domingo, 31 de julho de 2016

Aguarelas



Mais uma tentativa.

Cada vez mais aprecio o volume dos corpos e as posições fora das exibição do simples nudismo.

Aguarelas



Tentando desenhar e pintar a partir de uma foto que encontrei na internet

sábado, 30 de julho de 2016

resumindo

Foste sem te despedires
Foste apenas
E disseste
"Finalmente sou só eu."

Poema perdido em rascunho há muito tempo

E ficava aqui,
Agarrado a tudo
Para me agarrar a ti.
Sejam palavras,
Sons ou cores
O que quer que seja.

Consegue-se mudar o destino?

Por cada sorriso que fazia, por cada conversa que dava esvaziava a sua alma de afecto.
Fora educada a mostrar-se assim. Uma flor seca e vazia por dentro. E bastava-se assim.
Foi-se cobrindo de negro e azedume, mas continuava a sorrir e a conversar assim.
Consegue-se mudar o destino?

Do que sou.

Arrasto erros meus,
Insónias e outros demónios,
Que me comem e corroem
E ferem feridas abertas
Jamais saráveis
E nunca ultrapassáveis
Mas são os meus.
Aquilo que fiz,
E me desfaço por os ter feito
Que me castigo por ser
Feito de carne e osso.
São a minha miséria
Da qual não tenho misericórdia
Fugazmente os esqueço
Ou me distraio com a vida.
São a minha consciência,
O resumo de ser sempre
Errante neste mistério.


Ser para o outro

Ouvi, há muito tempo, o Monsenhor Feytor Pinto a resumir, como ele tão bem o sabe fazer, que o ser cristão é, tão somente SER PARA O OUTRO.

E o que é que entendi que é ser para o outro?
É ouvir
É conversar
É apoiar

E aqui termina o que a maior parte das pessoas entende desse ser para o outro. No entanto a dimensão que dei a essa frase foi maior:
- Perceber o que o outro precisa e agir
- Prover uma necessidade
- Trazer um café ou um copo de água a quem diz precisar
- Levar o pão de manhã para os colegas
- Fazer um trabalho chato se uma pessoa se atrasa
- Perceber o que falta a alguém e dar, Pode ser apenas um sorriso.
- Fazer as refeições que a família aprecia
- Ir passear onde os outros gostam de estar
- Dar o que o outro precisa

Obviamente que sou humano e erro milhares de vezes e que nem sempre é fácil lidar com a minha reacção às adversidades, no entanto, esforço-me para ser para o outro. Não para ser mais cristão ou outra fantasia, mas porque é o que tem sentido. É o que faz sentido.

Curta que é longa e reflexiva

Conheci em tempos um homem que tinha o especial dom de ser desagradável, ao ponto de provocar antipatia, na apresentação, da qual fugia, da escolha de futuros maridos das suas filhas já crescidas e mulheres feitas. Poderíamos dizer que era um qualquer complexo de pai a segurar as filhas, a protegê-las ou qualquer outra ideia pré-feita para circunstâncias deste tipo. Acontece, todavia, que o dito homem era suposto ser hábil e particularmente conhecedor das almas humanas, dos seus conflitos, dos seus dramas e das suas dores. Mas todos temos direito a nossa incongruência.

