terça-feira, 14 de novembro de 2017

Não sou boxer

Há frases,
Por vezes somente uma palavra,
Que chegam como socos...
Murros secos,
Fortes e violentos
Porque foram ditas com crença.

Há instantes piores que a mais negra noite.
Gelam todo o sangue
Secam a alma,
E deixam uma brutalidade,
Uma hostilidade,
Uma impossibilidade

Não sou boxer

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

poema sintético

Fazes tricot das minhas intenções.
Fazes e desfazes a mesma linha
Nunca está como queres
E cada dia a linha é outra

Onde quer que vás sabes que t'acompanho

Onde quer que vá
Sabes que m'acompanhas,
Que contigo parto,
E em ti permaneço.
Aquilo que jamais saberei
É, quando partes,
Quem é que te acompanha...

E não podendo ser eu,
Deixa-me, pelo menos,
Ser a ilusão de ser
E conversa-me
Como se tudo assim fosse

Conversa-me sobre tu,
O que me fascina,
O que me encanta,
O que me distrai
E o que me enternece
Diz-me nas tuas palavras
O que sei de ti
Diz-te para mim.

E quando te apartas
Fico-me também aí
Nesse outro lugar
Supondo-te
Imaginando-te 
Vendo-te
E sentindo-te
Como penso que sentes
Quando te apartas...

Onde quer que vás
Sabes que t'acompanho

Poesia de esplanada de café

E passam...
Seguidas
E intervaladas
Em grupo
Sozinhas
E até penduradas
Corpos e corpos
Movimentos animados
Que fazem as suas vidas
Alheadas de mim
Como eu delas
Somos, apenas,
Cenários mútuos.
Corpos com intenção
Cada um com a sua,
Algumas cruzadas
E outras desligadas
E somos nada,
Uns para os outros,
Figurinos de passagem
Apenas...

E como poderíamos
Em cada instante
Conter toda a cada uma
Das vidas com que nos cruzamos

Somos, apenas,
Para os que nos animamos
Ainda que haja outros
Que não desejamos...

Frases com potencial

Você não é uma animação, apenas matéria animada.....
ou o inverso
Você não é matéria animada, você é uma animação.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Herói e heroicidade

Andava sempre à procura de heróis, pelo que todos os seus actos eram vividos com essa expectativa, a de estar a cometer um acto heróico.
Rapidamente a heroicidade recorrente redunda na mediania persistente. Ainda assim, insistirá sempre.

Rancor

Carregada de rancor, avança pelo corredor com as mãos a segurarem um copo de café e na outra um copo de água. Com dificuldade consegue contrariar a vontade de esmagar os copos. Não fosse queimar-se com o café e ter que limpar o chão, tudo estaria irremediavelmente espalhado no chão e, se possível bem salpicado. Um ódio irracional e quase primordial invade-a e pulsa-lhe sangue para as órbitas carregando ainda mais o olhar. Num ápice, e sem ser necessário qualquer razão estará capaz de explodir numa qualquer cena que, irremediavelmente terminará numa descontrolada crise de choro.
Duas questões subsistem. Definir o culpado e definir a razão da culpa. E, para o caso, nem é preciso ir muito longe, basta recorrer aos ódios de estimação e haverá sempre razões de sobra.
Há razões cósmicas que perdem a necessidade de serem racionalmente comprovadas, são motivos que estão para além do que quer que seja que se possa acrescentar ou justificar. Há quem lhes atribua a motivação como actos de fé, residindo, pois, numa zona de adesão por uma estrutura emocional que gera energia suficiente para amar ou odiar, como o presente, sem mais. E, com o tempo, este ódio acaba por se auto-alimentar num crescendo onde tudo e qualquer coisa, até uma ausência de haver coisa serve para crescer esse sentir. E, nesse tempo decorrido, a ficção vai ganhando a estrutura de base que nunca existe para sustentar esse sentir.
Há, também, quem afirme que esses ódios de estimação, podem esconder a castração e negação do sentimento inverso, ou seja, o esforço de contrariar uma afeição. A observação de equilíbrio de energias pode ajudar esta teoria, pois que a força negativa de contrariar um sentimento positivo obrigará a que o corpo se liberte dessa energia.

Mais tarde volta à máquina de café e, continuamente rancorosa, prefere não cruzar o olhar e confirmar o caminhar, passo após passo, certificando que caminhando assim não levanta o pensamento para outros temas.

