domingo, 27 de março de 2016

Poesia, fé e tolerância

A ler um livro do Padre José Tolentino de Mendonça sobre um livro de Jack Kerouac de poemas japoneses conhecidos como "Book of haikus".

De uma base de mais de 1.000, Jack Kerouac escolheu cerca de 500 e JTM filtra apenas 150. Este tipo de poesia é mais métrica, mas, e ainda assim é poesia.

Desconheço se existe um pensamento subjacente na poesia Haiku, ou se um nexo filosófico, mas há, como em todas as manifestações intelectuais do homem, pensamentos com alguma metafísica. Da escolha destaco a primeira frase do primeiro poema "O silêncio só raramente é vazio (...)" o que abre, desde logo, uma enorme porta à meditação. A expectativa fica, portanto elevada, mas poema após poema, começa a cair no rame rame das frases feitas sem novidade. Diria mesmo, uma certa forma e modo de alguns doutores da nossa Igreja de falarem. Uma presunção enfática de certezas que fecham portas à reflexão. Ora conhecendo alguns textos orientais, que, de fundo, apelam à meditação, à redução ao tamanho ínfimo do homem, ao seu singular lugar no cosmos de coisa que passa e que se deve sempre ligar ao tempo e ao mundo, fico sempre desolado com o afastamento desta religiosidade.
Sinto-a intolerante para com o Homem.

"O silêncio
não é o oposto
mas o avesso"

"As palavras ferem
o amor
como tudo o mais"

"Muitas vezes Deus prefere
entrar na nossa casa
quando não estamos"

Esta postura sapiencial é adversa a uma demanda séria, honesta e filosófica. Volto à frase de abertura "O silêncio só raramente é vazio", que apesar de continuar com uma vacuidade
"diz alguma coisa
diz o que não é"
Deixa uma abertura que depois se fecha. Admito que os restantes 850 haikus mereçam mais que a selecção do Pde JTM.

Nota fora do tempo: Afinal, o que li do Padre José Tolentino de Mendonça são poesias suas ( dele ) no modo Haiku.

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