sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O que gostava de ter dito

"Boa tarde

Antes de mais nada gostava de agradecer à Professora Maria de Lurdes Sirgado Ganho que fará a apresentação do livro, ao Dr. José Alberto Ribeiro, directo do Palácio Nacional da Ajuda e à muito querida amiga Dra. Cristina Pinto Basto responsável pela Biblioteca onde nos encontramos e a todos os amigos que se deram ao trabalho e incómodo de aqui estarem.

Em certas cerimónias começamos por evocar os Deuses e os Heróis para que as suas boas estrelas nos acompanhem no que nos propomos levar a efeito. Evoquemos então a nossa Portugalidade que nos oferece a possibilidade de nos encontrarmos neste magnífico Palácio e na sua soberba Biblioteca. Quando falamos na Portugalidade e nos monumentos não o fazemos como se tivesse sido coisa de um tempopassado. É, sobretudo para sentirmos que esse tempo, esse saber, essa história e todos os seus tesouros que nos rodeiam são como fontes do nosso ser. E é nesse sentido de fonte que verte o seu saber que hoje aqui estamos também para apreciar as sábias palavras que a Professora Maria de Lurdes Sirgado Ganho nos trará sobre mais um conjuntos de inquietações, dúvidas e reflexões que deixei na forma de Poesia."

Mas não isto que disse. Saiu uma trapalhada que ficou uma embrulhada. Apesar de ter escrito isto, fui levado na minha mania de não ser elegante ler, por preferir a exposição livre. Asneira.


Ressaca

Depois da apresentação do livro "Reflexos" surge a inevitável ressaca.
Apesar de parecer apenas um acontecimento que passa durante uma meia hora, ou mesmo uma hora, o que se conclui na apresentação pública de um livro é uma longa caminhada.
Antes de mais nada há que o escrever. Pensar as coisas e organizá-las. Depois dizê-las para dentro de modo a que pela mão se formalizem em texto. E seguem assim um, dois, cinco, dez que se vão juntando como se fosse roupa suja à espera do dia da barrela.
Um dia, e de pois de várias insistências externas, surge a hipótese: " E porque não?" De facto passou tempo, as ideias amadureceram, os passos foram sendo mais seguros, a forma ganha mais importância, o estilo começa a pedir atenção e a dita hipótese cria raízes.
Os poemas ficam então pendurados, como se estivessem numa árvore ( há quem prefira a corda de estender, mas a ideia de árvore liga-me mais ao mundo natural do que ao criado pelo homem) e fazemos passar vento, muito vento e logo se verifica que há muitos que, tal como folhas secas vão logo para dentro, desaparecendo. Ficam menos, muito menos do que a que foi dito, pensado e escrito.
E é agora tempo de reler. Voltar a reler e ler mais uma vez. Há sempre arestas para limar, voltas a dar e aqui e ali coisas a dar ordem.
Nestes tempo a hipótese de há pouco é seriamente abalada, pois que chega a apetecer não edificar mais um compacto de papel.
Feita a escolha entramos na tarefa da paginação. Muito menos intelectual, mas ainda assim assaz demorada e carregada de inúmeros detalhes e coisas que tão facilmente nos escapam.
Vamos agora para a capa e o título. Ideia puxa ideia, e se for esta cor, e se juntar este boneco, e aquela outra imagem?
Há que pedir o ISBN e o nº de depósito legal.
E agora segue o primeiro contacto com a gráfica. Miolo do livro ( já deixou de ser poemas, passou a ser coisa!) entregue e aguarda-se a dimensão da lombada! Importante para amparar a capa.
Finalmente está tudo certo e siga para impressão! Ninguém deu por isso, mas já se passaram 3 meses!
Com o objecto na mão, é altura de dá-lo a quem o possa ler, ou seja fazer a pública apresentação do mesmo. Fazemos mais um compasso de espera e coordenamos agendas.
E pronto. Escrito, escolhido, arranjado, composto, impresso, publicado e apresentado!

Uma grande satisfação!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Lendo 092

11 livros que me ensinaram mais que a Faculdade.

Bom... das duas uma, ou a Faculdade era muito bera e o curso uma absoluta nulidade ( e houve tantos...) ou quem a disse foi incapaz de perceber o que andou a fazer na Faculdade. Qualquer uma das respostas é muito bera, tanto mais que na Faculdade li muito mais que 11 livros!