Há, ainda, uma terceira via. A questão da especificidade do género feminino que num nada consegue, em nanossegundos produzir a mais infernal tempestade tropical. Pode ser, sobretudo porque estas, como está comprovado cientificamente, acontecem pelo aquecimento excessivo de algum ponto a milhares de quilómetros de distância. Uma versão mais polida da explanação anterior, só que vagamente sexista.

Curiosamente uma conversa com umas graçolas de entremeio acabam por funcionar como aquele pequeno objecto da panela de pressão...

Pensando vidas

A volatilidade das relações reflecte várias alterações como o homem vê o mundo e nele se projecta. As separações multiplicam-se e poucas resistem ao tempo. Seguramente que é uma alteração da consciência do homem que tenderá a sobrepor a sua necessidade de prazer a qualquer outro objectivo.
O ponto, contudo, que me preocupa é a fertilidade. Cada vez mais apenas as primeiras relações procriam, ou seja, só num relacionamento que acontece na idade mais fértil do casal gera filhos, que rondará, grosseiramente, entre os 25 e os 35. Após esse tempo, tende a ser diminuto a gestação em novos casais. Ora se um dos elementos deste novo casal ainda não gerou a sua procriação tenderá a exercer essa função a ou aos filhos da relação anterior. Lastimavelmente conheço algumas pessoas que cabem nesta fotografia. E, por azar, chegaram tarde.

E, escudando-se em todas as razões, acredito que alguém, nestes casos, passará o resto da vida a suprimir uma falta. É natural ao bicho homem procriar e zelas pelas suas crias.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Mais uma curta com spicy

O pequeno murmúrio que sopras ao meu ouvido pode conter todas as palavras mas o que mais me diz, e me toca, é a proximidade dos teus lábios que, humidamente deixam entrar um calor capaz de me provocar um arrepio de cima a baixo, retesando a pele e deixando-me pronto para o jogo eterno.
Com o braço percorro as suas costas para a prender junto a mim. E os meus olhos caem completamente no sempre generoso e confortável decote onde as minhas mãos, zelosas, se prontificam para os recuperar.
E, no escuro dos olhos fechados voltamos à cumplicidade da história que se repete desde o princípio do tempo, suspendendo-o.

ouvido por aí

"Oiço a primeira música de Natal do ano e pergunto-me como podería ser esse Natal se fosse o nosso?"

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Voltar aos aforismos

Curiosamente é no chão do cemitério que melhor nascem as flores...

Aguarela pré outono


desenhos ao acaso




Primeiro desenho a carvão, depois uma aguarela



entreter as mãos



Mais cartaz


Brincadeiras gráficas




domingo, 5 de novembro de 2017

Iniciando


Estava estendida ao Sol bebericando um sumo pela palhinha longa e fina. Estendia-se toda abanando com um frenesim nervoso as barbatanas da cauda. Adorava ver as pequenas pedras e pedaços de rocha a saltarem e esvoaçar, Deitava a cabeça para trás e batia as sua longas e finas barbatanas laterais como se tivesse a bater palmas. Era, aliás um gesto que fazia sempre que se ria ou estava satisfeita. Podia ser apenas um palma sonora, ou várias repetidas. Aplaudia-se basicamente. Depois deixava as barbatanas paradas, focinho meio inclinado e agradecia com os tremelicar das pestanas as palmas recebidas.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Liberdade

Acabo de ler uma entrevista a um homem livre.
Com um discurso fluido e fácil, deixa, entre as palavras ditas, escorrer a urgência de homens livres no mundo.
Há sempre o líder a agradar, a seguir, a bajular.
Há sempre que agradar, a que preço for.

E, nessa liberdade existe tanta serenidade.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Novamente a política

Depois de algum afastamento, reencontro-me com a política através da participação nas eleições do poder local. Desde sempre defendi, e agi, que a nossa intervenção no que nos cerca deve ser constante e permanente. Nós fazemos parte do mundo que nos rodeia e temos a obrigação, dentro das possibilidades de cada um de intervir de modo a se poder chegar, naturalmente, a um mundo melhor. A participação individual é, aliás, a chave de tudo.
Cada individuo tem uma determinada visão, uma expectativa, uma vontade para o que o rodeia. E, apesar de encontrar muita gente que o acompanha nesses mesmos propósitos ideais, é salutar que se permaneça suficientemente afastado para garantir a sua liberdade. Se se deixar subjugar pela opinião dominante do grupo a que se junta, a prazo, deixa de ser um individuo e só agirá em função do grupo, deixando por isso, espaços para que outros se instalem, e, como tal, interfiram ainda mais nesse seu espaço de intervenção. E esta é a ilógica dos partidos

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Ah... Soubesse do que falo!

