sexta-feira, 29 de abril de 2016

Poesia para quem apanhar

E ela soube
E depois pensou
Era mesmo assim
Tal como disseram
E depois chorou
Perdeu-se de si,
Desesperou-se

E mais tarde,
Muito mais tarde
Soube que nunca soube
Aquilo que não houve
E chorou
Pelo que podia ter sido
E ficou assim
Desolada de si.

Tudo não mais foi
Que nada,
Coisa alguma.
Apenas houve medo,
Susto de poder ser...
Ansiedade de si.

E volta
Sem calor e sem amor
Só com frustação
De ter sido
O seu próprio não.


terça-feira, 26 de abril de 2016

Desenhos feitos com o dedo




Utilizando o tablet o meu dedo foi o pincel. É uma aventura gira e interessante. 

Céu

As nuvens passam depressa
Correm para Sul,
Onde se juntam, cinzentas...
E passam, também, por aqui.
Cresce, o Azul a Norte,
Tranquilo e sereno.
Antes do dia de amanhã,
Todo preto será o céu...

Voltei...

Voltei.
Não sei a quê,
Nem aonde,
Mas sei que voltei.

E nem sei, tão pouco,
Porque voltei.
Nem para o quê,
Ou, se para alguém.

E agora, que voltei,
E que tomei disso noção,
E até conhecimento,
Que....?

do tempo

Algures no tempo
Nesse, o primeiro,
Da raiz, da seiva
Deceparam troncos...

Mas fez-se, ainda assim,
Uma árvore que se vê.
E da amputação feita
O grito mantém-se.

Quase

Entre ser um
E ser o outro,
Há todo um caminho,
O de uma vida.

A realidade e o afecto

Dizia:
-"Muitas vezes criamos imagens dos outros, e fazemos deles heróis ou vilões, com base no afecto que temos pela pessoa que nos deu algum dado ou dados do outro."
Ficava, depois, profundamente absorto e distraído a meditar na incapacidade de alterar, não aquilo que pressupomos por errado, mas a circunstância do vício do pensamento.
Como poderia saber, ou ter como certo, que aqueloutro, do qual opinava por interposto afecto que a sua dedução era válida? Não seria ela, de algum modo ou forma viciada, também emocionalmente? E, com o tempo corrido, a base das restantes premissas era fortificada pela ideia base que, irremediavelmente, levava em determinadas circunstâncias a coisas como esta:
- "Que engraçado. Tu, afinal, não és nada como eu pensava..."
Claro que não era nada disso, assim como não era nada de acordo com o que um outro pensava, ou sentia. Ninguém era, a rigor, de acordo com o que pensava. Todos somos induzidos pelo afecto de terceiros.
Poderemos, também, acrescentar a estes pequenos nadas, o modo como interagimos socialmente, ou a forma como nos apresentamos. Não vale a pena desfiar o rosário dos introvertidos, dos tímidos, dos exuberantes, dos passivos, dos sonsos, dos desbocados ou, sequer, dos parvos. Sim, os parvos são também um modo de estar. Aqueles cujo discernimento tem tantas barreiras que os fazem ser um pouco de todo os modos, pois não sabem ser de modo algum. Por ventura os mais problemáticos, pois que, não tendo sequer a noção do que são transmitem com extrema facilidade grandes confusões, pois que os afectos destes seguem a mesma conduta do seu modo de ser. Não havendo, portanto, constância no ser, assim como no sentir, a baralhada instala-se. Dramaticamente.

Em resumo, raramente conseguimos aferir a realidade para lá do afecto.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Do fatalismo, ou não

E ele aparece, vindo lá  do fundo, quase de lugar nenhum. Daquele lugar que sempre acontece haver e de onde surge o que tem que surgir. Numa palavra no lugar do destino, da fatalidade.
Estava a despedir-se de um amigo que ia partir para um outra viagem, na qual já não havia a possibilidade de acompanhar, ou sequer de ser parte, por mais pequena que fosse. O drama usual nestas circunstâncias,  o choro irreprimível,  as longas tristezas e desolação quanto baste tomaram, como é hábito, conta do seu ânimo. É sempre assim quando nos apartamos. Vezes há  em que apenas nos distanciamos de vista, mas desta feita, a viagem implicava dois mundos. Duas novidades a conquistar.
E veio, então, empossado da sua tarefa de aparecer assim. Admitira, primeiro, que era justo e honesto assim aparecer. Abrira uma porta que já estava aberta e pronta a ser devassada pela fatalidade do destino. Ninguém queria nada, ninguém desejava nada, ninguém ousava sequer admitir a possibilidade. Ele apenas chegou e sentou-se, apenasmente.
O tempo foi impondo o seu desígnio, o de tornar grandes tormentas em pequenos amargos. E essas feridas passam a arranhões que só à sua vista damos por ele.
O tema que se segue é uma bifurcação. Que futuro pode o destino trazer? A questão da solução depende de dois factores, a saber, a intencionalidade dos actores e a possibilidade deles. Nada se pode fazer se não houver intenção,  acção activa, determinada  para um fim. E nada pode acontecer se não tiver em si a possibilidade de ser.
Bem se sabe que no início tudo é a possibilidade em estado puro e que tudo pode acontecer. Apenas o tempo, sim, o mesmo tempo, pode desgastar, diminuir ou terminar essa possibilidade. Não há intenção que valha ou que sustente a impossibilidade. Mesmo que se queira fazer um braço de força com a adversidade, mais tarde ou mais cedo a possibilidade ser desfeita na sua circunstância de ter sido acaso da fatalidade.

