domingo, 31 de janeiro de 2016

Do amor

À memória serena e doce
De todo amor que foi
Foi aquilo que foi,
Não só por um,
Mas por dois num.
E desse amor
Se fez eternidade

Apre que até o socialismo chegou ao amor!

Dessacralizaram o amor!
A modernidade fez com que se passasse a amar tudo e todos de qualquer maneira! Por qualquer razão, ou mesmo sem ela, catrapuz, eu amo isto, eu amo aquilo e amo ainda mais isto. Amar deixou de ser algo que nos faz tremer, nos sobe a pulsação, que seca a boca e faz tremer as palavras. Amar passou a ser um prato que se come com batatas fritas, alface e molho de soja. Sem sequer se usar as mãos, os lábios e o corpo.

Perdeu-se a concupiscência! Apre que até o socialismo chegou ao amor!

Espectador

Entrei em mim e perdi-me...
Não dizia o que queria
E falava sem sentido.
Ia num pensamento
E discorria doutro.
Que coisa esta
De não conseguir ser
Onde, afinal, estou.
São dois pensamentos
Num mesmo momento
E acabo por ficar
Fora de ambos,
Sempre espectador.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lendo 135

"O vento tem variedade
Nas formas de parecer.
Se vens dizer-me a verdade
Porque é que ma vens dizer?
Verdades, quem é que as quer?
(...)

Fernando Pessoa

Só uma inspiração sibilina quanto a desta Pessoa consegue a finura magnífica de desembrulhar tão bem e tão eloquentemente a alma humana. O que não se vê, mas sente-se está carregados de todas as formas dos nossos sentimentos, mas se alguém me vem obrigar a ver o mundo, e eu não pedi, para que diabo eu o quero ouvir ou ver?

Penosamente me castigo de tantas vezes me fazer dessa verdade que vou dizer, assim como já me senti a rejeitar as verdades que me empurravam olhos dentro. Mas, o meu sentido crítico, quase sempre me obrigou, forçou e me derrotou a ouvir e calar-me nas verdades, porque o eram.

Lendo 134

"Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
(...)"

Fernando Pessoa

Uma das frases que mais me inspira. Quando tocados pelo amor, somos levados para tantos outros sítios, tantos sentires, tanta coisa diferente que somos trocados de nós mesmo para um outro. E esse outro desaparece do mundo e transporta-se para a pessoa amada, vivendo-a, sentido-a, pensando-a e, finalmente amando-a.

Coisas de sábado

Ir e voltar aos sítios de sempre, e claro,ao pé do mar.
Um pouco de leitura e de volta a casa. Hoje fui com Fernando Pessoa.

Que maravilha.

Desolação

Folhas de desolação
Pedaços de nada
Restos de uma reclamação
Que fica por fazer.
Não é dos outros
Nem sequer do mundo
Mas da minha alma
Que, rebelde e ousada,
Faz-se a um mar
Onde não sabe nadar,
E pensa-se mais
Do que o menos que é.
E tudo falece,
Do passado ao futuro...

Contemplar

Neste viver alheado
Deixei passar o mundo
E nele vivem tantos
Que me quedei só
Sem nada para contemplar...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Curiosidades mundanas

Fui tardiamente à feira da ladra à procura de tanta coisa que nem sabia o que era. Eram pedaços de mim e da minha vida, pequenas coisas que de algum modo são peças de decoração da vida.

Sem olhar para nana em especial noto uns óculos de sol Ray Ban  e fico interessado. Discutimos o preço com a generosidade de quem compra a alguém que vende o que tem para poder ter a vida possível até ao dia seguinte.

Passados uns 5 a 10 minutos, quando olho novamente para a compra noto que afinal comprei uns Rau Bein, ou seja uma contrafacção sem valor e, provavelmente sem qualidade.

Ri-me de mim mesmo.

Hoje, passados três dias, notei que acabo de verificar que tomei pessoas por Ray Ban, dei-lhes o crédito na suposição intrínseca do valor associado e noto que fui demasiado generoso. Apesar da forma e da ilusão funcional, falta-lhes a qualidade intrínseca que se espera de um atributo.

Desolei-me da minha vontade de sempre querer acreditar nas pessoas.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

irreverência

Ás vezes perco a vontade de me apaixonar. Esta coisa de já ter vivido 50 anos e conhecer tantos fins de histórias deixa-me desolado por causa da facilidade com que se segue o caminho errado. Assim, em vez de ver o encanto que as coisas nos podem dar, fico em suspenso a pensar:
- Vai dar merda!
E dá.........

Como diria Achille Tallon: "Bof!"