O tempo acabou por levar as filhas a constituir família com as suas escolhas. As relações ficaram todas, desde o início, contaminadas. Todos registamos muito mais do que queremos e coisas que só sobem à superfície quando precisamente não deviam. Fazem mais que benefícios. Vejamos, então, as consequências a médio/longo prazo. 
- Os escolhidos ficam com uma enorme reserva, senão mesmo com um incómodo e desagrado para com tal personagem que teve a ousadia de os rejeitar sem sequer conhecer. Pode o mundo dar muita volta, mas a primeira impressão é a que marca a pessoa. Ninguém aprecia a rejeição. Será sempre uma pedra no sapato. E quando existem mais dores, essa pedra pode tornar-se insuportável.
- As filhas ficam sempre com essas duas medidas. Terão sempre um ponto de fuga que se justifica na possibilidade da imagem paterna "saber muito bem", "ter entendido muito bem", "ele bem sabia", "parece que adivinhava". E essa porta será sempre uma fuga à reflexão, ao exame de consciência, no fundo a uma acção crítica. É um vírus que poderá ter tanto o tamanho do mundo como ser devidamente aniquilado. Mas não será fácil derrubar essa muleta tão oportuna. Fica. igualmente, como contra-argumento de qualquer discussão, e, pior que isso, a possibilidade de desconsideração porque justificada anteriormente. 
- O pai dificilmente chegará a ter noção da sua implicação nesse devir por duas razões. A primeira por via do egoísmo implícito. Quem age assim, não tem muito espaço mental para reflectir, quanto mais para assumir que a sua postura tem consequências desta natureza. A segunda é que vive fora da relação das filhas pelo que nunca perceberá o alcance efectivo do mal estar. O tempo levou-o sem verificar a plena dimensão do que plantou "por graça de modo de estar".

Nunca é fácil corrigir o passado. Ficamos sempre mancos e com sentimentos de culpa diversos. A despropósito a alma franqueia as portas do erro, do noção de injustiça e do arrependimento. Restará espaço à humildade para reverter? E até onde? E até quando? 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Afecto

Há pessoas que se dizem incapazes de manifestar, que lhes é difícil exibir, que não conseguem dar, que custa... mas todos asseguram que não só sentem como adoram receber. Onde e quem é que lhes amputou o acesso ao afecto?

quinta-feira, 28 de julho de 2016

poema

Ser o eu e ambicionar ser o outro,
O espelho...
Liso,
Limpo,
Perfeito
Frio,
Seco,
Reflexo inquestionável.

Mas cabe-se ser de outro modo
Quente,
Verdadeiro,
Com alma,
Com dúvidas
Com humidade
Imperfeito

E ambos são desejáveis.

Mais um aforismo matinal.

Todo aquele que, no mundo, se acha sempre dentro da razão leva uma vida incomparavelmente mais leve, pois não se reflecte, apenas se confirma.

Reflexão

Os caminhos somos nós que os fazemos. Esta é uma frase que tende a ser uma meditação sobre o nosso modo de estar no mundo e as consequências deste. Surge-me sempre um questão nesta reflexão que é a seguinte: Será que vivemos isolados?

O nosso agir, tal como dizia o famoso filosofo espanhol, é consequente do facto de nós sermos nós e a nossa circunstância. Assim, o dito caminho que fazemos tem um sem número de condicionantes que são essa circunstância. Por outro lado, é também certo que ser, o ser é activo e voluntivo, logo, e perante as circunstâncias age-se e decide-se. E, nesse ponto, o nosso caminho é já um caminho moldado à circunstância e à forma de reagir a elas.

Este raciocínio é apenas válido para os que se predispõem a meditar e a reflectir, pois a maior parte das pessoas segue que nem cilindros sobre o mundo certificando apenas os seus pequenos e grandes caprichos.

Pela manhã

Via um balão de ar a subir. Cuidei que com aquele tamanho fosse explodir... e não é que cresceu ainda ainda mais. De facto, em certo sentido, o céu é infinito.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Reflexão

Quando não te querem ouvir, o melhor é não falar. Custa, mas cansa e magoa menos que ouvir a contra argumentação de quem não está predisposto repensar-se.

aforismo matinal

Quando se põe defeito em tudo, não são as coisas que têm defeito, mas a sua alma.

Amor no feminino

Após um momento de alguma introspecção ele resolve escrever uma carta que se pode dizer de amor. Confessava, portanto, os seus melhores sentimentos.
Ela recebe a carta e agradece, dá um beijo e começa a ler.
Primeiro, e nervosamente vai começando a rir, depois aqui e ali franze o sobreolho, aponta um pequeno descuido no português e algumas frases mal construídas onde chega a parar para perguntar o que é que queres dizer com isto?

