segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Verificações temporais

No outro dia relia correspondência antiga. É curioso como, apesar de toda a auto-crítica, esforço de reflexão e análise e auto-análise, verifico que o meu mundo é o mesmo de sempre.

"(...) sabes quiquinho... tens mais uma vez razão... "

Sei e se tu soubesses o quanto me entristece ter razão... é que é sinal que quem não tem teima em ter.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Indo para musicar

Como foi possível
Este amor impossível?
Como é possível
Este amargo irreversível?

São efeitos od luar
De diferentes noites
Onde o acaso se fez
E o homem desfez.

O doce que amargou
E toda a luz cessou
Nada ficou por haver
Tão pouco para reter.

E se nada houve
Mesmo sendo nada
Algo, pois, ficou por haver
E, sendo assim, sempre houve.

Um futuro por haver,
Um homem para ser,
Um sonho para acontecer,
Nada para ser.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Desenhando


Uma folha de papel num café/restaurante, o que restou de um café e um pincel.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Ouvir

No meu silêncio
Dorme a minha alma
Repousam as suas palavras
E vive a minha reflexão

Se nesse tempo
Escutas as palavras dos outros
A dizerem do meu silêncio
Deixa-te desse ouvir



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Ficou a meio

Aflito e sem tempo para pensar entra numa casa de banho. Após resolver a urgência segue para o lavatório e olha, como sempre, distraidamente para o espelho. A imagem que procura é o lugar comum de sempre. O seu outro. Aquele que veste a pele em frente ao espelho.
A imagem que o espelho desenha é o seu eu, mas com menos 30 anos.
E será sempre assim. Sempre com menos anos... O espelho devolve a sua idade por dentro.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Vai e parte

Não vás para onde vou
Não corras o meu caminho
São passos pesados
E estrada de amargura

Vira mal possas,
Ilude-te de tudo.
Parte para onde queres
E convence-te desse destino.

Mas, peço-te antes
Não te despeças de mim
Vai, segue o teu caminho
E que aí faças o teu ninho

Tempos de amanhã

Antecipo um longo Inverno.
O tempo ainda vai ficar pior.
Mais chuva, mais tormento.
A desejada bonança ainda vai demorar.

A sensatez requer tempo,
O arrependimento requer tempo,
A contrição requer tempo...
E todos requerem humildade.

Longa vai ser a noite
Nada de bom auguro
O sofrimento será uma consequência
O amadurecimento uma possibilidade.

Vou para o Restelo deixa-me envelhecer
Pois minha alma já lá está à minha espera.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Feitiço e feiticeiras.

Faça-se o que se fizer, o feitiço vira-se sempre contra a feiticeira.
É simples, pois como não existe feitiço, apenas manha, voltamos ao ditado popular, a verdade vem sempre ao cimo............

O mundo, e as coisas, são sempre actos de amor. Por amor se ganha e por amor se perde. Saibamos sempre integrar o que ambicionamos ganhar e conviver com o que damos de borla na demanda. O tempo, esse crudelíssimo fiel, dirá sempre aquilo que há para ser dito. Oiçamos, pois, o tempo.

Mais uma curta

E eis que, sem aviso prévio, ele desfere por actos, pois era cobarde demais para o fazer por palavras, o seu desagrado, o seu incómodo, no fundo aquilo a que se denomina, erradamente é certo, o seu ódio. Ninguém odeia ninguém. O ódio é um amor pervertido, e quando não se reconhece o cerne dessa perversão enche-se de cargas negativas e com uma obsessão que, ela mesma, evidencia esse amor.
Aturdido, pois o ódio é-nos por definição desconhecido, e apenas esperamos dos outros uma variação de formas de amor, ele vai sentindo os golpes sucessivos desse vazio de amor. Como defesa diminui sucessivamente o amor que lhe tinha, quase à extinção. Tudo se resume, então, a uma indiferença.
E, neste ponto, ela deixa de conseguir odiar, pois não se consegue sobrepor à indiferença. E definha. Envelhece. Perde os minutos do dia e passa a viver de noite. E tudo dentro de si.
O que chora são agora lágrimas de si. Perdeu e perdeu-se.

