quinta-feira, 30 de junho de 2016

Ao amor, esse desconhecido

O que se repete por amor
Não se repete
Renova-se

Poema de tantos amores

E se te dissesse que tenho saudades de ti,
Do teu corpo
Da tua pele
E do teu cheiro
Entenderias o pedido?
Largarias o presente
E voltavas ao futuro?
Ás pequenas conversas,
De entreter o tempo
Num vagar quente...

Pode esse tempo ter morrido?
Ou, tristemente, cresceu?

Para 14 de Fevereiro

E se te gritasse ao ouvido
Será que ouvias que te amo?

Lendo 161

“É preciso parar nalgum lado. Esta afirmação que à primeira vista parece suscitar o fim de alguma coisa, tem como principal entoação o começo.”
Ricardo Nunes in Perigo Caderno nº4, Óbidos, Abril de 2016, pág 4

Quando a meio de nenhuma expectativa te aparecer alguém com um livro na mão a solicitar a sua leitura, o melhor é recolher. Parei, portanto, da minha natural e habitual prosápia e ative-me a este singular amante das letras. Estas não são nada em si, mas o reflexo de alguém que as usa para se ir dizendo. Não tanto da sua vida, nas das suas exigências e reflexões.

Parei nesse singular lado.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Minimalizando


À procura de um herói


Lendo 160

"sou este jornal sem data
que traz a infausta notícia
que ninguém leu!..."

Miguel Torga, in O outro livro de Job, Coimbra, 1986, pág 46

Porque é que Torga consegue emocionar-me tão radicalmente? Já estive em São Martinho de Anta e a força da Natureza em Trás os Montes ao pé do Douro tem isso mesmo, o Douro.
Todos somos essa melancolia de ser e sofrer sem ninguém saber ou perceber.
Somos esta coisa pensante que se atormenta.

Dúvidas

Como é que é possível pedir a uma parede para abrir uma janela?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Lendo 159

“Ainda não sabia como havia de fazer, mas no quarto que ocupava, situado a meio caminho entre a zona nobre e o acesso à capela, ía meditando todas as noites na maneira de a seduzir, acompanhando essas meditações das práticas solitárias com que costumava aliviar-se dos escandecimentos sempre que não tinha outro recurso à sua disposição.”

“A mosca espanhola, também conhecida por cantárida, teve como resultado exacerbar notavelmente a excitação e os ardores com que Teodoro de Azambuja a galgava, sem que ele desse quaisquer sinais de exaustão ou simples fadiga e muito menos de se achar próximo do fim.
Arquejando sob esses ímpetos animais, Violante acabou por ficar ainda mais dorida e molestada. Por vezes, de manhã, custava-lhe a andar, tais as dores que sentia no baixo-ventre e nas articulações.”

“(…) Joana e Violante descobriram uma até então insuspeitada dimensão erótica para o seu relacionamento, o que acabou liga-las ainda mais.
Faziam confidências acerca das suas vidas e dormiam agora muito agarradas uma à outra no mesmo beliche, acariciando e beijando-se ternamente atingindo paroxismos que por vezes lhes pareciam os mais deliciosos que tinham experimentado.”

“Tendo acabado de encher dois cálices de Porto, Violante estendeu-lhe um, olhou-a bem nos olhos e pôs-se depois a sossega-la entre carícias suaves. Molhava a ponta dos dedos no vinho doce e passava-os pelos bicos do peito de Joana e depois lambia-os muito devagar, enquanto ía murmurando que não se sentia nada viciada, mas fascinada pelo pano verde.”

Excertos do livro “Os desmandos de Violante”, terceiro de uma sequências de novelas de Vasco Graça Moura, notável poeta e ensaísta.

A uma dimensão erótica na literatura que acabam por ter o gosto especial da malandrice. Um prazer mais pequeno do que o erotismo vivido, mas um certo espreitar pelo buraco da fechadura....

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Todos à espera




Na esplanada


Lendo 158

"(...)
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo,
e, ao ver que eu era homem,
corou..."

Miguel Torga, in O outro livro de Job, Coimbra, 1986, pág 13

Como não sorrir com este pedaço de amor? Como não sentir o respeito e o afecto que este filho tem pela sua Mãe? 
Pequenas e simples palavras e tão sincera e dedicada emoção. 

