quinta-feira, 30 de abril de 2015

Em reunião


Fui até ao Baleal


E parei à porta de casa.

Um quarto


Na rua


Lendo 102

"- Vocês nunca viram uma aldeia queimada...
Jorge protesta.
- Foi o que andaste a fazer, lá na tua guerra.
Diz sempre a "tua guerra" com um claro desprezo que inevitavelmente o magoa.
- Cala a boca! Sabes lá o que é uma aldeia a arder - diz Pierre, muito sério. Aprendeu isso na Argélia."
Álvaro Guerra, in O Disfarce, Prelo Editora, Lisboa 1969, pág 49

Quando o que fala fora da realidade, fora dos acontecimentos com duas mensagens:
1 - O desconforto e medo da sua ausência nessa realidade.
2 - O desprezo para se colocar num plano de qualquer superioridade.
Geralmente nunca se safa de dizer a sua ignorância. Os exemplos sucedem-se em milhares de outras pequenas coisas onde nunca estiveram, nunca fizeram, nunca sofreram, nunca viveram mas, de todas, falam sempre de um cátedra...

lendo 101

"Agora, encolhida no canto mais longe da luz, estava Safi, Safi falsamente inexpugnável, com o seu olhar feroz de bicho acossado, longe, longe. Tão longe que ele suspeitou jamais pudesse lá chegar."
Álvaro Guerra, in O Disfarce, Prelo Editora, Lisboa 1969, pág 29

Quando, nas relações interpessoais, sem motivo aparente, acontece este olhar nunca consigo entender se essa distância é do interlocutor ou da realidade. Trata-se, sem a mais pequena dúvida, de uma encenação preparada para repelir uma ideia de ameaça, seja ela sentida, prevista ou imaginada.

Lendo 100

"A memória: (...) [ir] até ao paraíso das coisas bonitas e boas que nunca aconteceram senão ao estar longe delas, na névoa do tempo, ser em oposição a estar (...)
Álvaro Guerra, in O Disfarce, Prelo Editora, Lisboa 1969, pág 28

O efeito desta memória que vive no afecto, onde a distância do tempo apaga, chegando a valorizar o que pouco ou nada vale em coisas que passam a ser o sentido de um passado que aconteceu de modo diverso, mas que desse modo explicado ganha um sentido de mito fundador. Ah, o homem, essa capacidade única de surpreender o futuro pelo passado sempre revisitado.

Lendo 099

"(...) e ele,ele diz ao que vai mas, na verdade, só sabe de onde vem e que procura aquilo que o faz apostar na vida, conhecendo-se como um ser solidário que ri e chora e come e sofre e tem prazer em conjunto, após o que e durante o que continua realmente sozinho mesmo acreditando no ideal de nunca estar sozinho - um ideal, não uma realidade ou sequer a verdade."

Álvaro Guerra, in O Disfarce, Prelo Editora, Lisboa 1969, pág 26

A redução última e inevitável. Nós somos apenas e somente completamente sós. Somos a última e única unidade. Nada do que está fora de mim pode ser o que quer que seja, apenas o Criador pode ser. Tudo o mais são adesões fideístas da nossa circunstância.

Lendo 098

"(...) se o tempo não é nada, se quando digo agora o agora já passou, se daqui a pouco já tudo passou? Se te digo isto, se estou a abraçar-te, sem pensar o que és e como és - diferentes do que fomos juntos, de bibes feitos da mesma peça de riscado - é porque tu e eu, os homens, andamos desesperadamente à procura do coração do mundo dentro do nosso coração."
Álvaro Guerra, in O Disfarce, Prelo Editora, Lisboa 1969, pág 21

Este trecho, complexo e vibrante, reflecte uma ideia de tempo único e irrepetível, apenas possível em acto reflexivo e futurizante pelo amor, fim último do homem.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Em baixa produção

Num mês inteiro apenas 6 insuficientes desenhos.....

Que tristeza!

De volta ao autocarro


À minha frente, no café


à pressa a mãe com a criança ao colo


Enquanto tomo café


Em reuniões



A impressão

A impressão é tão rápida e instantânea que qualquer reflexo dela é uma dedução enquadrada na estrutura do sujeito que a recolhe. Deixa de ser impressão e passa a reflexão. A impressão é imediata. O importante é entender porque é que se fixou a impressão e como é que esta se fez.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Mas que eu sou eu?