Não é lindo o amor no feminino?

domingo, 24 de julho de 2016

Delírio sobre o amor

Conheci um homem cujo corpo era a dimensão do seu coração. Tudo amava e a tudo dedicava o seu afecto. Amava com a liberdade do amor, nada pedia em troca, nada exigia. Olhava para o mundo a entendia que o seu modo de amar era o modo do ser humano amar. Dar simplesmente ao outro. Desconhecia, completamente, esse pequeno vício chamado, a reserva.

Um dia, porém, é-lhe apresentada essa reserva. Enche-se de espanto. Que sentido tem? Para que serve? E, sobretudo, porquê?

O amor, na sua definição plena, diria mesmo filosófica, é Deus. É tudo. E para se ser tudo não pode conter falha, erro, fissura, vício ou imperfeição. Amor é tudo. E se sentindo-se tocado, abençoado por esse amor porque é que alguns se limitam com essa dita reserva, diminuindo de imediato o tudo que se lhes é dado. Bom, se assim é, deu-se logo a sentir uma imensa misericórdia por todos os que se impossibilitam dessa plenitude. Como é que perante um flor, se afastam dela para não a apreciarem devidamente, para não a cheirarem devidamente, porque é que não se entregam simplesmente à fruição dessa flor?

Mais pensou e começou a ver nesses outros corpos amputados. Eram coutos que escondidos ou exibidos desfeavam as pessoas. E iam acrescentando máscaras, roupas, armaduras e até armas que se sobrepunham aos coutos que se atribuíam pela reserva que faziam.

O tempo passava e os coutos cresciam, chegavam a criar raízes quase aptas a se colarem e fixarem na geração de um amor experimentado com sucesso. Para uns era sinais de educação, outros diziam que era uma questão moral, era o que sempre assim foi, e outros não diziam nada, apenas calavam-se. Apenas depois de mortos alguns coutos caiam.

Como morrerá esse homem cuja dimensão do corpo era o tamanho do seu coração?

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Coisas da idade

Já ultrapassei os 50, assim como parte da minha geração e amigos. Dou, agora, por mim a ouvir este tipo de comentários da população feminina:
- Ah, a lei da gravidade....
- Ela sim... é nova.
- Com essa idade tudo está bem.
- Ela pode vestir aquilo
- Ela pode usar e abusar daqueles decotes.
E imagine o leitor o ror de coisas que podia aqui juntar sobre o momento, o epicentro da perfeição, que se perdeu algures num tempo.

Ora acontece que quando tinham esse tempo nunca as vi a fazer um décimo do que agora permitem a todas com as quais se comparam. Também nessa altura reclamavam com a celulite, o fato de banho, o Sol, o que se vê, o que não se vê, e mais um milhão de outras desculpas.

E, drama que não aparece à consciência de nenhuma delas, daqui a 10 anos vão estar a desejar estar, no mínimo como estão agora! Mas, e ainda assim, vão continuar a lastimar-se até mais não poderem. E pior, nenhum homem se queixa delas, do seu corpo, do seu peito, das suas ancas, dos suas pernas, do decote ( só mesmo da ausência dele) apenas as desejam e têm vontade de as ter nuas e inteiras tal qual elas são e estão.

Não sei se é alguma Lei da vida, algum mistério secreto, ou basicamente o feitio feminino que nunca as faz estarem satisfeitas com o que têm e, por isso, conseguirem usufruírem o prazer único que os homens atingem que é não pensar em nada.

