quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Primeiro andamento

Queria duas coisas: Paz e tempo. Sabia que a maior parte das vezes a paz lhe daria mais tempo e que o tempo lhe provocaria a paz que precisava. Não havia já dúvida que lhe restasse que precisava de parar com as coisa que lhe consumiam o tempo e tinha que se deixar ir para onde houvesse a paz que lhe desse esse tempo. Uma pausa seria, uma pausa faria.

No Inverno nada apetece fora de onde quer que seja. O recolhimento é uma força maior. Uma lareira e uma janela ampla. Ao fundo a linha do horizonte onde aconteça o movimento mágico em que o Sol se deixa tombar no longínquo mar e enche o azul do céu das tonalidades que se perdem do amarelo alaranjado ao azul que se perde na negritude. Por trás de si a lareira crepita dois pequenos troncos e deixam a pequena sala com o mesmo laranja que o sol havia pintado o céu. As páginas brancas à sua frente esperavam por ele e por tudo aquilo para o que queria a paz e o tempo. Ao lado destas, livros marcados e desejados assim como canetas e lápis. Faltava apenas o acto mecânico de colocar no papel tudo o que já estava desenhado no espaço do seu imaginário.

E começava como um homem como ele, cansado da vida que levava fazia uma pausa e saía para aquilo que fora em tempo uma pequena e pitoresca vila piscatória. Uma casa, que podia ser parte de uma pensão de tempos que já não existem e onde se usa o que vai restando dos seus tempos numa reconfortante paragem no tempo e algo extraordinário pode acontecer e que vai alterar o que necessita de ser reencontrado. Assim, estava ele sentado numa confortável cadeira de fronte de uma ampla mesa com um candeeiro pronto a ser aceso. Caíra o dia todo uma chuva intensa que tinha deixado o ar mais claro e límpido. Ao fundo, o farol já fora aceso e rodava um aviso de porto para abrigo. Olhava o horizonte sem ver nada, numa distracção alheada e absorvendo as cores e a magia da hora do por do sol. 

Ao seu lado e cumprindo a distância de segurança social estava uma mulher que, tal como ele, partilhava a mesma atitude contemplativa. Os olhares cruzam-se algumas vezes e com um ligeiro aceno afirmativo de uma mensagem subentendida de encantamento com a paisagem deixando-se, mutuamente, um sorriso.
Antes que o céu caia por completo surge a conversa mais normal e natural
- O por do sol no oceano é sempre um espectáculo emocionante – desabafa tranquilamente.
- …Há um grande magnetismo neste momento – concorda.
- Em Lisboa, no miradouro da Senhora do Monte, à Graça, chegam a bater palmas quando o Sol se esconde na cidade…, é um hábito que terá começado com os turistas, penso.
- Que curioso. É uma espécie de comunhão que fazem.
- Ou, um agradecimento, mas sem darem conta disso. Um acto mais espiritual que visual… – tenta a variação no tema.
- Pois até pode ser.

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