sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O que precisa o amor?

Cruzaram o olhar, perseguindo-se mutuamente. Quando estes se encontravam, fugiam como se tivessem sido apanhados numa qualquer malandrice. Durou tempos imensos impossíveis de se medir, pois não houve nada que fixasse a primeira data, nem a do último encontro. Nunca se conheceram, sem se cumprimentar ou meramente falar. Mas, e mesmo assim sem a ninguém o dizerem ou confessarem amaram-se.
Passaram-se anos, gerações, e já avós ainda se visitavam nessas memórias.

Do que somos

Se no princípio já somos tudo,
Que poderemos ambicionar ser no fim?
Somos, meramente, a passagem.
O resto são as nossas escolhas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O caos feito mundo

Instalou-se um buraco
No princípio do tempo,
E nada houve, nunca houve
Nesse buraco no tempo.

E dele guarda memória,
Não da existência,
Mas da ausência
Do que lá não houve.

E caído pela lembrança
Do paraíso que se esfuma
Fica sem forma
Este que se enforma.

É que nesse tempo primeiro,
Onde tudo insiste
Do nada que venha a ser,
Que já nele é.

E fica circunscrito? Não!
Da alma criadora
Faz-se sempre expansão
De ousar vir a ser mundo.

Resta-se a esse princípio?
Na intangível imaculada aurora?
Ou instala-se sobre o tempo
Residindo em permanência?...

Fica-se, pois, num buraco,
Um vazio que nada pode ser,
Nem com nada para ser
Apenas e sempre um nada.

Um espaço para a desordem,
Onde algo se instala...
Num caos de ansiedades  
E demais demência.

Transforma-se em dualidade,
Que tanto se amplia,
Como se destrói.
Tal como é da sua natureza.

E essa falta, buraco feito,
Sobrepõe-se em tensão
Revivendo eternamente
Na ausência,
Falha,
Quebra,
Desistência,
Falência.

Até ao fim dos tempos...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A contingência da inteligência

Em todos os sítios por onde andei profissionalmente desde sempre se criaram, de tempos a tempos, planos de contingência. Não que existissem dramas ou cataclismos emergentes, apenas havia que ocupar mentes demasiado soltas, mas temerosas que, tal como aos invencíveis gauleses, o céu lhes caísse em cima da cabeça! A ideia que se pretende passar é que existe uma tal urgência nessas vidas que possuídas de uma ansiedade vital e essencial, instalam essa coisa horrorosa que se chama medo. Ai e se...? Bom e se acontecesse? No limite a ideia é pensar o que fazer se só ficarmos nós na terra? Como se deixa ver, a ideia por si revela que não faz a mais pálida ideia que o mundo, a sociedade, a cidade onde habita, é feito por muitas outras pessoas que em qualquer dessas "tenebrosas" circunstâncias estariam em igual maré de sortilégio maligno e, por tal, absolutamente nas tintas para elas ou o seu importantíssimo desígnio de salvar o mundo e a porca que tem que diariamente apertar, tal como Charlie Chaplin o ilustrou.

Ou seja, num plano meramente primário, a mera possibilidade de ter que haver uma alternativa operativa global, esquece a natureza do universo onde esta se encontra, pois a se dar tal circunstância, ela não seria circunscrita.

Demos, então de barato, que vamos todos acompanhar o esforço de alguém justificar um nada de facto, entretendo para isso o precioso incómodo de um vasto conjunto de pessoas para demonstrar que com abnegação, esforço e, sobretudo, com a sua suprema dedicação, a solução pela qual todos suspiram é viável. Nem se imagina a redução maciça de ansiolíticos e anti-depressivos que tal promoverá! Poderemos até pensar que farmácias criaram planos de contingência para essa possibilidade!

Depois das inacreditáveis reuniões estratégicas, metódicas, funcionais e até de trabalho, vamos chegar aos escolhidos, os contingentes! ( no dicionário diz-me que o contingente é algo possível, mas incerto. Não estou a dizer que os escolhidos sejam incertos, pois que o são seguramente, mas são os possíveis! Essa rara qualidade que só a alguns acontece!)