Sun Tzu

Diria algo como isto: "Não entres em guerra se não souberes como ganhar"

A ideia subjacente era "evita entrar em guerras que não levam a lado nenhum ou das quais nada mais tiras que o confronto" Ganhar não obter a vitória, ganhar era ser melhor que o adversário, estar à frente do adversário. Sun Tzu aborda muito uma ideia e concepção moral na guerra que é notável.
A melhor vitória é a que é feita sem guerrear.

Lembrar Sun Tzu engrandeceu-me o dia.


Lendo 133

"Há mulheres que têm sardas no rosto, como há as que têm sardas na alma. As primeiras ocultam-nas com um véu, as outras com uma atitude" António Ferro in Teoria da Indiferença, Dalraux Lisboa 1920, pág 100

Hoje em dia, de tal modo as coisas andam acho que já nenhuma oculta o que quer que seja, e nós agradecemos! Ofereçam as vossas graças que saberemos levantar as taças aos píncaros de Olimpo em agradecimentos tão eternos como o amor.

Lendo 132

"O que se escreve sobre nós nunca é justo - ou é de um amigo ou de um inimigo."  António Ferro in Teoria da Indiferença, Dalraux Lisboa 1920, pág 75

A frase tem o encanto maniqueísta de não haver mais que duas possibilidades que claro que não acompanho, pois prefiro sempre os cinzentos que lhe permeiam. Neles descobrimos mil encantos ou outras tantas oportunidades de zarpar para outros caminhos. Mas é seguro que aqueles que menos nos amam acabam por ser os que melhor oiço. É que neles não só me vejo melhor, como também os vejo mais nítidos.
A razão da falta de ímpeto no afecto pode ser antes de um mal, erro ou engano meu, um desajuste de quem o faz, sobretudo se o faz para se refastelar na egoísta maldade.

Já aconteceu...

Já não há amanhã
Estamos apenas à procura
De um desvio,
Outro caminho

Para lá deixares
O orgulho que te mata
A soberba que te enche
E o medo de amares.

Morreste no caminho
Mataste o futuro
O céu e a terra
Esmagados em ti.

Mero exercício de escrita, mas sentido

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A fundação de Portugal

Questão crucial defendida ao jantar de hoje. Tema: A fundação de Portugal.

A minha tese

O Conde D. Henrique vem de França conhecedor e, por ventura amigo e leitor, senão mesmo aluno de São Bernardo, fundador da Ordem de Cluny. Não vem sozinho, pois são vários os nobres, e filhos segundos, que descem à península a fim de, com a ajuda da espada, espalhar as máximas da fé cristã. O que significa, portanto, que são portadores das "novas ordens" da religião e agem a mando do centro da inteligência religiosa, como que partilhando um acesso privilegiado com o divino.
E é com base nesta proximidade com o poder espiritual que permite que os povos que habitavam o entre douro e minho largassem a ligação senhorial que tinham com a dinastia fundada em Vimara Peres e nas mãos de um filho de Mumadona Dias.
A transferência de um poder conhecido e de certo modo instituído há mais de uma centena de anos tem que ter uma relação forte. Duas causas mais directas podem ser válidas:
- A grande inspiração do Conde Dom Henrique
- A vantagem que que Afonso VI, Imperador de Leão e Castela resolve atribuir à Sé de Braga de modo a que a sua filha bastarda, agora casada com um inspirado cavaleiro possa ser tida como a causa dessa elevação de Braga face à posição de Santiago de Compostela.
Uma coisa, no entanto, é absolutamente clara. A opção tem um fundo religioso.

A aceitação emocional de passar de a para b tem que ter tido um mais, um acrescento que de ordem religioso. Ao tempo era absolutamente certo que o poder vinha de Deus.

Enfim, reflexões à mesa sem acesso a bibliografia.

Depois de ler, escrever

Inspirado numa leitura de Graham Greene fugi, como ele, para um recanto onde me proponho pensar enquanto vou descrevendo vidas. Vamos ver no que desanda.

Por vezes

Há que virar virar a página do livro para perceber que depois de uma história há milhares de outras para ler e entender.

Primeiro andamento

Queria duas coisas: Paz e tempo. Sabia que a maior parte das vezes a paz lhe daria mais tempo e que o tempo lhe provocaria a paz que precisava. Não havia já dúvida que lhe restasse que precisava de parar com as coisa que lhe consumiam o tempo e tinha que se deixar ir para onde houvesse a paz que lhe desse esse tempo. Uma pausa seria, uma pausa faria.