Mas que eu sou eu?
Aquele que tu gostas
Sincera e amiga
Na tua doce tranquilidade...

Ou perturbante e incómodo
Que te pergunta
Vezes sem conta
O que não respondes.

Ou o de olhar atento
Que vê mais que queres
E cala sem falar
Aquilo que diz no olhar.

Ou outro até,
Que sabe e não fala
Percebe e não diz
Que entende e cala...

Se soubesses
Aquilo que eu sou
Rias-te a bom rir
Daquilo que não sou!


domingo, 26 de abril de 2015

meditando

Arrepia-me a vulgaridade de quem, perante uma questão, escolhe sempre o caminho mais curto. Não há futuro que se faça por atalhos ou corta-mato. Pois que se assim for é o próprio futuro que fica atamancado.

Cansa Abril

Cansado de um Abril morto
Cujos cântigos se repetem
Para que ninguém veja
Que já tudo partiu

A frescura petrificou
Numa frase vazia
Gritada à exaustão
Na crença da sua ressurreição.

Foram portas que fecharam
As janelas do pensamento.
Um porque tem que ser
Quando já ninguém tem esse ser.

E repete-se o ritual
Como se fosse uma missa
Temos até a homilia
E a  hóstia num cravo.

E a ambição de eternidade.
O tal que é sempre...
Perdeu o carácter redentor,
E a liberdade interior.

Em rebanho repetem-se
Fazendo-se ser coisa,
Razão e significado,
Em algo já banalizado.

Cansa Abril repetido
Cansa Abril vazio
Cansa Abril desgastado
Cansa Abril petrificado.









sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lendo 097

“É que sempre detestei e espero detestar dogmatismos. Nada! O Magister dixit não me serve..” 
Tomaz de Figueiredo in Pedra d'Armas, OperaOminia, Lisboa 2014, pág. 108

Não sei se é apenas a tardia e imortal rebeldia que sobrevive na minha alma, ou se é um espírito crítico sobre o mundo. O certo, seguramente, é que o magistério é sempre de alguém e, como tal, não é alheio a erros.
Eu cá me entendo com os meus, os outros que se entendam com os deles e, por higiene, não me obriguem a tomá-los meus!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Apenas sei

turvou.....

E não ficou azul

Da poesia

Eu cá vos digo
Que isto da poesia
É coisa de calão
Que num instante
Pensa que faz do dito
Um figurão!

E, manhoso,
Faz-se com sentido
Dessa coisa doente
Que diz ser a alma
Que é que sofre
E, assim, a sente...

Não passa de pedinte
Que chora suas chagas
Diz que muito sofre
Amor, alma e inferno
E mais assim de chofre.

Não fala da sua alma,
A que chora de um Amor
Não de si, nem de ninguém
Apenas do que é ser
Ontem num amanhã.

Mais um?

Quanta desolação cabe,
Fruto de mera impressão,
Dentro daquilo que pode ser
A palma do meu coração...

Não por mera ilusão
Que pudesse haver coisa
Igual ou semelhante ao amor
Que homem tem por mulher,

Mas porque, afinal,
Ninguém pode ser
Coisa nenhuma do devir,
Apenas ocupando espaço.

Sentido tem que ter
Esta pequena coisa de viver,
E havendo mundo e coisa
Também outro é certo haver.

Não me calha o nada,
Nem a impressão de vazio,
Apenas a desolação
Do tempo assim perdido.

Rosa florida

Houve um quando
Em que admitias
Que eras apenas
Para quem escrevia

Um alfa e ómega,
Espaço de tudo
Que desse modo
Era retorno de nada.

O quando assim
Foi-o apenas de ti
Que assim te lias
Naquilo que escrevia.

E a terra treme
A letra é do mundo
O sentido é da alma
Que nele se entende.

E no desassossego
De se ser reflectida
Nessa lera descrita
Recolhe-se aos espinhos.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Dúvidas

Ler com ardor ou com ar de dor?

