quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Em vão

Em vão...
Espero.
À medida da melodia,
Num caminho que cresce
No sentido de uma confirmação.

Seremos, assim,
Tão inevitáveis?
E fomos
Tão inevitavelmente nós?

Um tempo no tempo
Que não servirá de passado,
A não ser para nós,
Que o vivemos.

E, em vão,
Volto a insistir
Volto a futurizar
Mas volta e retorna
O tempo que não volta.

Reincidências

Do meio do caminho
De onde recolho aqueloutra
Imensidão de pedras,
Acabo por tropeçar
Nas do costume.
Não que sejam as mais pesadas,
As mais sujas
Ou as mais difíceis,
São, simplesmente, aquelas,
Que sendo o que são,
Sou eu todo nelas.
E não há como dizê-las,
Nem como explicá-las.
São a reincidência
Da minha originalidade.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Lendo 193

"O que realmente morre é a imagem colectiva do passado"
Lawrence Durrell in Monsieur ou o Príncipe das Trevas, ed Difel, Lisboa, 1984, pág15

O tema do devir colectivo mais próximo só com o tempo serena e ganha sentido mais definitivo. Até lá sucedem-se um sem número de ideias que se ultrapassam. E é esse devir do mundo, do nosso mundo que morre todos os dias. As justificações de cada dia mudam, desenvolvem-se, alteram-se e ganham outros conteúdos a cada dia que passa, perdendo-se no tempo o motivo inicial do que levou a todo o devir. E tudo porque somos sempre devir, e estamos sempre a intervir nesse mundo. Nada cessa e se cristaliza num ponto.
Se a história for efectivamente relevante, sobrepor-se-à aos afectos e justificar-se-à.

A ruptura

Houve uma ruptura que aproximou dois seres e o tempo manteve-os numa harmonia possível. Tal como o dia sucede à noite e esta ao dia, assim eles se sucederam a si mesmos. Aquilo que os atraía, o magnetismo da mãe natureza, foi-se dissipando, cansando-se das mesmas cargas. Um certo dia, fruto de uma corrente cósmica, um dos pólos afasta-se e faz desaparecer o magnetismo que produzia a força. O dia continuou a suceder à noite e esta ao dia e o mundo voltou a sorrir.

As mudanças são factores de expansão e crescimento. Assim como o tempo muda a todo o instante, também o mundo pode mudar com ele.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Do conto ao romance... ou ao drama?

Conversavam sem passado. Apesar de se saberem num caminho comum, sabiam que partilhavam uma estreita berma. Não era o centro de nada, apenas um percurso lateral construído de um afecto que se foi solidificando. Conversavam sempre sobre o eu que se projecta e se ambiciona. Havia futuro, desejo de outro mundo, desejo de liberdade e de autenticidade. E esse trilho brilhava por entre os olhares. Poderá haver, um dia, algo mais que encontros de afecto? Passariam a caminhar na berma, ou passaria a berma para o centro da vida? E, nesse tempo, como integrar o passado e passar a fazer consequência? Como passar a fazer história? A deixar de ser um conto para ser um romance.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A razão que se dane

Rasgo-me de nada
Como se fosse um tudo.
Uma qualquer razão,
....
...que piada!
Ainda haver quem acredite
Sim! Acreditar!
Nessa razão!
Amante de 20 euros
De trabalho mal servido
Sujo e repetido
Ensaiado ao enjoo
Para se sobrepor
A tudo o mais
E, escancarada, assumir-se
Reguladora de senso
E certezas absolutas...

Rasgo-me de afectos
Irracionais,
Sentidos
Mentidos
Amados
Sofridos
Queridos
Desejados

A razão que se dane...
Consegue lá ela entender o Amor...
O homem...
A emoção....

A saudade

Aquilo que sinto
Amargo doce,
Calor que comove
Sentido que se sobrepõe
A toda e qualquer retórica
Mundo de outros mundos
Passado pleno
Inquestionável.

Passado sem passado
Puro e cheio
Sentido pleno
Em suspenso
Nesse instante
Absoluto.

Um curta

Acordara sem grande motivação para se preocupar com o que vestiria por cima das calças de ganga. Olha-se para o espelho e enquanto penteia despreocupadamente o cabelo vê-se com a camisola de lã apenas. Prefere ir assim a ter que vestir camadas sucessivas de peças de roupa, seja top, camisa, casaco ou o que for. Apenas uma simples camisola de malha.
A ligeireza e tranquilidade com que se veste acaba por se transformar na tónica que o dia lhe foi progressivamente dando.
Ao fim do dia, satisfeita, despiu primeiro as calças e de olhos fechados esperou que umas mãos a ajudassem a tirar a camisa. Teria sido o fim de dia perfeito. Suspirou fundo e com suavidade desceu os finos dedos sobre o seu corpo sentindo o calor morno debaixo da roupa. Abriu o soutiã como quem respira longamente aliviada. Retirou-o pudicamente pelos braços mantendo-se apenas com a camisola. Apenas no espelho se mantinha sozinha.

Mãe, mãe e MÃE

No outro dia, e num programa de televisão, dizia uma entrevistada que o seu filho, aos treze anos resolveu ir viver com o pai. Entre algumas, não exaustivas explicações e consequências, falou num "drama social".

