terça-feira, 31 de março de 2015

Tempo

Quando se está de férias o organismo reduz o seu estado de alerta e, tal como os ursos, entram numa espécie de hibernação onde o tempo dos relógios passa a uma velocidade estonteante. O facto de não se ter de estar em lado algum, de não haver nenhuma tarefa com horário de, a rigor, não haver nada mais que a vontade, produz uma calma extraordinária.

Qual caracol cá vou andando.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Vim dobrar o tempo

Da tantas curvas do tempo
Chego hoje a uma esquina.
Coisa que se contorna
E se continua caminho.

É como um marco,
Geodésico ou geográfico,
Um ponto fixo de medida,
Tal como esta esquina.

Assim me sinto, então
Um marco de tempo
Geograficamente disposto
No centro do meu mundo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Aforismo

Quem concorre, corre com... no entanto contra.

E tivemos...

E tivemos...
Nem sei bem se um nós,
Ou apenas uma coisa,
Uma intenção com dois lados
Que se desconheciam.

E passou uma vida,
Quase inteira,
Tempos de nascimentos
Assim como de mortos.

E permaneceram os dois lados
Que agora se conhecem
E que têm muita coisa
Que não sendo um nós
É um passado.

É uma história
Que é nossa
E de cada um
Sobretudo de cada um.

dedução

Haverá pena que complete e corrija o que aqui fica escrito?

É como meia verdade, meio sentido, meia frase, meio entendimento... Mas também, nunca dizemos o que queremos.

Um aforismo de final de dia

A impressão é tão rápida e instantânea que qualquer reflexão dela é uma dedução do que ela impressionou e não a impressão apercebida.

domingo, 15 de março de 2015

" O que te faz andar por aqui, entre os vivos?"

" O que te faz andar por aqui, entre os vivos?" A maior parte acha que faz parte da sua natureza estar vivo, pelo que nada mais fará que não seja essa cruel e fastidiosa obrigação de se manter vivo. Lá comerá, beberá, fará aqui e ali um estrago maior ou menor, cumprirá o seu dever de reprodução e depois aguardará pacientemente o dia em que fechar os olhos.

Não sei se é espanto o que sinto pelos demais se é inveja. Quem me dera viver 11 meses como um perfeito ignorante, vendo copiosamente novelas e futeboladas, ouvindo as músicas todas que a industria musical me obriga, vendo o cinema americano de quinta categoria,mas suficientemente anestesiante, perder parte considerável do meu dia em intermináveis filas de transportes públicos, para ter poupado os euros suficientes para ter uns dias de lagarto numa qualquer estância a comer, beber, e esquecer-me que existo.

Morra-me o frenesim que tenho dentro de mim e ficarei lobotomizado como o restante rebanho que abana seus chocalhos na ida e vinda ao pasto.

Ahhhh, e a mim? Um enorme ambição de futuro. Tudo tem que ter sentido, querer conhecer esse sentido, estar lá! Ver! Ser o que for necessário, o que consiga ser, a areia, o pó, o nada que é futuro. E com isso levo o maior passado que possa às minhas costas, pois que eu mesmo serei passado de alguém que se quererá futurizar. Parar é morrer.

sábado, 14 de março de 2015

Ser quadrado

Hoje, enquanto fazia a minha reflexão crítica desta coisa de estar vivo e fazer questão de ser eu no mundo, relembrei um filme que vi no youtube sobre melancias. O tema resume-se ao facto de ter havido um personagem que exportava o dito fruto e encontrava na normal e natural maneira de ser desse alimento um tremendo incómodo, e até prejuízo estimável por via da sua forma de bola. E, como ser pensante ( tal como o disse António Gedeão o mundo pula e avança sempre que o homem sonha) engendrou um modo de formatar as melancias em quadrados. Passaram a caber em magníficas caixas de cartão que se conseguem sobrepor, colocar até em paletes e armazenar maravilhosamente reduzindo a quase nada o ar entre cada fruto. Maravilhado com a potencialidade resolveu comemorar o feito comendo uma fatia da razão do seu sucesso. Intragável. Não funcionou como alimento, apenas serve como objecto decorativo.

Onde é que esta história nos leva? A lado nenhum que não seja dentro de cada um de nós. Cada vez que nos pretendem formatar, quadrar, automatizar, vamos perder a nossa autenticidade, a nossa realidade e a nossa essência. E nesse movimento perdemos o nosso sabor, a nossa qualidade, a nossa mais valia.