No Inverno nada apetece fora de onde quer que seja. O recolhimento é uma força maior. Uma lareira e uma janela ampla. Ao fundo a linha do horizonte onde aconteça o movimento mágico em que o Sol se deixa tombar no longínquo mar e enche o azul do céu das tonalidades que se perdem do amarelo alaranjado ao azul que se perde na negritude. Por trás de si a lareira crepita dois pequenos troncos e deixam a pequena sala com o mesmo laranja que o sol havia pintado o céu. As páginas brancas à sua frente esperavam por ele e por tudo aquilo para o que queria a paz e o tempo. Ao lado destas, livros marcados e desejados assim como canetas e lápis. Faltava apenas o acto mecânico de colocar no papel tudo o que já estava desenhado no espaço do seu imaginário.

E começava como um homem como ele, cansado da vida que levava fazia uma pausa e saía para aquilo que fora em tempo uma pequena e pitoresca vila piscatória. Uma casa, que podia ser parte de uma pensão de tempos que já não existem e onde se usa o que vai restando dos seus tempos numa reconfortante paragem no tempo e algo extraordinário pode acontecer e que vai alterar o que necessita de ser reencontrado. Assim, estava ele sentado numa confortável cadeira de fronte de uma ampla mesa com um candeeiro pronto a ser aceso. Caíra o dia todo uma chuva intensa que tinha deixado o ar mais claro e límpido. Ao fundo, o farol já fora aceso e rodava um aviso de porto para abrigo. Olhava o horizonte sem ver nada, numa distracção alheada e absorvendo as cores e a magia da hora do por do sol. 

Ao seu lado e cumprindo a distância de segurança social estava uma mulher que, tal como ele, partilhava a mesma atitude contemplativa. Os olhares cruzam-se algumas vezes e com um ligeiro aceno afirmativo de uma mensagem subentendida de encantamento com a paisagem deixando-se, mutuamente, um sorriso.
Antes que o céu caia por completo surge a conversa mais normal e natural
- O por do sol no oceano é sempre um espectáculo emocionante – desabafa tranquilamente.
- …Há um grande magnetismo neste momento – concorda.
- Em Lisboa, no miradouro da Senhora do Monte, à Graça, chegam a bater palmas quando o Sol se esconde na cidade…, é um hábito que terá começado com os turistas, penso.
- Que curioso. É uma espécie de comunhão que fazem.
- Ou, um agradecimento, mas sem darem conta disso. Um acto mais espiritual que visual… – tenta a variação no tema.
- Pois até pode ser.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Ser alvo de ódio

Sempre entendi que o homem é, acima de tudo AMOR. Pode, é certo, em alguns momentos e circunstâncias encontrar coisas para se incomodar com a vida e com alguns com quem partilha a vida. O mal, o erro, o incómodo, a desagradabilidade é temporária. Sempre assim o entendi e disso fiz fé de vida.
Lacerado verifico o meu erro. Há quem, para lá desta muito minha evidência moral, se refastela num banquete de maus sentimentos, bebe sequiosamente toda a inveja e extasia-se com os aromas da perfídia. Refaz, nomeadamente, o mundo para que tudo se case com esses seus sentimentos. E é sobre mim que todo este horror moral se abate.
Antes ser ignorado, ser ninguém, ser um nada, mas não ser um mero alvo a abater.
Não só não consigo entender, como não possuo ferramentas para integrar na minha realidade moral.
Podia dizer que com um vazio, mas não é um vazio, é um buraco. Algo me foi retirado. Passei a ser um amputado moral.

Ser alvo de ódio é um chão que não sei pisar.

Num abismo

Ser alvo de ódio é um chão que não sei pisar. É contra-natura.

De volta ao essencial

Armei-me em marinheiro,
Desfraldei as velas
E no possível leme
Dispus-me a navegar...

Queria partir de mim,
Abrir novos futuros,
Sair das portas fechadas
E Ver-me de fora.

Que mundo há, afinal?
Que seja tão diverso
Daquele que é o meu?...
Onde calhará o engano?....

Basta que se volte ao princípio,
E me devolva ao essencial,
Esse é o mundo
Isso é o tudo.

Ai que me perco

Porque é que esperamos que a mulher se deite e se desnude o mais sugestivamente possível?
O homem quer ver, desfrutar a nudez sem qualquer inquietação.


Ver até chegar ao ponto de querer saborear essa nudez...
E depois, mulher deitada, transformas-te num doce pecado a consumar...

domingo, 24 de janeiro de 2016

Eleições

Um maravilhoso palco para todos os jogos de intenção, de malabarismos, de provocação de massas e de subentendidos. Nada é exactamente o que parece.

