domingo, 24 de julho de 2016

Delírio sobre o amor

Conheci um homem cujo corpo era a dimensão do seu coração. Tudo amava e a tudo dedicava o seu afecto. Amava com a liberdade do amor, nada pedia em troca, nada exigia. Olhava para o mundo a entendia que o seu modo de amar era o modo do ser humano amar. Dar simplesmente ao outro. Desconhecia, completamente, esse pequeno vício chamado, a reserva.

Um dia, porém, é-lhe apresentada essa reserva. Enche-se de espanto. Que sentido tem? Para que serve? E, sobretudo, porquê?

O amor, na sua definição plena, diria mesmo filosófica, é Deus. É tudo. E para se ser tudo não pode conter falha, erro, fissura, vício ou imperfeição. Amor é tudo. E se sentindo-se tocado, abençoado por esse amor porque é que alguns se limitam com essa dita reserva, diminuindo de imediato o tudo que se lhes é dado. Bom, se assim é, deu-se logo a sentir uma imensa misericórdia por todos os que se impossibilitam dessa plenitude. Como é que perante um flor, se afastam dela para não a apreciarem devidamente, para não a cheirarem devidamente, porque é que não se entregam simplesmente à fruição dessa flor?

Mais pensou e começou a ver nesses outros corpos amputados. Eram coutos que escondidos ou exibidos desfeavam as pessoas. E iam acrescentando máscaras, roupas, armaduras e até armas que se sobrepunham aos coutos que se atribuíam pela reserva que faziam.

O tempo passava e os coutos cresciam, chegavam a criar raízes quase aptas a se colarem e fixarem na geração de um amor experimentado com sucesso. Para uns era sinais de educação, outros diziam que era uma questão moral, era o que sempre assim foi, e outros não diziam nada, apenas calavam-se. Apenas depois de mortos alguns coutos caiam.

Como morrerá esse homem cuja dimensão do corpo era o tamanho do seu coração?

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