Aos lábios

Olho aquela boca
Absolutamente amável...
E perco-me nos lábios
Carnudos,
Grandes,
Reluzentes,
E todos mimáveis...
Cresce um vontade
Louca por ousar
E provar o paladar
Sem culpa nem amanhã
Apenas o calor
O tremor do toque
Apenas a eternidade do instante
Em que de dois se faz um,
Fundido...
Completo...
Inteiro.
Sem mais nada...
Apenas unidade perdida,
Arrebatada à razão
Com sofreguidão...
Possuída a boca
Comidos os lábios
Saciada o desejo
Nasce o sonho
E a memória eterna
Do beijo desesperado
Porque desejado e não dado,
Apenas nos lábios queimado
E a seco engolido.

Que alguém os beije
Já que foram pecados!


domingo, 19 de abril de 2015

Lendo 096

"Ah os provincianos! Que vontade de rir da sua pitoresca jactância, da convicção em que vivem de que toda a sabença humana se lhes abriga no crânio! De que são criteriosos... O provinciano é perdidinho pela palavra "critério". A vontade de rir da sua convicção de infalibilidade, das visagens ofendidas que fazem à mais leve discordância, dos berros e patadas que empregam por argumentos.
(...)
Perigosíssimo, o provinciano, pela inversão de valores que a sua influência provoca. E combatê-lo não é com argumentos, que o argumento embate nele como bugalho contra saco de areia. Combatê-lo é com chufa. O provinciano - pum!"
 Tomaz de Figueiredo in Pedra d'Armas, OperaOminia, Lisboa 2014, pág. 27

Ao longo do tempo que nesta terra caminho já tropecei tantas vezes neste tipo de pessoa que chego a pensar que nalgum momento, eu mesmo, já fui um deles! O excesso leva-nos a isso. Mas, por ora, e por higiene mental, tomemos os provincianos pelos outros! É mais divertido rir do alheio.

Lendo 095

"Aqui por isso declaro que grande receio me assalta de muitos possíveis aspirantes a serem da "elite", ou que da "elite" julgam já ser, vendo o exemplo dos marçanos que subiram a merceeiros e ainda contam ser banqueiros, que logo desataram a tratar a bofetão os marçanos que os servem: implacáveis com os que supõem inferiores, rancorosos mas untuosos para os que ainda acima, deslocando a "bandeirola" de classe conforme vão subindo, muito democratas-aristocratas, e a exigirem o tratamento de Dom para a consorte ex-barbuda, depilada a primor e com torturas no Instituto de Beleza."
Tomaz de Figueiredo in Pedra d'Armas, OperaOminia, Lisboa 2014, pág. 29 e 30

Este livro de Tomaz de Figueredo é composto por mais de 50 pequenos textos que abordam as mais diferentes temáticas. A arte da escrita e o conteúdo são um deleite. Lembra-me quando, na primeira parte da minha vida, me deixava fascinado a pena e o humor de Miguel Esteves Cardoso. Acontece que hoje tenho dificuldade em o acompanhar e, descubro, em sua substituição, este simpático volume.
O engano da valia individual, quando exacerbada, leva, inevitavelmente, ao ridículo. E o ridículo presta-se ao melhor humor. É uma grande maldade, mas como vem como consequência de outra que a provoca, pode ser tida como atenuada.

sábado, 18 de abril de 2015

Premonições

Vou ali à política
E vejo futebol,
Espero na publicidade
E sai-me uma novela.
Vivo na globalização
Onde tudo o que importa
É um canal de televisão
Que se repete à náusea.

Um dia, dos céus virá
Um anjo redentor
E com um dedo apenas
Desligará o interruptor!

Ser-se dinâmico

A um tempo o mundo
Era a minha casa,
Onde de janelas abertas
Via tudo o que passava.

Distraído, passou esse tempo
E nessa casa fiquei
Mas as janelas morreram
E nelas me fechei.

Não há coisa entre-média
Entre ser e estar
Ou se cumpre a vontade
De se ser e criar

Ou ficamos reduzidos
A um triste declinar
De um futuro desejado
À espera por se ousar.


Lendo 094

"Assim, o homem conhece com todo o seu ser. Não há pensamento sem imagens senão em Deus." António Telmo in Horóscopo de Portugal, Guimarães Editores, 1997, Lisboa, pág 170.