Há dias em que era preferível não ler títulos e ir mesmo para os livros.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Momentos


Recebi este gesto muito simpático de Miguel Real.
As palavras que me dirige são, de certo modo, mais uma razão para continuar a escrever, portanto Obrigado.

Escrita de folhetim

E, de repente, pegava no teu braço e com ele esticado fazia-te ires até ao ponto em que apenas poderias regressar a mim... enrolada..., então no meu braço tinha-te presa ao meu corpo e respiraríamos o mesmo ar. E quando olhasses para mim a perguntar o que se passava, nossas bocas selariam num beijo que abre os desejos de haver um amanhã que perdurasse num eterno instante. Então, solta dos teus passados entregar-te-ias a esse instante como se o amanhã tivesse sido há segundos.

Após este delírio rosado, o mudo pode ser o que fosse que, a rigor, estava-me completamente nas tintas.

Há dias assim

Peço um café curto, vem cheio. Peço um copo de água, vem curto. Peço um croquete, vem num prato de sopa…
Não sou eu que estou contra o mundo, nem o mundo contra mim, apenas a rapariga que me servir que está fora do mundo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Reflexos


Vai-se aproximando o dia em que vou dar público conhecimento da minha segunda entrada no universo da escrita poética. É um sentimento interessante. Aconselho vivamente a experiência a todos.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Dos medos

Há medos, horrores e terrores profundos que, numa tentativa de sublimação dos mesmos, alguns inventam versões das mesmas onde de agentes da sua vergonha interior passam a heróis expostos a torturas que os massacram para a vida. E depois vivem um dilema bipolar que é de terem de ser as duas versões em simultâneo. Ser o Bem e o Mal. Ser o Certo e o Errado... E nesse brutal conflito, morre também o sonho, pois que há coisas das quais são incapazes de se libertar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O meu e o teu

Se diverso é o meu do teu
Porque há-de ser o meu
Conforme ao teu?
Acolhe-te ao teu
E deixa o meu
Que é como qualquer outro eu.

brinde

Tás a olhar pa onde?
Pó paraíso
Pó paraíso????
Sim, para fora do mundo,
Fora da vida,
Fora do corpo...
Ah!!!!!
Levas-me contigo?


E lá foram,
Cada um para o seu paraíso

Já poupou hoje?

Nas costas da camiseta que ela tinha a obrigação de vestir lia-se a sugestiva frase de um perito em comunicação comercial:
"Já poupou hoje?"
Trata-se de um claro convite ao seu oposto, ou seja consumir na certeza de que o fará por menos custo que se o fizesse na loja da frente onde os preços são mais caros.
Mas o herói destas linhas é do género masculino e, por tal, antes de satisfazer a sua curiosidade na frase da camiseta leu todo o que se lhe era apresentado pela traseira da colaboradora, pelo que ao chegar à dita frase leu o seguinte:
"Já apalpou hoje?"
Melhor que no dia anterior, pois havia lido
"Já papou hoje?"

Mas e para lá deste humor de nível rasteiro e admita-se que estamos perante um texto aberto e suponha o leitor uma sequência em função de cada uma das leituras.
A primeira, o sentido literal da frase e segue a vida com o mesmo tédio de quem espera na fila pelo café. Pode mesmo seguir um bocejo.

Segunda hipótese.
Primeiro momento, um sorriso malandro com o canto da boca e piscando um olho, sente vontade de saltar para dentro do balcão e deitar a sua mãos aqueles maravilhosos glúteos e sentir a imensa satisfação de poder dizer. "Já!"

Terceira hipótese
Com toda a mesma atitude da segunda hipótese e após o "Já" ou continua uma conversa de cariz absolutamente carnal, ou o mundo é suspenso num audível encontro de uma mão numa cara.

Fim de filme

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Alguma apreensão

Leio alguns a replicar esta frase "Os graus académicos já não importam, o que vale são as competências"...

Tendo em conta o estado catastrófico que os sindicatos levaram à educação pode-se ser levado a meditar que a mesma não é importante, pois que não ensina a FAZER. Ora uma das coisas cruciais da universidade, de um curso, seja ele qual for, não exactamente ensinar a FAZER, mas a PENSAR no que se pode fazer. E PENSAR deve ser a maior competência a desenvolver.

