quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Invejo

Todos os que vão de férias
E onde elas são férias
E nelas há paz...
Há prazer de estar,
De encontrar espaços,
Pessoas e lugares...
Até tempo.

Invejo quem tem tempo
Para parar-se,
Para demorar
No canto de si,
Como se fosse o fim do mundo.

Invejo quem tem tempo
Até de férias
Para ser o que quer
O que pode ser
O que se deseje ser.

Invejo paz,
A serenidade de deixar
Ser como se é,
Como os outros são.
Como o mundo é.

Desejo paz,
Que haja paz,
Que se sinta paz,
Que se ame essa paz.

Desejo que haja eu,
Assim como haja outro
E mais outro,
E ainda mais outro.
Que cada um haja por si,
Para si,
E todos no mesmo todo.

Invejo quem sinta isto,
Que veja isto,
Quem entenda isto
E, no fundo...
Seja.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Refazendo-me mais um pouco

Descobri uma mulher disposta a amar porque fora desamada. Mas para seu sofrimento queria amar num sentido em que fosse impossível amar o objecto amado. Era amar sem reter, um certo amar egoísta e apenas ao seu modo. Amar sem intimidade, sem entrega. Queria amar sem entrega, compromisso ou futurizar amanhãs assim como quem deita conversa fora,. E não é que alguém apanhou essa conversa?

Agora, coitada, ama. E desgostosa desse amor que não queria e para o qual não tinha apetite. E deseja, para si, a tranquilidade de não ter amor! Futuriza sem futurizar e amar sem amar. Ficou como uma árvore que secou mas ainda assim sobrevive ao tempo com vaga e ténue folhagem. É uma árvore de Outono.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Refazendo o existente

Durante anos fizeram, diariamente, o mesmo percurso. Esperaram e correram ao mesmo tempo. Riram e chatearam-se pelos mesmos motivos. Fizeram as mesmas conversas e tiveram os mesmos temas. Descobriram razões e, também, algumas emoções. Terão feito o mesmo caminho onde traçaram uma intenção de destino. Foram, durante um tempo, quase os dois num. E foram assim, como foi o tempo.
Sem saber e sem se querer, um dia, um foi deixando de ser o um para o outro. Deixou de fazer o percurso e passou a andar ao lado. Não fazia já a conversa, mas ouvia e, se calhasse, opinava. Passou a sorrir quando o outro ria, a concordar em vez de apoiar. Os caminhos passaram a ter destinos diversos. 
No meio ficou a cumplicidade do que nunca foi mas poderia ter sido. Um livro cuja capa foi aberta permitindo que todos os enredos fossem inventados. Não aconteceu a audácia de se fazer romance, drama ou apenas uma novela.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Acaso se pode turvar o puro?

Naturalmente, e essencialmente, não.
Puro que é puro não se turva.
Depois falaremos de Deus.
O tema, no fundo, é sempre o mesmo. Apenas muda a figura expressa

Guincho

Dizem que vagueia um espírito no longo areal. Que diz, cifradamente, o que alguns conseguem ouvir. E, os que o ouvem, entendem-no como alma fosse. É o ar de quem nele passeia. E é o espírito do passado que nunca houve mas que se deseja que houvesse acontecido e sido.
E de tão desejado passa a ser um pretérito que é todo o futuro de quem vive com esse ar dentro de si. Para os demais é apenas vento, rajadas por vezes... chegando a ser desagradável e maçador. Um ar que ganha intenção quando agita os que o ouvem.
Quanto ao resto, é uma praia com nortadas.

Regra de ouro

Geralmente as conversas entre seres humanos são isso mesmo, conversa, comunicação. Tomar tudo como ataques pessoais é reduzir a capacidade do homem viver em sociedade.

Nota: Dispensa-se descrições de personalidade ou feitios, pois que, invariavelmente conduzirão à segunda frase.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Fim

Não há expectativas.
Há erro
E mais erro
E mais erro
E volta a haver erro
E engano também
E preto
E desolação
E erro!
Não há futuro
Porque nada há a futurizar
Tudo é erro

Quase quadra

Trago-me assim
Neste outro caminho
Onde caí
Assim que me nasci.

Mágoa

Trago uma mágoa
Que é sempre a mesma,
Ainda que diversa.
É substante
E quase essencial.
É uma parte
Que se faz todo
E alastra a tudo
E em tudo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lendo 184

"O ser feliz, afinal,
Neste pouco se contém:
Extrair do nosso mal
Alguma soma de bem...
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 100

Quantas vezes cabe apenas ao meu eu a capacidade de se conformar com o mundo e nessa conformização recolher, tão somente, aquilo que me pode fazer bem. Será sempre uma arte de viver.

