sábado, 15 de julho de 2017

desconsolando

Uma pessoa que cada vez mais ignorava pensando que a conhecia, escreveu isto "Quando a vida te dá cem motivos para quebrar e chorar... mostra a vida que você tem um milhão de motivos para sorrir e rir!!!!". E escreveu em inglês para, seguramente, dar um tom menos pessoal à questão.

Ora o tempo vai correndo e noto, com rara facilidade, que os motivos profundos das suas cem causas para quebrar e chorar nascem na sua inabilidade de lidar com a adversidade, com a diferença, com outras opiniões e com a perda de posição social que ambiciona. O riso é amarelo, falso, fraco e fugaz. Mas pior que tudo isso, é solitário e vazio.

Um desconsolo

Desenhos vários de vária qualidade








Pastel testando





Pastel


Poema a uma mulher

Pensei...
Analisei...
Olhei,
Recolhi
E, até meditei.
Quase encontrei.

Deduzi,
Sobre tanta meditação,
Silogismos,
Sequências,
Conclusões...

De tudo o que tentei,
Falhou-me o essencial,
A pedra de toca, ´
O que faz a diferença,
O capricho.

Afinal, era uma mulher

Pastel de óleo

Desde a minha tenra idade, digamos 6 ou 7 anos, criei uma imensa aversão ao lápis de cera. Detestava pintar ou desenhar com semelhantes instrumentos. Ora errava grosseiramente na forma, ora no desenho. Para quem seja vagamente letrado nestas matérias, sabe que o lápis de cera, vulgo pastel, deixa um lastro com meio centímetro no mínimo e, pior de tudo, só é perceptível na forma quando levantamos a mão. Nunca me dei com o dito lápis de cera.
Acontece, porém, que recentemente, por via de uma aquisição um nada de impulso, me veio parar às mãos um manual de utilização de pastel. Primeiro resmunguei com a minha fatal sorte para ficar o o que ninguém quer, mas depois fui ler. E, ( sou tão influenciável!) fiquei entusiasmado com a ideia. Levei 2 dias para ir comprar umas amostras de pastel.
Gostei.
Repeti.
Consegui interpretar o meio.
É limitado, mas com potencial.
Pode-se usar sem sujar a casa, sem montar um estardalhaço. É maneirinho.
Amanhã darei novas de algumas experiências.

 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lendo 240

"Quando confrontado com a traição ( real ou imaginada), o nortenho mata a mulher em nome da honra; quando confrontado com a possibilidade de ser corno, o alentejano salva a honra masculina de outra forma: mata-se."
Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 92

Lendo 239

"Não é novidade para ninguém que a fraca religiosidade é uma alavanca suicida"

Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 86

Não é tanto uma questão de fé, mas de dimensão de mundos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Pobres dos estúpidos

Por vezes, e por pura cobardia, os estúpidos são instigados a tomarem posições. E, claro, o estúpido é como um carro pesado numa descida, mal começa apenas acaba na parede com a qual confina a estrada.
Ficará pois, completamente exposto que foi utilizado, sem a mínima noção, que não entende, nem nunca entendeu o que se passa.
E claro, imbecilmente seguro, que fez o que [alguém a quem pede pressurosamente amor] estaria numa determinada aceitação.
Males de amor.

E porque estamos no Verão

O perfume não dispensa o banho e muito menos o desodorizante.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Meditação

A divisão de uma unidades em partes é o caminho certo para o fim dessa unidade pois cada parte tenderá e encontrar a sua unidade desvalorizando o restante.

sábado, 8 de julho de 2017

Entre poema e curta

Tomas o meu braço e nele descansas os teus dedos finos.
Olho para esse braço e gravo esses passar de dedos.
Sabes o que entendes com esse passar dos dedos, Mas não tens força para manteres essa ignição e logo afastas.
Voltas ao costume, ao usual. Defensiva. Com receio.
Mais tarde, e porque acompanhado, voltas a uma marcação. Dirás posição.
O tempo escoa. Não tens segurança. Não tens certeza. Temes.
O tempo passa ainda mais.
Devolves agressão. Lenta, dissimulada, disseminada.
É o peso da frustração.
Da tua impossibilidade.

E volto a saco de boxe.
Outra vez.
Todas as vezes.
Sempre.

As mulheres

- Detesto-o! Ele é inacreditável. Impossível de se trabalhar....
- Porque é que continuas a insistir?
- Eu não insisto nada. Por amor de Deus. Ele é impossível...
- Mas....
- Mas, o quê? Não consegues ver?
- .... bom..., às vezes...
- Pois, isso é contigo! Imagina comigo!
- ?
- Sim..., não reparas?
- No quê?
- Naquele modo como me olha e pergunta...
- Como?
- Sim... aquele olhar preso...
- Mas ela não está de costas para ti?
- Querias que eu o sentasse frente a frente comigo, não?
- Claro que não!
- Vês?
- .... ( amén.... Assim seja a tua vontade)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

"Eu é que sou a que sabe".

"Eu é que sou a que sabe".