É tão fácil dizer coisas e tão difícil entendê-las...

O estúpido

Na minha vida tive sempre, mais próximos ou mais constantes, a presença de alguém a quem o criador entendeu suprimir um pouco a sua capacidade de discernir. Não era grave, era apenas aquela pessoa que na maior parte do tempo era simpática e boa companhia mas, coitada, estúpida. Tive, até, casos de sincera amizade com este tipo de pessoas. Não sei se por questão de educação, de princípio ou meramente por amizade nunca lhes passei a ideia que entendia as suas limitações. Nem, tão pouco diminuí a minha atenção ou a estima que lhes dedicava. Eram assim mesmo. Não se pode pedir a pé de salsa que me dê um enorme caule de couve portuguesa. Há que apreciar e degustar o que cada um tem para nos oferecer. E estimá-los como são.

Todavia, e sem conta disso, estes mesmos menos dotados entenderam, vá-se lá saber com que esforço, uma determinada ideia deles mesmo, a qual os faz entrar em diabruras mais ou menos violentas supondo, na sua grande maioria que eu é que sou "o"estúpido. Depois podem, com mais ou menos ausência de espírito recolher vários adeptos da sua brilhante conclusão. Gente que segue uma ideia básica, mas segue por ser simples aceitar coisas menores. Fico absolutamente boquiaberto e em profundo espanto interior! Que raio de coisa é esta do ser humano!

Pouco me incomoda o desacerto mental com que esses personagens temporariamente se entretêm. Tenham de mim uma ideia ainda mais negra da que consigo ter da minha pessoa não é coisa que me cause qualquer tormento ou incómodo, mas haja, pelo menos uma razão, um motivo, algo acertado que possa ser admitido! É que do que geralmente me tendem a acusar são sempre temas tão irrelevantes como menores e áridos ( aliás próprios das sua exigência mental). Tendo eu tão profundos incómodos que comigo mesmo que se soubessem um décimo do que seu sei de mim, sei lá eu o que se proporiam fazer!

A questão final a considerar é que, mesmo que apesar de ter estes brindes, eles, os estúpidos, sê-lo-ão sempre e entrarão sempre na minha vida. Há, todavia, algo que se impõe sobre eles é nunca considerá-los mais do que aquilo que são. É que por via disso, acabam por acreditar. E depois disso o inferno instala-se!

Lendo 091

"(...) diz que um deus nos fez desiguais."
Francisco Alvim. in 26 Poetas Hoje, 2001

Duas meditações me oferece esta frase. A primeira, e a mais evidente a ideia de que, mesmo em minúsculas, foi um deus que nos fez. A criação, dê-se a volta que se quiser dar é sempre tema que trás Deus à baila. E não é por haver falta de respostas, mas pela complexidade da mesma que só Deus é capaz de a explicar. Fiquem-se pela minúscula, mas nada diminui a criação.

A segunda ideia é que a igualdade que não existe, que é apenas um conceito formal e matemático, exige-se que seja aplicado à colossal diversidade dos seres humanos... Somos desiguais obviamente. Como podia ser de outro modo? Um tédio maciço de cópias que repetissem ao infinito? A diferença coloca-se não no plano da igualdade, mas da justiça. A cada um o que lhe pode caber.


Lendo 090

SHEN HSIU

Havia um monge
Que lustrava a careca
Para que sua cabeça
Fosse como um espelho:
Reflectisse tudo
E não guardasse nada.”


Carlos Saldanha, in 26 Poetas hoje, 2001

Tenho especial gosto por este tipo de escrita desconcertante de quem pensa as coisas com dimensão. A cabeça que lustra é, tantas vezes o ego que se escova de uma interioridade vazia.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Do afecto

Há afecto que afecta
Tanto o amor como o nada.

De não se ter
Nem como o receber.
Vazio de alma
Ausente desse mundo.

Uma dormência que vagueia
Num desnorte descentrado
Alheado da vida
De quem se perdeu de si.

O desamor

Andamos na vida por amor. E por amor, também voltamos. A onde somos amados ou onde somos desejados

Que interesse pode ter o espaço onde se declara a animosidade, ou se afirma e manifesta o desamor?
Ninguém, penso, gosta de ser desprezado ou desconsiderado, pelo que pouco ou nenhum interesse ou vontade de investimento pode restar a esse lugar. Torna-se num lugar de saída, de desagrado de absoluto desinteresse construtivo.