E, para lá de ti,
será que consegues
Levar-me para aí?
Para esse encanto,
Entre todas as nuvens,
Onde, e apenas aí,
Onde o sol nunca de põe,
Onde vivemos esse momento,
Esse suspenso
De eterno encanto,
Onde sobram as palavras
E não falta o sentir,
A proximidade única
De ser e estar
Se sintetiza nesse instante...

Ah... Soubesse do que falo!

domingo, 22 de outubro de 2017

Um diabo

Quero ser o teu diabo,
Aquele que insultas
Que te tira do sério
E que maldizes
Como o infernizas
E que, no silêncio da noite,
Te molha os lábios,
Te preenche o desejo,
E, no escuro,
E silenciosamente,
Te devolve um sorriso.


Poema

Tens o tempo,
Como se fosse teu,
E deixa-lo escorrer...
Passivamente entre os dedos.
Mantens esse tempo
Que foge a outro

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Fim do interregno

Durante anos convivi, com problemas e dilemas interiores, uma situação para a qual não não encontrava motivo, razão ou justificação. A coisa conta-se rapidamente:
Dos meus tempos adolescente ganhei, a um tempo, um impressão clara e indisfarçável que era mal vindo, que era pessoa a evitar, que não servia para amigo. A impressão incómoda começou numa pessoa que tinha por minha amiga e seguiu-se à sua família directa, pais e irmãos. A coisa foi de tal modo evidente que recebia, de quando em vez, expressões de amigos, amigas e pais destes o seu apoio, confessando que não entendiam a razão de ser para tamanho desagrado que chegava a ser mal educado. Eu encolhia os ombros e também não percebia.
Percorria mentalmente os meus passos, as minhas palavras, o que não disse e poderia ter dito, uma frase deslocada, um ausência de cortesia, enfim, perguntava-me vezes sem conta: O que é que eu fiz? E, passados mais de trinta anos, insistia na mesma questão de sempre. Nunca tinha encontrado a resposta para tanta hostilidade gratuita.
Muito recentemente, e por questões do foro político, uma tia dessa amiga, sem o saber, ofereceu-me a chave que me faltava para este dilema. Diz, a determinada altura, o seguinte mimo:

"És mesmo burro e o mais grave é que pensas que és um grande intelectual. Haja paciência."

Ora do que me lembro da dita tia é que grandes deduções não eram o seu forte. Nem isso nem tomadas de posição. Era um pouco voluntarista assim como dada a uma certa insensatez. Uma pessoa normal, portanto. Ah...e ouvia com especial atenção a vox populi familiar que reforçava o coro com a sua voz.
Voltando, então, ao meu drama pessoal, vejo que vivi a amargura de um drama interior sem ter o mais pequeno fundamento. Claro está que posso ser sempre um pouco parvo, ou burro, ou despropositado ou tudo junto com mais uma ou outra pitada do que quer que seja, mas uma coisa não posso ser responsabilizado. É de alguém se sentir menorizado e achar que eu penso que sou um grande intelectual. 
Que grande alívio.
Com este assunto resolvi um quebra-cabeças e perdi uma pesada canga.

Nota final. Ser desprezado por se ser intelectual acaba por ser um elogio. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Depois

Depois....
Depois de depois.
Chega um tempo de vazio
Quando o ódio já não resulta
Já não preenche espaço,
Ou tempo ou sequer emoção.
Passou a um modo de estar,
Um desconsolo permanente,
Um zeloso buraco que persiste
Em fazer-se modo de vida.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

domingo, 10 de setembro de 2017

Poesia política do século XXI

O cerco

Venho aqui pedir desculpa
de não ser evoluído,
apesar destas campanhas
na rádio, na televisão,
em toda a parte, insistindo
na urgência do assunto…
Eu não consigo gostar;
- não consigo mesmo, pronto.

Sei que pertence ser gay,
toda a gente deve ser.
Mas eu, lamentavelmente
não sou como toda a gente;
Como aconteceu... não sei,
peço desculpa por isso,
mas confesso: sou… diferente.