Frase típica do género feminino que, seja em que situação fôr, sintetiza a sua determinação perante o mundo. Obviamente que jamais se trata, a rigor, numa tema relacionado com sabedoria, sageza ou, até, intuição. Por regra reduz à necessidade de ver o mundo de acordo com os seus desejos e, sobretudo, caprichos.
Não vale a pena discutir, fazer enquadramentos históricos, fazer provas de física, matemática, regras lógicas ou exercícios filosóficos sobre a raiz do pensamento e de como a dedução, exigência ou posição resulta de uma absurdo.
É uma expressão do género. Aquela coisa que alguns acham que não existe, que é livre, que é optável, que reside numa mera opção sociológica ou educacional. Não, e com todo o respeito pelas doutas opiniões ( opiniões, reforço) o género reforça-se, faz-se, pensa e é pelos actos que produz. E o supra exposto é um desses.
Poderá, no entanto, com o tempo fazer alterações. E aqui o facto tempo não é minimamente importante, dependerá, apenas da distância da circunstância que levou à tomada de posição. Um nada de reflexão com o ambiente adequado e sem pressão, ela rapidamente muda de posição mais sensata, pois entende, também que a raiz da sua posição era meramente uma posição de afirmação pessoal e não do conteúdo que afirmava.
A mudança também dependerá do valor que o homem dê à opinião que foi emitida. Se desprezar e se desinteressar do assunto por completo, tudo falecerá à razão do micro-segundo. A mulher queria afirmar a sua posição para ser ouvida, para chamar a atenção do seu homem para ele confirmar que ela é a mulher dele. Caso o homem corra qualquer intenção de debater, discutir, dar, no fundo, qualquer relevo à opinião emitida, será, irremediavelmente, agredido numa série de argumentos que, na pior das hipóteses chegarão à mãe dele. Ela não quer discutir, é insensato tomar as palavras dela como uma fonte de discussão, ou o que disse, uma afirmação de vontade. É, tão somente, linguagem cifrada que pede um pouco de desinteresse para que ela o possa cativar novamente.
As mulheres orgulhosas levam mais tempo a entender isto, mas acabam por o fazer. E, com o tempo, mesmo nestas, a insistência na opinião diminui.

É bom que não se confunda estas opiniões com questões importantes, pois nessas talvez seja melhor tomar posição caso contrário de natural macho alfa se passa a imbecil.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Lendo 238

"Queria ficar calado e entrar rapidamente na carrinha. para se dirigir ao café-restaurante onde Ana haveria de olhá-lo como se fosse o primeiro homem via naquele dia e talvez sorrisse."
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 60

A ambição do homem, seja ele de que género fôr, é ser amado, ser desejado, ser sorrido. Sobretudo se a carga emocional que o rodear for inversa. A pulsão humana é para o amor. Quando se age noutro sentido, fatalmente, é por não conseguir suplantar uma dor interna e, nestes casos, por regra, o tempo ajuda.

lendo 237

"Sabia que, mais tarde, as coisas iriam ficar progressivamente vazias e estimava a relação com a mulher, dando-lhe cada vez mais um cunho de despedida e de perda."
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 57

A antecipação do final da relação evoca, naturalmente, um efeito de vazio, uma expectativa de perda, mas, e a rigor, com o tempo, esse vazio enche-se de todas as memórias da relação e a sensação de perda acaba por ser, também, a memória de um tempo de conjunto, de agregação e, sobretudo de comunhão.
A dedução a quente tem todas as consequências que os actos feitos a quente. Emoção apenas. Mais tarde o entendimento varre o que pouco presta e o que está a mais, integrando e explicando tudo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A rapariga da papelaria

Todos os dias que eram dias de ir comprar o que fosse à papelaria parava o pensar e pousava a ideia na figura feminina que estava atrás do balcão. 

Ela recebia todos os seus clientes com um rosto absolutamente mudo e imóvel e sem ponta de expressão. Educada quanto baste, respondia num quase sussurro ao bom dia e, perante um agradecimento levantava levemente os cantos da boca sem nunca mostrar os lábios. Perante um pedido, não só era solícita como, caso não tivesse no momento o artigo desejado, tudo fazia para que no menor espaço de tempo possível o que quer que procurasse estivesse disponível. E, novamente, abria a linha onde se uniam os seus lábios com uma ligeira subida dos cantos. O cabelo, fruto de uma qualquer moda tinha sempre um ar molhado e o tom amarelado da última pintura já havia passado por algum tempo situando-se agora perto das suas orelhas o que, em vez de desleixo, lhe dava um certo tom que abria a face. E o nariz… mas que nariz. E ela sabia que tinha esse nariz. Presumo que nos tempos da adolescência não fora um apêndice fácil de lidar com, mas agora, mulher madura, era uma fonte de personalidade que trancava o semblante e protegia mais que a ausência de comunicação facial. Era, em formato delicado, o desenho de um nariz turco. Forte e projectado, com algum corpo mas feminino. 

Com o decorrer do tempo começou a existir alguma proximidade. Já sabia o que queria, antecipava os meus gostos e a conversa passou a ter limites mais amplos que o jornal, o totoloto e a revista. Um dia contei-lhe, por via de uma circunstância noticiosa qualquer uma graça. E a cara abriu, a boca sorriu mostrando uns dentes brancos e bem tratados, até os olhos ficaram mais claros. 

Noutro dia vejo-a com um rapaz com aquela idade em que ainda não é homem, mas já não é miúdo e que já leva mais de uma dezena de anos. Significa que já passou a barreira dos 30 anos. A natureza tem sido generosa, pois nessa idade misteriosa que a mulher atinge o pleno, ela está-o.

É, claramente, uma mulher inibida, mas não se fecha nessa inibição, pois que, depois dos pequenos momentos que se vão somando, ela se abre e dispõe-se a criar os laços possíveis e desejáveis com os seus clientes.

Lendo 236

"A sua mulher foi honesta, porque lhe disse o que se passava na vida dela e nos seus sentimentos. Pronto, o amor e a amizade são assim, acabam quando têm de acabar. "
António Modesto Navarro in Morte em Vila Flor, Produções Editoriais lda, Lisboa Maio 2005, pág 25

Tenho alguma afeição à simples descrição dos sentimentos tão profundos e complexos como o amor e a amizade. Tem o amor de acabar? Conseguimos viver sem amar? E termina mesmo o amor? Não sei se acaba. O amor toma outras vestes, transfigura-se, mas não desaparece.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Estou cansado

Estou cansado
Da mentira e mentirola
Da inversão das palavras
Do esquecimento voluntário
Dos actos omissos

Estou cansado
Desta peça de teatro
Dum enorme acto
De mísero conteúdo
E fraca prestação

Estou cansado
Deste julgamento
De veredicto consumado
Sem prova provada
Nem sequer arguido chamado

Estou cansado
Deste novelo viciado
De ser violentado
Numa desconsideração
Generalizada

Estou cansado
Sem defesa,
Apelo ou
Mera contestação
Apenas crucificado

Estou cansado
Demasiadamente cansado
De ser pasto a abutres
Desdentados
E mal amados

Estou cansado.
Desolado
Desgastado
Incomodado
Ponto.

