sábado, 27 de dezembro de 2014

Ler e jornalismo

Na livraria Barata, à avenida de Roma, num caminho diversas vezes repetido, pego num livro com o seguinte título: "Os estrangeiros que mandaram em Portugal". Um livro com 240 páginas! Pego no objecto e com alguma curiosidade percorro os meus olhos a tentar perceber quem e como é que de um modo tão gratuito oferece o seu país e um conjunto de pessoas:
3 pessoas durante o período de 1580 e 1640
3 pessoas de 1807 a 1822
e a Troika e o FMI, ou seja, a actualidade.
Quem o escreveu? Uma jornalista, naturalmente!
E serve para quê? Pergunto-me eu? Será, como é de prever, uma análise ligeira, sem profundidade, com erros grosseiros, com lacunas evidentes frutos dos actuais doutores da História que a utilizam apenas para vender a sua ideologia política. Os jornalistas, sendo profissionais da escrita, deveriam ter o bom senso de não se abalançarem para a escrita literária, pois que é preciso muito mais que escrever bem para se ser um escritor. Atenção que vender muito não é sinónimo de escritor. A revista Maria, bem como o Correio da Manhã são os jornais que mais vendem e, ao que se saiba, não sai de lá nenhum escritor.
Há anos, muitos, a ideia que se tinha dos jornalistas é que sabiam pouca coisa de muitos assuntos e, por norma, falhava-lhes o fio condutor essencial, mercê da necessidade momentânea dessa ocasional aglomeração de saber.
Hoje são licenciados, mestrados e até doutorados mas a essência das suas circunstâncias não se modificou, antes se agravou, pois que ao se entenderem como elo superior num mundo do efémero, sentem-se em cima de um caixote de papelão convencidos que se trata de pedestal.
A indústria livreira que passou a tomar o livro não como um objecto imbuído de um certo valor intrínseco mas como um artigo que deve ter um ciclo de vida, acaba por estar a destruir a própria vida dos livros. Os livros dos meus pais, meus avós e dos meus bisavós continuam a ser os mesmos livros que estão na minha casa. Os livros que se publicam nestes tempo são livros que morrem após serem lidos pois não têm mais que o momento da sua leitura. Enquanto se cita Garrett, Eça, Pessoa não citamos o José Rodrigues dos Santos, a Margarida Rebelo Pinto e restante geração. São monos adiados. São as Joanas Vasconcelllllos na escrita. A quem serve esta escrita?  

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