O PCP guarda para o fim os seus melhores resultados para acabar a hecatombe com uma saúde fictícia. As hostes sentem-se gratificadas e aplaudem o tipo que num fim ainda limpou um candidato absolutamente menor e inexistente.
O BE mantém um discurso de chavões que nada compromete e tudo acusa. Satisfaz toda a sua base de apoio que sabia que não podia aspirar a muito mais do que o que teve e ao expelir a agressividade fica feliz.
Maria de Belém, coitada, não se bate num moribundo. Há que ser misericordioso.
Sampaio da Nóvoa repete o discurso vazio do BE, mas um pouco mais de polimento. Dispara culpas, razões e motivos para os mortos e confirma que foram muito melhores que a sua melhor expectativa.

Marcelo, fino, desaparece, ninguém o vê até ter a certeza absoluta que ganhou. Depois vai ser D. Sebastião para manter uma aura mística.

Vamos pensar em vez de dar como adquirido o que nos dão na gamela.

Em breve voltarei a este palco da política.

Armas e afins

Entrei discretamente, de cara coberta e aproveitando todas as sombras e penumbras até me esgueirar até à minha secção de voto. Agarrei na minha arma e entreguei, penhorado é claro, à presidente da mesa. Depois sim! Livre de já estar finalmente desarmado segui de cabeça levantada e olhando claro e directo para com quem me cruzava. Isto do voto ser a arma do voto causa-me sempre dissabores morais, pois não sou belicista. A palavra é a única forma de arma que aceito!

Envelhecera

Tanto passara que até o tempo passou. Onde encontrava o odor especial da entrega dos corpos, do calor e frenesim que ficava, vinha-lhe com o tempero do tempo em cheiro de bolor.

Há quanto tempo já não amava?

Mais uma frase

Ser desamado só custa quando se ama quem nos desamou.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Poema descrito

Há uma verdade que passa de mim para ti.
Sei-a por mim que tem apenas um único sentido, no entanto, para ti fica diverso.
E, de uma verdade assim, nasce um mar de enganos podendo, até, chegar a um oceano de desentendimentos.
Fui eu que não soube dizer-te a verdade, a minha verdade, a minha história, ou foste tue que esperavas uma verdade que tivesse a cor dos teus olhos e o sal da tua boca?.....
O sabor amargo que tomou pode caber o mundo inteiro e todas as coisas, todas as nossas conversas, todas as opiniões e até juízos. Mas, se não coube em mim, foi, seguramente, o ar que se lhe deu que a talhou assim...
Poderá haver, ainda assim, a esperança da harmonia ou vou ter que reaprender o abecedário?

Curta ao desamor

O desamor.... o desafecto estendeu-lhe uma enorme passadeira vermelha.
E, já no meio desta, recebe a extraordinária ovação para que toda e qualquer dúvida não ficasse. Tudo esclarecido! Até as que não possuem a capacidade para mais que dois ou três pensamentos. Facto consumado. Sem apelo nem agravo.
Resta um estado de alma que não se sobrepõe a nada.
A expectativa de qualquer ser humano é, por natureza deste, de ordem positiva, ou seja, ser amado. Claro está que entendemos bem que o amor a que nos referimos tem todos os graus e estádios que podem ir da mera aceitação ( aceitar é já um modo de amor que compreende a generosidade para com o outro) até à paixão cega e arrebatada. Não faz parte da constituição moral do ser humano ser desamoroso pois que o obriga  a dois actos, primeiro a indispor-se e depois a gerar sentimentos desagradáveis.
Ter sido escolhido, dizia, para este desamor obriga, pois, a procurar a raiz desse desafecto mas como como, e nas suas palavras, como não é o outro nem consegue caber na mente alheia apenas se lhe oferece ser misericordioso.
Quem desama assim tem, definitivamente um problema com o amor.

E virou costas ao assunto. Virou mesmo?

Do kilas

Má sorte a minha ter nascido puta! - Kilas o mau da fita

Cada um faz a cama onde se deita? É tão fácil culpar o mundo, o destino de se ter determinado resultado, mas tão difícil pensar ou admitir que tantas vezes nós somos a nossa causa, o nosso resultado.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Um aforismo

O meu mundo tem diabos e anjos. Porque é que só os meus diabos habitam no mundo dos outros?

Questões....

Reencontraram-se
- Olha, parece que as coisas foram um pouco longe demais e nem tudo o que foi dito tinha quer valor, quer sentido.
- Também concordo.
- Tens que entender que és uma pessoa especial e muito complexa. Também não és nada fácil de lidar com…
- Desculpa?
- Tens que moderar os teus excessos e diminuir essa força explosiva que existe em ti.
- Vê lá que estava eu aqui a pensar que me vinhas dizer que te havias enganado no que me havias dito, que tinhas pensado apenas a partir da tua circunstância e que não tinhas tentado sequer entender o que nos trouxe a este desentendimento…
- Mas eu não fiz nada de mal…
- Nem de bem
- Lá estás tu.
- Exactamente.
- Vês como és?
- Estamos no mesmo ponto em que estávamos.
- Não, de todo!
- Então?
- Tu sabes que tens que mudar.
- E tu?
- Voltamos ao mesmo?
- Parece que de lá não saímos.
- Complicas o que é simples
E vira as costas e sai à deriva.