Dedicado aos colegas com quem passo os dias.

A um mal de amor

Olhava para o ar para tentar suspender a imensidão de mar que começa a encher-se nos olhos.
Como teria sido mais fácil sobreviver se tivesse havido um tempo, pequeno que fosse, de um nós. Em vez disso, um nunca chegar a ser, uma intenção que não é capaz de florir. Não chega a haver espaço para ter saudades, coisa para sorrir e um calor a revisitar. Apenas um buraco vazio, negro e muito espesso. Aos poucos, e na sua melancolia, vai preenchendo esse espaço com todas as suas rejeições, todos as suas tristezas e mágoas. Já não é só esse mal de amor de outrém, é o seu mal de amor a si mesmo que se recolhe ali mesmo, à sua frente, e se estende sem limite.  
Ser desamado é uma mágoa que ainda assim deixa passado. Não chegar a ser amado é uma sentença sem nota de culpa.

Lendo 235

"Dar um beijo implicava um plano de negócios."
Henrique Raposo in Alentejo prometido, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa 2016, pág 32

O autor refere esta circunstância a um tempo de um passado. E, curiosamente, é também num tempo de um passado que a ideia de dar um beijo, ou apenas o beijo, era motivo de um, dois, vários, imensos planos e estratégias. Coisas da proto-adolescência e dos proto-beijos. Recordo com doce e calorosa saudade. Quanta ingenuidade.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

curta da segunda

Numa ansiedade crescente, chega antes da hora. Criança, infantil, espera, ansiosa, a volta de férias do seu encanto. Ela olha, espera e desespera. Tem vontade de rir mas ele não conta nenhuma piada. Tem vontade de largar a sua emoção de dias a fio da sua ausência e nada mais que umas cócegas....
E, apesar do intencional decote, sugestivo de um deleite sensual, de uma emoção que se agarra com as mãos cheias em modo de acolhimento, nada acontece, nada se passa, apenas umas míseras cócegas...
Com frémito no olhar, com expectativa na narrativa, onde se propõe a ser a substituta de qualquer aventura, suspira amargamente a narrativa da aventura profundamente desinteressante. Insubstante...

Olha em redor... predador de ausências recolhe as suas presas de eleição.

Mais que compensação, acabam por ser, à distância, razões da sua triste e injustificável opção...

liberdade ou não

Podia ter o teu braço,
A tua mão, suave,
Pousada nele,
Um caminho,
Percurso,
Um fim.

Calhou outro braço
Desgastado,
Diminuído,
Básico 
E enviesado
Numa tortura
De passado.

E, de futuro,
Só a liberdade,
Não a minha, 
Nem a tua, 
Nem a da literatura,
A outra, 
A de facto.

Arrelias

E entra segunda-feira como se fosse o dia do fim do mundo. Atrás das caras de enterro surgem a face de uma raiva incontida.

Mas como foi o teu fim de semana para estares assim?

Não ouvi respostas....... Deve ser apenas feitio.

Dedução para uma segunda-feira

A cada dia que nasce, cada Sol que desponta, uma mulher nunca sabe em que circunstância vai encarar o mundo. Tudo dependerá da disposição com que vai olhar para o guarda fato. É dessa natureza vai reflectir a natureza da escolha da indumentária e, com ela o que vai calçar.
A altura da inclinação do pé reflectirá a posição da coluna e desta o modo como vai olhar: Se em linha, se modestamente por cima, ou se claramente sobre o seu mundo.
Seja de que modo for, haverá sempre algo que despertará a atenção ao homem. Faz parte da natureza de ambos.

Um homem e uma mulher

Ele falava com ela.
Dizia-lhe o que lhe ía na alma e o seu modo de pensar, bem como interpretar, determinados assuntos.
Ela ouvia. Não o que ele diz, mas o seu modo de entender esses assuntos. Colocava uma caixa sobre a argumentação de modo interpretar os vocábulos ditos no que queria ouvir.
A rigor raramente ouvia.
Limitava-se a ouvir-se.
Replicava-se num filme mal dobrado.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aforismo

Nunca discuta com alguém que acredita nas suas mentiras.

Um minuto de silêncio

Decorriam os trabalhos da Assembleia Municipal e pelo motivo do desaparecimento físico de um filho da terra que se notabilizou pela escrita, nomeadamente a poesia, todos os elementos do dito orgão se unem na intenção de um voto de pesar. O mesmo é aprovado por unanimidade. Após isso o presidente da mesa diz:
- Vamos, então, fazer um minuto de silêncio.
O silêncio instala-se depois de todos se terem colocado em pé.
Noto que o presidente carrega no cronómetro do seu relógio para medir o minuto...

Como o formalismo se apodera das intenções que se tornam, afinal, figuras de estilo. Pobre poeta que nem na tua terra te respeitam. Tiveste sessenta rápidos segundos que ninguém sabia ao certo o que fazer... E, pior, seguiu-se novo voto de pesar pelas vítimas do incêndio de Pedrogão... Outro momento de cronómetro....

Quão mais eficaz teria sido rezar um Padre Nosso e uma Avé Maria....

Reflexão

Há aquele prazer mórbido que quando se passa por um acidente todos abrandam para tentar ver se há sangue a escorrer. Ninguém tem, por isso, mais ou menos amor pelo acidentado. Apenas um desejo interior de ver a ferida. Ferida que gera ansiedade e esta adrenalina. Depois do choque, tapam a cara e viram a cara para outro lado como quem diz "Ainda bem que não sou eu e que nada tenho a ver com os eventuais estropiados."

