quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Esboço 1

Olhava para o espelho e não se reconhecia. Via apenas os olhos negros de sempre e não lhes encontrava a vida que esperava nem a que sentia dentro de si. E ficava a olhar-se nos olhos até se assustar pelas suas ideias. Era mais fácil olhar para o seu corpo, talvez por o conseguir fazer sem ter necessidade do reflexo desenhado na opacidade luminosa daquele vidro tratado.

O rosto que via no espelho era a cara da sua alma e isso confundia-o ainda mais. Sabia que com ela, ou mesmo através dela dava a primeira impressão de si aos outros e ao mundo. Aqueles seus olhos agora reflectidos eram os mesmos, tinha que admitir, com que olhava o mundo. Via e era visto com eles. No entanto, e naquele momento não encontrava qualquer comunicação no seu olhar. Admitia, mais por uma questão de lógica do que facto, que o olhar que via era também o seu, pelo que as questões que colocava ao espelho eram exactamente as que o espelho lhes devolvia. Não havia outro. Era o eu, o mesmo. Era impossível ser outro a ver-se. Estava a ser sempre a ver o que via. E se questionava, o olhar que via não podia ser dedutivo do que quer que seja, pois que era o que interroga.

Quando olhava para fotografias de si havia o afastamento provocado pelo tempo. Do momento da fixação do quadro da foto, de aquela cara, daquele sentir ao tempo em que via a imagem havia um mar de emoções e de vida que permitia ver-se. Ao espelho tudo era o mesmo instante.

Era mais fácil sair de si nessas imagens porque tinha vivido o tempo em que as mesmas haviam sido capturadas. Sabia também do enquadramento, bem como das suas circunstâncias. Era voltar a ir ter com a história em que cada coisa, cada rosto, cada pessoa tivesse o seu lugar e o seu papel. E, no fundo, não podia ser de outro modo, pois que foi daquele modo que as coisas aconteceram.

Nas fotografias via também todos os seus genes, que pelo modo que se misturavam lhe dava a ideia que era uma pessoa diferente. E era-o naturalmente, mas era, também, o somatório de todos os passados que aconteceram antes de si. Mesmo os que jamais havia conhecido ou que sequer houvesse notícia ou história deles. Via como se sentara e nesse gesto estavam sentados também os seus ascendentes que sem saberem porquê se sentavam do mesmo modo. Era a família de todos os esqueletos e massas musculares que o faziam desse modo. Podia sentir-me um indivíduo comum capturado num corpo que era habitado por todos esses genes que o habitavam colocando à prova aquilo que o fazia ser diferente. Era absolutamente desastrado fazer do seu corpo algo diverso do que era, pois que era, em última instância a casa da sua alma.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A um nada

Eras quem, quando eras tu?
E o que querias, afinal?
Dizias que era um instante,
Apenas um momento,
Um minuto.

Foste ficando
E de um nada
Encheste-te um lugar,
E ficaste para lá do tempo...
Levaste-me à eternidade.

E o que sobra é apenas tudo.
Tudo somente.

domingo, 26 de outubro de 2014

Coisas bizarras

Ela queria um amigo. Ele, enquanto homem, vivia essa amizade na expectativa de a possuir. O caso morreu atacado de bolor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

É deles a eternidade

Caem quentes e ligeiras...
E já não são lágrimas.
São as memórias do tempo
E sobretudo do modo.
Daquela simples maneira
De ficar num eterno tu e eu.
Num sol que nunca se punha,
Nesse mar aquecido
Pelos ventos de amanhã.
Foi esse tempo
E fomos nesse tempo.

Agora são outros,
Nossos filhos,
O futuro,
É deles esse tempo,
É deles a eternidade.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Lendo 081

"Pois é, a amizade é unilateral. Não satisfaz duas expectativas diferentes." Afonso Botelho, in A intriga, Edições do Templo, Lisboa 1978, pág. 33

E é precisamente neste ponto que difere do amor, pois que neste último a ambição é conviver na mesma expectativa.