Sei que vos pode ofender
esta minha enfermidade,
pois um gajo que assim pensa
hoje em dia, não tem nexo;
deveria ser banido,
expulso da comunidade.

É uma vergonha indecente
Gostar de mulher, ter filhos
Casar, afagar, perder-se
Com pessoa doutro sexo!

Uma nojeira repelente;
Dar-lhe, até, beijos na boca
em público! E declarar
Esta sua preferência
Que eu nem sei classificar!
Tenho uma vergonha louca
E desejo penitência
por tal desconformidade,
retardamento, machismo,
doença, fatalidade!

Já tentei tudo: - inscrevi-me
em saunas, aulas de dança
cursos de perfumaria
origami, greco romana,
ioga - para ter ousadia
boxe - p'ra ganhar confiança...

Mas quando chega o momento
De optar… sou… decadente,
Recorrente e insistente.
Opróbrio raro e demente,
Ver uma mulher seduz-me,
Faz-me vibrar, deslumbro.
Vê-la falar, elegante;
Vê-la deslizar, sensual
Como vestal, deslumbrante
Seu peito assim, saltitante
Sua graça embriagante
olho com gosto, caramba,
lamento ser tão ...normal.

Mas eu confesso que sinto
- neste corpo tão cansado
Que da vida já viu tanto...
Ainda sinto um desejo
Que m' envergonha bastante
Por ser já tão deslocado
tão antigo, assim tão fora
do mais moderno critério.
Valia mais estar calado
Mas amigos, já agora
Assumo completamente:
- Tenho esse problema sério.


Nunca integrarei partidos
Onde não sou desejado.
No planeta das tais cores
não tenho dia aprazado,
nem bandeira, nem veado,
nem “orgulho” especial!
Sou mesmo do “outro lado”
dito "heterossexual"
e já me chateia um bocado
Ter que dizer, embaçado,
que me atrai o feminino
e sou apenas “normal”!
- e, portanto, avariado.

Mas… mesmo assim, - saudosista,
imensamente atrasado,
terrivelmente cercado,
conservador nesse ponto,
foleiro, desajustado...
perdoai-me tal pecado
- Não me sinto ...assim tão mal!

Pedro Barroso

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Aforismos

Somos apenas os afectos que vamos deixando e construindo ao longo da vida.

Meditando

Ortega Y Gasset disse “Nós somos nós e a nossa circunstância.” E somos essa circunstância no tempo e em cada tempo. Somos sempre devir.

Juventude

A uma jovem adolescente ou mesmo nos vinte anos que exibe um corpo próprio dessa idade, bem como a frescura e o encanto que lhe são devidos pela natureza logo, logo surge uma voz que diz:
- Está igual à mãe. Impressionante.
Para lá da verificação, que pode ser incontestável e absolutamente evidente, surge uma mínima luzinha que pergunta:
- Será, também, igual à avó?
- E à bisavó?
E, de repente, a beleza, o encanto, a aura, perde a propriedade da progenitora e começa a difundir-se em todos os elos genealógicos, em todas as mulheres que na sua juventude encantavam com a sua graça, as sua formas delicadas, com o peito firme, com a pele suave e delicada...Já não é a mãe a ver-se ao espelho, a re-exibir-se e voltar a encantar-se consigo e o seu passado, são todas as mães. São os ciclos do tempo.
E todas as mulheres que lhe antecedem na hierarquia genealógica admirando a jovem, sentem-se felizes por ela e, individualmente, por cada uma, pelo seu passado.

A juventude tem um encanto único moldado no paraíso e na terra encantada do sonho.

lapsos

Sinto um movimento perto de mim e, ao fundo, o meu nome entra nos meus ouvidos. Retiro os auriculares e rodo a cabeça no sentido em que o som poderá ter vindo.
- Bom dia. Olha acabo de receber informação que fulano virá mais tarde, pois passou mal a noite. Podes assegurar as tarefas?
- Sim, claro. E tu?
- Como?
- Passaste bem a noite?
- Hahhhh, sim, eu durmo sempre muito bem.
E termina a frase já a distanciar-se para o seu local de trabalho.
Eu fico a pensar que sorte, pois eu não tenho essa facilidade. Tem dias. Uns bons, outros estupendos, outros péssimos....
Curiosamente, e depois de alguma reflexão, entendi que leu na minha pergunta uma questão à sua consciência...