Por vezes

Onde apetece estar
Não é um lugar,
Mas um sentir
Que acontece
Fora do tempo.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Um desastre matinal

Toca o telefone e atendo:
- Está
- Está.
- Estou a falar com fulano?
- Sim, está
- Daqui fala a Carla assistente do consultor imobiliário José dos Anzóis
( assistente de consultor imobiliário?????)
- Sim.
- O senhor é o proprietário de um T2 em Lisboa
- Não ( estou a vender um T4)
- O senhor não tem um T2 para vender em Lisboa?
- Não
- Mas desculpe.
- Queira desculpar-me, mas tome nota do seguinte. Por respeito a si enquanto pessoa não vou prosseguir esta conversa, quando o dito senhor que se afirma consultor imobiliário quiser angariar a minha casa certifique-se primeiro que é ele que me telefona, segundo qual é a casa que tenho para vender. Em opção, poderá sempre mandar o dito senhor à outra parte, pois quem assim se apresenta deve ser tão detestável que não me apetece fazer qualquer negócio com ele.

A rapariga podia ter-se apresentado assim: Daqui fala o tapete onde um imbecil esfrega a sua auto estima e valorização pessoal. Que caminho seguem algumas pessoas.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Uma triste realidade

Descobri, ou melhor, reconfirmei ( quer dizer voltar a confirmar o que não é o mesmo que duplicar a mesma confirmação!) que uma alminha com quem trabalho se deu ao trabalho de me bloquear nas aplicações do Facebook e do Instagram. Trocado por miúdos, entende essa alminha, que na sua pueril dimensão, produzirá conteúdos tão extraordinários e reveladores e tão únicos que a minha pessoa não está apta a visualizá-los. Coisas tão extraordinárias como "Treta 36", viva o Benfica e mais 
lucubrações metafísicas de igual jaez.
Sim, é uma atitude liceal para não dizer pior.
E, creio profundamente, que tudo o que eu registe nessas benditas redes sociais, entram debaixo do diáfano manto do lápis azul que esconde a realidade que não se quer ver. Já se sabe que este tipo de atitude, também conhecido como esconder a cabeça na areia, dá resultados duvidosos, mas enfim, se preferem viver assim, que se poderá fazer?

E, meus poucos, mas muito bons leitores deste espaço, não foi por coisas que lá escrevi, que lá disse, ou o que quer que fosse lá ( este lá, bem entendido, refere-se às redes sociais), é o resultado de uma atitude pensada e ponderada. E o juízo lançado, tomado a firme com pancada de martelo, feito sentença que não poderá recorrer a instâncias superiores, pois se trata do tribunal da alma, é de CULPADO! Sim, sou o culpado. Hei cometido um crime de lesa qualquer coisa e como tal deverá o criminoso ser banido. Para além de estar todo o santo dia de costas viradas para o plenário de juízes, será banido de todos os verdadeiramente extraordinários acontecimentos que nalguns time-lines do facebook se passam.

Por mais ar anedótico que tente dar a esta circunstância, isso acontece no século XXI, com pessoas com perto de 50 anos. Isto é confrangedor. Medíocre. Rude. E, sobretudo, muito mal educado.


Depois de um café


Ficou uma mancha na folha de papel. O lápis fez o resto.

Mais um


Mais bonecada



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Lendo 234

"O amor a ninguém dá honra, e a muitos dôr."
Fernando Pessoa in Provérbio Populares, Ática, Lisboa 2010, pág 49

E o amor honrado?

domingo, 25 de junho de 2017

Experiência


Recriando o crisma da Teresa e da Matilde




desenho


Gostava

Gostava de largar passados
Como se fossem dispensáveis
Mas dores desses momentos
Retornam insistentemente.

Gostava de largar lágrimas
Como se fossem bálsamos
De todas as feridas
Que insistem em não sarar

Varrer-me por dentro
Despejar cantos da alma
Remover impossibilidades
E nascer oportunidades.

Gostava de fazer
Nascer futuros
Com um sorriso
Tranquilamente.

Madrugar

Corro para a madrugada
Quando a luz,
Um azul que se fazendo,
Desenha o ar
Deixando ver
E reconhecer.

Antes que o tempo avance
E, de novo,
E me furte a promessa,
A possibilidade de vir a ser.
Uma penumbra que, devagar,
Se vai desfazendo,
Como uma ilusão.

A aurora é uma ar,
Um brisa renovada
Que se expande
Fresca e nova
E se multiplica
A cada inspiração.

Tento parar o tempo,
E aumentar a impressão
De cada cor que se abre,
Cada sombra que revela
E futuro que se abre.

A cada dia que recomeça
Sou eu todo que volto
Para insistir em ser
A minha possibilidade.
Na frescura aromatizada
De uma luz que me ilumine.

Lendo 233

"Às vezes, gagueja e engasga-se quando diz que há mais de vinte anos está casado contra ela."
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 67

De interpretação livre. A reter: "está casado contra ela." Um sentimento muito popular.

Lendo 232

"Enfia um homem uma argola no dedo e outra no tornozelo, rédea curta."

J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 66

O homem tende a ver o casamento assim, sobretudo porque muito da sua estimulação sexual provém da visão. A parte animal que se coloca em posição de perseguição da presa assim que vê um peito feminino, umas ancas torneadas, um traseiro arredondado ou umas pernas adelgaçadas. Depois sente a argola no tornozelo e suspende o movimento. A boa vontade acredita que com o tempo esse impulso cessará....