Lendo 157

"(...)
(A voz de Satanaz já nesse tempo
era humana e natural...)
(...)"

Miguel Torga, in O outro livro de Job, Coimbra, 1986, pág 12

Neste livro de poesia, quase biográfica de Torga, transporta de forma maravilhosa a ideia da raiz do mal absolutamente na natureza do homem. E como não?

Um aforismo matinal

O que mais falta faz é poesia. Tudo o mais é iliteracia.

Lendo 156

"(...)
For, realmente, incómodo que eu viesse.
Mas agora é deixar-me e respeitar-me
Como se faz às pedras das montanhas.
(...)"

Miguel Torga, in O outro livro de Job, Coimbra, 1986, pág 9

Torga e a sua rudeza, e, nos seus dedos as marcas do mundo, nunca deixam de me encantar e seduzir.
Ás vezes, até, me confundir.


perguntas

Quando não tens sentido de humor, de que te podes rir? Ou ris de quê, quando te ris?

terça-feira, 21 de junho de 2016

Querer

E sobrepõe-se um querer
Que não objectivo
Nem objectivável.
Apenas intencional.
Querer para receber
O ser querido
Essa emoção
Essa sedução
Essa mão.

Onde é que tu foste?

Onde é que tu foste
Que eu não estive?

E de lá voltaste
Sem nada de mim,
Apenas um outro lado
Que apenas em ti
Passou a acontecer,
Nesse teu olhar
Que ficou sem o meu sal
Nem a cor do meu mar.

Onde é que tu foste,
Que de mim partiste...

Mera reflexão

Volto sempre a muitos dos momentos que vivi. Dizer todos seria um absurdo, pois que há tantos em que em não vivemos, apenas passámos por lá.
Revivo-os e reinterpreto-os. Nunca saberei tudo mas gostava de saber e saber-me mais. Um dia, até, chegar a entender porque é que tudo foi como foi. Porque é que o acaso foi como foi e eu nele e com ele....

Vagueando os dedos

As luzes apagavam-se apenas nós nos víamos um ao outro.
Sem questões, nem passado nem futuro, caminhávamos um em direcção ao outro.
E juntando os corpos deixávamos as cabeças tombar uma na outra e dançávamos uma música celestial.
E ficávamos nesse encontro sentindo pouco mais que a nossa respiração e o sangue a pulsar no pescoço, forte e acelerado.
Os braços, que se seguravam nos corpos, acordavam e começavam a completar um abraço deixando as mãos sentirem o veludo da pele.
E enquanto os anjos trocavam de melodia, os lábios juntavam-se num calor húmido, comprimindo uns nos outros, tagarelando quase com sofreguidão.
E deixava de haver luz, de ser preciso qualquer luz.
Apenas dois a tender para um.

Poema

Distraído no meu querer
Acabei absorvido no teu.
Aninhei-me,
E deixei-me ficar,
Assim,
Enquanto me quiseste.

Calor.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Companhia


Há esta loira que me espia todo o dia....

No limite


No limite que sou eu?
Uma ilusão presa num corpo
Que se ilude enorme,
Cheio de si,
Omipotente,
Superior a tudo,
Até ao seu espírito.

Mas ao longe de si,
No fim dum mundo,
Não passa de uma sombra
Por via de outra luz.
E o vento que passa
Por ti também passa,
Como tu passarás.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Mais um aforismo para o após meio dia

Pergunta antes de insistir, pois na reflexão encontrarás a justificação para mudar em vez de insistir.

Lendo 155

"(...) E erras
nos limites de uma casa
destruída por raízes."

Gastão Cruz, Depois de um Sonho, in Rua de Portugal, Assírio e Alvim, Lisboa 2002, pág. 9

A poesia, tantas vezes, é uma arte para se ler nas entrelinhas.
Quando as raízes, o nosso passado, a nossa herança nos leva a erros sucessivos capazes de destruir a nossa casa, o nosso interior.

Fazes-me um poema?

Fazes-me um poema?
Levas-me à fonte
Das palavras mágicas
Que se juntam
Sibilinamente...
E, aí, devidamente
Desorganizado
Contam o segredo,
Aquele faz de conta
Que conta
Que tudo junto
Faz a poesia acontecer




quarta-feira, 15 de junho de 2016

Mais um aforismo no entardecer.