Ás vezes é difícil ser gente social.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Aforismo

Não discutas com uma mulher, sobretudo quando ela está de cabeça perdida. Apenas lhe estarás a dar argumentos que ela distorcerá na próxima discussão em que estiver com a cabeça perdida.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Piadola

Estou aqui para te dizer uma, mas a verdade é que quase vejo a dobrar, pelo que me ficarei pela metade. Amanhã digo o resto...

Bela foto

Fui à procura de ti
Por via de uma bela foto
Em que, indubitavelmente,
Te vejo feita deusa, sereia ou musa.

Esperei, confesso, encontrar,
Não o intrincado novelo de confusões,
Nem a auto dramatização
Nem, sequer, a vitimização.

Contava, é seguro, encontrar
O que a foto mostra,
Isso, um ser humano,
Uma alma.

Mas, afinal,
Tudo não passa de engodo
Para prender a estima alheia
Para afagar a minha.

Bela foto.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Curta

Ou é como eu quero ou não é.
Aos poucos as coisas deixaram de ser.

Lendo 243

"- Sim, claro mas enerva quando se confunde relações profissionais com quezílias pessoais.
- Amélia sempre foi assim será sempre assim em todo o lado, as pessoas são pessoas."

Rodrigo Guedes de Carvalho in O Pianista de Hotel, Dom Quixote, Lisboa 2017, pág 261

Voltamos, aqui, novamente à mesquinhez do ser humano. Incapaz de ser ver no espelho, de se encontrar com o seu lado não sobrevalorizado, para não se confrontar com o que precisa de trabalhar para ser um melhor ser humano, entra sem rodeios em disputas inacreditáveis. Muitas delas com prejuízos para si mesmo. 
O mundo do trabalho está carregado de gente que é incapaz de erra grosseiramente e quando alguém sugere ou refere mesmo o erro, em vez de olhar para o assunto, gera uma guerra pessoal cujo fim é tão somente manter o seu estado de alma imaculado. Soluções? Não existem. As pessoas são pessoas.

Lendo 242

"A mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos, e não descansará, nunca, enquanto não eliminar o animal raro que lhe faz sombra, que não deixa dormir, a mesquinhez baixinha e insegura é eternamente agitada porque o animal raro, simplesmente, existe. Todos os outros pecados mortais, combinados, são uma mera brincadeira comparados com a inveja."
Rodrigo Guedes de Carvalho in O Pianista de Hotel, Dom Quixote, Lisboa 2017, pág 233

Podia dizer tantas outras coisas mais, mas a frase condensa, e muito bem, a razão profunda da maior parte das motivações dos diferendos. Não se luta, não se discute, não se debruça sobre um tema. Inveja-se e, depois, corre-se a todos os tipos de jogos baixos para suplantar esse nada.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Novamente

Num imenso enfado, onde repetia mecanicamente as tarefas de sempre e acumulava processos acabados que iriam para uma pasta de cartão castanho e se colocava ao lado de outras pastas que íam enchendo armários até ser altura de os atar e enviar para grandes armazéns onde repousavam sobre o pó de vinte anos... Fazia com os olhos semi cerrados com um sonolência febril de quem se esquece de tudo. Olhava para os lados e, assustado, havia quem estivesse satisfeito com o que fazia. Olhei para baixo, para os meus papéis e revendo-os um a um, levantando-os, cheirando-os, sentido mesmo o paladar... procurava onde é que podería alguém encontrar algum motivo para ter satisfação nesta coisa mecânica, vazia, repetitiva e sem novidade...
Volto a levantar os olhos, marejados de desespero, e noto que mantém um sorriso estúpido e imbecil na cara.
Não é possível.
Levanto-me discretamente como se fosse à casa de banho e passo junto a esse colega. No meio dos seus braços, escondido sobre o tronco arqueado o mesmo livro de banda desenhada da escola secundária.....