Ser mãe é um dom da natureza que as mulheres têm em exclusividade. Geram dentro delas um feto que dá origem a um ser humano que é parido. Durante a gestação têm a possibilidade de desenvolverem mil laços e outras relações intangíveis que após o parto se consolidarão. A própria capacidade de dar de mamar fortifica essa relação, adensa essa misteriosa protecção que a mãe vai significando.

O bebé vai ganhando autonomias e a mãe também. O mesmo caminho começam, naturalmente, a serem dois caminhos. E na criança fica sempre esse elo.

Imagine-se, todavia, que a mãe, por um vastíssimo espectro de motivações, vai tomando sempre a maternidade com um sentimento de imposição, de diminuição da sua liberdade, de supressão da sua independência, da sua autonomia. E, aos poucos, e sucessivamente, passa a ser a mãe do socialmente aceite, do que é suposto ser. Desaparece-lhe o afecto genuíno, natural, quase mesmo o afecto animal. Passa a ser uma relação com óbvios reflexos na, ou nas crianças geradas.

Visa esta reflexão não ser nada mais que uma reflexão sobre o unanimismo de conceitos e ideias que os dias de hoje nos obrigam sem serem minimamente abertos ou permissivos a uma tolerância do modo com que cada um viveu a sua relação maternal, nem como algumas mães lidam com os seus filhos. É tão obrigatório amar, respeitar, adorar e tudo o mais no limite superior do conceito à mãe como é obrigatório respeitar todas as diferenças de opções sexuais. Porquê ligar uma coisa à outra? Porque acredito, precisamente, que uma coisa vem da outra.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A outro tempo

Quando o pano cair
Dançarás sobre o meu cadáver,
Numa triste satisfação
Da vitória final

Eu, já sem tempo,
Ainda permanecerei
Apenas onde te couber
Onde te tocar.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Aforismo temporal

Há coisas que ficam no tempo. Nada como saber deixá-las manterem-se lá.

Uma curta mundana

E ela diz, segura e confiante, quase professoral:
- Eu, hoje - particularmente enfatizado - até concordo contigo...
Ficou apenas estupefacto.
Nunca lhe tinha passado pela cabeça que ela pensasse que eu haveria de perder um segundo sobre as suas opiniões. Era tão transparente que não precisava de opinar. Ela era aquilo. Desde o princípio do tempo. E, pasme-se, não buscava, em momento algum, a sua aceitação.
Uns segundos depois. orgulhosa da sua deixa, repete a frase:
- Eu, hoje até concordo contigo...
Que tão longo suspiro.

Valsando

Poderia eu guiar-te numa valsa
Onde tudo passava
À velocidade do carrossel
Passando por apenas ali estar.
E, pela cintura,
Sentia o teu calor,
O teu odor,
E, até, o teu amor...
Até onde poderia alhear-te do mundo,
Centrar-te apenas no som
Que contigo me rodeia?

Valsa-me... valsa-me...
Numa roda incessante
Um, dois, três...
Sempre

Ao beijo

Quantos beijos caíram
No meio dos teus lábios
Como se fossem
Uma simples saudação.

E quantos outros
Sentidos, queridos,
Desejados e ansiados...
Que ficaram por dar...

E os beijos piedosos,
A par dos obrigados,
Mero encosto de lábios.
Até forçados...

O beijo....
Como flor do Amor
Aflore-se com elegância
Ouse-se com vigor
E sinta-se arrebatadamente
Para que o seu aroma
Se quede intemporal

Apenas eterno

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Desabafo recuperado

Falar, conviver, conversar, partilhar uma refeição com alguém vive na mesma realidade sócio-cultural é melhor que qualquer outro processo exógeno de reconstituição moral.

Diga-se o que se quiser, mas há, definitivamente, mundos onde temos encaixes melhores e piores. E, de pois há aqueles que, mesmo assim, ainda nos devolvem um sorriso à alma que se vê no rosto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Da revolução francesa

A revolução francesa fez-se com base na trilogia "Liberdade, Igualdade e fraternidade" que os seus descendentes socialistas tomam como conceitos absolutamente seus. É sua pertença. É o seu património. Mas não dão a liberdade para os outros serem diferentes. Não os tomam como irmãos. E, para cúmulo, não os acham seus iguais, acham-nos menores, burros, imbecis, etc... Que mundo pode haver com gente assim?

Tenho, convictamente, cada vez menos respeito intelectual por quem defende princípios que não pratica.

Política

Cada vez mais decepcionante. Não tanto a dita cuja, mas os seus actores mais passivos ( ainda que tenham a ambição de serem mais activos que os próprios actores)

Tenho cada vez mais dificuldade em entender as defesas emocionais ( para não dizer, mesmo caninas) de quem não viu a sua preferência ter sido a escolhida. Descem aos níveis mais básicos e animalescos de comportamento recusando lidar com a realidade. Chegam mesmo a querer obrigar o mundo a repetir à exaustão todas as tomadas de decisão até que os burros, estúpidos, ignorantes e imbecis que não os acompanham encontrem a luz dos seus argumentos.

Falta humanidade. Falta espiritualidade. Faltam exames de consciência. E muita tolerância.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

paradoxo

A imagem no cinema é uma sequência de vários instantes. Nenhum vale por si. O conjunto sobrepõe-se e é o movimento aquilo que retemos. A fotografia, o instante desse cinema, é em si o tempo todo.

Um paradoxo bizarro.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Um altar aberto


Onde pára o telhado?


Olhando



Um longo caminho



Lazer


Espreguiçando de pés molhados

Templários


Mais que um símbolo, uma marca, até uma divisa.