sábado, 23 de abril de 2016

Ao Sol

Mesmo à minha frente,
O Sol esconde-se
Ora numa nuvem,
Ora num forte pilar.

Corre a tarde,
Que desliza suavemente
Para a noite
Que cedo se instalará.

E o estranho
Não é o Sol a cair,
Mas nós a fugir-lhe
Sempre.

Nem pela madrugada,
Quando o reencontramos,
Logo, logo é tardinha
A este fado voltamos.

Resta-me apenas
Ret-lo,^
Nem que seja assim,
Nestas palavras vazias.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Orgulho

Vesti hoje a camisola opaca,
A que tudo esconde,
Tudo cessa e nada trespassa.
Hoje sou tudo orgulho.

Cessou a luz,
Findou o tempo,
E até a consequência
Tudo sem lógica.

Apenas razão de se ser
De ser apenas isso
Ser o que se quer
Ser-se como tal.

Não há ontem
Nem hoje,
Nem amanhã.
Apenas eu, feito razão.

Lendo 147

"Foi o teu espírito olímpico e funesto, Afonso, que desencadeou a fábula fantástica de Inês e Pedro." António Cândido Franco, in A Rainha Morta e o Rei Saudade, Ésquilo, Lisboa 2005, página 14.

A consciência do facto arrasou a minha ideia do maior amor que conheci ou li. Desolado até ao limite. Com efeito, se D. Afonso IV não tivesse rejeitado e feito uma guerra ao caso entre D. Pedro e Inês de Castro não teria este crescido à esfera do fantástico.

Rendido, portanto, às letras de António Cândido Franco.

Passagens


Para passar tem que se saber como. 

Formas de ver



A cores ou sépia.

Exercícios de ver


Sacudiu migalhas

Sacudiu a amizade como se fora migalhas a mais no seu guardanapo. Que maçada esta de ter de sorrir, ser simpática, concordar, ou sequer ter disponibilidade. Um tédio toda essa predisposição para o outro. Fartara-se de todo.Tornara-se opaca.
E passou uma semana nisso.  Depois um mês. A Primavera e até o Verão. E, sem dar conta disso já o ano findava.
Como quase tudo, com o tempo esquecera-se que a desatenção, a falta de cuidado, a falta de cortesia e tudo isso junto enche, não um vaso de flores, mas um triste pote de águas podres que incomodam.
De tal modo que começa, um dia, a estranhar que o odor dessas águas não só lhe chegavam às narinas, como à alma. Que raio de atitude. Imagine-se só a audácia e o desaforo. Logo a mim, pessoa de quem todos gostam. e num ápice, de migalhas sacudidas passa a tormento, a causador de todas as desgraças, a mentor de todas as desconformidades, a acusador de todos os deslizes, enfm, uma cruz que carregava.

Um vez disseram-lhe "cada vez que apontas o dedo a alguém, quatro dedos apontam para ti." Ainda hoje insiste em sacudir as migalhas, e apontando para o chão pergunta

- "Quem é que sujou o chão todo?"



quarta-feira, 20 de abril de 2016

E depois...?

- Um erro!
- Que desastre!
- Um tremendo erro!
- Acudam que se faz impossível!
- Que desastre!
- Tem tudo para dar mal!

E Adão beijou Eva...... eternamente

Repete, repete, repete, repete

O mundo é um espaço de repetições sucessivas, então não é que as mesmas pessoas insistem em todos os anos celebrar o seu aniversário no mesmo dia! Que sensaboria.

terça-feira, 19 de abril de 2016

surpreendendo

Falava alheado de quem o ouvia. Falava, diria, quase para si. Experimentava novas formas de conjugar frases, alterando a posição do sujeito, e fazia, mesmo, pequenas aventuras de estilo. E continuava a falar, entusiasmado.
Na audiência levanta-se um dedo:
-Importa-se de repetir?

O que é que ele quer que eu repita mesmo? De que estava a falar?

Surpreso?