Como chegamos aos contingentes? A primeira linha são as chefias. Afinal são os que verdadeiramente importam para quem desenvolve estes planos, pois é para lhes dar essa noção de escolhidos, de eleitos que estes planos são elaborados. Eles e as chefias são quem realmente importa. Num cataclismo eles dariam o passo em frente e garantiriam o futuro ( bem sei que a ideia de ficarmos reduzidos a eles e às chefias em si é assustadora, mas trata-se de um pressuposto de quem gere a contingência.) Que importa, afinal, aqueles que são os que diariamente lidam com a realidade, que sujam as mãos nos assuntos, que esventram os problemas, que conhecem a carcaça da entidade? Nada, eles são nada, pois na realidade a contingência é uma mera hipótese académica. É um trabalho onde os todos não existem, não entram nem fazem parte. Pode custar uma fortuna, mas uma isso é irrelevante, pois que uma vez apresentada e resolvida, todos ficaram muito felizes. É como dizer tenho aqui um seguro fantástico que cobre a possibilidade. Custa uma fortuna, mas a possibilidade fica segura. Quem decide, que não é o dono do dinheiro, fica muito mais tranquilo pois que a possibilidade está segura! Aconteça o que acontecer, não acordará a meio da noite atormentado pela possibilidade. Ela está segura!

E assim se gere e planeia a estratégia neste país!

Ser homem é ser impuro

Ai este querer...
Aquele corpo escondido
De formas adivinhadas
E prazeres sugeridos

E depois a ânsia
De ver a curva torneada
Da forma desenhada
E um ânimo desalmado!

É que ser homem
É ser impuro!
Não no pequeno acto,
Mas nos mil desejos

Equilibrios

Somos seres com uma animalidade impregnada no nosso modo de estar no mundo. Temos um olhar orientado para a concupiscência.

Ao lado desse impulso repousa uma necessidade de amar e ser amado.

Busca-se o bom equilíbrio entre ambas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A pele admite o belo

Tenha-se um perfeito colo feminino, que suspira uma insuperável ânsia que avoluma o peito que entre uma pequena e previstamente justa se avoluma evidenciando uma vontade de sair para saciar a vontade desses olhos. E, nesse incómodo, engole a seco toda a expectativa do momento... Tudo belo, tudo amável, tudo desejável...
Não se ouse retirar essa maravilhosa cobertura que se chama pele e uniformiza toda a beleza exposta. Acresce ainda que para além de promover o deleite visual, tem o perfume único de mulher e há lá coisa mais estonteante que o cheiro de uma mulher?

Em estado de choque

Passa por mim uma mulher, esse mundo pelo qual suspiro incessantemente, com duas malas de mão. Para além de tudo o que se possa dizer sobre o tema, apenas uma coisa me deixa em suspenso: Coitado do homem que com ela partilha a vida, pois que os pequenos erros de desarrumação entre malas deve promover aquele estado de espírito único que nos faz sentir a pior coisa na terra. E porquê, porque não fazemos a mais pálida ideia porque tem duas malas, que arrumação entendeu fazer e porque é que não encontra uma coisa na mala certa!!! Os bolsos das calças, para nós são suficientes!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Aforismos

Quando se tem um amor guardado a ele se volta quando ninguém há a amar, pois amamos sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Aforisticamente

Aquilo que não fizeres, ninguém o fará por ti. E o que fizeres a outro, é sempre a ti que também fazes.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Assim se faz cultura

“Nunca ninguém sabe para onde ele foi [Dom Sebastião]. Ele desapareceu.” Comentário de um avô à neta.

Há mistérios que são para se manterem pois deixaram de estar relacionados com a história e passaram a estar relacionados com a alma.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Eu e nada II

Posso ser nada,
Mas mesmo sendo nada.
Esse nada
Sou eu.

E assim sendo,
Sou ausência de coisa,
Sou por negação...
Sou!

E no amanhã,
Onde não somos todos.
Alguns sabem onde
Outros que são.

O instante eterno

Quero a Lua!
Sem chuva,
Nem noite,
Nem frio,
Nem sequer a humidade.

Quero a Lua...
Aquela do teu beijo,
Do lábio que não fechas,
Que tomba quente
À minha disposição...

Quero esse som
Que se faz do beijo eterno.
Esse calor aberto
Que se fecha do mundo
E se abre nas almas...

E quero a eternidade
Que não se pensa
Nem se dá
Quero-te sempre...
Esse beijo...

Esse nós.

E nesse instante
Onde não há futuro
Nem sonhos
Nem promessas
Há, apenas, esse nós...