Lendo 231

"Claro que isso só se alcança à custa de poderosos ingredientes, carnes bem criadas e bem talhadas, francas gorduras, vinhas d'alhos de alquimia secular, mas também pela aplicação do bom senso e desdém das patetices da modernidade."
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 53

Coisas que não me canso de repetir. Os tempos actuais vivem o vício de uma modernidade vazia, sem fundamento e sem efectiva novidade. Pretendem, tão somente, viver um experimentalismo que surpreenda os sentidos e as emoções. Colocam, sistematicamente, a mente a anos de distância para não se incomodarem com a reflexão do seu entendimento das coisas e do mundo. Quem consegue hoje pensar-se a terminar o dia às 6 da tarde e ocupar o tempo até serem horas de dormir com leitura, pintar, conversar, fazer trabalhos com as mãos, demorar-se apenas a olhar e a pensar?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Técnicas novas



Muito borrão


Nem sei


Um esquilo

Encontrei um esquilo assustado que era incapaz de amar. Dizia que já tinha tantos quantos podia amar e fazia a sua vida nos mesmos caminhos, saltando nos mesmos ramos e vivendo nas mesmas árvores.
O esquilo dizia que era feliz e por isso ria muito e muitas vezes. Encontrava sempre motivo, quando estava com os seus, para se fazer divertido.
Havia, no entanto, uma melancolia atrás do olho que quando estava só o esquilo aparecia. Dias havia em quase era lágrima, outras apenas tristeza e solidão. Conformava-se o esquilo que tudo mais não era que saudades de quem lhe fazia falta. Havia, assim, uma saudade ancestral que o acompanhava e que, por tempos o tomava. Sempre assim fora. Não sabia de onde vinha, porque vinha, apenas se instalava essa saudade e o esquilo limitava-se a suspirar. Talvez por isso o esquilo se rodeasse sempre dos mesmos.

Um dia o nosso esquilo simpático e sorridente recebeu um grande ligeiro encontrão e uma das árvores que tomava como certa de apoio e recolhimento é tomada para outro fim e sai da sua pequena floresta. Sem perder o seu rir, o esquilo refugia-se e fica mais desconfiado. Aceita apenas o que lhe é indubitável e torna-se mais desconfiado. Sem dar por isso, acentua mais a sua saudade original.

A floresta do esquilo é limitada, amplamente conhecida nos seus limites. Os limites da sua segurança. Limite, também da sua saudade. A mesma e a de sempre. E agora, com menos uma árvore, menos um espaço, menos esse conforto e esse apoio, que pode o esquilo ousar para ganhar outros caminhos? Outros afectos?

Numa primeira fase o esquilo fechou-se na sua floresta diminuída. Aninhou-se em campos mais curtos, mais fiáveis e seguros. E, apesar de se sentir mais protegido sentiu a sua saudade aumentar e com ela um melancolia e tristeza que o faziam menos simpático, menos sociável. Por mais que a primavera florisse à sua volta e as árvores se enchessem de companhias foi-se mantendo no seu canto, mais emsimesmado.

Um dia em que mal havia dormido sentiu-se incomodado com a luz que o solstício lhe dava, directamente nos olhos. Fechou os olhos e começou a sentir um calor e um conforto. Era como se esse Sol fosse um Sol mágico e naqueles raios havia uma força que lhe derrubava o cansaço. Num ápice, e sem pensar, pôs-se de pé e desatou a saltar em direcção ao raio de Sol. E correu satisfeito, confiante e alegre. Saltou de ramo em ramo, de tronco em tronco e de árvore em árvore. Quando deu por ele, estava em frente a um lago belíssimo com uma água fresca a cristalina, carregado de vida e animação. Vários esquilos juntavam-se em redor do um enorme monte de avelãs frescas que caiam das árvores. Olhou para trás para tentar ver a sua floresta e não a conhecia reconhecer no meio de tantas e tão diferentes árvores à sua volta.

Desceu e juntou-se aos outros esquilo que alegremente conversavam e comiam. Rapidamente se sentiu como se estivesse na sua floresta. Olhou para o Sol e agradeceu ao raio por o ter trazido para ali.

Lições de vida

Escondeu-se nas portas dos fundos da alma e fez-se refém de um remoinho de ideias que rodopiando à volta de si mesmo não permitiam resposta ou solução. O tempo passou e foi estabelecendo pontos de referência nessa turbulência onde, a tempos, repousava a sua confiança. Aos poucos a tranquilidade já só nesse turbilhão encontrava.

Como tudo tem um fim, um anjo desceu, nas suas vestes brancas, e estende uma mão com a pele mais macia e doce, de aromas encantados e aos poucos sacode o atordoamento e trás de volta à pele dessa alma. Sossegada nas asas de algodão repousa, finalmente um sono tranquilo.

Ainda que recuperada, a alma reviverá sempre os fundos e os turbilhões mais vezes que a pele doce e macia do encantamento.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Coisas que guardo

Guardo perto
Muito junto
E numa pequena caixa
Aquele odor único
Que, de olhos fechados,
Fico,  um ápice,
Lado a lado
Mesmo junto a ti.

E guardo mais,
Guardo o teu sorriso
Quando cheirava
Um cheiro assim.

Desabafando

Fui, mais uma vez, até à coisa pública pedir meças do seu agir. Perdi tempo, golfadas de ar quente, e muito entusiasmo, até aqueles que humildemente me deveriam escutar se disporem a perder o seu pequeno tempinho a me ouvir.

Há, cada vez mais coisas que, na democracia, me fazem sentir viver na mais dura tirania.

Com abandono

Ai....
E se...
O mundo,
As nossas certezas
Não fossem mais
Que o que corre,
A quente,
Nas nossas veias...

Haveria tanto que
Na força da consequente
Intimidade
Não mais seria
Que o sangue quente
Que jorra a cada batida
De um coração

Mais desenhos




sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quotidiano

Porque é que guardas tantas fotografias de mulheres nuas?
Um dia talvez as vá desenhar.

Hoje fui um desses dias.

Ao velório

Apenas um caixão,
Como tantos,
Tantos que já vi.

Entre tantas flores
E outros odores
Um foto de ti.

Como pode ser
Que sejas tu
A estar ali.

Apesar de ser certo
Isto da Morte
É coisa que nunca entendi.

Mágoa, tristeza
Vazio e perda
Foi o que senti.

E foi por ti,
Para os teus
E para ti.

Somos passagem
Apenas o que tocamos
Vale por si.

A vela que se apaga
É, também a dor
Que morreu por ti.

Questão

Aquele que se esconde, fá-lo por medo ou apenas por insegurança?

Lendo 230

A sociedade do século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas, sim, uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não são, por sua vez, “sujeitos de obediência”, mas, sim, sujeitos de produção. São empresários de si próprios.

