domingo, 31 de dezembro de 2017

Poesia de 1978

Um brinco é redondo
E não tem fim
Esse é o tempo que sou
Teu amigo

Estas palavras em forma de poesia foram escritas por mim em 1978, portanto com 13 anos.
A nota curiosa que já nesse tempo a minha ideia circular do tempo, bem como o amor ( ou o afecto) é algo que não tem, também, fim. Uma vez conquistado, atinge a eternidade.

Obrigado Isabel Viegas e Costa, amiga a quem escrevi estas palavras, e de quem tenho a satisfação de chamar amiga há mais de 40 anos.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

desenhos






Do tempo

O tempo passa igual...
Longamente...
E são ciclos que se repetem

Em meu redor

Sentado num jardim
De um cemitério
Onde almas mortas
Se matam para a eternidade.

Afastam qualquer Sol,
Luz ou pensamento.
São meros instrumentos
Maquinalmente instruídos.

São o silêncio instalado
De um vazio declarado
Sossobrando para o tédio
Este tempo arrastado.

E cumpro esta pena.
Consciente que é
O castigo de ser
Aquilo que sou.

Da poesia

Antes que o livro se apague
E as frases fiquem
Soltas das palavras
E do que elas querem dizer,

Antes de tudo isso,
Vou até mim
Descascando mais um pedaço
Daquilo que está no meu sentir.

E dentro dessas cascas descascadas
Saem, aos solavancos
Conjugações e reflexões
Que se desembrulham

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Vou-te ensinar a desenhar

Dizia-me um amigo
"Vou-te ensinar a desenhar,
Regras simples,
Como as proporções..."

E, curiosamente,
O que me fascina
Acima de tudo
É a por porção...

Uma após outra
A solo
Ou em pares
E, até, triangular...

Entreter a mão




Mais umas queixinhas da grupeta

O pior burro é aquele que não quer ver. Este é um daqueles ditados populares que nunca foi desmentido. É, aliás, variadíssimas vezes certificado e nomeado a ilustrar situações da nossa vida. Não se trata de especial inteligência, de apelidar alguém de estúpido ou qualquer outra falha nas faculdades. Não é, também, por birra, vontade de arreliar ou outra mesquinhez similar. Não, nada disso. O que é então?

Na maior parte das vezes vem com um envolvimento emocional cujas raízes, ou motivações estão numa fragilidade emocional. Um caso ilustrativo:

Alguém beneficia outrem (pode ser do mesmo sexo, ou de sexo diferente) por óbvias preferências afectivas. Eu prefiro o meu filho porque ele é meu filho. Caso extremo. Mas coloquemos numa posição em que vou preferir uma pessoa do mesmo sexo pela longa e profícua amizade que os une. Entre escolher essa amizade ou outrem igualmente capaz, ou até mais capaz para desempenhar uma qualquer tarefa, reside nessa amizade. Seja por não querer ofender o amigo ou para não se expor a uma terceira pessoa.

E, quando chega ao coração, então o caso fica completamente entornado, podendo, até, chegar à máxima de quem feio ama bonito lhe parece.

Ou seja, e em resumo, não são os outros que estão contra, ma, e talvez, a nossa consciência que não está apta a admitir a nossa motivação.

Vale de alguma coisa isto? Não, de nada. 

E chegámos ao número da besta


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Lendo 247

(...)
"Eu sou a minha poesia"
Maria Teresa Horta in Poesis, DomQuixote, Lisboa, 2015 pág 25

Para escrever a poesia que vou escrevendo leio, também, outras poesias. E, inevitavelmente, vou cada vez percebendo mais e melhor, não só de poesia, mas, e sobretudo, da minha poesia e do que escrevo.
E, claro, tudo o que escrevo, sou eu, logo, também a minha poesia.

Após almoçar


Caneta e água


Desenhos ao acaso

Almoçando num balcão


Um dos balcões onde se almoça 


E depois de almoçar


Um colo alvo

Veio com um casaco de fecho cosido. Deixa, apenas, o colo alvo, vagamente sardento que nunca se saberá se da idade ou de feitio, vagamente sugerido. E eis que, numa providência divina é exibido à minha visão clara e inequívoca um palmo mais messe mesmo colo... E, de alvo passa a ser magnético e incandescente de um calor provocador.
O instante de visão, mínimo em tempo cósmico, é imenso no tempo voluptivo. E não esse colo específico, são todos.
Sempre que, e sem expectativa, se abre a possibilidade de ver o invisível acende-se a alma num apetite predominantemente visual e quase se torna numa fixação. Imediatamente se assume a posição de felino que aguarda atento a sua presa. Olhar fixo.
E, aos pouco tudo cessa, passou o solavanco e seguimos a viagem do nosso dia. Tudo muda... tudo não, o estado de alerta não adormece.