O instante eterno

Eu e nada

Posso ser nada,
Mas mesmo nada.
Esse mesmo nada
Sou eu.

E assim sendo,
Sendo esse nada,
Sou, algures algo...
Sou!

No amanhã
Somos todos.
Alguns sabem onde
Outros que são.

Ou assim?

Posso ser nada,
Mas mesmo sendo nada.
Esse nada
Sou eu.

E assim sendo,
Sou ausência de coisa,
Sou por negação...
Sou!

E no amanhã,
Onde não somos todos.
Alguns sabem onde
Outros que são.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Até à lua num segundo

Num local de trabalho aberto onde não há separação entre as pessoas e, como tal, desde as conversas mais disparatadas às confissões sobre a vida, somos levados a saber de tanta coisa que algumas até possuem interesse profissional. Destaco uma que marca o meu dia, e várias vezes por dia.
O telefone toca. Alguém atende:
- Olá, tudo bem? tudo...
A pergunta e a resposta.
Deve fazer uma separação entre a voz e audição de modo a que quando se ouve perguntar se está bem, apressa-se logo a confirmar que sim....

domingo, 11 de janeiro de 2015

Circunstâncias

Tenho a sensação que, por um estranho motivo, hoje se apagou mais uma luz na minha esperança. E curiosamente dizem-me que 2 milhões caminharam por ela, e tantos outros zilhões o desejariam fazer. Será que a esperança tem duas faces?

sábado, 10 de janeiro de 2015

Sobre um certo cinzento

Era uma vez uma mulher. Nem mais nem menos que qualquer outra. Mulher. Algures na sua vida entrou um tom cinzento. Primeiro vagamente no olhar, depois, e progressivamente nas suas escolhas e foi ficando. Mais tarde, um tragédia ocorre na sua vida. O olhar cinzento já não mais tem que fingir, instalou-se em definitivo.
Mas longe do tom, pois que agora é cor.

Da poesia

Descasco a vida
Página a página
E vai caindo poesia,
Mas mais que ela
Sou eu que me caio
E a vida que se explica.

E antes de ir trabalhar


Não estar quieto com a mão





O casaco ficou pendurado


Depois do almoço




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Futuro



Ousar é poder ser. É a diferença entre o futuro ser meu ou de outrem.

Escrever e comunicar

Tenho que a comunicação é sempre algo que tem ter a parte "comum", ou seja algo que passe entre as partes e ambas se sintam em partilha comum. Acontece, todavia, que a maior parte das vezes a escuta, ou a leitura ou, até, o entendimento, depende não tanto do discurso ou da ideia transmitida. E nesse detalhe, entra já não o que é comum, mas o que é absolutamente próprio do individuo, como as suas estruturas, os seus medos, os seus amores e a sua ambição. E, para tanto, o caso ainda mais se agudiza, quando se trata da palavra escrita. Não é por acaso que muitos se refreiam a essa fixação da sua vontade, do seu ser, pois temem a interpretação que lhes fazem.

Mas a escrita é mesmo isto. Para ser lida, para ser entendida e interpretada. Mas, e aqui se faça a suma justiça de interpretar em função do autor e não do leitor. É que é o autor que a escreve, que se diz, que se manifesta. O leitor poderá, eventualmente, entrar em "comum"-nicação.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Lendo 088

"Não há nada mais estúpido do que estoirar um inimigo à queima roupa, sem ele dar por isso... Isso não é vingança." João Gaspar Simões in Elói ou o romance numa cabeça, Arcádia, 1969 Lisboa, pág. 74

Ou seja, vingança que se seja implica verificar que aquele que é alvo percebe que lhe estamos a descarregar o ódio, ou a raiva ou todos e quaisquer sentimentos negativos para que desse modo a nossa mágoa seja devidamente exorcizada. Obviamente que se fala na vingança limite e não naquela vingançazinha de pura maldade que se deseja a quem nos rouba o lugar, nos salpica de água ao passar velozmente de carro, etc. Essa basta que se estampe num futuro próximo contra um qualquer muro, ou mesmo um furo também pode ser uma solução. Apenas se deseja um mal. Qualquer que ele seja. O doce prazer de saber que esse grande malandro não levou a melhor!

Não

E senti frio
O que vem com a morte,
Carregado de nevoeiro
E que entra sorrateiro,
E se instala,
Deixando a alma gelada,
Pegajosa e sem jeito.

