quarta-feira, 11 de maio de 2016

Arremessos de fatalidade

Andava como se fosse um destino trágico. O seu passo era uma subida constante para um qualquer altar onde iria ser sacrificada por uma queda sua que não conseguia verificar no tempo nem no acto. E, por isso mesmo, o seu passo era firme e resoluto que se reflectia na firmeza do seu peito que fazia ressoar cada passo num ritmo impressivo. O olhar deixava, também algum desdém, e por isso fazia sobrepor ao nariz recto e doce e ligeiramente arredondado. Em definitivo não convidava a uma aproximação. E como sofria por isso...
E olhava-se no espelho, cheirava-se com o aroma das águas de cheiro que fazia deslizar sobre si. Fazia tombar a roupa que escondiam as linhas do seu corpo e, outra vez, sofria pela solidão desse corpo.
Percorria, ligeira, os dedos pelas formas do seu peito e o sabor era sempre o mesmo, o dos seus dedos.
E recolhia a sua cara entre as mãos numa angústia moral. Como seria possível ser amada, ser cortejada e possuída sem o peso da queda moral? Pode ser mulher sem ser um ser moral?

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