Quase um tema axiológico, mas, e por ora, meramente moral.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Sobre o casamento

A fidelidade é o mais fácil.

Harmonia

É um momento, podendo ser mais longo ou que dura apenas um instante, mas acontece quando acontece encontro. E nesse encontro pode haver re-união, ou seja uma união reforçada. Pode deixar saudades.

Do conhecimento


A quantos níveis posso eu conhecer as coisas que se apresentam?
Esta foto, tirada ao acaso, sem intenção de dela deduzir coisas, espantou-me pela sua incrível profundidade de detalhes. Como é usual interessou-me o centro da fotografia, o rosto em baixo relevo que se vigiava a porta. Aproveitei e abri o campo de visão, não utilizando o zoom, para se poder, também admirar o relevo das folhas, esse magnífico trabalho que dá uma temperatura ímpar à sala. E já agora que se note a existência do florão nos cantos, bem como a cimalha que segura o riquíssimo tecto. Não esperava é que se percebesse o tecto dos corredores do magnífico claustro, nem da sua riqueza ornamental que chega aos desenhos dos vitrais.

Podemos ir sempre mais além.  


Da vida

A vida é um permanente estágio.
Por mais que se instale a apatia,
Que se viva na monotonia
A qualquer momento acontece o sobressalto,
A dúvida e a tomada de decisão,
E, por mais que se repita,
Volta-se à inovação, ao princípio
Do qual, no fundo, nunca se sai.
E, nesse instante original,
Vamos sendo fazendo-nos.

Inquietação

Existe uma desconformidade que se instala.
Não vem de lado algum nem coisa que valha o reparo.
Apenas acontece a verificação da distinção das partes
E de como estas não se adequam nem se interligam.
E da desconformidade nasce a inquietação por haver essas partes diversas.

Diz-se, porém, que, da comunicação, nós somos nos outros...
E como pode ser nessa inquietante desconformidade?
Pode haver coisa inteligível que se encontre entre as partes?
E será a mesma entre elas?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pode-se?

Pode-se ir
Sem ter para onde voltar?

Até ao paraíso...
Um colo mimado
Feito inteligente.

A um colo mimado
Feito paraíso
Até quase inteligente


Parti

Parti
Para parte incerta

Fui...
E tudo deixei
Sem ideia de retorno

A ausência feita coisa
Em calor que arrefece
Que fica plano sem horizonte
Branco.

Que pode interessar
Este vazio
Desinteligente


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O desmundo

Contingências de ordem diversa empurraram-me, mais uma vez, para um mundo cuja amplitude de conteúdos me deixa em estado catatónico. Cada ser tem, como disse um filósofo, a sua circunstância e ela é dele. Aquilo que cada um faz na sua circunstância, ainda que possa ser interpretado por outros é da responsabilidade de quem age, não da interpretação alheia. Mais, a sua acção é circunscrita a um determinado ambiente. Desagregar estes dois temas, o ambiente do agir e a intenção de quem age, é provocar caos relacional. É o caminho do desmundo.

Pouco importa o que me interessou entender, importa sempre procurar entender o emissor da mensagem e o ambiente em que a mesma é proferida. É que ou se procura comunicação ou não.

Esgotado de desmundos que esbarram em mim!

Semente de inquietação

Ser semente de inquietação
Do que sempre começou
Um fogo que explode
Com ambição de destino

Mais que lume ou luz
É uma ânsia de cumprir
Um donde para sempre
Num movimento incessante

Talvez futuro
Mas sempre Ser.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O meu desespero

Leio num blogue um texto sobre um acontecimento político frases como "nada será de novo igual" ou "que se deu um ponto sem retorno" ou "apenas que as coisas já não voltam para trás". E sinto a desolação do mundo abater-se sobre a esperança no futuro.

É tão fácil como demagógico, como absolutamente mentiroso, deitar fora frases destas que projectam no leitor a ideia de que tudo o que o incomoda no mundo, todas as suas falhas, pecados, dificuldades, são, de ora em diante, apenas passado e que as portas do paraíso estão ali abertas de par em par. E mais que isso, representam o futuro. Entre isto e um pastor de uma qualquer igreja de vão de escada nada há de diferente. 