Byung-Chul Han in A sociedade do cansaço, Relógio D'Água, Lisboa, 2014, pág 19

As mudanças de paradigmas são evidentes.

Aforismo

Esconde-se o que teme o que tem para mostrar.

Paradigmas

Vivemos numa veloz mudança de paradigmas, sobretudo, pela velocidade com que vivemos o tempo. Como tudo tem que caber no mesmo nanosegundo, não resta, pois, um minuto, sequer, para pensar menos ainda, tempo para o tempo que se demora a reflectir. E sem reflexão, não há moral que permaneça. tudo corre rapidamente para o mesmo destino do consumo, o lixo.

Medo

De que se pode mais ter medo? De alguém ou da capacidade do seu pensar?

Fico tão preso a mim, às minhas certezas que a ousadia do outro pensar me deixa apavorado. Não havendo barreiras físicas ao pensar, resta-me, apenas, fugir ao estar. Desesperadamente.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Lendo 228

"O próprio afirma-se no outro quando nega a sua negatividade."
Byung-Chul Han in A sociedade do cansaço, Relógio D'Água, Lisboa, 2014, pág 13

Quando o diálogo se estabelece no mundo amoral

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Nada

Nada...
E assim devia ser
Nada.
Nem um acrescento
Apenas o que deduzo,
Que apreendo,
Que, no fundo,
Entendo....

Incapaz de me conter
Apenas comigo
Com o meu passado,
A minha história,
A minha experiência....

Nada...
Quero voltar a esse
Nada.

Pois....

Andamos satisfeitos na nossa, sobretudo porque é a nossa e, por regra, o que nos rodeia se adequa às nossas expectativas. E, mesmo quando desejamos, esse objecto desejado voa da realidade para o que nós desejávamos que fosse, mesmo que isso nos obrigue a afastar da realidade.
E não é que aparece um malandro de um chifrudo que nos obriga a ver a realidade em vez da nossa ilusão? Não podia o imbecil ficar no estupor do sítio onde estava?

Nota: Quem é que tem capacidade para se reenquadrar? É tão mais fácil encontrar um demo, um culpado, um diabo enfim....

Desculpem, mas a realidade é assim. Não como eu quero, mas como ela é.

sábado, 10 de junho de 2017

O caminho do possível

Se eu não fosse eu,
Que outro seria?
Em que tempo poderia
Dar outra mão a mim
E seguir no caminho do outro?
E, esse outro,
Não poderia ser,
O ser que sou?
Meditando por ser
O ser que é.

Mas somos como um rio,
Da nascente à foz,
Sempre a correr no seu leito.
O caminho do possível.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Com uma esferográfica na mão

 Menina com os dedos na boca - notícia do correio da manhã
 Arrumando coisas
Piscando o olho

quarta-feira, 7 de junho de 2017

English poems

How could I
Go to you
To your open body
And say in my simple way
That what I want
Lies above your lies

Ah.....

Quero o ar!
A impressão apenas...
A ilusão que fica
Que, por fugazes instantes,
Do que partilhamos....

Chega-me isso.

Teatro?

E corre para a boca de cena
- Perdi
E agitasse com frenesim, quase num ataque histérico
- Perdi!
E do fundo do palco, pesaroso, aproxima-se um volume sobre certa escuridão, mas com audível passo.
- Que perdes-te tu?
Ainda dentro da sua excitação, repete-se
- Perdi!..... perdi....
Os passos tornam-se mais lentos, muito lentos
- Dizem alguns da ciência que nada se perde...
- Ah! Que sabes tu! Perdi!
- Onde algo falta, n'algo se acrescenta.
- Ah... é tão fácil filosofar..... Perdi.
- Onde algo falta, algo se acrescenta.

E a cena pára.

Para esta, que algo perdeu nada se acrescentou, pelo que de nada vale insistir na cena.

A peça era boa, a ideia era boa, mas se não se entende de nada vale.

Suspirando angústia

Passas por mim
Sem cheiro
Sem cor
Sem luz
Sem movimento
Sem ar
E sem fulgor...

Mas, e ainda assim,
Porque é que se me
Acelera o coração?

Animal concupiscente
Preso à forma ancestral
Do movimento da alcateia
Que recolhe desse meio
Não a vontade,
Não a intenção,
Nem o desejo,
Apenas a fixação
De ser reprodução.

Como integrar isto
No ser inteligente?
Carne ou sublimação?

Suspirando angústia
Rodopio pensamentos
Inexplicados
Reprimidos
Desautorizados
Continuo a suspirar
Menos volúpia
Até ficar sem me perder.

Perguntei à Morte

Perguntei à Morte
Sombria e de negro
Gélida cortante
Que tinha ela, afinal,
Para me oferecer.

Sem suores frios
Medos ou suspeitas
Sem intenção também
Suspendi os movimentos
E serenamente aguardei
Silenciosamente.

Comigo,
Dentro de mim,
Em absoluta solidão
E olhos nos olhos
Perguntou-me:
O que te oferece a vida?

O entretanto.

Do horizonte

Apenas chora quem ama.
E, má sorte esta,
Que quando choraste
Não foi por amor...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Provérbios

A três homens Deus deu má mulher - a meu sogro, a mim e a outro qualquer
Fernando Pessoa in Provérbios portugueses, Ática, Lisboa 2010, pág 31

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema para canção

Tenho o dedo cansado
De tanto se repetir.
E, quando ouso mudar,
Dobro o triste sentir.

Não apenas as mágoas
Aquelas que são minhas
Mas as dos outros,
Dores que não tinha.

Má ideia, esta agora
De escrever este desatino
De ousar conviver
Dentro doutro tino.

Vou deixa-me disto
De me falar diferente
Pois apenas se concebe
O que se tem em mente.

Nem vale o esforço
De sair para o outro
Cada uma fecha-se em si
E o resto sai sempre torto.

Vou para o meu fado
Para a minha dor
É que acaba por ser
A que me dá calor.