Sou um sonho mau que me persigo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A vida alheia

Todos os dias quando entrava no autocarro fazia os mesmos movimentos de sempre, tirar o passe, passar na máquina e seguir pelo corredor e sentar-me no primeiro lugar que encontrasse. Preferia quando me sentava em frente a outros passageiros, frente a frente. Durante os 20 a 30 minutos do percurso aproveitava para inventar histórias, conteúdos e vidas que se enquadrassem nas caras das pessoas.
Lembro uma rapariga nova, talvez vinte, talvez vinte e cinco, talvez dezoito. Tinha uns olhos negros e incrivelmente vazios. O seu semblante era fechado. No Verão utilizava uns óculos escuros onde se isolava ainda mais. Era misteriosa.
Aos poucos comecei a admitir uma conversa impossível com quem evitava a todo o custo estabelecer contacto e comunicação.
- Chamo-me Margarida. Sim, tenho o nome de uma flor. Mas é apenas o nome.
E depois continuava
- Porque é que queres saber de onde venho? Já sabes que é complicado, que é difícil e, até, difícil de confessar. Mas gostas deste tipo de conversa sórdida. Achas que irás entender porque é que não olho, de que fujo e o que procuro...
Olha para a janela e ajeita os óculos à cara.
- Não há muito a contar que não tenha já sido contado. Tu vês filmes, não vês? É mais ou menos isso, um filme. Mas não é uma novela, porque as novelas são falsas, entretêm-te durante meses a fio e depois tudo é fantástico e acabam todos aos beijos. É tudo mentira. É feito para te viciar na compaixão, na pena...
Sou a personagem de um filme. Aos poucos sei que o filme vai deixar de ser de muitos e vai passar a ser só meu. O meu filme, a minha história. Ah! podes dizer a minha versão da minha história. Mas, e quero lá saber no que penses, pois que a minha história, o meu filme vai ser isso mesmo. Meu. A minha história. A minha versão.
E continuei a vê-la, fechada, com a cara virada para o vidro em silêncio...
- O meu passado? Importa isso? Sim, há maus tratos, violação, abuso... queres pensar em algo mais? Preferes que tenha sido na escola? No bairro? Por um amigo? Primo? Pai? É irrelevante quem foi ou onde foi. Aconteceu e queimaram-me os olhos por dentro.
- Ultimamente, e desde que trabalho, estou quase a ganhar a minha autonomia. Vou sair. Vou deixar para trás esse vício de sofrer.
Vês esta saia? Já fui eu que a comprei. Teve que ser até aos pés. E fechada. Mas liberta-me, é minha e é o meu corpo dentro dela.
Sabes que estou quase a chegar à minha paragem. Tens fé em mim? No futuro? Em Deus e na bondade? Se tens, acredita que a minha vida vai ser boa. E que a minha história vai mostrar essa volta.
Sorri-lhe
Sem me dar conta, ela ao levantar-se esboça um muito ténue sorriso.

Voltava de férias

Voltava de férias... férias? Se podia dizer dos 10 dias passados a correr em casa de uma tia ao pé da praia. Ainda trabalhava mais para não sobrecarregar a tia que dava tecto e cama para si e para os seus rapazes. Desde o supermercado à culinária, passando por tratar da casa e da roupa, ficava com o sabor das férias naquelas horas escassas que vestia o biquini e deixava-se escorregar para cima da toalha. E era capaz de assim ficar, passar até pelas brasas, antes de descer à beira mar e refrescar os pés.
Voltava de férias e tinha deixado o sorriso na praia, nas ondas que iam e vinham, tal como o seu olhar se perdia nesse movimento de avanços e recuos. Por vezes sentava-se na areia ainda molhada e assim permanecia.
Voltava de férias, com a pele cheia de sol, ainda quente, mas com a alma vazia, sem ter com quem partilhar esse calor.
E os dias iam passando, tal como o calor e o sabor salgado das férias. Aqui e ali, o sorriso voltava.
E um dia, olhando-se para o espelho, já não notava a marca branca do biquini, até isso se havia esbatido. Com o olhar no outro lado do espelho vestiu o soutien, ajeitou o peito e vestiu as cuecas de renda mais confortáveis. Deu três passos atrás e sentou-se na cama a olhar o espelho, como se fossem as ondas do mar. Era domingo, estava de férias....

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meditação do dia da Assunpção

Tudo gira à volta dos afectos, as nossas casas de segurança, reduto último da certeza. E o pior que podemos fazer é mentir ou simular. Todo o tempo que perdurar esse engano, mais que tempo perdido, é tempo que deixou de ser vivido.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Voltei

Voltei à poesia
E tu não estavas lá.

Voltei onde volto sempre
À poesia.

Sincera recorrência
Triste insistência.