A vida segue sempre a somar, acrescentamos conhecimentos, somamos afectos, adicionamos abraços, acumulamos beijos, multiplicamos ternuras escondidas, construímos castelos de sonhos, fazemos todos os dias mais olhares, ambicionamos mais coisas para nos fazer felizes. Às mulheres falta sempre qualquer coisa, está sempre algo errado, esquecem-se sempre de uma coisa e mais mil e uma coisa que as faz não serem capazes de apreciarem o dia, o momento, a companhia, em suma, o estar em paz.

Não terá sido por acaso que no Livro é a mulher que tenta o homem para fazer algo que a retire do paraíso. E repetimos esse tempo em tudo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Poema

Da consciência de mim
À ideia do meu eu
Há um mar revolto
Que teima em passar.

Fui ao meu ninho


Fui ao meu ninho
Cama do meu afecto
Lugares do meu amor
Aqueci o coração
E esperei pela paz.


Ao vê-lo vazio
Chamei-te uma vez,
E outra vez,
E ainda uma terceira.

Olhei para baixo,
Para dentro
E até para o céu.
A cama continuava lá,
O afecto é que já não

Dizem-me que morreu
Partiu há muito.
Vive sem fome de outro
Fechado sobre alturas de si
Incapaz de ser chão.

Como uma porta na cara

- Não me digas que foi para isto que me convidaste para passar férias contigo?
Um colossal silêncio se apoderou da sua cabeça. Há mais de vinte e cinco anos que passavam férias juntos, como é que este ano havia surgido esta ideia de um convite especial para férias? Havia algo que se tivesse mudado? Havia feito algum pedido especial? Não era uma decorrência normal e usual da vida em comum?
Afinal não. Tal como na geometria descritiva, há realidades que se passam em dois planos. Acontece que ninguém sabe bem onde moram as linhas do x e do y onde esses planos se apresentam. É como supor sempre que o hemisfério Sul está em baixo porque sempre foi representado desse modo. E que diferença faz estar em baixo ou em cima? Se tudo, mas tudo, não passam de estruturas onde nos situamos?

Em conclusão... cada um fez a sua.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Humildade

Há quem se perca numa confusão entre humildade e complexos de inferioridade. Aquele que consegue ser humilde faz o que tiver que fazer com o intuito de ultrapassar as adversidades próprias e alheias. Aquele que vive num complexo de inferioridade limita as adversidades que consegue ultrapassar àquilo a que teme do seu eu imputando no mundo a razão de ser da adversidade, provocando caos temporários.
Se todos nascemos do mesmo barro, para quê tornar pútrido esse barro?

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Um aforismo de vida

Um corpo quando perde água, seca e fica ressequido. E quando perde o amor e o afecto? Fica ressequido do outro e pleno si.

À porta de um mundo

Fui até à porta de um jardim, o jardim que antecipa o paraíso. Na proximidade impõe-se uma armadura seca e empedernida que se sustem por espectro de alma que se vai rarefazendo em pedras e palavras de fogo.
Num discurso difuso e irregularmente inteligível, insiste-se supra-posicionado à luz de um qualquer demando superior, eventualmente de género, ou, drama arrasador, do barro edificado.

O jardim distancia-se, afasta-se, quase se desfaz como um sonho quando o olhar se adequa à realidade.

Se a inteligência e a sageza nos oferecem modos de ultrapassar a contrariedade, porquê tombar para dentro desta? O por do sol, que todos os dias acontece, todos os dias se faz, pode ser belo, extraordinário e surpreendente. Pode também não ser visto por o nevoeiro, a chuva e outros obstáculos impedem a sua fruição. Mas ele não deixa de lá estar. E eu só guardo memórias dessa cor de fogo, do amarelo brilhante e dos azuis que dançam à voltas das purpuras, violetas e roxos que vão se instalando à medida que o amarelo, beijando, se funde com a terra.

O devir

Não é estranho,
Nem bizarro
Ou sequer surpreendente.
É, apenas, o resto de uma melodia.

Recolho, então, o quase óbvio,
O que é suposto ser
Um harmonia estética
Que produza satisfação e prazer.