A metafísica do erro

Uma história é feita de um qualquer movimento que afecta o mundo ou a alma de, pelo menos, uma pessoa. Nada acontece sem esse movimento.
E, acontecido esse movimento, a sua justificação só colhe quando é favorável ao narrador do movimento. O resto será adversidade gerada nas almas impossíveis de coexistir, dada a incompatibilidade de naturezas.



O eunuco

Segunda feira de manhã. O grupo de meninas junta-se para conversar sobre todos os acontecimentos do fim de semana, sejam eles escaldantes ou tão vazios e entediantes como só o género consegue gerar. Instala-se a animação. No meio está sempre um único homem. É aquele cuja sexualidade se encontra entre o indefinido e o ausente. E o lado maternal das mulheres recolhe-o como se recolhe e trata do aleijado, o coitadinho da aldeia. Passado algum momento da risada generalizada do mundo feminino, começa o pobre rapaz a fazer movimentos com o corpo simulando um papel de profundo estímulo humorístico, como se estivesse em pleno extâse hilário. É a sua forma de fazer parte do grupo, de acompanhar o que se conversa. Tal é a sua convicção que se o tema mudar radicalmente para um drama profundo, suspende de imediato o esgar silencioso e franze as sobrancelhas numa solidariedade profunda já não com a suposta anedota, mas com o suposto drama. Ele precisa de estar ali e acompanhar a opinião dominante de modo a manter-se protegido por todas aquelas asas.

Terá consciência que ele é que é a comédia e o drama do qual se ri e chora.



Lendo 227

"Sem ciência em que me apoie, valho-me aqui de num remoto passado ter lido que as saociedades ocidentais se caracterizam por um sentimento de culpa, e nas sociedades orientais predomina o sentimento de vergonha."
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 35

Gosto muito desta ideia, tanto mais que numa está implícita a auto-crítica, a reflexão e uma dimensão do eu, e na outra, na ocidental, a acusação, a desresponsabilização e a ausência de consciência crítica do eu.
Não podia estar mais de acordo.

sábado, 3 de junho de 2017

Lendo 226

"Vivo e rijo está o Senhor Antero. Vamos juntos no enterro da Ermesinda, um pouco atrás dos outros, porque ele manqueja, agarrado a dois varapaus que, previdente, há anos cortou dum olmo para quando as pernas lhe começassem a faltar.
Digo-lhe que os varapaus me parecem grandes demais e desajeitados, talvez se remediasse melhor com duas bengalas.
Ele sorri, mas não zomba da minha ignorância de citadino. Com o pouco tamanho que deus lhe deu, como é que com uma bengala ia varejar figos? Ou as amêndoas, As Azeitonas?"
J. Rentes de Carvalho in Trás-os-Montes, o Nordeste, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa Maio de 2017, pág. 10

Ou a importância do saber de sempre que faz as coisas porque antevê as suas necessidades e não embarca nas modas da modernidade e afins. Além de ter uma maravilhosa carga poética.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quando se desata um laço

Rasgou todos os laços.
Os possíveis e os outros.
Tentou o limite,
A quase impossibilidade.

Rodeou-se de todos os nãos
Obrigou tudo a isso,
Zelosamente
Insistentemente

E, aos poucos,
Mesmo subindo as saias
Abrindo o decote
E pintando os lábios

Tudo lhe ía sabendo,
Cada vez mais,
Ao pó que pesa quando
Todas as janelas se fecham.

À vulgaridade que prevalece
No mastigar da novela
O vazio que emudece
E o olhar que deixa de ver.

E consistentemente
Tudo se arquivou numa saco
Preto onde se arrumou
No fim da arrecadação.

Nada sei do futuro
Da irrelevância
Não reza a história
Nem dela se gera memória.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Por uma dança

O tempo abriu, trouxe o Sol e a sua luz. A temperatura subiu. Ainda com calças até aos pés, preferiu calçar umas sandálias. Um vermelho forte, carnal mesmo, ponteavam os dedos. Pelo canto do olho ouvi o seu caminhar decidido. Tomei-lhe a mão e fi-la rodar e ficamos presos dedos nos dedos. Um ar risonho e surpreso rapidamente se tornou num olhar incomodado. Por uns fugazes instantes o sonho aconteceu.
Baixei a cabeça e sussurrei um desculpa com o olhar nos dedos dos pés dela que choravam por terem parado de se surpreender a dançar. Altiva, atirou o nariz para o ar e afastou-se ainda mais decidida. E acabei acusado de assédio.
Mas podia ser diferente, podiam os pés terem tomado conta e numa volta encostavam-se aos meus obrigando que as suas pernas se juntassem às minhas, os braços nos meus e com os troncos colados, os olhos ficavam sem capacidade de parar de seguirem-se. E juntos ambos dançávamos a mesma ilusão.

Nada tem que acontecer mesmo, basta que aconteça na nossa cabeça. E essa ideia valeu a dança que ficou por acontecer.

Hoje apetece-me um tango

Apetece-me um tango...
Agarrar com intensidade,
Segurar com suavidade
E togar com intencionalidade.
Manifestar um querer
Pronto para ser
Uma entrega total
Em despojo sensual.
Corpo em corpo
Que se encaixa
Se abraça
E se enleva

Apetece-me um tango
Ser homem
E tu, toda mulher
Jogo sem jogar
Intenção para provocar
Seduzir para preparar
Ir para concretizar

Hoje apetece-me um tango
Sem meia luz.

sábado, 27 de maio de 2017

Histórias de pequenos nadas

Um dia dei com uma mulher que não sabia bem como lidar com o seu presente. Caminhava cheia de incertezas, em terrenos mal definidos e, sobretudo amontoando equívocos, seja sobre si ou sobre o seu futuro e o seu passado.
Dei-lhe a ler, entre mais uns tantos, um excerto de uma história em que, também, se narrava um equívoco muito curioso seja pela potencial cómico, seja pelo lado cruel do engano.
Um dos terceiros que o leu, amiga, como se poderá deduzir, incapaz de entender os vários sentidos da história do autor já há muito falecido, consegue deturpar de tal modo que transforma o excerto numa injúria intencional para afrontar a sua amiga.
Alheio a tudo o que se passava nessa conversa, claramente de casa de banho, recebo, atónito, um inexplicável:
 - Fulano, vai para o cara###!
E, assim, de um engano mal interpretado, mal lido e tolamente descodificado, abre-se uma roptura, uma pequeno fosso. O orgulho entreteve-se a cavar fundo, inundando-o de outros tantos equívocos. Hoje dificilmente poderá haver pontes que o ultrapassem.