O meu mundo tem diabos e anjos. Porque é que só os meus diabos habitam no mundo dos outros?

Histórias de vida

Perdera já a memória do sabor de um beijo. Já não se lembrava quando fora que o beijo passou a ser um toca e foge. Nem nos momentos mais íntimos o beijo tinha lugar. E agora, que deixara de ter com quem partilhar esses momentos de intimidade, ficava em definitivo preso apenas na memória o seu paladar e dela quase só recorda os movimentos…
Recordava-se dos tempos perdidos, quando este ainda não se contava mas se fruía o prazer de se estar sem nada para fazer ou dizer… apenas percorrer, como podia o corpo de com quem estava. Era a inocência feita experiência. Conhecia e era conhecida.
Tudo foi correndo velozmente e todos os chamamentos foram feitos de tal como que passou a cuidar de um corpo lhe crescia por via de ter recolhido a ordem natural que cumpriu a sua missão e um novo ser se formava. A maternidade que agora aparecia era, também, uma solução para uma relação que se arrastava há demasiado tempo sem se definir aquele compromisso ambicionado. E ficou o casamento sem vestido de noiva, apenas um lenço branco, foi-se a boda ficando apenas um jantar de circunstância, foram-se todos os sonhos mais ou menos assumidos. Ficou apenas uma casa, pequena, mas com o tamanho dos seus mundos e horizontes.
O fruto da gravidez passou a ser o centro de uma relação que não passava disso mesmo, apenas relações. Tudo cresceu, até o tédio entre eles.
E até o beijo fugiu…
Com o peso da gravidade do tempo, caíram, também todas as expectativas e terminando o teatro, acabou por se desfazer o que já estava desfeito.
Sem ter aprendido a viver para o outro que não fosse o filho, olhava para o mundo e para os outros do mesmo modo, ou seja, cuidar em de amar e ser amada e criar cumplicidades.
Com o tempo até a intimidade se fechou nela mesma. Deixou de ser capaz de se dar, de se expor, de fazer-se no outro e de desejar o mesmo de alguém. A própria ideia de um outro passou a ser vagamente estranha e dificilmente incorporável. Cresceram as certezas de si, da sua realidade e circunstância. Só aos seus olhos as coisas eram descodificadas. Deixara de praticar a vulgar troca de opiniões. No que lhe importava não havia outra opinião que a sua.
Para além de se ter transformado numa pessoa só, ganhara hábitos que afastavam qualquer compromisso mais forte que um café ou um cinema. Era-se bastante.
Um dia notou que havia uma vaga possibilidade de poder voltar a haver uma companhia, ou, quem sabe, até um outro e começou, então, a corte. Passou tempo e a corte manteve-se. E mais tempo passou e a mesma situação se mantinha. E assim se estabeleceram. Voltou, portanto, a um “casamento” onde nada acontece e nada se ambiciona. Mantém todos os seus hábitos, toda a sua vida, as suas certezas, a sua conformidade e, às vezes, companhia. O mundo não alterou a sua centralidade.

Claro que está que não é feliz apenas tem momentos em que se ri.  