Não será este o absoluto drama dos que se dizem ateus ou os que acham que Deus se deve questionar como se fosse um colega de escola? Quando pensamos partimos sempre da nossa realidade e só depois seguimos para raciocínios abstractos. Ora, para se pensar Deus, ou estar em Deus é absolutamente o inverso, ou seja, do abstracto, do que diz tudo se desce ao concreto onde, então as coisas ganham sentido. E apenas nesta dinâmica invertida, de se reduzir o nosso pensar a uma mera funcionalidade e não à explicação do mundo.

Quando Santo Anselmo diz "Vou pensar na maior coisa que se possa pensar, da qual nada possa ser maior, nada lhe possa faltar, então inevitavelmente essa coisa tem que existir e essa coisa é Deus." Ele sai de si e vai até à coisa em si. Descartes estraga tudo quando diz "Como sou eu que penso, logo tenho que existir!" E assim de um pensamento metafísico se chega a uma antropologia. E aqui se dá o pontapé de saída de um racionalismo que vai destruir o homem, pois que lhe tira a sua essência, a saber, a de ser um ser criado.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Da razão

Algures num tempo
Perdeu-se um encanto
De Deusa, ninfa
E mulher encantada

Arrastas agora um corpo
Entre tantos outros
Que a passo caminha
Para o ausente fim.

Já não volta a nascente
Nem ao Sol poente
Tombou apenas pesada
Nesse chão salgado.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Consciência

Percebi hoje que transporto uma fera dentro de mim, um animal irracional e absolutamente emocional. Problema essencial: fazer conviver o bem com o mal. E pior integrar todas as danos que essa parte vai corroendo a minha, cada vez mais limitada, sobrevivência.

Drama a acompanhar e, se possível, ir emendando a besta.

Lendo 093

"Kant fez o inverso de Copérnico. (...) Com Kant, deu-se o mais realizado antropocentrismo. O Universo passou a girar à volta da terra e do homem, passou a ser definitivamente determinado pelas formas da sua sensibilidade e pelas categorias do seu entendimento." António Telmo in Horóscopo de Portugal, Guimarães Editores, Lisboa 1997, pág. 165

Já há muito tempo que tinha a mesma dedução sobre o pensamento de Kant e a sua apropriação deita pelo homem. Vou, contudo, um pouco mais longe e entendo que é de Descartes que tudo começa a falhar. O homem passou a entender o mundo a partir da "sua" razão e não da razão. Com o cogito ergo sum, a evidencia do homem pela sua capacidade de pensar, fá-lo dispensar de mais qualquer outra entidade para ser, passou a bastar-se a si mesmo. Kant acrescenta que as coisas só podem ser dentro de nós.

Segue daqui que o disparate racional levou o homem a perder-se em si mesmo, a se auto-legitimar e
a se auto-satisfazer. Este caminho da monumental soberba onde o homem deixa de ser parte, mas é a razão do todo e tudo está à sua mão. A consequência disso é, inevitavelmente a falência do homem enquanto ser moral. Se ele se basta, não há nenhum plano axiológico que lhe valha que não seja o dele, já não homem, mas individuo. E daqui ao caos é um passo.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Qualquer coisa

Olhou-se fixamente e depois despiu-se.

Dizia de si para si, é só tamanho, e, de facto, o seu corpo tinha formas generosas!

domingo, 12 de abril de 2015

Indo para o essencial


"No meyo do arco, que fica sobre a porta, se alsa o escudo das Armas de Portugal, que sendo de huma pedra inteiriça se partiu de alto a baixo, na forma em que hoje se vê, quando em África morreo o Senhor Rey D. Sebastião, cerimónia que se costuma fazer quebrarem-se os escudos quando falecem os Reys. Esta perda foi tão lamentavel que até as pedras mylagrosamente a sentirão, e não tem menos estimação nem é menos miraculosa que aquela pedra que se guarda em Morella, antiga villa no Reino de Valença, que se partiu pelo meyo Sexta feyra Sancta, quando se tratava do geral terramoto que sucedeu do autor da vida, quebrando-se as pedras; esta se quebrou com grande estrondo e assim se conserva também por memoria deste prodigio."
 Da Crónica do Maximo Doutor e Princípe dos Patriarchas São Jerónimo e dedicada a D. João V por Frei Manuel Batista de Castro.