Lendo 183

"Na rua da Piedade
Encontrei-te, à luz da Lua.
Ia a dizer-te a verdade,
Lembrou-me o nome da rua..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 74

Quantas vezes me perdi por não me ter lembrado em tempo do nome dessa rua. A verdade é algo que para ser escutada, precisa que quem a irá fazer tenha aptidão para o efeito. De resto pode ser, apenas um exercício de sadismo encapotado.

Lendo 182

O amor é duna de areia
(Varia, mal se formou)
Rompante de maré cheia,
(Água o deu... água o levou)
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 61

Com o tema do amor colocado desta forma, devemos estar a falar dos chamados amores de Verão, que entram na época e saem com a entrada de Setembro, fruto apenas da leveza da estação.
Há, no entanto, uma outra noção curiosa, é que o amor é dinâmico e não algo estático. A duna de areia forma-se com o vento, restará saber qual o vento que forma a duna desse amor. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A insensatez declarada

Ban Ki-moon, actual secretário geral das Nações Unidas afirma que "Próximo secretário-geral da ONU "deve ser mulher"...

Ser mulher passa a ser um requisito? Até onde pode a ausência de sensatez levar o mundo? Importa mais se é mulher os se está preparada para o efeito? Interessa mais ser mulher ou qualquer outro requisito? O que é "ser mulher"? Que valor estratégico tem? O que é que acrescenta? Será que a humanidade andou perdida milénios por não ser orientada por mulheres?

Mais uma prova evidente que o caminho que a humanidade segue é o errado. Vamos caminhando em função de ideias "progressistas" em vez de progresso. Aliás, a ideia subjacente é um óbvio retrocesso, pois impõe condicionalismos a um cargo que, de uma penada exclui metade da população mundial. Será que o próximo terá que ser homossexual?

Da televisão

Olho para a televisão e vejo em simultâneo tantos programas.

A história linear que contam. A mentira que querem dourar. A ilusão que estão a vender. O negócio que subjaz ao pequeno filme que fizeram e a razão deste acontecer. Os muito bem pagos minutos de fama transmitidos. A farsa do jornalismo. O jogo dessa notícia. A verdade que reside apenas nos livros de filosofia e de teologia.

Tudo não passa de um jogo de interesses em que, até como espectador, acabo por ser involuntariamente parte.

E o estado lastimável a que isto tudo chegou.

Movimento

A ideia de movimento
É tida como forma
De demonstração de vida.
E no meio de tantas ideias,
Que, eternamente,
Em mim se movem
Quda-se a sugestão
Que vida, também existe,
Nesse eu.

Marotice

E a mãe vem, velando...
Vê para onde olhas,
Que estas não são para ti.
Mil vezes as minhas
Que as da minha filha.

Ou não fosse , também, mulher!
E, por tal, também deseja o teu desejo.

Lendo 181

"(...)Quem pasma a ver para trás
- Nem caminha, nem descansa..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 66

Apesar de perceber a ideia que estava na mente do poeta, de quem remói o passado incessantemente, queda-se em frustração contínua em vez de olhar para a frente e ultrapassar as contingências. Mas, e por outro lado, a reflexão sistemática do que se passou pode transformar aquele que a faz com verdade e com sentido numa pessoa mais sólida. Portanto verifica-se um paradoxo de rever o passado e manter essa revisão em alerta e andar em frente. Também, o andar em frente é fabricar mais passado. 

domingo, 14 de agosto de 2016

Lendo 180

"Senhoras, se o que pensais
Deixasse vestígios claros,
Os divórcios eram mais
E os casamentos bem raros..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 55

Segue, um pouco, o caminho de outra quadra  aqui apresentada. É que essa coisa de ser mulher tem mais de diabo do que de santa. Ainda assim, masoquista me confesso, amante de todos estes diabos.

Lendo 179

"Procuraste outra que fosse
Forma parelha da tua.
Marinheiro de água doce
Chega ao mar alto... e recua"
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 45

Esta é dedicada a um casal que é a representação pública deste poema escrito em 1920.

Lendo 178

"Já te conhece a andorinha
Que vive no meu telhado
E diz-me assim: Ó vizinha,
Lá vem o seu namorado..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 44

Quantas vezes as andorinhas são mundo inteiro que sabe, vê, sente e quase cheira o que o casal sente. Este pensa que a descrição é a sua arte, esquecem-se, por outro lado, que o sentir é muito superior que o melhor teatro.