Fui

Fui
Atrás de mim,
Do meu passado,
Das minhas origens,
Da minha questão
Filosófica ou metafísica,
De ser isto,
Esta circunstância,
Esta questão no tempo...
Fui,
E volto sempre a ir,
Recorrentemente,
Pois que nada é certo,
Nem a morte,
Pois de fim a passagem,
Ou outro mundo,
Ou, até eternidade,
É toda uma imensa possibilidade
Em que, invariavelmente,
Me perco a pensar.
Prós e contras,
Sentido e vazio,
Razão e adesão...
E vou, mais uma vez,
E nada tenho a dizer,
Nenhuma conclusão,
Nada certificar,
Concluir ou aderir,
Somos um mundo aberto
Que, quando assim calha,
Encostamos a porta,
Jamais seguros de a fechar.

Dizia o poeta

"O mundo pula e avança...."
Mas, às vezes, a impressão que dá é que se acomoda à mentira, ao engano, à torpeza, à imoralidade... e todos viram as costas quedando-se em meras questões de detalhes do momento, da circunstância, do imediato.... Por onde anda a poesia?

domingo, 6 de agosto de 2017

Lendo 241 - As 1001 noites

A ler as 1001 noites que o Expresso partiu em 7 e vende à razão de 3,5 euros oferecendo um monte de folhas impressas de reduzido interesse a que chamam um semanário.

Retenho como primeira nota que é um livro escrito, ou reescrito após o século VII, pois assume, em quase todas as histórias a religião monoteísta, o que, só com Moamé foi unificado nos países do Norte de África. E é curiosa a denominação de "Chefe dos crentes" feita ao califa. 
A segunda nota o determinismo do destino. Há uma história, um dito, um fado sobre determinado indivíduo que acontecerá, e a história narrará uma série de tentativas de fugir a esse destino que acaba por se cumprir, invariavelmente, introduzindo a perturbação anunciada. Seja pela virtude, seja pela acção de fadas ou génios, o efeito da perturbação acaba por ser anulado, ou reconstruíndo outra forma de organização dentro da moral.
A terceira nota é que as histórias tendem todas para um fim Bom. A harmonia vence a desorganização e o mal.
A quarta nota é para verificar que algumas histórias acabam por ser lições comportamentais como se fossem um normativo moral.
Por fim, o papel da mulher... Nada tem de similar com a nossa civilização portuguesa, profundamente matriarcal, nestas 1001 histórias a mulher é quase nada. Pouco importa. Pode ser cobiçada, mas depois de feita a "tomada de poder" desfazem-se todos os encantamentos e desaparece. Um senão, apenas, é no caso em que se torna adultera, aí, não só se transforma em início de muitas histórias, como, também, o fim da sua vida, pelo menos na forma em que a conhecíamos, tomando formas diversas, sobretudo de animais.

Muito interessante, muito agradável e, sobretudo, educativo. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O pecado da mulher que ousou amar

Aconteceu num lugar o singular facto de uma mulher, um dia, encontrar o seu amor num colega. Deixou para trás a sua casa, o seu marido e a vida que tinha e passou a amar esse outro homem. E a ele começou a dedicar todas as atenções, todos os minutos e todos os sorrisos.
Ciosa da sua privacidade, entendia que esse amor seria apenas seu e de mais ninguém. Ninguém poderia saber ou sequer entender que amava aquele outro homem. E assim passou a viver num certo conto de fadas em que deleitando-se sobre qualquer dito do seu novo homem tinha a certeza que ninguém entendia que estava a viver uma segunda primavera e que todo o seu tempo eram momentos de pombos a arrolhar.
O tempo diabolicamente insiste em passar segundo após segundo e tem o perverso efeito de destruir o efeito da novidade e dar-lhe o gosto de hábito, perdendo o tempero único do encantamento. E, ao se desencantar, nota que aquilo que admitia como passeios a dois num infinito areal era uma exposição do artigo mais cobiçado na montra da inveja humana e, por tal, comentado à exaustão pelo universo que com ela convive. Ninguém faz por maldade, mas por não ter outro motivo tão ardente ou picante para comentar. Que sensaboria relatar a triste viagem da casa para o emprego mas que gosto em verificar os olhares, o terno encosto da cabeça, até o passo que é feito a par...
E, ao tempo que surge o bocejo, a previsão de algo que ganha monotonia e, até, um certo bafio, e todos esses pequenos nadas começam a transformarem-se em incómodo interior, ou não fora de uma mulher que se trata este relato. E, enquanto empina o nariz, levantando o queixo e apressando o passo determinado, resolve promover para a montra o fim de algo que era já uma muito pálida sombra do que fora.
 Apesar do sabor doce desse amor, dessa vontade de calor, da saudade ao fim do dia que lhe dava um frenesim ao acordar, ousara amar e admitia que seria um pequeno segredo partilhado apenas no seio do encantamento. Vivia a saudade desse sentir e a melancolia de o ter perdido.
Sendo o ser humano feito para amar, estava, pois nesse limbo do amor que cessa e que não deixa futuro.
Ousou amar sem consequência e agora mortifica-se numa solidão. Espalha, pois, pequenos afectos como outros pequenos desamores para temperar equilíbrio. Ousara amar e agora tinha que desamar, não o amor, mas outros desamores.

