as ondas do mar. Era domingo, estava de férias....

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meditação do dia da Assunpção

Tudo gira à volta dos afectos, as nossas casas de segurança, reduto último da certeza. E o pior que podemos fazer é mentir ou simular. Todo o tempo que perdurar esse engano, mais que tempo perdido, é tempo que deixou de ser vivido.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Voltei

Voltei à poesia
E tu não estavas lá.

Voltei onde volto sempre
À poesia.

Sincera recorrência
Triste insistência.

Fui

Fui
Atrás de mim,
Do meu passado,
Das minhas origens,
Da minha questão
Filosófica ou metafísica,
De ser isto,
Esta circunstância,
Esta questão no tempo...
Fui,
E volto sempre a ir,
Recorrentemente,
Pois que nada é certo,
Nem a morte,
Pois de fim a passagem,
Ou outro mundo,
Ou, até eternidade,
É toda uma imensa possibilidade
Em que, invariavelmente,
Me perco a pensar.
Prós e contras,
Sentido e vazio,
Razão e adesão...
E vou, mais uma vez,
E nada tenho a dizer,
Nenhuma conclusão,
Nada certificar,
Concluir ou aderir,
Somos um mundo aberto
Que, quando assim calha,
Encostamos a porta,
Jamais seguros de a fechar.

Dizia o poeta

"O mundo pula e avança...."
Mas, às vezes, a impressão que dá é que se acomoda à mentira, ao engano, à torpeza, à imoralidade... e todos viram as costas quedando-se em meras questões de detalhes do momento, da circunstância, do imediato.... Por onde anda a poesia?

domingo, 6 de agosto de 2017

Lendo 241 - As 1001 noites

A ler as 1001 noites que o Expresso partiu em 7 e vende à razão de 3,5 euros oferecendo um monte de folhas impressas de reduzido interesse a que chamam um semanário.

Retenho como primeira nota que é um livro escrito, ou reescrito após o século VII, pois assume, em quase todas as histórias a religião monoteísta, o que, só com Moamé foi unificado nos países do Norte de África. E é curiosa a denominação de "Chefe dos crentes" feita ao califa. 
A segunda nota o determinismo do destino. Há uma história, um dito, um fado sobre determinado indivíduo que acontecerá, e a história narrará uma série de tentativas de fugir a esse destino que acaba por se cumprir, invariavelmente, introduzindo a perturbação anunciada. Seja pela virtude, seja pela acção de fadas ou génios, o efeito da perturbação acaba por ser anulado, ou reconstruíndo outra forma de organização dentro da moral.
A terceira nota é que as histórias tendem todas para um fim Bom. A harmonia vence a desorganização e o mal.
A quarta nota é para verificar que algumas histórias acabam por ser lições comportamentais como se fossem um normativo moral.
Por fim, o papel da mulher... Nada tem de similar com a nossa civilização portuguesa, profundamente matriarcal, nestas 1001 histórias a mulher é quase nada. Pouco importa. Pode ser cobiçada, mas depois de feita a "tomada de poder" desfazem-se todos os encantamentos e desaparece. Um senão, apenas, é no caso em que se torna adultera, aí, não só se transforma em início de muitas histórias, como, também, o fim da sua vida, pelo menos na forma em que a conhecíamos, tomando formas diversas, sobretudo de animais.

Muito interessante, muito agradável e, sobretudo, educativo. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O pecado da mulher que ousou amar