Lendo 177

"São os dois peitinhos dela
Outeiros de lindo cume.
Trago lá de sentinela
Num o amor noutro o ciúme..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 34

Os peitinhos dela... Não conheço homem nenhum, que o seja, de facto, não traga sentinela nos peitinhos dela. Acontece, todavia, que não é amor nem ciúme, apenas o desejo.
Já tive oportunidade de me deslumbrar sobre este tema dos peitinhos noutra ocasião e continuo a afirmar a sua magia magnética.

Nota: O ciúme é absolutamente despropositado, pois que se todas as elas têm dois peitinhos, não se pode querer ser tão polígamo e reter todos eles. Haja o deleite de os contemplar, tal como os restantes homens o fazem.

Lendo 176

"O chapéu dos pobres anda
Mais na mão que na cabeça..."
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 28

Esta frase, escrita em 1920, ainda hoje a oiço, e se pode ouvir, nalguns lugares onde a democracia e as restantes fantasias teimem em não entrar, pois que a ideia do pobre, aquele que se sabe diferente de outrem já não se confirma. Hoje todos são iguais e, sobretudo, já ninguém usa chapéu.

A tempo. Os que usam, usam-o em todo o lado, em frente a uma senhora, dentro de uma casa, à noite e sem razão evidente.

Lendo 175

"Casamento é lotaria.
Ora então que a roda ande!"
Augusto Gil in O craveiro da janela, 4º edição, Portugália Editora, Lisboa, 1957, pág 14

Coitados do jovens enamorados que acreditam que a princesa com que se casam é aquela peça única do mais maravilhoso tesouro. É, sem dúvida o seu tesouro, e precioso... Mas será também uma mulher que com as vicissitudes próprias do género, fará todas as voltas e reviravoltas e, quem sabe, se confirma que era efectivamente essa princesa.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Serenidade

Platão, na alegoria da caverna, desenhava uma estrutura de conhecimento que transportava o homem da escuridão até luz e, quando se atingia o patamar da luz, já não se possuíam conhecimentos, mas contemplava-se o saber. Esta diferença radical, a contemplação, e não a aquisição é hoje ainda mais grotescamente evidente.

Uma das coisas que mais me influenciou ( que nunca consegui sequer me aproximar) foi a humildade no saber. Quem efectivamente sabe possui uma serenidade que dá gosto ouvir.

Nota: Engraçado que a Maçonaria "reinventou" esta alegoria e, por exemplo na Quinta da Regaleira, em Sintra, é uma mistura de platonismo com cristianismo nas grutas e depois na subida do poço.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Lendo 174

A umas escassas 50 páginas do fim do livro "A Padeira de Aljubarrota" de Maria João Lopo de Carvalho tenho algumas notas que me sinto forçado a fazer.
O livro é pobre ainda que escorreito e de fácil leitura. Usa muitos termos de época sem ter o cuidado de oferecer ao leitor ( sobretudo ao que se destina) um sinónimo ou uma ideoa do que possa significar.

Usa e abusa de cenas de teor sexual um pouco a despropósito e consegue em quase todas pintá-las de um modo assaz desagradável. Violações, sexo em grupo, cenas homossexuais, masturbação feminina e abuso descarado, sendo que existe sempre uma feiura implícita que quase incomoda.
Tem muita pesquisa histórica assim como os damascos, carmins e o doçel.
As figuras históricas são um tanto fantasiadas para dar cor e agarrar o leitor.
Durante 400 páginas é um romance que vai acontecendo onde se poderia dizer "Isto é uma obra de ficção qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência" sendo que acompanha a história de Portugal. Chegando a esta altura toca de tratar do assunto que se quer ver tratado e deixa de lado o romance de cordel e fixa-se mais no momento histórico que deu fama a Brites de Almeida.
É um tipo de escrita que consegue ter muitos fãs assim como leitores. É a literatura McDonalds ou Padaria Portuguesa, serve para o efeito.

Se não gostei, porque é que o li? Para além de ter um certo fascínio pelo tema 1383-1385, por Nuno Álvares Pereira e por Dom João I, tinha também curiosidade em perceber o que é que faz uma mulher com a cultura e a educação da Maria João Lopo de Carvalho escrever este tipo de livros. A edição da Leya colecção BIIS é boa para levar para a praia, lê-se com a leveza do ar do mar.

Lendo 173

Em 1752 são concedidos privilégios aos plantadores de amoreiras.