E é assim de uma fonte de água cristalina pode, um dia, correr pedra seca e oca.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Fechando portas e janelas

Hoje vivi e presenciei um acto impiedoso e absolutamente desolador da minha confiança na bondade do ser humano. Passo a descrever:
Uma relação profissional bastante desgastada, sem espaços para diluição de lapsos, erros e mal entendidos que o tempo amplia levou a uma relação de mera presença física e quase nenhum diálogo. Sem aviso prévio surge a oportunidade de um colega cessar o trabalho com uma recompensa financeira simpática e, também, um novo capítulo na sua vida. Segura com as duas mãos circunstância e hoje termina a sua ligação com a mesma entidade. Sendo o último dia, a expectativa era a de se enterrarem todos os machados de guerra, pois deixa de ter sentido qualquer conflito ou que perdurem mal entendido e, de modo civilizado, dizer um "adeus e até à próxima" com um sinal de confiança no futuro ( mesmo crendo que não exista futuro algum). Acontece, todavia, que a realidade surpreende sempre.
Começou o dia fechado, apagado quase e incapaz de comparecer em qualquer acto de despedida. Um acabrunhamento em pessoa, uma pedra de ressentimento, um alheamento intencional e activo. Mais tarde percebe-se porquê. Não pelo colega que se vai embora, mas pela sua incapacidade de lidar com o momento, a incapacidade de dar o braço, de ser gente humana. Fecha-se numa pedra e, mesmo ferindo-se nessa não despedida, é incapaz de virar a mão e abri-la ao mundo.
Envelheceu hoje mais um ano enquanto o meu colega que sai, ganhou agora luz e anos de vida.

Espero conseguir apagar este desolador episódio rapidamente.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Ao meu Alentejo

Recordo, com saudade, um Alentejo que conheci.
Era um Alentejo de Setembro, cheio de ar quente e seco. Havia pouca água e a terra variava entre pó e torrões de pasta de lama que ressequiu. O ar era azul forte como o céu que se abria em todo o lado sem uma única nuvem. Apesar dos dias estarem a ficar mais pequenos continuavam tão longos como o tempo que devagar passava. Em nada havia pressa, nem nas corridas.
E havia o cantar das andorinhas no final do dia. Rodopiavam imensas no pátio da entrada onde, no alto dos beirais juntavam bolas de lama e construíam incontáveis ninhos chegando uma só telha a albergar mais de três.
A noite era carregada de estrelas e um ar doce com sabor a laranjas.
Neste meu Alentejo o branco sempre foi a luz dominante. Desde as entradas das casas, as pedras da rua diariamente lavadas, que faziam um caminho entre um chão alaranjado das poeiras. As casas desse branco imaculado feito com brochas de cal que refrescava apenas de se lhe chegar as mãos. E, nesse toque, a mesma rugosidade das mãos de quem as pintou ano após ano, deixando, pelos pelos já tortos da brocha a sua impressão.
O horizonte era a perder de vista, sempre numa linha que juntava o castanho com o azul forte onde ponteava, aqui e acolá os sobreiros parados e abandonados num qualquer tempo onde persistem em se manter. Sem montes ou montanhas, apenas barrigas de terra que vagamente subiam e desciam até se alcançar a vista.
E dentro de casa, dentro das casas, todas já antigas, havia sempre uma frescura e tempo para parar, sentar e calmamente respirar.

Este Alentejo que é meu, das minhas vivências, apenas existe em mim. O tempo actualizou-o com a mesma força e vontade em que eu o fossilizei em mim. Nunca mais voltei a comer um pão com o cheiro, a crosta grossa e a densidade do meu pão alentejano. Já não há mãos para amassar a farinha, nem água para o fazer, nem mantas para o fazer crescer ou fornos para o cozer. Tudo ficou perdido num tempo que se tornou ideal.