sábado, 24 de setembro de 2016

Planos de contigência

Em todos os sítios por onde andei profissionalmente desde sempre se criaram, de tempos a tempos, planos de contingência. Não que existissem dramas ou cataclismos emergentes, apenas havia que ocupar mentes demasiado soltas, mas temerosas que, tal como aos invencíveis gauleses, o céu lhes caísse em cima da cabeça! A ideia que se pretende passar é que existe uma tal urgência nessas vidas que possuídas de uma ansiedade vital e essencial, instalam essa coisa horrorosa que se chama medo. Ai e se...? Bom e se acontecesse? No limite a ideia é pensar o que fazer se só ficarmos nós na terra? Como se deixa ver, a ideia por si revela que não faz a mais pálida ideia que o mundo, a sociedade, a cidade onde habita, é feito por muitas outras pessoas que em qualquer dessas "tenebrosas" circunstâncias estariam em igual maré de sortilégio maligno e, por tal, absolutamente nas tintas para elas ou o seu importantíssimo desígnio de salvar o mundo e a porca que tem que diariamente apertar, tal como Charlie Chaplin o ilustrou.

Ou seja, num plano meramente primário, a mera possibilidade de ter que haver uma alternativa operativa global, esquece a natureza do universo onde esta se encontra, pois a se dar tal circunstância, ela não seria circunscrita.

Demos, então de barato, que vamos todos acompanhar o esforço de alguém justificar um nada de facto, entretendo para isso o precioso incómodo de um vasto conjunto de pessoas para demonstrar que, com abnegação, esforço e, sobretudo, com a sua suprema dedicação, a solução pela qual todos passaram a suspirar é viável. Nem se imagina a redução maciça de ansiolíticos e anti-depressivos que tal promoverá! Poderemos até pensar que farmácias criaram planos de contingência para essa possibilidade!

Depois das inacreditáveis reuniões estratégicas, metódicas, funcionais e até de trabalho, vamos chegar aos escolhidos, os contingentes! ( no dicionário diz-me que o contingente é algo possível, mas incerto. Não estou a dizer que os escolhidos sejam incertos, pois que o são seguramente, mas são os possíveis! Essa rara qualidade que só a alguns acontece!)

Como chegamos aos contingentes? A primeira linha são as chefias. Afinal são os que verdadeiramente importam para quem desenvolve estes planos, pois é para lhes dar essa noção de escolhidos, de eleitos que estes planos são elaborados. Eles e as chefias são quem realmente importa. Num cataclismo eles dariam o passo em frente e garantiriam o futuro ( bem sei que a ideia de ficarmos reduzidos a eles e às chefias em si é assustadora, mas trata-se de um pressuposto de quem gere a contingência.) Que importa, afinal, aqueles que são os que diariamente lidam com a realidade, que sujam as mãos nos assuntos, que esventram os problemas, que conhecem a carcaça da entidade? Nada, eles são nada, pois na realidade a contingência é uma mera hipótese académica. É um trabalho onde os todos não existem, não entram nem fazem parte. Pode custar uma fortuna, mas isso é irrelevante, pois que uma vez apresentada e resolvida, todos ficaram muito felizes. É como dizer tenho aqui um seguro fantástico que cobre a possibilidade. Custa uma fortuna, mas a possibilidade fica segura. Quem decide, como não é o dono do dinheiro, fica muito mais tranquilo pois que a possibilidade está segura! Aconteça o que acontecer, não acordará a meio da noite atormentado pela possibilidade. Ela está segura!

E assim se gere e planeia a estratégia neste país!

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