Olhem agora para as pessoas que estão à vossa volta. Quantos já estão quadrados? Têm algum sabor? Têm alguma graça? Chegam a ser pessoas?

sexta-feira, 13 de março de 2015

A fuga

Até que ponto pode a minha opinião, o mundo em que acredito, as razões que são as minhas razões serem suficientes para agir?

Para ficar quietos há sempre um ror de razões, motivos e até ponderações que nos fixam a acção à inacção. Mas de todas elas a que mais vezes se esconde é o afecto. O medo de deixar de ser amado. Se nada fizer, nada muda. Se nada muda, amanhã é igual a hoje. Isso seria verdade não fora o caso do eu de amanhã ser um nadinha menor que o eu de hoje. E por força de tanto fugir, a singular ideia de acção já é um ultrage à sua liberdade individual, a qual, curiosamente se funda no singular facto de deixar livremente de ser livre.
Focado nesse medo de aceitação passo a ser livre apenas em surdina, na conversa de café, na pequena quadrilhice que se torna absolutamente irrelevante e apenas serve para perder o tempo que se tinha para falar do que é verdadeiramente importante, a saber, o afecto.

E depois há sempre amanhã e milhares de pequenos que nadas que serão usados e expostos como troféus de uma coragem, de uma posição, de uma atitude que se resume apenas a não a ter.

Auto-retrato


Tinta permanente sobre papel.

Em trânsito 720



Mais tinta permanente sobre papel

Na paragem


De autocarro

Esboços e inacabados



Esta coisa de desenhar no autocarro nem sempre dá o traço desejável...

quinta-feira, 12 de março de 2015

Da noite

Perante uma súbita saudade de afecto, agarra-se numa imagem e, dentro de um bule de água quente, deita-mo-la lá.

Depois saboreamos o calor desse afecto dentro de nós.

terça-feira, 10 de março de 2015

Incompletos



Primeiro na paragem do autocarro, depois entre o Marquês de Pombal e o Saldanha...

Do autocarro


Uma rapariga que de manhã costuma apanhar o mesmo autocarro que eu. Sai no Marquês de Pombal. Eu fiquei com a imagem dela no meu caderno.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Quando se é nada

"Em Óbidos certos energúmenos dizem de ti o que Alá não diz do toucinho, e eu nunca por um segundo lhes dei crédito."

Passamos na vida e fazemos o nosso percurso. A uns deixamos boas memórias a outros o dito toucinho. E aqui abrimos necessariamente duas especialidades, a saber, se somos toucinho porque somos gordura, flácidos nas nossas opiniões, de nenhum valor ou, mais razoável, porque quem se nos opõe não sabe sair da temática telúrica dos enchidos, tachos e cozinhados.
Um apontamento religioso, no entanto me surpreende. A necessidade de buscar uma protecção superior para fazer cama ao ódio gratuito que me dedicaram. Temerá, no fundo, o toucinho do seu tacho?

Fadiga

Com a fadiga moral do fim de semana gasto em nadas fico com a impressão que algo tenho que fazer.
A única coisa que sou capaz de produzir é um longo suspiro.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Pormenor da sala


Desenhos a ver TV




O Pão da avó


Um pão com pedegree ou com genealogia

E há outros


Que vão ficando assim

Munhecos


À espera e passeando a fifi que foi fazer pupu e pipi à rua

Mais desenhos




A meio caminho da chamada banda desenhada

Desenhos


Algo que não chegou a ser acabado, mas seguramente mais uma companhia de viagem no autocarro

terça-feira, 3 de março de 2015

A um tempo

Desejei-te minha
E retive-te toda,
De alto a baixo,
Integral.

Depois, aos poucos,
Despi-te de ti,
Peça a peça,
E tive-te nua.

E então tocámo-nos,
Como no tempo primeiro,
Um no outro,
E fomos nós no mundo.

Quando se perde o sonho

Num sonho que se esfuma
Há uma vontade que cessa de ser.
E o que era absoluto devir
Suspende-se num tempo agora finito.

Deixa, pois, de haver criação
Nem sequer coisa a futurizar.
Tudo fica apenas plano
A uma única dimensão.

Apenas tic-tac..
Hábito...
Previsão...
Repetição...

Anulação.


segunda-feira, 2 de março de 2015

Curta

Dizia ela, a contragosto:
- Porque é que me escolheste?
- Não te é evidente?
- Como assim?
- Tu não te amas?
- Sim, claro!
- Então, como perguntas porque é que te escolhi?