Aconteceu num lugar o singular facto de uma mulher, um dia, encontrar o seu amor num colega. Deixou para trás a sua casa, o seu marido e a vida que tinha e passou a amar esse outro homem. E a ele começou a dedicar todas as atenções, todos os minutos e todos os sorrisos.
Ciosa da sua privacidade, entendia que esse amor seria apenas seu e de mais ninguém. Ninguém poderia saber ou sequer entender que amava aquele outro homem. E assim passou a viver num certo conto de fadas em que deleitando-se sobre qualquer dito do seu novo homem tinha a certeza que ninguém entendia que estava a viver uma segunda primavera e que todo o seu tempo eram momentos de pombos a arrolhar.
O tempo diabolicamente insiste em passar segundo após segundo e tem o perverso efeito de destruir o efeito da novidade e dar-lhe o gosto de hábito, perdendo o tempero único do encantamento. E, ao se desencantar, nota que aquilo que admitia como passeios a dois num infinito areal era uma exposição do artigo mais cobiçado na montra da inveja humana e, por tal, comentado à exaustão pelo universo que com ela convive. Ninguém faz por maldade, mas por não ter outro motivo tão ardente ou picante para comentar. Que sensaboria relatar a triste viagem da casa para o emprego mas que gosto em verificar os olhares, o terno encosto da cabeça, até o passo que é feito a par...
E, ao tempo que surge o bocejo, a previsão de algo que ganha monotonia e, até, um certo bafio, e todos esses pequenos nadas começam a transformarem-se em incómodo interior, ou não fora de uma mulher que se trata este relato. E, enquanto empina o nariz, levantando o queixo e apressando o passo determinado, resolve promover para a montra o fim de algo que era já uma muito pálida sombra do que fora.
 Apesar do sabor doce desse amor, dessa vontade de calor, da saudade ao fim do dia que lhe dava um frenesim ao acordar, ousara amar e admitia que seria um pequeno segredo partilhado apenas no seio do encantamento. Vivia a saudade desse sentir e a melancolia de o ter perdido.
Sendo o ser humano feito para amar, estava, pois nesse limbo do amor que cessa e que não deixa futuro.
Ousou amar sem consequência e agora mortifica-se numa solidão. Espalha, pois, pequenos afectos como outros pequenos desamores para temperar equilíbrio. Ousara amar e agora tinha que desamar, não o amor, mas outros desamores.

E é assim de uma fonte de água cristalina pode, um dia, correr pedra seca e oca.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Fechando portas e janelas

Hoje vivi e presenciei um acto impiedoso e absolutamente desolador da minha confiança na bondade do ser humano. Passo a descrever:
Uma relação profissional bastante desgastada, sem espaços para diluição de lapsos, erros e mal entendidos que o tempo amplia levou a uma relação de mera presença física e quase nenhum diálogo. Sem aviso prévio surge a oportunidade de um colega cessar o trabalho com uma recompensa financeira simpática e, também, um novo capítulo na sua vida. Segura com as duas mãos circunstância e hoje termina a sua ligação com a mesma entidade. Sendo o último dia, a expectativa era a de se enterrarem todos os machados de guerra, pois deixa de ter sentido qualquer conflito ou que perdurem mal entendido e, de modo civilizado, dizer um "adeus e até à próxima" com um sinal de confiança no futuro ( mesmo crendo que não exista futuro algum). Acontece, todavia, que a realidade surpreende sempre.
Começou o dia fechado, apagado quase e incapaz de comparecer em qualquer acto de despedida. Um acabrunhamento em pessoa, uma pedra de ressentimento, um alheamento intencional e activo. Mais tarde percebe-se porquê. Não pelo colega que se vai embora, mas pela sua incapacidade de lidar com o momento, a incapacidade de dar o braço, de ser gente humana. Fecha-se numa pedra e, mesmo ferindo-se nessa não despedida, é incapaz de virar a mão e abri-la ao mundo.
Envelheceu hoje mais um ano enquanto o meu colega que sai, ganhou agora luz e anos de vida.

Espero conseguir apagar este desolador episódio rapidamente.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ao meu Alentejo

Recordo, com saudade, um Alentejo que conheci.
Era um Alentejo de Setembro, cheio de ar quente e seco. Havia pouca água e a terra variava entre pó e torrões de pasta de lama que ressequiu. O ar era azul forte como o céu que se abria em todo o lado sem uma única nuvem. Apesar dos dias estarem a ficar mais pequenos continuavam tão longos como o tempo que devagar passava. Em nada havia pressa, nem nas corridas.
E havia o cantar das andorinhas no final do dia. Rodopiavam imensas no pátio da entrada onde, no alto dos beirais juntavam bolas de lama e construíam incontáveis ninhos chegando uma só telha a albergar mais de três.
A noite era carregada de estrelas e um ar doce com sabor a laranjas.
Neste meu Alentejo o branco sempre foi a luz dominante. Desde as entradas das casas, as pedras da rua diariamente lavadas, que faziam um caminho entre um chão alaranjado das poeiras. As casas desse branco imaculado feito com brochas de cal que refrescava apenas de se lhe chegar as mãos. E, nesse toque, a mesma rugosidade das mãos de quem as pintou ano após ano, deixando, pelos pelos já tortos da brocha a sua impressão.
O horizonte era a perder de vista, sempre numa linha que juntava o castanho com o azul forte onde ponteava, aqui e acolá os sobreiros parados e abandonados num qualquer tempo onde persistem em se manter. Sem montes ou montanhas, apenas barrigas de terra que vagamente subiam e desciam até se alcançar a vista.
E dentro de casa, dentro das casas, todas já antigas, havia sempre uma frescura e tempo para parar, sentar e calmamente respirar.