O que será o dia 30 de Fevereiro?

Pela manhã...

Sou um viajante dentro da minha alma. Não sei o que procuro, mas encontro sempre qualquer coisa. E perco-me tantas vezes. E sobre certezas.... são cada vez menos e mais ténues.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

De volta aos desenhos


Ontem, enquanto decorria um concerto de Bach no Museu da Fundação Calouste Gulbenkian.

Morri

Perdi o calor
Uma máquina interior
Que me dava emoção
E sal para a vida.

Estou sem Sol
Que corra de nascente
Ao poente de cada dia
Fiquei, até, sem Lua.

Apagaram a luz
Nem um ideia ocorre
Morri sem saber
Que a morte era assim

E cai num deserto
Uma aridez que escorre
Como areia entre os dedos
Sem que aconteça um pensamento

Não há mais futuro
Tudo morreu
Entupido
E vandalizado.

Já tudo cessou,
Tudo se disse.
A porta fechou
E nem a memória saiu.

Morri.
Sou a morgue da minha alma.
Aguardo a certidão,
E o julgamento final.

Meditando pela manhã

De Alfa a Ómega, diziam os antigos, cabe tudo. Hoje para além desta relação, descobriram tantas variantes quer de Alfa quer de Ómega que já é difícil encontrar e entender os eventuais limites do conhecimento, chegando mesmo a poder levantar-se a questão "Chega a haver conhecimento?"

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Mais uma frase pensada

Quando se  retira o afecto a uma relação apenas fica a formalidade da convivência que se transforma no pó que fica do tempo que passa. Sai com uma limpeza e não deixa memória.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Lendo 138

"Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
(...)"

Fernando Pessoa

Este poema é, eventualmente, o poema que mais me acompanha. Faz mais de 30 anos que o li pela primeira vez, e, tal como nessa vez, toca-me profundamente.
A demanda de ser mais, de ser diferente, e, sobretudo, de se saber efectivamente porque é que se é como é tem que nos forçar sempre para sermos evadidos de nós mesmos. Ser crítico ao limite e aceitar, depois, esses limites.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Da criatividade

A ideia do interruptor.

Há momentos em que tropeçamos em criatividade às catadupas. Não se pode estar quieto que estão sempre coisa a surgir e mal há tempo para registar tudo. Depois parece que ficamos esgotados e dentro de nós só habita uma aridez ventosa em que nada se fixa nem toma forma.

Já nem sei em que duna vou, mas não consigo conviver muito tempo assim.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Azedume

Pior que não ser amado,
É tê-lo sido por piedade.
Um beijo que se pede
Trás sal e vinagre.
Um beijo que se recebe
Trás açúcar e mel.
Ser feito de assim
É carregar ruindade
Tomara, pois, ter sido amado
Assim como desejado.
Ser açúcar e mel
Ao invés de suportado.

Do que pudera ter sido.

O que pudera ter sido
Não o fui
E se fosse da vontade,
Era-o apenas de um,
E como não fora de mais,
Fica-se sempre assim,
O que pudera ter sido,
E não foi!
Di-lo então agora,
Que por outro assim foi,
Quando na verdade,
Por ti assim foi

Lendo 137

"(...)
É por ser mais poeta
Que gente que sou louco?
Ou é por ter completa
A noção de ser pouco?

Não sei, mas sinto morto
O ser vivo que tenho."

Fernando Pessoa

Tantas palavras certas que ler Pessoa é uma dimensão diferente de ler poesia. Se por vezes parecem jogos de palavras, de opostos que se anulam, fazendo sobressair a diferença mas é tanto mais que isso.
A distância que o lápis toma da mão é tantas vezes a distância do que sou.

Lendo 136

"Qualquer ave nos montes mais agrestes,
Qualquer fera na cova repousando,
Tem horas de alegria; eu todas tristes"

Camões

A melancolia do poeta que no seu encontro consigo pensa na sua condição e se faz insatisfeito, e nesse seu incómodo com a sua circunstância dá-lhe a demanda de qualquer outra coisa e acaba por nascer alguma da sua poesia.