quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

De um engano

Contaram-me a seguinte história num daqueles momentos em que se revisitam pedaços de passado na demanda das causas que possam caber para a sua melhor compreensão e entendimento daquilo que foi um momento de um mini terramoto, um certo caos.
Como todas as histórias que ganham um interesse adicional parte esta da relação entre um homem e uma mulher. Mas não, não era uma história de amor apesar de, pela natureza própria das coisas somos forçados a ter o amor em todas as coisas, mas, e no caso presente esclarece-se que não era uma história desse amor concupiscente, aquele que faz desejar a intimidade dos corpos.
Numa companhia que oferece aos colaboradores a possibilidade de se embrenharem todos na vida uns dos outros, pois trabalham em espaço aberto e, portanto, não há, também, barreiras sonoras que impeçam o som das chamadas telefónicas, de conversas miadas e outras tantas sons verbalizados. Acabavam por ser todos vizinhas coscuvilheiras uns dos outros. Poucas misérias mundanas conseguiam ficar de fora, desde a sogra, ao gato, às pequenas arrelias dos filhos à crise com a caixa do supermercado... Não era, pois saber dos detalhes da vida alheia. Se havia esta devassidão generalizada, havia, também, uma crescente partilha de pequenas coisas, pequenos momentos que 
acabavam por solidificar a aproximação possível àquela vida tão próxima de familiar. 
Numa dessas partilhas trouxe um pedaço de um texto de Somerset Maugham que se reproduz "Não mereciam a menor confiança. Era realmente horrível que um sujeito casado com uma mulher tão encantadora, pai de uma menina tão bonita, procurasse aventuras amorosas num combóio. Os homens são mesmo uns indecentes..." e explicava que o curioso desta afirmação era que quem a fazia, a mulher, era, ela casada e mãe de uma menina que também procurava aventuras amorosas num combóio e a reflexão que procurava fazer era como, dependendo de quem vê, de quem olha e do modo como olha se pode ver a realidade de formas tão diversas. 
Azar dos Távoras que o perseguia, assim o disse, é que logo uma colega sentiu que o excerto do livro era uma acusação à vida dela e numa elevação, distinção e até educação diz-lhe com os olhos marejados:
- Vai para o caralho!- e saiu arrebatadamente. Caso houvesse uma porta tinha batido com ela.
A estupefacção generalizou-se, sobretudo porque ninguém entendeu o sentido da reacção tão intensa sobre o que quer que fosse.
Num espaço tão sui generis como aquele onde trabalhavam resolveu ele dar uns minutos de pausa e descer até encontrá-la para tentar entender a razão de tão desmesurada reacção.
No meio de bafuradas de fumo nervosas e frenéticas, com os olhos marejados de lágrimas de raiva confrontaram o olhar.
- Podes-me explicar?
- Achas que podes fazer e dizer essas coisas sobre mim?
- Como?
- Sim, eu sei o que toda a gente diz...
- Não percebo... Aquilo foi um texto que li! 
- Pois, pois...
- Peço-te desculpa, mas a minha vida não gira à tua volta.
- Claro!...
- Eu escrevo, leio e digo aquilo que acho graça e não que tenha por base o que quer que seja da tua vida...
A conversa perde-se em mais umas frases que nada acrescentam, são mesmo meias frases pois ele não pretendia saber nada sobre a vida pessoal dela e ela também não a queria contar. 
Perceber que vinha todos os dias de combóio com um amigo e colega, que almoçavam todos os dias juntos, que, ao que se percebia, quase tudo faziam juntos era um detalhe que ela sentiu que a colocava na história de Somerset Maugham escrita em 1937 e, portanto, informava ao mundo aquilo que ela nem a ela própria havia confessado.
A consequência desta exposição da sua fragilidade emocional, bem como do facto que não ter mão nas consequências das suas escolhas afectivas foram, a um segundo momento consciencializadas abrindo, desse modo, uma fenda irreparável com ele.
Alheio a toda a baralhada emocional, pergunta-se que foi que fiz para merecer esta cruz?   

Depois de ouvir a história fico em silêncio e feliz por não ser parte dessa história, mas consciente que tenho outras para contar.



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