Este Alentejo que é meu, das minhas vivências, apenas existe em mim. O tempo actualizou-o com a mesma força e vontade em que eu o fossilizei em mim. Nunca mais voltei a comer um pão com o cheiro, a crosta grossa e a densidade do meu pão alentejano. Já não há mãos para amassar a farinha, nem água para o fazer, nem mantas para o fazer crescer ou fornos para o cozer. Tudo ficou perdido num tempo que se tornou ideal.

sábado, 15 de julho de 2017

desconsolando

Uma pessoa que cada vez mais ignorava pensando que a conhecia, escreveu isto "Quando a vida te dá cem motivos para quebrar e chorar... mostra a vida que você tem um milhão de motivos para sorrir e rir!!!!". E escreveu em inglês para, seguramente, dar um tom menos pessoal à questão.

Ora o tempo vai correndo e noto, com rara facilidade, que os motivos profundos das suas cem causas para quebrar e chorar nascem na sua inabilidade de lidar com a adversidade, com a diferença, com outras opiniões e com a perda de posição social que ambiciona. O riso é amarelo, falso, fraco e fugaz. Mas pior que tudo isso, é solitário e vazio.

Um desconsolo

Desenhos vários de vária qualidade








Pastel testando





Pastel


Poema a uma mulher

Pensei...
Analisei...
Olhei,
Recolhi
E, até meditei.
Quase encontrei.

Deduzi,
Sobre tanta meditação,
Silogismos,
Sequências,
Conclusões...

De tudo o que tentei,
Falhou-me o essencial,
A pedra de toca, ´
O que faz a diferença,
O capricho.

Afinal, era uma mulher

Pastel de óleo

Desde a minha tenra idade, digamos 6 ou 7 anos, criei uma imensa aversão ao lápis de cera. Detestava pintar ou desenhar com semelhantes instrumentos. Ora errava grosseiramente na forma, ora no desenho. Para quem seja vagamente letrado nestas matérias, sabe que o lápis de cera, vulgo pastel, deixa um lastro com meio centímetro no mínimo e, pior de tudo, só é perceptível na forma quando levantamos a mão. Nunca me dei com o dito lápis de cera.
Acontece, porém, que recentemente, por via de uma aquisição um nada de impulso, me veio parar às mãos um manual de utilização de pastel. Primeiro resmunguei com a minha fatal sorte para ficar o o que ninguém quer, mas depois fui ler. E, ( sou tão influenciável!) fiquei entusiasmado com a ideia. Levei 2 dias para ir comprar umas amostras de pastel.
Gostei.
Repeti.
Consegui interpretar o meio.
É limitado, mas com potencial.
Pode-se usar sem sujar a casa, sem montar um estardalhaço. É maneirinho.
Amanhã darei novas de algumas experiências.

 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lendo 240

"Quando confrontado com a traição ( real ou imaginada), o nortenho mata a mulher em nome da honra; quando confrontado com a possibilidade de ser corno, o alentejano salva a honra masculina de outra forma: mata-se."
Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 92

Lendo 239

"Não é novidade para ninguém que a fraca religiosidade é uma alavanca suicida"

Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 86

Não é tanto uma questão de fé, mas de dimensão de mundos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Pobres dos estúpidos

Por vezes, e por pura cobardia, os estúpidos são instigados a tomarem posições. E, claro, o estúpido é como um carro pesado numa descida, mal começa apenas acaba na parede com a qual confina a estrada.
Ficará pois, completamente exposto que foi utilizado, sem a mínima noção, que não entende, nem nunca entendeu o que se passa.
E claro, imbecilmente seguro, que fez o que [alguém a quem pede pressurosamente amor] estaria numa determinada aceitação.
Males de amor.