Lendo 080

"(...)e a sua honestidade, o prémio da vida que ele mais estimava, era feita à custa das renovadas indecisões da sua alma." Afonso Botelho, in A intriga, Edições do Templo, Lisboa 1978, pág. 26

Há um enorme conjunto de pessoas, senão mesmo a grande maioria que tem precisamente esta modo de estar na vida. Em vez de ousar e arriscar a ser acto do que lhe enche a mente, bem como o mundo dos desejos, se encostam à sombra de uma suposta reflexão de modo a não agir e a não tomar posição nem sequer manifestar opinião. Estão, regra geral, sempre do lado dos vitoriosos, tanto mais que vença quem vencer, como não se manifestaram sempre estiveram lá.
Sobem na carreira e tornam o mundo cada vez mais cinzento, mais incaracterístico que navega de acordo com qualquer vento. E são sempre os vencedores. A vitória da apatia.

Podemos ter esta honestidade como um bem moral? Um valor em si? Ou é um valor por omissão? Ser-se porque não se é. Porque se anula a vontade.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lendo 079

A bizarria continua...

Agora Maria Claudio Guerreiro
"Lembras-te daquela vez em que não paramos de discutir a Critica da Razão Pura, a andar na montanha russa?" ou
"Porque as superstições eram essencialmente medo do passado, e os preconceitos medo do futuro."

Não era preciso ser tão destituído de senso.

Nota: A superstição está ligada ao desconhecido, logo jamais ao passado, a não ser que esteja a focar-se num passado primordial, no paraíso. O preconceito, como o próprio nome indica é um conceito prévio, donde há forçosamente um conhecimento a partir do qual se adquire a noção do conceito.

Quanto a Kant e à montanha russa...

E o conto continua com mimos de vazio intelectual. "A sua pátria jamais seria um lugar, mas uma sensação."... Sei lá, hoje sinto-me um pouco pátria. Deve ser do tempo. Ou então, a sopa não lhe sabe a pátria?
Uma ajuda para esta intelectual. Pátria é uma ideia, ou, se quiser, um conceito. Não se sente, entende-se. Não é por acaso que o poeta diz que "a minha pátria é a língua portuguesa." Mas para ler pessoa aconselho o combóio fantasma, ou carrinhos de choque.

Lendo 078

Helena Sacadura Cabral é o retrato de uma geração de mulheres que em determinada altura entendeu que se emancipou.
Largaram o mundo que conheciam e passaram a afirmar e a fazer crer que o mundo que construíram e no qual vivem é o mundo definitivo. Condensaram nesse acto doses maciças de egoísmo e egocentrismo. Tudo giram em torno do seu eu e do seu modo de ver o mundo. Os outros vivem num engano com o qual são condescendentes. "O ser humano é naturalmente polígamo. A fidelidade é uma construção social à qual se resolveu dar uma importância excessiva, decorrente de uma moral judaico-cristã, que apesar de todos considerarem ultrapassada, ainda marcava muito a sua geração."

Numa penada todos os anos, décadas, séculos e milénios de vida social do homem é arrasada pela suprema sageza que determina que a religião e a herança espiritual do homem é um logro intelectual.
Existe uma diferença abissal ( de abismo) entre a fidelidade ou o amor e o apetite sexual. Tomar os dois pela mesma coisa é capaz de ser um vago sinal de ausência da noção de amor. Acresce ainda que o amor não é exclusivo. Ama-se muito e muitas coisas. Do amor ao sexo há tanto que se lhe diga. Sexo é um instante e amor é a eternidade.

Há, nessa postura, uma redução de espiritualidade crucial, pois deixaram de acreditar, passo necessário à emancipação como liberdade, para passarem a fazer a realidade. Ficam pessoas secas e com pouca autenticidade. Tudo visa o efeito e não o sentido.

Lendo 077

"Essa viagem marcou a vida dela, e apercebeu-o imediatamente, embora não percebesse imediatamente se para o bem, para o mal, ou para o mais ou menos."

"Pensava que todos os dias se repetiam ao pormenor, e mesmo quando não se repetiam ao pormenor até a maneira de não se repetir ao pormenor se repetia ao pormenor."

