quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Histórias de vida

Perdera já a memória do sabor de um beijo. Já não se lembrava quando fora que o beijo passou a ser um toca e foge. Nem nos momentos mais íntimos o beijo tinha lugar. E agora, que deixara de ter com quem partilhar esses momentos de intimidade, ficava em definitivo preso apenas na memória o seu paladar e dela quase só recorda os movimentos…
Recordava-se dos tempos perdidos, quando este ainda não se contava mas se fruía o prazer de se estar sem nada para fazer ou dizer… apenas percorrer, como podia o corpo de com quem estava. Era a inocência feita experiência. Conhecia e era conhecida.
Tudo foi correndo velozmente e todos os chamamentos foram feitos de tal como que passou a cuidar de um corpo lhe crescia por via de ter recolhido a ordem natural que cumpriu a sua missão e um novo ser se formava. A maternidade que agora aparecia era, também, uma solução para uma relação que se arrastava há demasiado tempo sem se definir aquele compromisso ambicionado. E ficou o casamento sem vestido de noiva, apenas um lenço branco, foi-se a boda ficando apenas um jantar de circunstância, foram-se todos os sonhos mais ou menos assumidos. Ficou apenas uma casa, pequena, mas com o tamanho dos seus mundos e horizontes.
O fruto da gravidez passou a ser o centro de uma relação que não passava disso mesmo, apenas relações. Tudo cresceu, até o tédio entre eles.
E até o beijo fugiu…
Com o peso da gravidade do tempo, caíram, também todas as expectativas e terminando o teatro, acabou por se desfazer o que já estava desfeito.
Sem ter aprendido a viver para o outro que não fosse o filho, olhava para o mundo e para os outros do mesmo modo, ou seja, cuidar em de amar e ser amada e criar cumplicidades.
Com o tempo até a intimidade se fechou nela mesma. Deixou de ser capaz de se dar, de se expor, de fazer-se no outro e de desejar o mesmo de alguém. A própria ideia de um outro passou a ser vagamente estranha e dificilmente incorporável. Cresceram as certezas de si, da sua realidade e circunstância. Só aos seus olhos as coisas eram descodificadas. Deixara de praticar a vulgar troca de opiniões. No que lhe importava não havia outra opinião que a sua.
Para além de se ter transformado numa pessoa só, ganhara hábitos que afastavam qualquer compromisso mais forte que um café ou um cinema. Era-se bastante.
Um dia notou que havia uma vaga possibilidade de poder voltar a haver uma companhia, ou, quem sabe, até um outro e começou, então, a corte. Passou tempo e a corte manteve-se. E mais tempo passou e a mesma situação se mantinha. E assim se estabeleceram. Voltou, portanto, a um “casamento” onde nada acontece e nada se ambiciona. Mantém todos os seus hábitos, toda a sua vida, as suas certezas, a sua conformidade e, às vezes, companhia. O mundo não alterou a sua centralidade.

Claro que está que não é feliz apenas tem momentos em que se ri.  

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