E se eu fora outro?

E se eu fora outro,
Nado na mediania
Sem o mais,
Nem o menos.
Um, simplesmente,
Tal como qualquer outro...

Mas como ser outro,
Esse outro se
De tantos outros que conheço
Nenhum é, assim,
Simplesmente?

Cada um é um tal
Que se vê diferente.
E, na multidão onde
Todos o vêm igual,
Ele sabe-se que é
Aquele, o tal.

E, ao que entendi,
Mesmo tentando ser outro
Acabo a ser mesmo eu
A fazer-me de outro.
E sempre o mesmo
Sempre.

Fez mais frio

Fico cada vez mais longe
Não sei se de mim
Se do mundo....
E falha a vontade
De unir estes pontos.

Tem que haver um dia
Que o dia se faça
Mais forte que a noite.
Tem que haver uma vontade
Mais forte que a distração

Raiando o erotismo

Deixa-me saborear os teus lábios,
Essa carne tenra e aveludada,
Laboratório alquímico
Da ambrósia ambicionada

Deixa-me ouvir a pitonisa
Que se esconde na tua boca
E, ao ouvido, me segreda,
Humidamente o nosso futuro

Deixa-me sentir a tua pele
Sobrepor-se à minha
Sem espaço para nada mais
Que todo o conhecer.

Deixa-me ambicionar
Ser esse pulsar acelerado
Que me enche de calor
E me deixa exausto.

Um poema

O passado não volta!
Só as memórias ficam.
E algumas
Eternizo-as

Sempre e para sempre.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Foto comentada


Uma Lisboa que está a perder-se. Uma porta com a vigia aberta para se por a conversa em dia com a vizinha ou apenas com quem passasse. A porta pouco mais em que o metro e sessenta, sendo, como é claro suficiente para quem passa e para quem, de dentro, pouco passará do metro e meio. Virá o alumínio e a "modernização" parametrizada por uma norma europeia e, desgraçadamente, seremos obrigados a ter a identidade europeia. Deixaremos de ter uma nonagenária de buço vigoroso...

sábado, 23 de dezembro de 2017

Quando partir

Quando partir,
Seja desta vida,
Seja da tua vida,
Tomara que não sintas
A falta de mim
Como eu vou sentir
A falta de ti.

E será assim,
Para ti, um livro fechado.
Um ponto final.
E para mim,
Um livro sem fim,
Apenas reticências...
Um conto de encantar
Com uma princesa a salvar,
Ficando feliz para sempre.
Uma vida ideal,
Onde a fusão alcançada
Vale mais que a razão prometida.

E quando partir
Vou num volto já
Onde te espero.
A esperança é eterna.
E por isso posso sempre partir
Porque não me parto de ti.

Um poema

Sou esse outro que procuras...
Sim, e serei qualquer outro
Até que me encontres.

Natal

Há um menino no Natal
Que nasce nas palhas
E haverá outro
Que pode nascer
Onde cada um quiser.

É a volta eterna que torna
Ao centro do que importa

Um Santo Natal

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Boas notícias

Os dias voltam, a partir de hoje a crescer. Pode vir o frio, a chuva e tudo o resto que caracteriza o Inverno desde que venha, também a luz do dia!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Lendo 246

"Ficamos sempre agarrados ao passado, como se tudo o que nos tivesse acontecido fosse mais importante do que aquilo que nos pode ainda acontecer. O passado é sempre melhor, porque já aconteceu, já passou. O futuro é mais incómodo porque é desconfortável não sabermos o que aí vem."
Fernando Alvim in Não atires pedras a estranhos que pode ser o teu pai, Cego Surdo e Mudo Edições, Lisboa, 2010, pág 13

No entanto o Homem é o único ser que se futuriza....

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

It was all a suggestion

And I was there,
Face to face,
Eyes to eyes,
And,
Oh! If I wanted
Lips to lips with you
I wished hard...
A special tune
And a different mood
That could bond us
As an eternal flashing light

And I stood there
A hopeless tear
With no eye to cry from.
Served with no past
Neither future to be
Just a single nothing
Dressed as a feeling.