E porque estamos no Verão

O perfume não dispensa o banho e muito menos o desodorizante.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Meditação

A divisão de uma unidades em partes é o caminho certo para o fim dessa unidade pois cada parte tenderá e encontrar a sua unidade desvalorizando o restante.

sábado, 8 de julho de 2017

Entre poema e curta

Tomas o meu braço e nele descansas os teus dedos finos.
Olho para esse braço e gravo esses passar de dedos.
Sabes o que entendes com esse passar dos dedos, Mas não tens força para manteres essa ignição e logo afastas.
Voltas ao costume, ao usual. Defensiva. Com receio.
Mais tarde, e porque acompanhado, voltas a uma marcação. Dirás posição.
O tempo escoa. Não tens segurança. Não tens certeza. Temes.
O tempo passa ainda mais.
Devolves agressão. Lenta, dissimulada, disseminada.
É o peso da frustração.
Da tua impossibilidade.

E volto a saco de boxe.
Outra vez.
Todas as vezes.
Sempre.

As mulheres

- Detesto-o! Ele é inacreditável. Impossível de se trabalhar....
- Porque é que continuas a insistir?
- Eu não insisto nada. Por amor de Deus. Ele é impossível...
- Mas....
- Mas, o quê? Não consegues ver?
- .... bom..., às vezes...
- Pois, isso é contigo! Imagina comigo!
- ?
- Sim..., não reparas?
- No quê?
- Naquele modo como me olha e pergunta...
- Como?
- Sim... aquele olhar preso...
- Mas ela não está de costas para ti?
- Querias que eu o sentasse frente a frente comigo, não?
- Claro que não!
- Vês?
- .... ( amén.... Assim seja a tua vontade)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

"Eu é que sou a que sabe".

"Eu é que sou a que sabe".

Frase típica do género feminino que, seja em que situação fôr, sintetiza a sua determinação perante o mundo. Obviamente que jamais se trata, a rigor, numa tema relacionado com sabedoria, sageza ou, até, intuição. Por regra reduz à necessidade de ver o mundo de acordo com os seus desejos e, sobretudo, caprichos.
Não vale a pena discutir, fazer enquadramentos históricos, fazer provas de física, matemática, regras lógicas ou exercícios filosóficos sobre a raiz do pensamento e de como a dedução, exigência ou posição resulta de uma absurdo.
É uma expressão do género. Aquela coisa que alguns acham que não existe, que é livre, que é optável, que reside numa mera opção sociológica ou educacional. Não, e com todo o respeito pelas doutas opiniões ( opiniões, reforço) o género reforça-se, faz-se, pensa e é pelos actos que produz. E o supra exposto é um desses.
Poderá, no entanto, com o tempo fazer alterações. E aqui o facto tempo não é minimamente importante, dependerá, apenas da distância da circunstância que levou à tomada de posição. Um nada de reflexão com o ambiente adequado e sem pressão, ela rapidamente muda de posição mais sensata, pois entende, também que a raiz da sua posição era meramente uma posição de afirmação pessoal e não do conteúdo que afirmava.
A mudança também dependerá do valor que o homem dê à opinião que foi emitida. Se desprezar e se desinteressar do assunto por completo, tudo falecerá à razão do micro-segundo. A mulher queria afirmar a sua posição para ser ouvida, para chamar a atenção do seu homem para ele confirmar que ela é a mulher dele. Caso o homem corra qualquer intenção de debater, discutir, dar, no fundo, qualquer relevo à opinião emitida, será, irremediavelmente, agredido numa série de argumentos que, na pior das hipóteses chegarão à mãe dele. Ela não quer discutir, é insensato tomar as palavras dela como uma fonte de discussão, ou o que disse, uma afirmação de vontade. É, tão somente, linguagem cifrada que pede um pouco de desinteresse para que ela o possa cativar novamente.
As mulheres orgulhosas levam mais tempo a entender isto, mas acabam por o fazer. E, com o tempo, mesmo nestas, a insistência na opinião diminui.

É bom que não se confunda estas opiniões com questões importantes, pois nessas talvez seja melhor tomar posição caso contrário de natural macho alfa se passa a imbecil.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Lendo 238

"Queria ficar calado e entrar rapidamente na carrinha. para se dirigir ao café-restaurante onde Ana haveria de olhá-lo como se fosse o primeiro homem via naquele dia e talvez sorrisse."
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 60

A ambição do homem, seja ele de que género fôr, é ser amado, ser desejado, ser sorrido. Sobretudo se a carga emocional que o rodear for inversa. A pulsão humana é para o amor. Quando se age noutro sentido, fatalmente, é por não conseguir suplantar uma dor interna e, nestes casos, por regra, o tempo ajuda.