Este belo pedaço de informação entende-se melhor com a noção da importância do crescente mercado da seda, e a Real Fábrica das Sedas que carecia da matéria prima que o o bicho produz, o fio de seda. E onde é que esse animal habita e se alimenta? Nas amoreiras. Donde não é de estranhar que a dita Real Fábrica se situe no jardim das Amoreiras.

Quando a lógica tinha sentido e as coisas se faziam numa linha de A para B.

Lendo 172

A 15 de Março de 1751, D. José I fez publicar uma nova lei.

«Faço saber aos que esta lei virem que, por me ser presente que de alguns tempos a esta parte se frequenta o delito de se porem cornos nas portas, e sobre as casas de pessoas casadas, ou em partes em que claramente se entende se dirige este excesso contra as mesmas pessoas; e por desejar evitar estes delitos, de que resulta atrocíssima injúria àqueles contra quem se cometem, e grande perturbação à paz, e quietação necessária entre os casados; e tendo outrossim consideração ao que sobre esta matéria me foi presente em consultas da Mesa do meu Desembargo do Paço: Hei por bem que este caso seja de devassa: e mando a todos os corregedores, ouvidores, juízes e mais justiças a que o conhecimento disto pertencer, que, sucedendo este caso, ou tendo sucedido de dois anos a esta parte, tirem devassa deles na forma que o devem fazer dos mais, de que por seus ofícios são obrigados a devassar; e outrossim mando ao Doutor Francisco Luís da Cunha de Ataíde, do meu Conselho, e meu chanceler-mor, faça publicar esta lei na Chancelaria, a qual se imprimirá, e enviará por ele assinada à Casa da Suplicação e Relação do Porto e a todos os julgadores dos meus reinos, para que procedam na forma dela.» 

Enquanto me entretenho a documentar-me sobre o século XVIII, eis que me deparo com esta pérola. 
Imagine-se a maldade que reinava antes desta norma. Alguém resolve fazer o chamado "olho gordo" à vizinha e, para adiantar caminho, toca de colocar uns cornos na porta do vizinho, este fica de mal com a mulher e o nosso vizinho, qual conquistador sem amanhã fica logo com porta aberta para consolar a pobre inocente... daí à concretização da afixação é só uma questão de habilidade do conquistador. 

domingo, 7 de agosto de 2016

O tempo

Há quem o diga linear
Que segue o caminho
Ainda que não uma recta
Mas um caminho
E?
Se o caminho for diverso
Espiral
Ou redondo
Ou até circuncêncrico?

Por natureza,
O tempo é um linha
Sempre a andar,
Sem paragens,
Sempre a andar,

O que o interfere
Nada mais é,
Que o nosso modo
De O pensar

E, isso,
Apenas para quem o faça.
Os devotados à reflexão
Exilados da realidade
E presos na Verdade.

poema na poeira do tempo

E desce a melancolia
Quase uma lágrima
Ainda não completamente
Apenas o rasar dos olhos
Que se levantam em vão.

Não!
Não é tempo,
Nem motivo.
Não quero!

E...
Que fazer....
Basta pensar
Repensar
Reviver....
E.. como não?

Não sou uma máquina,
Um organismo estável
Que funciona com corda
O que sou.....

Um coisa que pulsa
Que se fecha em dor
Que se recolhe ferida
Que fica em guarda

Por mais que se apague
Permanecem as brasas
Depois as cinzas
E então o pó....

Pode-se refazer do pó?

Há dias assim


Em que me sento num banco entre duas paredes para melhor poder reflectir.

Para mastigar devagar.

Quanto vale a expectativa no ser humano?

O pequeno homem escraviza-se de mil assuntos que dá como interesses e faz deles o centro de um identidade. Não procura dentro de si a razão de ser católico ou ateu. Não encontra dentro de si a razão de ter determinada orientação política. Ajuíza sem uma fundamentação, mas porque adere a um grupo. E cada vez mais o grupo corrói a dinâmica individual da reflexão.

É-se testemunha de um acto injusto e faz-se silêncio absoluto na alma e na acção. É-se conivente pela inacção. E essa conivência deve-se à adesão ao grupo que sem fundamento moral ou ético, apenas requer que não se manifeste. Fere o imediato, ganha corrói o futuro e descredibiliza o longo prazo. Assim é na injustiça, na corrupção, no pequeno pecadilho.

O drama é que esse silêncio, num primeiro momento recolhe dividendos, tenham eles a dimensão que tiverem, e num segundo diminui a intolerância ao erro. Tudo pode, no limite, vir a ser aceite.