O mundo feminino tem estas pequenas nuances. Conseguem fazer de um nada um tudo carregado de impossibilidades quando a impossibilidade está nelas mesmas.

Mini curta

No quarto casamento de um amigo
 - A verdade é que a ambição de um homem é sempre chegar ao quarto.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Uma explicação tardia

Rolava o vento da libertação.
Há quem diga que é o suão.
Vento quente, louco e envolvente...
Temporário, como uma enfatuação
Impossível em si mesmo.

E nele se marchou o exército
Onde militaram todas as armas.
Se fizeram, até, motivação.
Chegando a tomar como pitonizas
Pequenos abutres transfeitos de pombas.

Sem o lastro do tempo,
Vagando no sabor da circunstância,
Imperiosa necessidade de confirmar
Mais que a circunstância
A impossibilidade de ser derrota.

O tempo, essa inevitabilidade,
Inimiga de todas as simulações
Corrige indelevelmente o passo.
E, fatalmente, vai surgindo o lado inverso,
Da dupla realidade unificada.

Quem pode contra o seu passado,
O seu passo confirmado e afirmado?
Apenas uma visão mitológica,
Um dragão que fustigue a história
E limpa toda a impressão passada.

E restará o tempo a vir.
Com os monstros sugeridos,
Bestas de tudo capazes,
Mas reduzidas a mitologia
Que sustém impossibilidades.

Fica, assim nesse mundo
Quem nele habita
E dele se faz vida.
A mitologia dá asas
A quem pode voar.

Estar

Estou a fugir
Pensas tu
De ti...
Do mundo
Das coisas
De tudo...

Apenas fujo para mim
Para completar
O inexplicável
Alfa até Ómega.

Se sares de ti
Conseguirás chegar
Onde tens de começar
Onde todos estamos

A serenidade da demanda.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O progresso

Eles correm,
Quase se atropelam
Ao fundo, o destino
Descrito em letras
E N O R M E S
Para que não se percam
Nem a meta.
E correm
Sem olhar para trás
Numa luta contra o tempo
Correm mais,
Sempre mais
Gloriosos de cada pedaço
Cada pequena passada
Ou largo passo
Mas, e sempre descontentes
Por ser pouco
Quase nada
E correm
Correm sempre
Não há tempo para parar,
Para respirar
Para confirmar
É preciso mais
E correm,
Correm tudo
E sobre tudo
Querem chegar primeiro
Estar à frente
Na primeira linha
E correm
A meta é só uma

O progresso.

O que quer que isso seja

De uma discussão

De frase fácil, rápida e tantas vezes irreflectida acabou por ser presa de si mesmo. Sempre tão fácil de ser apanhado nas voltas das desinterpretações da comunicação até que começou a aprender a calar. E foi, aos poucos, deixando de falar.
Começava a discussão e passou a sair do corpo que esta na discussão e, alheado das respostas, passou a ouvir mais e a mastigar não a discussão, o que se discutia, mas porque é que se discutia. O que gerara a discussão e o que ela visava.
Sem surpresa, entende que a discussão não visava debater qualquer tema, mas sobrepor uma forma de estar, impor um modelo, forçar uma opção. Não importava a argumentação, nem sequer as palavras. Nada, a bom rigor importava. Apenas um ego.
Calou mais.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

E a conculsão

Estava a escrever uma história de amor e, num momento em que ele se emociona com a ideia peuril de uma conquista, ela, com a mesma intensidade, lastima-o.

Já não há história pois não há amor, nem afecto, nem inclinação. Apenas tempos comuns.

Devaneio

E ela sai... E leva consigo, naturalmente, as suas exuberantes mamas.....

Há lá coisa mais ficcionável que o peito generoso de uma mulher que o exiba com orgulho e alguma generosidade? Qualquer homem faz logo, não um mas vários filmes e todos tão rápidos e fugazes que desaparecem no segundo seguinte. Fica apenas um sorriso na alma.

sábado, 13 de maio de 2017

Tempos tempo

Retornam, agora, aos 3 F's de Salazar. A Fé, a Alma e os costumes colectivos. Andou, a esquerda, como em tantas outras fantasias, a vender uma mentira para construir uma ilusão fantástica de Salazar e do Estado Novo. Hoje, curiosamente, é a população, o povo, os trabalhadores que se revêm nos ditos 3 F's de Salazar. No fundo, sempre foram os seus. A mentira, como diz o ditado, tem uma perna curta. Falta desmascarar as restantes. Temos tempo. A Verdade pode tardar, mas não falha.

Nada

Perdi as letras
As mãos e os sentidos
Desliguei-me por dentro
Fiquei aos pedaços.

Havia um todo
Uma continuidade imaterial
Que ligava o que era importante
Fiquei, apenas, desligado.

O tempo passou a cortes
Acontecimentos apenas
Coisas desligadas
Portanto, sem sentido.

O espaço ficaram lugares
Ilhas que se visitam
Entre mares vazios
Onde nada existe.

Perdi-me, algures,
Numa qualquer caminhada
Que, fatalmente,
Me trouxe a este nada.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O corpo feminino


É sempre um encanto.

Um retrato


O rosto humano é sempre um desassossego. E, com variações no mesmo tom também não ajuda. Ainda assim menos mal.

Testes de relevo


Aplicando claros e escuros para dar a ideia de relevo. Apesar do pouco rigor na aplicação da cor, de modo a obter uma graduação sucessiva da suposta tonalidade da parede, o contraste claro/escuro permite supor uma morfologia.