lendo 237

"Sabia que, mais tarde, as coisas iriam ficar progressivamente vazias e estimava a relação com a mulher, dando-lhe cada vez mais um cunho de despedida e de perda."
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 57

A antecipação do final da relação evoca, naturalmente, um efeito de vazio, uma expectativa de perda, mas, e a rigor, com o tempo, esse vazio enche-se de todas as memórias da relação e a sensação de perda acaba por ser, também, a memória de um tempo de conjunto, de agregação e, sobretudo de comunhão.
A dedução a quente tem todas as consequências que os actos feitos a quente. Emoção apenas. Mais tarde o entendimento varre o que pouco presta e o que está a mais, integrando e explicando tudo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A rapariga da papelaria

Todos os dias que eram dias de ir comprar o que fosse à papelaria parava o pensar e pousava a ideia na figura feminina que estava atrás do balcão. 

Ela recebia todos os seus clientes com um rosto absolutamente mudo e imóvel e sem ponta de expressão. Educada quanto baste, respondia num quase sussurro ao bom dia e, perante um agradecimento levantava levemente os cantos da boca sem nunca mostrar os lábios. Perante um pedido, não só era solícita como, caso não tivesse no momento o artigo desejado, tudo fazia para que no menor espaço de tempo possível o que quer que procurasse estivesse disponível. E, novamente, abria a linha onde se uniam os seus lábios com uma ligeira subida dos cantos. O cabelo, fruto de uma qualquer moda tinha sempre um ar molhado e o tom amarelado da última pintura já havia passado por algum tempo situando-se agora perto das suas orelhas o que, em vez de desleixo, lhe dava um certo tom que abria a face. E o nariz… mas que nariz. E ela sabia que tinha esse nariz. Presumo que nos tempos da adolescência não fora um apêndice fácil de lidar com, mas agora, mulher madura, era uma fonte de personalidade que trancava o semblante e protegia mais que a ausência de comunicação facial. Era, em formato delicado, o desenho de um nariz turco. Forte e projectado, com algum corpo mas feminino. 

Com o decorrer do tempo começou a existir alguma proximidade. Já sabia o que queria, antecipava os meus gostos e a conversa passou a ter limites mais amplos que o jornal, o totoloto e a revista. Um dia contei-lhe, por via de uma circunstância noticiosa qualquer uma graça. E a cara abriu, a boca sorriu mostrando uns dentes brancos e bem tratados, até os olhos ficaram mais claros. 

Noutro dia vejo-a com um rapaz com aquela idade em que ainda não é homem, mas já não é miúdo e que já leva mais de uma dezena de anos. Significa que já passou a barreira dos 30 anos. A natureza tem sido generosa, pois nessa idade misteriosa que a mulher atinge o pleno, ela está-o.

É, claramente, uma mulher inibida, mas não se fecha nessa inibição, pois que, depois dos pequenos momentos que se vão somando, ela se abre e dispõe-se a criar os laços possíveis e desejáveis com os seus clientes.

Lendo 236

"A sua mulher foi honesta, porque lhe disse o que se passava na vida dela e nos seus sentimentos. Pronto, o amor e a amizade são assim, acabam quando têm de acabar. "
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 25

Tenho alguma afeição à simples descrição dos sentimentos tão profundos e complexos como o amor e a amizade. Tem o amor de acabar? Conseguimos viver sem amar? E termina mesmo o amor? Não sei se acaba. O amor toma outras vestes, transfigura-se, mas não desaparece.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Estou cansado

Estou cansado
Da mentira e mentirola
Da inversão das palavras
Do esquecimento voluntário
Dos actos omissos

Estou cansado
Desta peça de teatro
Dum enorme acto
De mísero conteúdo
E fraca prestação

Estou cansado
Deste julgamento
De veredicto consumado
Sem prova provada
Nem sequer arguido chamado

Estou cansado
Deste novelo viciado
De ser violentado
Numa desconsideração
Generalizada

Estou cansado
Sem defesa,
Apelo ou
Mera contestação
Apenas crucificado

Estou cansado
Demasiadamente cansado
De ser pasto a abutres
Desdentados
E mal amados

Estou cansado.
Desolado
Desgastado
Incomodado
Ponto.

Dedicado aos colegas com quem passo os dias.