"Há, no Mosteiro de Santa Maria dos Reis Magos, por cima do portal voltado ao Ocidente, a expressão simbólica deste efeito. Nas armas de Portugal ali fixadas, o escudo está cortado pela linha do meio. Dizem as crónicas antigas que, no momento em que o Senhor Dom Sebastião desaparece em Alcácer-Quibir, se ouviu em Belém um grande estrondo. Viu-se então que o escudo se abrira pelo meio, por cima dele e do elmo, também estoirado, o grifo continuava, como continua, "com olhar esfíngico e fatal, o Ocidente, futuro do passado". Desde esse dia até hoje, apesar das sucessivas remodelações feitas nos Jerónimos, o escudo tem permanecido quebrado.
Assim o símbolo nos diz que, na hora em que a fractura desaparecer, os Portugueses, agora divididos, compreenderam finalmente que tudo foi a viagem do mesmo pelo céu ou pelo inferno significados no horóscopo."  António Telmo, in Horóscopo de Portugal, Guimarães Editores, Lisboa 1997, pág 22 e 23.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Lendo 092

"A ideia do tempo rectilíneo e uniforme é uma impossibilidade metafísica; implicaria que, em cada momento, fosse absolutamente outro, isto é, deixasse de ser; entre os momentos que o constituem não haveria qualquer relação e a existência de cada um deles só poderia explicar-se como o resultado de um fiat por um agente exterior ao próprio tempo.” António Telmo, Horóscopo de Portugal, Guimarães Editores, Lisboa, 1997, pág. 63

Nota: Fiat = consentimento para que algo tenha efeito

Nunca aceitei a ideia rectilínea do tempo. O tempo é absolutamente curvo e circular. Refaz-se em ciclos. Tudo volta onde já esteve e renova-se nesse momento eterno. Admito que o tempo seja espiral, seja em movimento expansivo, seja em movimento recessivo. 

Despropósito

"Se houvera ter nascido mulher nem sei como seria pois que me é essencial ir à caça"

quarta-feira, 8 de abril de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

Fui roubado

Fui roubado
De mim e de tudo.
Do que sou
E, sobretudo, do que me fez.
Fui desastrado...
Não segurei o desamor,
A insensibilidade
E o despudor.
Apenas segurei a tristeza...
A desolação
E a mágoa.

Sem futuro,
Vazio ao lado,
Recolhi a mágoa,
E até o passado.
Sou mendigo de afecto...
Aceito tudo
Sou indigno de mim...
Preciso de amor
Uma lágrima que seja.
E retorno
Sem orgulho e cabisbaixo
De volta que torna...

Os amanhãs ditam o hoje
Sementes que recriam
A essência de Deus
Amor
Paz
E justiça.

Desse café

Passa uma mulher que me olha.
O que será que vê?
Qual de mim?

Acho que nem ela sabe. Tudo é apenas uma imagem.
Deve ter sido o do espelho.

Hoje

No café do costume, à hora do costume, com o café do costume e tentando desfazer os nós da alma. Não, não são os do costume. São esses travestidos de outros.

Dilemas mil e outras tantas proto-decisões que se quedam por tomar porque pesadas as circunstâncias.

Se queres ir

Se queres ir,
Porque é que ficas?
Ou apenas queres
Não estar?

Anjo

Espero por um anjo
Que, com asa aberta,
Me acolha,
Que expurgue
O infame de mim
E me devolva.
Toda a inocência
E me descanse enfim....

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Aforismo ousado

Se o caminho rápido para se ir de A a B é uma linha recta, porque raio se inventaram as curvas? Para haver mulheres!

