Olhava para o espelho e não se reconhecia. Via apenas os olhos negros de sempre e não lhes encontrava a vida que esperava nem a que sentia dentro de si. E ficava a olhar-se nos olhos até se assustar pelas suas ideias. Era mais fácil olhar para o seu corpo, talvez por o conseguir fazer sem ter necessidade do reflexo desenhado na opacidade luminosa daquele vidro tratado.
O rosto que via no espelho era a cara da sua alma e isso confundia-o ainda mais. Sabia que com ela, ou mesmo através dela dava a primeira impressão de si aos outros e ao mundo. Aqueles seus olhos agora reflectidos eram os mesmos, tinha que admitir, com que olhava o mundo. Via e era visto com eles. No entanto, e naquele momento não encontrava qualquer comunicação no seu olhar. Admitia, mais por uma questão de lógica do que facto, que o olhar que via era também o seu, pelo que as questões que colocava ao espelho eram exactamente as que o espelho lhes devolvia. Não havia outro. Era o eu, o mesmo. Era impossível ser outro a ver-se. Estava a ser sempre a ver o que via. E se questionava, o olhar que via não podia ser dedutivo do que quer que seja, pois que era o que interroga.
Quando olhava para fotografias de si havia o afastamento provocado pelo tempo. Do momento da fixação do quadro da foto, de aquela cara, daquele sentir ao tempo em que via a imagem havia um mar de emoções e de vida que permitia ver-se. Ao espelho tudo era o mesmo instante.
Era mais fácil sair de si nessas imagens porque tinha vivido o tempo em que as mesmas haviam sido capturadas. Sabia também do enquadramento, bem como das suas circunstâncias. Era voltar a ir ter com a história em que cada coisa, cada rosto, cada pessoa tivesse o seu lugar e o seu papel. E, no fundo, não podia ser de outro modo, pois que foi daquele modo que as coisas aconteceram.
Nas fotografias via também todos os seus genes, que pelo modo que se misturavam lhe dava a ideia que era uma pessoa diferente. E era-o naturalmente, mas era, também, o somatório de todos os passados que aconteceram antes de si. Mesmo os que jamais havia conhecido ou que sequer houvesse notícia ou história deles. Via como se sentara e nesse gesto estavam sentados também os seus ascendentes que sem saberem porquê se sentavam do mesmo modo. Era a família de todos os esqueletos e massas musculares que o faziam desse modo. Podia sentir-me um indivíduo comum capturado num corpo que era habitado por todos esses genes que o habitavam colocando à prova aquilo que o fazia ser diferente. Era absolutamente desastrado fazer do seu corpo algo diverso do que era, pois que era, em última instância a casa da sua alma.
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