Mais forte que ter é querer ter.

Desse tempo

Só mais um minuto...
E o tempo passa.
Vou já, vou já...
E o tempo,
Mais certo que a razão,
passa....

E chegará o momento,
Fatídico,
Em que o tempo
Já não passa.
Apenas a razão passará,
Pois venceu,
Sobrepôs-se ao tempo.

Vá lá alguém entender
A razão desse tempo.

Já fui

Já fui um mendigo de afectos
Esperei e desesperei
Mais que por ti
Pelos teus lábios
Por um calor
Um mão esquecida
E a cabeça tombada
No meu ombro.
Já estive, por ti,
No fim do mundo
E para ti.

Já fui
Esse sem abrigo de ti.

Já fui



E fui.

O que pode ser?

O que pode ser o fim?
O saldo de uma conta?
Um lastro do dever?
A soma de um haver?
Um resultado que fica,
Múltiplo...


Poema

Hoje sulco a minha alma,
Deixando nessa dor,
A semente que amanhã florirá.
Até lá rego-a assim

Frases

Se de metade das minhas falhas eu recebesse o reconhecimento alheio do erro deste, vivia no paraíso. Mas por metade delas sou lembrado do dobro dos erros.

Um aforismo matinal

O amor sem palavras seca.

Pico de dor

Mataram-me à nascença
Sobrevivi morto
Rastejando esta agonia
De ser um desnado.

Um cato que irrompe
De uma pedra.
Sem flor
Nem morte.

Apenas pico de dor.

Lendo 154 Poesia e não só

"Entre nós e o futuro há arame farpado.
(..)
Como esperara agora o inesperado?"
Manuel Alegre, "Patria Minha" in Bairro Ocidental, Dom Quixote, Lisboa 2015, página 13

Escreve o poeta num sentido de futuro e de pátria que, diferindo na essência e no projecto da minha, se reúne na ideia da necessidade de se voltar a um centro colectivo comum.
Naturalmente que atribui a causas externas, à Europa, a Berlim, às empresas de rating e outras miudezas. Ao fundo, lembra que alguém por trinta dinheiros nos vendeu. E, depois, pede Mar...

O Mar fica a ocidente, a poente...
Quem vendeu por 30 dinheiros, vendeu tudo, o passado, o presente e o futuro. Trouxe uma pacotilha de ilusões e modernidades. Trouxe o socialismo por troca do individuo. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Lendo 153 Mais um pouco de poesia

"[Nau Nação]Aquela que se faz para fora
e se perdeu para dentro."
Manuel Alegre, " Flor de la Mar" in Bairro Ocidental, Dom Quixote, Lisboa 2015, página 11

Gostei desta dualidade de pensamento sobre a Nação. Faz-se para fora, expandimos a ideia dela, mas não a temos dentro de nós.

domingo, 12 de junho de 2016

mais um

E se eu te tivesse aqui,
Agora,
Como no paraíso,
Uma maçã e
Outra serpente
Duas.....
Sempre duas,
E depois,
Sempre eu a provar,
A mesma,
A de sempre....

Qual?

E se.....

Eu nada tivesse para dizer,
Nenhuma frase ou sentido,
Nada mesmo,
Um  absoluto sem sentido....

Apenas um tu,
Longe,
Também sem querer,
Apenas.

Uma singular observância
da mundanidade.

Poesia

O mundo cresce,
Até na minha ausência...
É que o mundo é,
E eu apenas um instante.

Buraco

Tenho um buraco nas calças...
São do bolso onde,
Um dia,
Tu coubeste.

E fez-e buraco,
dele saíste,
Disseste-te que te afirmavas....
O buraco ficou...
Apenas buraco.

domingo, 5 de junho de 2016

Lendo 152 Gostei imenso

"Na poesia procuro uma casa onde o eco
existe sem o grito que todavia o gera."

Gastão Cruz, in Rua de Portugal, Assírio e Alvim, Lisboa 2002, pág 27~

Fiquei sem palavras. É muito bom. Estupendo, mesmo.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O infeliz

Dizia que amava loucamente, o infeliz.
O que queria era ser amado, desejado e, de algum modo, reconhecido.
E quem lhe desse essa esmola, dava-lhe instantes de paraíso.
Depois o que queria era a paz desse instante. Mas eternamente. O infeliz.