How could I say
And what could I say
If words became meaningless.
It's a dead end us
'Cause never even started.

It was all a suggestion

Meditação dos tempos actuais

Vivemos inundados, e cada vez mais, em equívocos. Durante anos a fio acordávamos numa série bastante clara e inequívoca sobre a realidade homem e mulher. Duas realidades distintas e como tal perfeitamente assim admitidas. E, nessa observação, aceitávamos uma longa série de verdades e, até, pressupostos. Por exemplo:
- O homem dá primazia à mulher na entrada.
- O homem levanta-se para dar lugar à mulher.
- O homem espera pela mulher ( nas mais diversas variantes que a espera pode ter).
- O homem protege a mulher.
- O homem acompanha a mulher.
- O homem caminha ao lado da mulher, mas pelo lado menos seguro.
- Quando se sentam, o melhor lugar é para a mulher.
- O homem tira o chapéu na presença de uma mulher.
Etc. Estes hábitos obedeciam a uma cortesia para com a mulher que, curiosamente se relacionava não só com ser cortês mas, e também fazer a corte, aplicar a sua sedução sobre a mulher.
E este jogo tinha do lado das mulheres a mesma troca. Eram especialmente mais gentis, mais solicitas, mais generosas, mais atentas e observavam as necessidades do homem e aplicavam os seus esforços no sentido da sua satisfação.

Agora caminhar-mos em direcção ao individualismo egoísta, não só perdemos o amor, como o sabor de sal na vida. Passamos a ser uns animais que, por vezes, se encontram para copular. Mesquinho e pequenino.

Lendo 245

"Não tenham dúvidas, na nossa vida somos culpados de tudo, até mesmo da falta dela."
Fernando Alvim in Não atires pedras a estranhos que pode ser o teu pai, Cego Surdo e Mudo Edições, Lisboa, 2010

O tema da culpa é recorrente no pensar. Procura-se comummente a raiz da acção, a causa mais que objectiva, a implícita ou intencional do acto. Sobretudo se do mesmo gera erro ou consequências menos agradáveis. A tendência, a regra, a quase totalidade das pessoas usam e abusam de atribuir a causa a algo exógeno, isto é, alheio a si mesmo, um pouco, por ventura, com a ideia de mitigar esse erro. "Se não fosse A, ou o B ter ...". Mas não, a maior parte das vezes a culpa é nossa pois é nossa a acção.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Declaração de amor

Menina:

Desde a magana da última ceifa que ando com esta metida nos cornos. Ora se a menina me ama e eu amo a menina, passe para cá um casal de beijos nos beiços e deixasse de lérias com o mê coração que abana por si como um chaparro numa noite de trovoada.

Menino:

Eu amo-o tanto como a porca ama a faca, mas sendo assim vou já de arriba pedir ao mê pai qu’eceite.

Adaptação de um dizer popular alentejano que ouvi há décadas em Vila Viçosa e decorei.

Meditação matinal

Vivemos um tempo bipolar. Os afectos dominam o olhar sobre a realidade.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lendo 244

“Os adultos, à espera de um amanhã, movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou, no máximo, a semana passada. No resto não querem pensar.”
Elena Ferrante in A amiga Genial, Relógio de Água, Lisboa, 2014, pág 21

Este pedaço de texto, apesar de etr um sentido especial em si, autónimo, ganha outro sentido quando lido a sua sequência

“As crianças não conhecem o significado do ontem, do anteontem, nem do amanhã, tudo é isto e agora .”

Quer tomado na dinâmica do adulto, que pouco apela à sua experiência, ao fluir do tempo, mas apenas ao que lhe resiste na alma mais sensorial. Quer na dinâmica do homem, na sua globalidade, em que se aceita que a evolução de cada um nós reside na conquista de passado, bem como na capacidade de nele aprender e reconstruir-se.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Com uma ponta de humor