O olhar escorria, como se fossem os dedos, percorrendo o decote… Uma sensação de calor invade-lhe a cara ao mesmo tempo que um estampido lhe rebenta nos ouvidos. Mas que merecida bofetada.

Nascer assim

Nasceu sem jeito. Adorava o género feminino. Um amor tão generalizado que quase era incapaz de amar uma só. Amava todas e de todas as maneiras. Conseguia amar de tal modo que acabava por não amar nenhuma, nem a que queria amar.

Um dia, em desespero, olhou para trás…. Mas que belo traseiro….

Desentender

Ela nada disse, apenas olhou. E mortífero, esse olhar... Trazia todas as culpas de um passado que não tendo sequer existido, era como fosse a razão de ser da circunstância de já não haver a comunicação que ficou por haver.

Infelizmente ele deu por esse olhar e expia agora, só, uma culpa que não lhe pertence. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Crescendo

Do pequeno argumento pode atingir uma grande discussão. Tudo depende do que se perde no meio.

terça-feira, 12 de abril de 2016

domingo, 10 de abril de 2016

Do caminho

Do passado até ao futuro
Pode haver tantas estradas
Como os olhos de quem passa
Nessa estrada de vida.
Não é o caminho que se vê
Mas quem nele caminha.
E como caminhares
Assim te deverás ver.

Nada que veio
E nada que serás.
O permeio é tão somente
Amor ou apenas afecto.

Serenidade em tons de ouro

Sigo o baton que suaviza
Essa carne vermelha
Ferida pelo vento frio
Percorro com os meus olhos
Os dedos da tua mão
Que percorrem as tuas pernas
Fazendo-os meus
Percorrendo-as também

Será da natureza concupiscente,
Essa vontade irracional,
Ou o dom de Deus
Com o efeito do Sol?

Desconcertante

Numa pequena, ligeira e controlada balbúrdia, passa, no meio, um casal. Ouve-se um copo a estilhaçar-se pelo chão. Todos os olhares se deslocam para o barulho. O casal passou.
O dono do que antes foram copos recolhe os pedaços e coloca, como se fosse um vaso, lá dentro os cacos e vai até ao casal que passou.
- Querem ficar com os bocados ou entrego, mesmo assim, ao lixo?

Deixei

E deixei o Miradouro
Antes do Sol de pôr
Deixei lá a melancolia
Que o Sol temperou.


As nuvens do céu dissiparam-se...
Algumas, em mim, também.

Veremos como o Sol de põem.

Perguntas ao acaso

Para onde vais
Quando não vais para lugar algum

Com quem andas
Quando nem contigo estás

sábado, 9 de abril de 2016

A nossa dimensão

O Sol desceu uns 20 centímetros na minha frente. Terá,  no entanto, a terra rodado uns largos quilómetros.

Cada um pode encontrar a sua dimensão com a medida padrão que entender. Seremos apenas, e sempre, o que somos, não a medida pela qual nos tomamos.

Sobre o exercício da crítica

O exercício da crítica é absolutamente salutar. Deve o ser humano ser capaz de, em todas as circunstâncias,  realizar um juízo sobre o que se lhe apresenta. Deverá, também, tentar entender com honestidade a razoabilidade desse juízo,  nomeadamente até que ponto é que o mesmo não estará preso a uma cadeia de afecto que intrinsecamente o perverte.

Desenvolver juízos apresenta o resultado de uma série de equações que traduzem a nossa herança social e moral bem como a nossa vontade de nos projectamos no futuro. Não nos obriga a sermos o resultado do juízo, mas a sermos sérios e honesto na sua apresentação.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Do email...

" seja revendedorA Avon...!"

De facto, e confesso a todas as paredes disponíveis, até mesmo a becos ou vão de escadas, sou um apaixonado pelo universo feminino. As mulheres têm sobre um fascínio de tal ordem que tenho um gosto infinito em as mirar, olhar, estar com, sentir-lhe o gosto, o sabor e até o cheiro, tocar na pele mais macia, tudo mais que se possa pensar. Mas há coisa que a idade já me ensinou. É impossível ter uma conversa com um mulher sem que elas não tenham já, e antecipadamente, decidido? Vender o quê e a quem?

"sim, querida" diz alguma coisa?

sábado, 2 de abril de 2016

argumentação

Cresce, por vezes, um argumento que se funda na ignorância. Ao dirimir fica, insistentemente, a ideia de uma mera e esporádica concessão em vez de capitulação. É a força absurda do orgulho. A toalha, em vez de atirada ao chão, devia ser entregue ao outro, com cortesia e humildade.

minicurta

Encontrei uma intolerância. Estava disfarçada de acertividade. Dizia-se fruto da razão, mas, a pobre, desfazia-se em emoção e fraqueza no mundo.