terça-feira, 17 de novembro de 2015

Lendo 124

Não chamais religião ao pacto que liga o homem ao seu criador e que o obriga a testemunhar-lhe, mediante um culto, o seu reconhecimento pela existência recebida das mãos de tão sublime autor."
Marques de Sade, in Filosofia na alcova, Antigona, Lisboa 2000, pág 29.

Sade, o responsável pelo dito Sadismo, arte inicialmente focada em grandes desvairos no leito, ou fora dele, mas envolvendo sempre matérias do mesmo, era muito hábil na descrição desses desvairos mas um pouco ousado, para não dizer mais em matérias sejam filosóficas, sejam teológicas.

Gosto da ideia da religião ser um pacto, um acordo mediante um culto, entre o criador e o ser criado. Mas, e aqui é que a porca toda torce o rabo e toda ela mesmo, é que o criador pertence a um plano, a uma natureza, a uma capacidade de ser que jamais em tempo e modo alguns se pode assemelhar ao criado. E esta diferença crucial, abissal mesmo, faz com que a frase dita por Sade seja uma divertida brincadeira e tão somente isso. A ideia de pacto é, necessariamente, uma combinação entre as partes, ora como pode assim ser se uma delas se deve integralmente à primeira. A não ser que seja um acordo da primeira com ela mesma para que a segunda produza um culto a fim de o encontrar e o reconhecer. Caminho tortuoso mas curioso.

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