30 dinheiros e 30 anos

Uma rapariga muito jovem mas já adulta, quando todo o seu corpo explode com as hormonas que lhe irão dizer, daí a algum tempo, que a sua natureza lhe pede um compromisso para a vida, olha-se ao espelho e sente-se completamente confiante. Ambiciona uma carreira num mundo de glamour e de palmas. Ambiciona o mundo dos palcos. A começo faz o usual trabalho de figurante e aqui ou ali uma fala de passagem. É uma decoração do cenário, bonita decoração, exuberante, mesmo decoração. Não tarda, por isso mesmo, a ser notada. E, um dia, é chamada para uma entrevista com um produtor para um filme onde ser a segunda figura.
Dirige-se para a casa do produtor e é recebida por este que se apresenta apenas com um roupão sem mais nenhuma roupa. Depois da conversa Ah, desculpe, se calhar vim a má hora, ou será que vim cedo demais, etc, lá acaba por entrar e ter a referida entrevista. Nem vale a pena colocar mais acrescentos à cena pois não é difícil de prever o fim. Ela cede, podem até ter ficado ambos satisfeitos e o filme é feito.
Anos mais tarde, uns trinta, ela, rica e com a carreira feita, vem acusar o produtor de assédio...
Temos, portanto, uma virgem juvenil, absolutamente inocente, que, de tão chocada com a "proposta" acedeu desenvolver-se em concupiscências para obter o papel que ambicionava. Não se vendeu a um papel, não trocou o seu corpo por um trabalho, não, foi, coitada, assediada. E só 30 anos depois é que se lembrou de ter sido assediada.

Vou ali buscar um pano encharcado e já volto... Se a carne é fraca, se se vende por 30 dinheiros, não culpe o comprador. Judas, depois de ter recebido esses trinta dinheiros, enforcou-se com remorsos. Não esperou 30 anos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Mais uma curta

E ele corria, veloz, até ao encontro dela e dizia-lhe:
- Temos que ser! Somos um para o outro. Somos o que foi para estar junto. Somos o mesmo. Temos os mesmos genes.
Ela olhava-o, com os olhos húmidos.
- E é por isso mesmo que me apartarei.
Desolado e desmanchado
- Porquê? Não consigo entender...
- Preciso de sal, de pecado, de ambição, de diferença. Que caminho haveria a fazer que não houvesse, de algum modo, já sido feito?
- Mais forte? Mais seguro?
- E o que ficava por fazer?
- Não era o que importava
- Como saberias?
- Somos sempre um escolha
- Não sei
Sem voltar as costas pergunta-lhe
- Precisas de um não...
Ela baixa os olhos  e pensa que até nisso ele sabe que eu isso.

Amor

Porque há palavras,
Há expressões,
Ideias e conceitos

E porque há vontade,
Paixão
E entrega.

E porque há sonho,
Futurização
E vontade de amanhã

E porque há impulso,
Um passo em frente
E desejo.

E porque se suspende o tempo
No momento do encontro,
No selo da união.

E porque há tudo,
Tem que haver
AMOR

Espero-te

Espero-te à meia volta,
Quando decidires voltar

Quero ser um optimista

Quero ser um optimista
E acabar um poema
Com um sorriso
Que derreta a alma.

Quero disfarçar a bruma
Do Inverno que se me instala
Onde a luz falece-se
E a humidade se distende

Os dias mingam-me a esperança
Diluem-me a vontade e
encurtam-me o tempo.
Quero ser um optimista


Um poente

Há um poente que me leva...
Sigo-o na luz
Que ganha amarelos
Que se alaranjam...

Sigo-o na esperança
De haver um amanhã
Que dê sentido
A tudo o que já foi.

Sigo-o na magia
Que nos amarra para a ilusão
Que é o Sol que se esconde
Na esquina do horizonte.

Sigo-o dormente
Olhando-o fixamente
É um tempo que passa
E não retorna, nunca

Sigo-o até à penumbra
Como se fosse um silêncio
Que se instala devagar
E serenamente...

Há um poente que me leva
E eu vou todo nele.

Entre o desenho e banda desenhada


Mais uns desenhos




terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Corre Outono, corre

Ainda agora o Outono corre
Com as folhas a caírem...
Assim, em debandada geral...
Simplesmente soltam-se
E seguem o caminho do ar.
Já nada as prende
E menos as justifica.
E vão...
Desfazendo-se,
Desaparecendo
E alimentando a chão.
As árvores despem-se
Deixando ramos hirtos e retortos
Que deixam perpassar os raios oblíquos
De um Sol já cansado
E gasto de tanto Verão.
E corre esse tempo,
Este tempo até ao nascimento,
À volta do princípio do tempo,
Da refundação do ciclo
De mais um ano.



Gosto bastante


Despenteado


Três quartos


Comendo em pé


rostos



Bonecada solta sem história










Lápis apenas


Tinta permanente e depois água




Mafra


Desenhos enquanto o tempo passa