A um mal de amor

Olhava para o ar para tentar suspender a imensidão de mar que começa a encher-se nos olhos.
Como teria sido mais fácil sobreviver se tivesse havido um tempo, pequeno que fosse, de um nós. Em vez disso, um nunca chegar a ser, uma intenção que não é capaz de florir. Não chega a haver espaço para ter saudades, coisa para sorrir e um calor a revisitar. Apenas um buraco vazio, negro e muito espesso. Aos poucos, e na sua melancolia, vai preenchendo esse espaço com todas as suas rejeições, todos as suas tristezas e mágoas. Já não é só esse mal de amor de outrém, é o seu mal de amor a si mesmo que se recolhe ali mesmo, à sua frente, e se estende sem limite.  
Ser desamado é uma mágoa que ainda assim deixa passado. Não chegar a ser amado é uma sentença sem nota de culpa.

Lendo 235

"Dar um beijo implicava um plano de negócios."
Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 32

O autor refere esta circunstância a um tempo de um passado. E, curiosamente, é também num tempo de um passado que a ideia de dar um beijo, ou apenas o beijo, era motivo de um, dois, vários, imensos planos e estratégias. Coisas da proto-adolescência e dos proto-beijos. Recordo com doce e calorosa saudade. Quanta ingenuidade.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

curta da segunda

Numa ansiedade crescente, chega antes da hora. Criança, infantil, espera, ansiosa, a volta de férias do seu encanto. Ela olha, espera e desespera. Tem vontade de rir mas ele não conta nenhuma piada. Tem vontade de largar a sua emoção de dias a fio da sua ausência e nada mais que umas cócegas....
E, apesar do intencional decote, sugestivo de um deleite sensual, de uma emoção que se agarra com as mãos cheias em modo de acolhimento, nada acontece, nada se passa, apenas umas míseras cócegas...
Com frémito no olhar, com expectativa na narrativa, onde se propõe a ser a substituta de qualquer aventura, suspira amargamente a narrativa da aventura profundamente desinteressante. Insubstante...

Olha em redor... predador de ausências recolhe as suas presas de eleição.

Mais que compensação, acabam por ser, à distância, razões da sua triste e injustificável opção...

liberdade ou não

Podia ter o teu braço,
A tua mão, suave,
Pousada nele,
Um caminho,
Percurso,
Um fim.

Calhou outro braço
Desgastado,
Diminuído,
Básico 
E enviesado
Numa tortura
De passado.

E, de futuro,
Só a liberdade,
Não a minha, 
Nem a tua, 
Nem a da literatura,
A outra, 
A de facto.

Arrelias

E entra segunda-feira como se fosse o dia do fim do mundo. Atrás das caras de enterro surgem a face de uma raiva incontida.

Mas como foi o teu fim de semana para estares assim?

Não ouvi respostas....... Deve ser apenas feitio.

Dedução para uma segunda-feira

A cada dia que nasce, cada Sol que desponta, uma mulher nunca sabe em que circunstância vai encarar o mundo. Tudo dependerá da disposição com que vai olhar para o guarda fato. É dessa natureza vai reflectir a natureza da escolha da indumentária e, com ela o que vai calçar.
A altura da inclinação do pé reflectirá a posição da coluna e desta o modo como vai olhar: Se em linha, se modestamente por cima, ou se claramente sobre o seu mundo.
Seja de que modo for, haverá sempre algo que despertará a atenção ao homem. Faz parte da natureza de ambos.

Um homem e uma mulher

Ele falava com ela.
Dizia-lhe o que lhe ía na alma e o seu modo de pensar, bem como interpretar, determinados assuntos.
Ela ouvia. Não o que ele diz, mas o seu modo de entender esses assuntos. Colocava uma caixa sobre a argumentação de modo interpretar os vocábulos ditos no que queria ouvir.
A rigor raramente ouvia.
Limitava-se a ouvir-se.
Replicava-se num filme mal dobrado.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aforismo

Nunca discuta com alguém que acredita nas suas mentiras.

Um minuto de silêncio

Decorriam os trabalhos da Assembleia Municipal e pelo motivo do desaparecimento físico de um filho da terra que se notabilizou pela escrita, nomeadamente a poesia, todos os elementos do dito orgão se unem na intenção de um voto de pesar. O mesmo é aprovado por unanimidade. Após isso o presidente da mesa diz:
- Vamos, então, fazer um minuto de silêncio.
O silêncio instala-se depois de todos se terem colocado em pé.
Noto que o presidente carrega no cronómetro do seu relógio para medir o minuto...