Na minha vida tenho um rol de "amigos" porque nesse momento crucial não comprei o silêncio, comprei a minha paz interior. Fui um cristão, agi como um cristão, falei e intrometi-me ( obviamente que muitas vezes mais desastrado que um perfeito imbecil), mas fiz questão de não deixar calar o erro moral.
O tempo, obviamente e sem nenhuma novidade, tem mostrado vezes sem conta que a minha posição era a correcta e que o preço a pagar é muito superior ao que eu paguei pela afirmação do erro. E ninguém quer reconhecer que em tempo oportuno havia dado a devida nota. Inclusivamente ganhei um interlocutor obrigatório que às minhas frases, opiniões ou reflexões, age de má cara quando não mesmo ao coice. Não ganha a razão, mas descarrega a sua frustração de não conseguir ter um eficaz centro moral.

Eu não o pedi. Reflicto alguma coisa e agradeço a quem me deu a minha capacidade de pensar, pois tudo o que penso não é meu, foi-me dado para utilizar.

Percebo, sem nenhuma dificuldade que estou condenado a ser o inconveniente, o que não interessa, o que chateia. Mais entendo ainda melhor que o futuro é um caminho cada vez mais estreito.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A guerra das mamas

Um grupo de mães vai fazer um "desfile" de amamentação em público em várias cidades com o intuito de mostrar ( não as mamas, evidentemente) a inocência do modo natural da alimentação maternal.

Concordo e concordarei sempre com a amamentação. O caso, todavia, quererá me parecer ser outro.

As mamas, seios, peito ou o que lhe quiserem chamar é, de longe, a imagem mais erótica, mais sexual, mais marcante do corpo feminino. Essencialmente porque apenas elas as têm e porque são, inegavelmente absolutamente sedutoras. A confusão que se estabelece é simples. A publicidade vende-nos decotes sublimes, maciços soberanamente generosos, arcos de textura de veludo, curvas de uma divina inclinação onde se admite a mais quente e agradável textura de pele. Um êxtase em pleno. E vende isso em tudo. As mamas são o centro de um imenso mercado, são o fenómeno de êxito de qualquer produto, um chamariz que nunca acaba, nunca cessa, nunca se perde.

Há homens, coitados, que na visão de uma bébé a chupar um mamilo para obter a sua refeição, ficam de tal modo de cabeça perdida que agem nos antípodas do seu desejo natural. E, depois de bramarem contra isso, ficam de boca aberta e olho preso num decote.

Não tem solução. São o mistério do ser humano e o enorme poder das mamas.

Nota: As mamas merecem uma reflexão filosófica muito para além desta pequena observação quase humorístico. Elas, as mamas, conseguem ter mais poder que as mulheres que as transportam. Um homem pode-se perder pelas mamas e não pela mulher. Bizarro, mas absolutamente definitivo.

Meditação na minha cidade

Sentado num banco do jardim olhando distraidamente o som daquelas espécies de papagaios que pulavam no céu de árvore em árvore não dou pela chegada de outro distraído que também se senta. Dizem que esta novidade se deve a um casal que não podendo transportar os antepassados das actuais aves para onde iam, resolveram devolvê-las a uma ideia de liberdade. O tempo veio a certificar as suas suposições e foram nidificando e reproduzindo-se pela cidade.
Cada Verão que passa tenho gosto de ouvir mais. Tenho uma ambição que fossem substituindo as pombas cinzentas, sujas e carentes de beleza por este barulho verde.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Amarguras

Apetece-me falar de um conceito que li e tomei conhecimento como "la chute", e temo amargamente que venha logo da imbecilidade falar do chuto da bola.

Vou falar em francês, talvez assim me safe "la chute c'est la naissance"

Lendo 171

"(...) A memória
Mascara pouco a pouco essas imagens"
Fernando Pinto do Amaral in A Luz da Madrugada, Dom Quixote, Lisboa 2007, pág 18

A natureza do homem, o amor, transforma todas as memórias atenuando a dor que nos provocaram chegando ao ponto de sentirmos saudades do tempo em que elas aconteceram. Bem entendido não pela eventual dor que sentimos, mas porque sobrevalorizamos o amor que nos rodeava. E de nada vale forçar alguém, até o eu, a voltar a sentir a dor desse momento que a mágoa transforma, pois a misericórdia de Deus é maior.

Uma lágrima seca

Quando foi a última vez
Que te correu uma lágrima?
Ainda te recordas por quem foi?

Ah....
Desculpa
Esqueci-me que és forte.