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

De um engano

Contaram-me a seguinte história num daqueles momentos em que se revisitam pedaços de passado na demanda das causas que possam caber para a sua melhor compreensão e entendimento daquilo que foi um momento de um mini terramoto, um certo caos.
Como todas as histórias que ganham um interesse adicional parte esta da relação entre um homem e uma mulher. Mas não, não era uma história de amor apesar de, pela natureza própria das coisas somos forçados a ter o amor em todas as coisas, mas, e no caso presente esclarece-se que não era uma história desse amor concupiscente, aquele que faz desejar a intimidade dos corpos.
Numa companhia que oferece aos colaboradores a possibilidade de se embrenharem todos na vida uns dos outros, pois trabalham em espaço aberto e, portanto, não há, também, barreiras sonoras que impeçam o som das chamadas telefónicas, de conversas miadas e outras tantas sons verbalizados. Acabavam por ser todos vizinhas coscuvilheiras uns dos outros. Poucas misérias mundanas conseguiam ficar de fora, desde a sogra, ao gato, às pequenas arrelias dos filhos à crise com a caixa do supermercado... Não era, pois saber dos detalhes da vida alheia. Se havia esta devassidão generalizada, havia, também, uma crescente partilha de pequenas coisas, pequenos momentos que 
acabavam por solidificar a aproximação possível àquela vida tão próxima de familiar. 
Numa dessas partilhas trouxe um pedaço de um texto de Somerset Maugham que se reproduz "Não mereciam a menor confiança. Era realmente horrível que um sujeito casado com uma mulher tão encantadora, pai de uma menina tão bonita, procurasse aventuras amorosas num combóio. Os homens são mesmo uns indecentes..." e explicava que o curioso desta afirmação era que quem a fazia, a mulher, era, ela casada e mãe de uma menina que também procurava aventuras amorosas num combóio e a reflexão que procurava fazer era como, dependendo de quem vê, de quem olha e do modo como olha se pode ver a realidade de formas tão diversas. 
Azar dos Távoras que o perseguia, assim o disse, é que logo uma colega sentiu que o excerto do livro era uma acusação à vida dela e numa elevação, distinção e até educação diz-lhe com os olhos marejados:
- Vai para o caralho!- e saiu arrebatadamente. Caso houvesse uma porta tinha batido com ela.
A estupefacção generalizou-se, sobretudo porque ninguém entendeu o sentido da reacção tão intensa sobre o que quer que fosse.
Num espaço tão sui generis como aquele onde trabalhavam resolveu ele dar uns minutos de pausa e descer até encontrá-la para tentar entender a razão de tão desmesurada reacção.
No meio de bafuradas de fumo nervosas e frenéticas, com os olhos marejados de lágrimas de raiva confrontaram o olhar.
- Podes-me explicar?
- Achas que podes fazer e dizer essas coisas sobre mim?
- Como?
- Sim, eu sei o que toda a gente diz...
- Não percebo... Aquilo foi um texto que li! 
- Pois, pois...
- Peço-te desculpa, mas a minha vida não gira à tua volta.
- Claro!...
- Eu escrevo, leio e digo aquilo que acho graça e não que tenha por base o que quer que seja da tua vida...
A conversa perde-se em mais umas frases que nada acrescentam, são mesmo meias frases pois ele não pretendia saber nada sobre a vida pessoal dela e ela também não a queria contar. 
Perceber que vinha todos os dias de combóio com um amigo e colega, que almoçavam todos os dias juntos, que, ao que se percebia, quase tudo faziam juntos era um detalhe que ela sentiu que a colocava na história de Somerset Maugham escrita em 1937 e, portanto, informava ao mundo aquilo que ela nem a ela própria havia confessado.
A consequência desta exposição da sua fragilidade emocional, bem como do facto que não ter mão nas consequências das suas escolhas afectivas foram, a um segundo momento consciencializadas abrindo, desse modo, uma fenda irreparável com ele.
Alheio a toda a baralhada emocional, pergunta-se que foi que fiz para merecer esta cruz?   

Depois de ouvir a história fico em silêncio e feliz por não ser parte dessa história, mas consciente que tenho outras para contar.



terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Hoje perdi-me numa alheia avareza moral.

Hoje perdi-me numa alheia avareza moral.
Fiquei desolado na minha crença na humanidade.
O mundo escureceu mais um pouco.

Fico-me a pensar que futuro augura esta gente?
Que vazio pode encher aqueles corpos?
Vegetam durante o tempo porque lhes falta amanhã.

dramas

Até que ponto é viável aceitar a opinião de alguns?

Maniqueísmo

"Quem não está contigo, está contra ti!"- disse, ou melhor atirou como se fosse o seu melhor argumento, o seu melhor ataque. E baixou os braços e encostou-se na cadeira. Nada mais havia a dizer. O caso estava encerrado.

A dualidade maniqueísta de quem não consegue encontrar meio termo refuta qualquer base de entendimento ou de compreensão sobre a vida e as circunstâncias. Ou branco ou preto. Ou dentro ou fora. Ficam de fora todos os meios termos, todos os cinzentos, todas as reflexões. Faz-se da verbalização uma fuga, sendo que nessa mesma frase abre uma guerra declarada "Eu estou contra ti!"

Há nesta dualidade um paralelo curioso a fazer-se e que se pode verificar com a Luz. Ou há luz ou não há nada. Há luz quando há diálogo, quando corre uma relação com o mundo, uma vida qualquer, conversa que seja, um mínimo de entendimento, há um e outro ou outros.... A ausência de luz é a segregação total de diálogo, de conhecimento, de contacto e ..... de vida.

A ideia de dividir o mundo em dois tem, implicitamente uma segregação emocional e afectiva. Faz uma rejeição liminar, mata o que não ama. Este campo abre a possibilidade de, numa versão psicanalítica, se tratar de uma queixa de amor, mas é claramente um caminho que não sigo.