Busco-me nesse devir
Oferecendo serenidade,
E buscando o equilíbrio.
Outro reflexo de Deus.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Sem poesia

Hoje vivo sem poesia
Até a dor passou
Ficou a impressão, apenas
Um mastigar dormente
Que se faz presente, sempre.

E nada há a fazer.
Até ao fim do fim.
Ora pois, assim será, portanto

Mas prefiro, se é que posso poetando.
É que não é só escrever
Nem um estado de alma
É um Ser que s'instala.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

domingo, 10 de julho de 2016

Fantasias e irrelevâncias

Portugal acaba de ganhar a Taça do Campeonato de Futebol Euro 2016.
Anda tudo na rua, aos gritos, a buzinar e a difundir uma qualquer felicidade. Dizem Viva Portugal e tudo!

E estão tão distantes do seu país...... Apenas a irrelevância de um desporto consegue reunir as pessoas à volta deste bandeira. É pior que triste, é desolador.

Amanhã continuam a desprezar a nossa língua, os nossos autores, os nossos monumentos e, sobretudo a nossa Pátria, a nossa História e os nossos Heróis.

Não consigo entrar nesta onda. E, obviamente, parabéns à equipa que venceu um campeonato.

Quase pensamento chinês

Ama quem te ama. Nada peças a quem te desama, nem nada dela esperes. Se não é capaz de te reconhecer, não é digna de ti.

aforismos

A tua harmonia faz-se no equilíbrio de expectativas. Não no que recebes, não no que dás, mas na adequação das tuas expectativas à realidade. Portanto, não esperes frutos de árvores secas.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Lendo 170

"O que circula no cérebro
Nem sempre circula no coração."
Gilda Nunes Barata in O Esplendor de uma coisa inocente, Editora Licrone, Évora, 2014, pág 37

É essa a expectativa. E o contrário também, o que circula no coração nem sempre circula no cérebro, é o chamado impulso. E faz-se tantas coisas maravilhosas com isso, nomeadamente, o beijo.

Lendo 169

Dizia um poetiza "Imagino um homem que eu não possa matar" (Gilda Nunes Barata) e aquilo que eu acrescento é que imagino mulheres onde eu gostava de morrer.

Trata-se, acredito, de uma questão mais de concupiscência que transcendência.

Revisitando

Tão perto, por mais que te afastes não deixarás de estar com. 

O quotidiano IV


O quotidiano III


O quotidiano II


O quotidiano I


quarta-feira, 6 de julho de 2016

frase

Tão perto, por mais que te afastes.
E isso não vais nunca entender.

Permanente ausências

Nunca te sentaste
Naquela mesa
Que havia na outra casa
Que teimaste não ver.
Fazias-te de outro lugar
Que te bastava.

Agora, povoado por fantasmas,
Ideias feitas e desfeitas,
Suplantando tudo ao existente
Que ficaram nessa morada,
Da intencional ignorância.

E esse passado foi um presente
Condenado a não se futurizar.
Passando directamente
Para um inferno lento
De almas penadas
Cegas e mortas
Que se arrastam com a sua canga
De ter medo de ser mais que isso,

O que apenas se permanece em si. .

Frases e reflexões

Podes tirar a Manuela de Rio de Mouro, mas nunca tirarás Rio da Mouro da Manuela. E a inversa? Podes tirar a Constança da Lapa, mas nunca tirarás a Lapa da Constança?

Dos livros infantis.

Existe no imaginário de algumas meninas a história da princesa e da ervilha. A história de modo resumido é a seguinte. A Rainha Mãe, com dúvidas na origem da potencial nora, põe na cama onde esta dormirá um ervilha debaixo dos 13 colchões ( o número não é relevante). No dia seguinte a princesa queixa-se que dormiu horrivelmente pois havia qualquer coisa que a impossibilitava de ter o sono que ela, princesa, estava habituada.
Esta ideia, no fundo, confirma em cada criança menina que ela transporta em si a capacidade de ser princesa e qualquer  circunstância, qualquer ervilha que a coloque à prova, será sempre isso mesmo, algo que a coloca à prova e não a sua natureza. Em resumo pressupõe a confirmação da dignidade de cada um e que por mais que a afrontem, uma princesa é sempre uma princesa.