E não foi o de janeiro matinal,
Que pinta de branco o chão
E tudo o que persista
Ou até insista
Queimando-lhe a seiva
Quebrando-o, gelado.

Foram palavras
Que disseram balas
E mataram as lágrimas
Que já não caíram.
Foi essa forma de ser
Que consegue apenas dizer
Não.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Desabafo!

Pela escrita julgado!
E em sentença proferida,
Com coro de jurados
Ao juiz rebaixados,
Foi o dito martelado!
Sem lugar a recurso
Ou sequer defesa,
Menos ainda atenuantes...

E a sentença é clara.
O réu ousou pensar!
E fê-lo da sua cabeça,
Assim, da vida em geral...
E eis que o juiz se reviu,
E aí se fez personagem...
Calabouços se coloque
Não a ideia, mas o réu por inteiro.

Detenção exemplar
Confirmação e punição.
Não ouse o réu pensar,
Entender ou apreender
Acto ou mundo que seja
Onde o juiz se reveja.
E nela se sinta revisto.
Pois errará grosseiramente
Que a vida de cada um
Apenas a ele lhe diz respeito.

Mundo que é mundo,
Coisa que aconteça,
Acto que se pense
Ou vida que se leia
Não depende do autor,
Mas do Juiz que a lê
E, assim, tudo é simples
Execute-se a sentença!

Condenado às galés,
Ao fundos do mundo
Aprendendo a remar a maré
Que segue o justo caminho
Da força da Lei.
Quanto ao resto,
Se ousar pensar,
Faça-o em silêncio.


Caminhos

O caminho é sempre para o Amor. Difícil é entender qual o amor que se fala.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Sou um voyeur da vida

Sou um voyeur da vida
Que morbidamente espreita
Para a coisa apresentada
E retenho-a como fora estrangeiro.
Tomo-a, aos poucos, como minha
E entro num continuo
Não deixando de espreitar
Como seria, se minha
Na realidade ela fosse...
Mas, apenas estou.

No mundo.

Atrasada, a árvore despe-se,
Solta-se de todas as folhas
E recolhe-se ao essencial,
Ser-se estrutura, tronco.

Acontece, por vezes, um ninho,
Vagamente casa dissimulada
E perdida entre galhos
Um outra fonte de renovação.

E essa certeza do ciclo,
Que chegará como folhas
E, até, outra vida no ninho,
É a certeza de Deus.

A expectativa é amanhã,
Pois o ontem foi sempre,
E a possibilidade é entender
Aquilo que Deus quiser.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Tejo e tanto mais


A luz de poente a iluminar toda a zona industrial da margem sul do Tejo. A meio deste um petroleiro sem petróleo, arranjado ou a caminho da oficina.

E a pomba?

O poente a nascente


Quando a luz poente se desfaz no Tejo e a nascente de Lisboa...

Singularidades e outras irrelevâncias


Nós somos a nossa circunstância, a simples folha que se vê, caída e gasta do Sol de Verão. Fomos imensa clorofila que oxigenou vida. E somos, também toda essa imensa sombra que deixamos no mundo quando nele tocamos.  LaPalisse deve ter dito algures...

O encanto da cor do poente




Encantos de 2015

Quando pensava que era apenas uma história risonha do passado, eis que em Janeiro de 2015 me deparo em Lisboa com a possibilidade de comprar pequenos pedaços de papel para as minhas precisões. Fiquei tão mais feliz!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ao novo ano

Adormeci super-homem
O mundo cabia todo!
Mais que na palma da mão,
Dentro do meu coração.
E que haveria a saudar?
Apenas acontecer a criação
No momento da recriação
Do mundo que recomeça.

Sobre a poesia

A poesia é uma história cifrada que sugere um entendimento ao homem que se conseguir ler para lá das palavras.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ano novo

E caíram sobre nós
As vestes celestiais,
Todos os pecados banidos,
Somos apenas almas puras.
Hoje nasce o homem novo
Que se reconhece como pecador
E que se sabe sublimar,
Que se projecta ao paraíso
E que lá deseja permanecer.

A cada badalada uma confirmação
Vou ter que estar à altura do novo ano
É agora! É este momento! Começa já.
O Homem vale a pena,
Eu valho a ideia,
A esperança pode-se cumprir.
Hoje todos acreditamos.
Hoje todos somos anjos.