Colocando a frase no sentido daquilo que fecha, o que está contra, revela uma atitude de quem não consegue olhar para as coisas sem ver as várias etapas que as coisas requerem para serem conquistadas. Não admite o crescimento, a valia sucessiva, o que se vai conquistando.

Trata-se, isso sim, de uma ofensa fácil e intencionalmente exclusiva de contraditório, o que a diminui. A impossibilidade de se discutir, de se conversar não releva.

É uma vida fechada. E pobre de quem a vive assim.

Poderá haver arrependimento? Poderá haver segunda oportunidade? E se falha? Torna-se num falhanço? Desde sempre achei o maniqueísmo a maior pobreza de espírito e desde sempre andei à procura de soluções.

Como correm as palavras...

Do erro ou nasce a lição ou cresce a falta de mundo.

Mais uma que o dia corre assim

Pode-se viajar muito, mas se não se viajar dentro da alma nunca se chega a lado algum.

Mais uma frase

A dimensão com que se olha para o mundo reflectirá, indubitavelmente, o tamanho da nossa alma. E, tal como esse mundo, assim ficam as nossas opções.

Pequenez

A salvação apenas acontece para quem se quer salvar, os restantes marcham para a sua oclusão. Resta-lhes apenas tempo, o tique taque repetido dos dias, das horas e dos minutos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Lendo 131

"O beijo é o cadeado dos lábios" António Ferro in Teoria da Indiferença, Dalraux Lisboa 1920, pág 32

Vivo preso nesse cadeado
Desses lábios que saboreei.
Dos mesmos lábios
Que senti o calor,
O sabor do amor
E o paladar do desejo.
E juntos respiram-me,
Sussuram-me,
Pedem-me,
Dizem-me,
Chamam-me,
Choram-me...
São todos os lábios,
Todas as palavras,
Todo o sentido,
São o sopro
A vida...

Eramos o que fomos

E sem tu saberes,
Dares opinião
Ou sequer autorização
Contigo vim...
Nem teus pais sabiam
Ou para isso acordaram,
Eramos apenas os dois
De mão na mão...
E caminhámos lado a lado
Em silêncio
Eramos o que fomos.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Enamoramento

Vou atrás de uma história de amor como se fosse algo que se apresenta diferente no mundo e capta de imediato a atenção. São duas almas que não se conhecem, que estão no mesmo mundo e não sabem que isso é um facto. Vivem lado a lado mas de todos os ares que por ambos passaram nenhum tinham aquele não sei quê que faz com que o interruptor acenda aquela luz especial.
Foi um dia, um circunstância ou uma coincidência? Estavam marcados para haver um momento mágico em que desce sobre ambos a circunstância de poderem ser dois? Acontece magia, ainda que, sobretudo para os crentes, acontece a mão de Deus que sendo essencialmente Amor, toca-lhes e faz vida acontecer.
Segue-se depois o inevitável. O sol, mesmo no inverno, aquece tudo o que os rodeia, até as mãos que se tendem um para o outro. As cores do que os rodeia ficam mais vivas, nascem amarelos, os encarnados são cheios de força, dos verdes sobressaem os que mais são tingidos de amarelo que pedem ao azul a cor do céu e de todos os mares. O peso das coisas que nos incomodam perde-se algures e a leveza do mundo prende os movimentos deixando que essa magia tocou se prenda também a tudo o que rodeia. O caminho fica mais plano e ao longe espera-se o mais encantador e envolvente por do sol que possa haver. O enamoramento instala-se.
Tudo serve para sorver o que possa envolver esse radioso desconhecido que maravilha. Todo o tempo gasto ao pé do fruto desejado é tempo de retenção apenas da parte pura, bela e encantadora de vida. Não há cinzentos, não há tristeza, não há lugar para nada mais que elementos construtores de futuro. Tudo se projecta para amanhã. Tudo fica um intenso amanhã a conquistar.
O tempo desenvolve-se, como se fosse uma serpente, de modo a reunir o que foi feito e desejado ser unido. Tudo se precipita para o desejado momento em que se sela o toque, em regra não com palavras, não com intenções mas com a comunhão dos lábios que passam a saborear as bocas e todos os paladares de prazer que o beijo deixa.
Chegados a este ponto tudo o mais se evapora, pois inicia-se um processo de privacidade em que apenas cabem os enamorados. Não há mais história, nada mais existe. Apenas aquela dualidade que começa a fazer-se unidade e se vão cosendo nos pontos comuns de um e de outro até criar o tecido mais forte e mais duradouro. Até que a morte os separe.