Todavia, esta coisa dramática do todavia!, é que princesas sempre foram poucas e, no fundo, quem nasceu para ser serviçal sempre será isso mesmo, serviçal. Não procure ervilhas, tome-se como serviçal e não calce sapatos que não estão aptos aos seus joanetes.

Acordar no século XXI

Acordo de manhã com a expectativa de um novo mundo, àquela de um novo amanhã... mas depressa percebo que apenas eu descansei, relaxei e melhorei a minha expectativa no futuro. De resto continua a haver a ideia generalizada que a qualidade, a capacidade e a efectividade do trabalho se mede pelo aprumo da secretária onde ele é feito.
A democracia, em termos gerais, tem esta consequência, torna-mo-nos num país de e para sopeiras.

terça-feira, 5 de julho de 2016

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O amor.

Ao que tudo se resume
Aquele nada que é tudo
Que enche todo o vazio
Que dá e faz sentido
O sopro quente que anima
Que faz futurizar
E dá sentido ao passado,
Ao acontecer.
E nunca se sintetiza.
Um momento,
Um fugaz instante
Que consegue ser
Tudo.

O amor.

domingo, 3 de julho de 2016

Um misto


Escondi-me na minha sombra
Fechei-me a preto e branco
E captei-me.

Sou esse instante.

Verão

Arde um inferno
Brasa que não crepita
Bafa sufocantemente
Em cima de mim

Derruba-me,
Aniquila-me
Devora-me o ânimo
Faz-me molusco
Dormente

É o Verão,
A praia e o lazer,
As férias e o descanso
É a canícula que me mata
E o ar que me sufoca.
Deitei-me
E morri de tédio

Do amor?

Ía começar um poema
Coisa de amor
Não do que sinto
Mas da ausência
Desse buraco que grita

E pensar que houve um tempo
Em que fui todo
E não me lembro

Lendo 168

"Digam o que disserem, o amor é um dos poucos sentimentos capazes de nos fazer esquecer que nascemos para morrer."
João Gaspar Simões in Eduarda, colecção Novela, Lisboa 1942, pág 26

Porque, talvez, no amor o homem futuriza-se como em mais nenhum outro. E futuriza-se no eterno, no sem tempo, no todo, na totalidade, na integração do tempo primordial onde, ao nascer, rompeu o amor e fez-se num tempo.

mini curta

E amava-me na suposição que me amavas.
O teu desinteresse desinteressou-me e um sulco nasceu.

Diziam os antigos que o sulco era a cova da vida.
No caso presente, foi a cova do defunto.

Lendo 167

"Nos momentos mais francos, mais íntimos, não posso olhar senão para dentro de mim mesmo."
João Gaspar Simões in Eduarda, colecção Novela, Lisboa 1942, pág 22

O tal momento em que um qualquer ele se declara e, irremediavelmente, fixa o chão em vez de atentar os lábios que, nesses momentos, costumam ser magníficos espelhos da alma. Um tremor os denunciará, um humedecimento os calará.

Lendo 166

"Que o tempo mata em nós o amor, tudo nos parece pequenino e ridículo, mas a verdade é que o amor é dos poucos sentimentos que libertam o homem da sua triste condição vegetativa."
João Gaspar Simões in Eduarda, colecção Novela, Lisboa 1942, pág 15

Em completa harmonia nas duas vertentes desta frase de JGS. A primeira, que o tempo mata o amor. Apesar de o amor ser um sentimento sem tempo, ser próprio da eternidade, um amor que não se cuida, que não se mima, morre irremediavelmente.