Na vida NADA volta para trás, pois que esta só tem um sentido. Na vida NADA é igual, pelo que é impossível o que quer que seja voltar a ser, quanto mais igual! Nenhum ponto, a não ser a morte, é um ponto sem retorno, pois a reflexão é própria de quem pensa. Agora o inverso são frases de vendedores da banha da cobra que não tendo nada oferecem o paraíso. É a ilusão. O sonho. 

O mundo e a política estão carregados disto. E há um ror de gente que se sossega com isto. Desolador a dimensão que deram ao homem no século XXI

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Uma Ana Sofia

Recebera, de baptismo, o nome das avós, Ana e Sofia. Mera sorte que avisava a sua possibilidade de ser diferente. Seus pais ambicionariam uma Sónia Cristina, Cátia Vanessa, Carla Andreia, Tatiana, Liliana, Vânia ou outro qualquer proveniente da massificação da cultura televisiva. O que demais a deprimia e a assustava era precisamente o que melhor tinha.
De seu pai não há história. A mãe viera para casa de uma senhora servir. Nascera de uma aventura demasiado ridícula para ser consequente. Aos dezassete anos e num país ensandecido pelas aventuras revolucionárias, ela era facto consumado a nove meses de distância. Ficara tão amada e desejada pela mãe como qualquer animal à porta de um matadouro. Tratada com a higiénica distância pela senhora da casa estudou até onde quis, pois aprendera a arrancar da vida o que esta lhe negara.
O seu semblante era sempre humilhado e focado no chão. A qualquer um que se cruzasse devolvia um ar soturno. Nem na adolescência, na mesma idade em que a sua mãe se havia dedicado às descobertas do corpo, ela cultivara a sua ocultação em roupa de mau corte e pior gosto.
  

Nota

A 6 de Fevereiro, 4 meses depois, ainda persiste, já secas e sem préstimo, o que foram coroas de flores a homenagear um português que foi feito estátua. A homenagem terá sido sentida. O que dela fica nem por isso.

Nota

A luz da manhã é límpida e intensa.
Projecta-se no espaço, projectando-o

Nota

Já houve dias em que com o nascer da luz começava o meu.
E quando era claro, já estava longe.
Já era outro.

E tudo tinha perdido o encanto e a beleza.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Tu és perigoso

-"Tu és perigoso!"
Repetia vezes sem conta sempre que sentia que alguns dos seus gestos ou modos de estar fossem sujeitos a uma análise interpretativa. Sentia que a sua forma de estar e, por vezes, as afirmações que fazia, bem como a ênfase que lhes dava, ainda que fossem meramente sugeridas , poderiam ser interpretadas pelo seu interlocutor.
Havia uma perigosidade no outro que com o que se expunha. Era como que fosse uma certa privacidade que se deixava dada ou alvo de ser consultada sem aviso prévio ou autorização.
Ficava-lhe, todavia, por perceber o que era perigoso era a forma como exibia o seu mundo, bem como validava publicamente as suas fragilidades. O que era perigoso, nesse tempo e nesse momento, não era o outro, era o seu amor próprio e a sua falta de confiança em si. Estava absolutamente à mercê!

Ele traçava as pernas, descaía a cabeça e meditava seria o seu dia de entrar na caçada. Geralmente não era. Ninguém gosta de caçar um animal ferido.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Inverno da minha desolação

No Inverno é menos agradável desenhar em cafés ou autocarro. As pessoas têm mais roupa vestida o que faz com que se desenhe a roupa e não os medelos vivos. Tenho que adivinhar onde estão os corpos debaixo de tanto cobertor.
As formas perdem-se e ficam difusas. A magnífica curva de um peito perde-se completamente ficando reduzido a um mero alto. A cintura pura e simplesmente desaparece. O maravilhoso colo fica entupido de lãs, camisas de gola alta, camisolas e cachecóis. A alegria de um decote desaparece por completo.

Quero de volta o corpo das mulheres.

Lendo 089

"Os mortos estão mortos?" - Gastão Cruz in Fogo

Os mortos só morrem quando a memória deles também morre. Após a morte física alteram a sua essência e passam a ser o que se prefere deles se recordar, o que chega a ser diferente daquilo que eram nos outros quando vivos.

E depois há ainda os que furam o tempo, deixando testemunhos. Não se tornam eternos mas passam a ter o tempo todo e vivem dentro desse todo tempo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015