Como o formalismo se apodera das intenções que se tornam, afinal, figuras de estilo. Pobre poeta que nem na tua terra te respeitam. Tiveste sessenta rápidos segundos que ninguém sabia ao certo o que fazer... E, pior, seguiu-se novo voto de pesar pelas vítimas do incêndio de Pedrogão... Outro momento de cronómetro....

Quão mais eficaz teria sido rezar um Padre Nosso e uma Avé Maria....

Reflexão

Há aquele prazer mórbido que quando se passa por um acidente todos abrandam para tentar ver se há sangue a escorrer. Ninguém tem, por isso, mais ou menos amor pelo acidentado. Apenas um desejo interior de ver a ferida. Ferida que gera ansiedade e esta adrenalina. Depois do choque, tapam a cara e viram a cara para outro lado como quem diz "Ainda bem que não sou eu e que nada tenho a ver com os eventuais estropiados."

Por vezes

Onde apetece estar
Não é um lugar,
Mas um sentir
Que acontece
Fora do tempo.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Um desastre matinal

Toca o telefone e atendo:
- Está
- Está.
- Estou a falar com fulano?
- Sim, está
- Daqui fala a Carla assistente do consultor imobiliário José dos Anzóis
( assistente de consultor imobiliário?????)
- Sim.
- O senhor é o proprietário de um T2 em Lisboa
- Não ( estou a vender um T4)
- O senhor não tem um T2 para vender em Lisboa?
- Não
- Mas desculpe.
- Queira desculpar-me, mas tome nota do seguinte. Por respeito a si enquanto pessoa não vou prosseguir esta conversa, quando o dito senhor que se afirma consultor imobiliário quiser angariar a minha casa certifique-se primeiro que é ele que me telefona, segundo qual é a casa que tenho para vender. Em opção, poderá sempre mandar o dito senhor à outra parte, pois quem assim se apresenta deve ser tão detestável que não me apetece fazer qualquer negócio com ele.

A rapariga podia ter-se apresentado assim: Daqui fala o tapete onde um imbecil esfrega a sua auto estima e valorização pessoal. Que caminho seguem algumas pessoas.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Uma triste realidade

Descobri, ou melhor, reconfirmei ( quer dizer voltar a confirmar o que não é o mesmo que duplicar a mesma confirmação!) que uma alminha com quem trabalho se deu ao trabalho de me bloquear nas aplicações do Facebook e do Instagram. Trocado por miúdos, entende essa alminha, que na sua pueril dimensão, produzirá conteúdos tão extraordinários e reveladores e tão únicos que a minha pessoa não está apta a visualizá-los. Coisas tão extraordinárias como "Treta 36", viva o Benfica e mais 
lucubrações metafísicas de igual jaez.
Sim, é uma atitude liceal para não dizer pior.
E, creio profundamente, que tudo o que eu registe nessas benditas redes sociais, entram debaixo do diáfano manto do lápis azul que esconde a realidade que não se quer ver. Já se sabe que este tipo de atitude, também conhecido como esconder a cabeça na areia, dá resultados duvidosos, mas enfim, se preferem viver assim, que se poderá fazer?

E, meus poucos, mas muito bons leitores deste espaço, não foi por coisas que lá escrevi, que lá disse, ou o que quer que fosse lá ( este lá, bem entendido, refere-se às redes sociais), é o resultado de uma atitude pensada e ponderada. E o juízo lançado, tomado a firme com pancada de martelo, feito sentença que não poderá recorrer a instâncias superiores, pois se trata do tribunal da alma, é de CULPADO! Sim, sou o culpado. Hei cometido um crime de lesa qualquer coisa e como tal deverá o criminoso ser banido. Para além de estar todo o santo dia de costas viradas para o plenário de juízes, será banido de todos os verdadeiramente extraordinários acontecimentos que nalguns time-lines do facebook se passam.

Por mais ar anedótico que tente dar a esta circunstância, isso acontece no século XXI, com pessoas com perto de 50 anos. Isto é confrangedor. Medíocre. Rude. E, sobretudo, muito mal educado.


Depois de um café


Ficou uma mancha na folha de papel. O lápis fez o resto.

Mais um


Mais bonecada



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Lendo 234

"O amor a ninguém dá honra, e a muitos dôr."
Fernando Pessoa in Provérbio Populares, Ática, Lisboa 2010, pág 49

E o amor honrado?