Perder

Perdera o paladar do beijo apaixonado. O sabor do beijo que nos faz perder tempo sem fim a boca, e a deixar-se abraçar e ser-se conhecida em todo o seu corpo. Perdera esse sentido de entrega, de olhos fechados para melhor sentir a amplitude do prazer e, aqui e ali, experimentar, também percorrer o corpo que também abraçava.
Deixara de se perder e guiar-se pelo puro prazer da entrega à satisfação desse prazer. Tudo estava agora mais distante, quase ao ponto de ser encenado.
Os limites foram estabelecidos e todos os conhecimentos balizados. Nada mais havia a descobrir, tudo estava, portanto, experimentado.
Ao mesmo tempo que perdera esse prazer sensorial, esse gosto de se sentir completamente abandonada às descargas eléctricas de cada movimento, de cada toque, de cada aproximação, ganhara, no entanto, um outro tipo de prazer, mais cerebral. Predispunha-se a ser um sistema eléctrico num estado de erro generalizado e uma rede de frenesim instalava-se. Com a devida concentração tudo resultava.
Perdera, no fundo, o gosto de ter um outro.
Aprendera a bastar-se.
O mundo, no entanto, ficava mais estreito, menos doce e sem eco.

domingo, 5 de abril de 2015

Amante egoísta

Amava.
Bastava ser mulher, ter as formas de mulher e ser como uma mulher para que imediatamente se dispusesse a amá-la.
Queria-as todas. Não como um harém onde se somam mulheres como coisas. Queria o afecto delas, queria a sua intimidade e a proximidade. Queria sentir o seu cheiro, a doçura da sua pele, a suavidade dos seus corpos e conhecer todos aquele labirinto de curvas que são os maravilhosos corpos das mulheres com quem diariamente se cruza.
Era como se fosse uma criança, queria-as como se fossem um brinquedo novo. Conhecer, tocar, provar, sentir o gosto e o sabor... tudo absolutamente sensorial. Dispunha-se a, de quando em vez, estabelecer um vago diálogo e entender, até, a razão de serem do maravilhoso modo como eram e se apresentavam.
Havia, contudo, um pequeno grupo de mulheres, mais restrito que lhe estavam mais próximas. Podia, até, ser menos caprichoso, mais tolerante e até compreensivo. Nelas descobria ainda mais beleza, mais encanto, mais brilho.
E continuava, dia após dia, mesmo desejando todas e algumas mais que outras, a ter apenas aquela que era a sua mulher.
Era, no fundo, um grande egoísta. Amava apenas para sentir o gosto de ter gosto em amar.

sábado, 4 de abril de 2015

E se....

Não estivesses aqui,
Ao meu lado,
Junto a mim,
Pertinho...

Se amar-te fosse assim,
Ter-te longe,
A milhas de mim,
Distante...

Como seria eu,
Pequeno de  mim,
Desolado sem ti,
Apenas assim...

Uma grande lágrima
Seria o meu tamanho,
Uma profunda saudade
A minha cruz...

E haverá momento
Que apague este agora,
Que me solte de mim
Para estar junto a ti?

A morte não separa
A distancia do lugar,
Apenas a do tempo,
Que se apaga nele mesmo.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel de Oliveira

Que dizer de alguém que deixa a vida com 106 anos?

A morte cessa indubitavelmente qualquer relação bidireccional e remete a relação apenas para um único sentido, o nosso, sobre a compreensão e o entendimento daquilo que o outro nos deixa.
O me conhecimento de Manoel de Oliveira vem do seu legado e das poucas vezes que tinha a oportunidade de acompanhar uma qualquer intervenção num meio de comunicação social. Assim, e de acordo com o disse em cima, a minha relação foi sempre de um único sentido. Acontece, todavia, que o facto de ele se manter vivo dava a possibilidade de me surpreender. Agora apenas me posso surpreender com o entendimento que venha a fazer da sua obra.

Disse algo sobre a inevitabilidade da morte? E desta ter ocorrido aos 106 anos? Liberta-nos da lapidar frase "Que pena..." A contingência da vida dele foi luminosa. Quem diria que faria mister da sua vida essa luz numa tela?

quarta-feira, 1 de abril de 2015

De volta à terra

Vim à terra,
Naturezas pascais.
Mas vim à terra
Em demanda de algo.

Não a terra telúrica
Do eterno ciclo
De sementeiras e colheitas
De saudades de um chão.

Vim à outra terra
A de um afecto perdido
Um amor roubado
Um paraíso desistido.

E baixo as minhas mãos
Tento sentir o pulsar
Dessa terra permanente
Que não morre nunca.

O nada que fica
Do tanto que fazemos
Vale-se nestes momentos
Em que assim nos chamamos.