É impossível não gostar de histórias de amor.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Um poema mais

Sou de mim descritor.
Melhor fora que fosse
De mim autor
Não do lastro que fica
Mas do etéreo que passa
Veloz como o som
E livre como vento.
Ideias em mim.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

curta

Corro, como sempre, à procura de uma imagem, algo perfeito, como que um estado puro, a beleza imaculada, um estado virginal porque não conhece e não concebe o erro ou a falta. Tropeço sempre, todavia, nos cacos do invólucro onde se guardou a inocência.

Quando se parte um caminho,

Quando se parte um caminho,
Uma estrada a meio feita,
Apesar de a mantermos
Resvala para mero trilho,
Uma passagem que se perde.

E abre-se um fenda
Que se vai enchendo
Como se fora um rio...
E por mais ponde que haja,
Travessias que se façam...

Caminho que já foi partido
Faz-se força maior
Coisa que vale por si
Não pelos portos que une,
Mas aquilo que separa.

Até ao momento, tempo
Em que haja a força
Que tudo vela
E afirma o mundo
E todos os caminhos voltarão

A ser caminhos com vida.

Poema com fim

Pensei que podia
Estar aí,
A teu lado,
Contigo...

Surpresa!
A casa não existe,
O mundo cessou,
Não há mais tempo...

Já não há com
Nem sequer e.
Nada há,
Nada fica.

Sem luz,
Sem espaço,
Sem razão...
Só resta a luta?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Primeira impressão


Aumentada a tela, temos uma mulher deitada num sofá num esboço alargado.

Pelo eterno retorno

E cola-se-me à alma
Este andar desolado
De querer esse outro tempo
Onde cheguei chorando.

Poema

Tenho este vício de sofrer,
Males meus e venturas alheias,
Como se na alma tivesse nascido
Um coto que chora a vida inteira.
E o mal que padeço
Não é dor mesquinha,
Nem coisa do mero afecto,
É tristeza de um mar maior
Que partiu assim que cheguei.

Temo que por vezes o vislumbro
Ou sinto, até, a sua ideia,
Mas passa, e desaparece.
E é a forma perfeita,
O modo completo
O inteiro num todo.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

mais uma frase

Quando olhas o mundo e não te afastas do teu umbigo, ...volta para ti, ainda não estás pronto para ser.

frases

O pobreza de espírito está apenas ao alcance dos fracos, pois estes contentam-se com o que lhes dão e não ambicionam mais.

Para quem faz exames de reflexão

Cada um vai desenvolvendo e apurando o seu próprio estilo.

O drama surge quando um dia se descobre que o estilo desenvolvido, aquele que se reflecte no mundo é aquele que se desgosta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Frases para quê?

E havia uma qualquer algo que destoava de tudo o mais que era sublimemente belo. Um qualquer algo….

Havia que me enormemente me apaixonar para que esse qualquer algo se transformasse no mais maravilhosamente belo detalhe que ela tinha… 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Amor...

Vou-te confessar o meu amor,
Sim, por ti, meu amor!
Vou-te cobrir de palavras,
Sentidas que guardo.
Vou-te encher de sentidos,
que para ti guardo.
Vou-te dar o Paraíso
Para nós criado.
Vou fazer-me teu,
Sempre e para sempre.
Vou-te confessar, amor,
Que mais que tudo, tu!

Ouve, amor, ouve..
Vou-te confessar!
Amor...
Onde estás?

Perdi-te, algures,
No fundo da minha alma,
Deste meu sentir....
Ouve, amor,
Encontra-me...
Perdi-me...
Também de ti...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A todos os amores

Quando o tempo te levou
Daquele outro mundo,
De calor e conforto..
Fui deixando correr
Outro tempo
E outro modo...
Mas ficou sempre
E para sempre
Esse sabor do sal
Da última lágrima.
A saudade do impossível,
Na memória eterna
Na última lágrima

Guardo o sal
Da última lágrima


Melhorando


Sobretudo a técnica.

Um teste


Achei graça à ideia. Pode ser muito melhorado

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

domingo, 3 de janeiro de 2016

Ano Novo

O tempo é cíclico e, como tal, lá voltamos ao tempo primeiro. Estar nesse tempo é a oportunidade de recomeçar, de nos reinventar-mos e de, numa impressão mais esotérica, de voltarmos a nascer.
Esta inocência, como é de ver, é fugaz e durará o tempo que a nossa capacidade interior tiver de nos agarrar-mos à vontade de sermos melhores e de ambicionar-mos um futuro melhor. Mas, e é isto que faz a diferença, estarmos, ser parte desse mundo melhor. Quanto tempo durará essa vontade?

Cada um sabe de si.