O homem sem pulsão afectiva é uma coisa que se arrasta atrás dos dias e das noites sem delas recolher nada que o justifique.

Lendo 165

"(...) tenho medo de estar a atraiçoar ao mesmo tempo duas coisas sagradas: o meu pensamento e os meus sentimentos."
João Gaspar Simões in Eduarda, colecção Novela, Lisboa 1942, pág 13

Porque não o pensamento e os sentimentos numa só coisa? Se calhar, o tal ditado de quem ama não pensa e de quem pensa não ama, ganha aqui o seu sentido. Mas, e ainda assim, no caso presente a traição de ambos só pode significar que se age na falsidade, no erro... seja ele intencional ou não.
Frase curiosa, talvez mais literária que efectiva.

Lendo 164

"Sim, beijei-a...
-Perdão, beijámo-nos."
João Gaspar Simões in Eduarda, colecção Novela, Lisboa 1942, pág 11

A tragédia do homem que se supõe o motor do amor e do afecto e se esquece tantas e tantas vezes que sozinho nada se faz. Não se beijam os lébios de uma mulher se essa mulher não beijar, também, os nossos. O beijo, esse encontro, resulta de dois encontros. No entanto o que vale quase sempre, ou que se sobrepõe é mais a frase: "roubou-lhe um beijo" quando o acto volitivo é apenas masculino, mas, e ainda assim quando o recebe, e se o aceita, aceita o roubo e devolve na pressão dos lábios juntos dos do ladrão, que, nesse momento deixa de o ser passando a ser um homem.

É neste encanto maravilhoso da relação homem e mulher, neste equilíbrio sempre instável mas que cada um sabe do seu lugar e do que se espera que se trava a batalha do amor e dos afectos.

sábado, 2 de julho de 2016

Lendo 163

"(...) onde a morte vai morrendo"
Maria Graciete Besse in Pequeno bestiário académico, Editora Licorne, Évora 2014, página 18

Cá está mais um exemplo da extraordinária forma de escrever desta poetisa. A morte está a morrer. Como pode ela, se a morte só o é como acto final, sem possibilidade alguma de ir acontecendo. Morre e morre-se. Fim.

Matar a morte é mais que a morte. É fazer o preto mais preto. 

Lendo 162

"Os predadores chegam escorpiantes
nas dobras do tempo

de ferrão colado ao gesto traiçoeiro
armam ardis peçonhentos

movem-se na luz
mas turtuosa da injúria

exploram   convencem
amolecem as vontades

com ciganices
e servis adulações
espreitam o momento propício

o salto."

Maria Graciete Besse in Pequeno bestiário académico, Editora Licorne, Évora 2014, página 15

Vale este poema para acabar de vez com qualquer ideia romântica ou boazinha ou queridinha dos escorpiões. 
Tenho muitas dúvidas que um bicho que ataca pelas costas, matando na maior parte dos casos, seja capaz de qualquer acto bondoso. 
Na astrologia dão-no como gerador de pessoas com feitio vincado e mau. Tenho já alguns que passaram pela minha vida que os dispensava de bom grado. Mas a rigor essa dispensa atravessa todos os signos astrológicos, pois terá mais com a condição de cada pessoa e não com o signo. 
Aparte disso, este livro de Maria Graciete Besse é desconcertante na imensa capacidade de encontrar géneros humanos que no seu agir e estar conseguem-se fazer passar por esta adjectivação tão forte e qualificada.

Outra Lisboa



Vazia de gente mas cheia de alma

Lisboa


Luz
Água
Um pombo
E sombra

Um arco que é uma entrada


Da vida e de outras vidas


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Uma mão

Procuro uma mão
Que me leve
Não para a terra do nunca
Mas a do sempre
De volta
Que feche os olhos
E tudo cesse
Suspenda-se o mundo
O tempo e a vontade

Retenha-se apenas o calor
A luz e a paz.
E braços abertos