Tenham dó dos leitores! Isto é lixo.
Não percebo como é que a Alice Vieira e o falecido Mário Castrim alguma vez deram o seu acordo a este tipo de escrita. É uma embrulhada que apenas enche parágrafos não acrescentando nada ao texto nem às personagens, nem ao enredo. Apenas empilha lixo, adensando um texto com banalidades sem sentido.

Como é que se edita isto?

Catarina Fonseca.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Lendo 076

"Isto tudo a propósito de ter enganado o próprio carro com o carro da loira. Também enganou a própria mulher com a loira do carro, mas com isso, parece, ninguém se importou."

Uma escrita mais preocupada com a forma do que com o conteúdo resulta em asneira.

Nota: Dá-se a falta de sorte de ficar a saber que esta senhora é filha da Alice Vieira e de Mário Castrim...
Apesar de haver um ditado que diz "filho de peixe sabe nadar" não é necessário levar tudo à letra...

Lendo 075

Catarina Fonseca
Jornalista... com 7! romances publicados e estou em contacto com a sua escrita.
Leve, demasiado leve. Pomposo e vazio q.b.

"a verdade é que Mariana nem exigia muito de um homem; exigia apenas que tivesse os mesmos defeitos que ela. isto é, nenhuns."
"Mariana sabia o que queria: um homem culto, interessante, engraçado, que não embirrasse com os livros dela, que não embirrasse com os quadros dela e que não chegasse atrasado logo no primeiro encontro."

Sem acrescentar mais apenas digo que dou graças a Deus seu um conto com apenas 30 páginas. É um sofrimento aceitável. Se sofresse de fígado estaria a começar a ficar amarelo. Por ora apenas uma náusea e a aproximação de uma leve dor de cabeça.

Vícios parvos

Tenho uma visão da escrita, e pelos livros bastante aberta, pelo que gosto de ler um pouco de tudo. Li Dan Brown com gosto e entusiasmo assim como li José Rodrigues dos Santos. Li Tolstoi, Kundera e Durell com um interesse que nenhum dos anteriores me deu. Ou seja leio quando leio procuro entrar no que o escritor tinha em mente.
Esta abertura segue para justificar um livro que comprei com uma curiosidade absolutamente feminina de saber como as mulheres escrevem sobre o amor. São 6 contos de amor de uma tal Catarina Fonseca, de Helena Sacadura Cabral, de Luísa Beltrão, de uma Maria Claudio Guerreiro, de uma Paula Neto e da Roda Lobato Faria. As expectativas estão muito baixas. Conheço e já li coisas da Luísa Beltrão que gostei, assim como da Rosa Lobato Faria. As restantes será uma descoberta.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Desenho


De tantas imagens um moinho. Infelizmente abandonado.

Pomba

E se fosses branca, pomba?
Trarias contigo a paz?
Ou até verde?
Voltaria a haver esperança?
Mas calha-te essa cor baça,
Mesclada de cinzentos
Que nada trazem
E tudo dissipam...
És assim o símbolo
Deste tempo de ausência
Em que nem a forma
Merece ter consciência.
Foge, pois, que te caço
E te faço em guizado
Para servir na mesa
Daqueles que te têm gerado.

Só na morte

Só na morte,
Naquele fim previsto,
Só nela tudo sossega.
É a paz derradeira.
No tempo que fica
Esquece-se o erro
E até o pecado
Desaparece.
E mais um pouco além
Até a memória falece.
Voltamos ao que somos
Apenas nada adiado.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Lendo 074

"O sol, nascendo, chora
Nasce morta a luz da aurora
Sobre a terra portuguesa.

E desta luz falecida
Nascem já murchas as flores,
E nascem almas sem vida
E sem amores...."

Teixeira de Pascoaes, in Dom Carlos, 1919.

O Poeta descreve o sentir do país após o cobarde regicídio. E nesta descrição empurra outro tempo igualmente de roubo de futuro, Alcácer Quibir e a morte de Dom Sebastião. Por duas vezes o futuro de Portugal se vê privado de luz, pois a aurora nasce morta.
Coisas que os revolucionários se olvidam de meditar.

Um espaço que me faz voar


Autocarro


Evadi-me


No SAMS, a soro


A pensar nas férias


Fundação Champalimaud

 


À escuta

Ouvida hoje no autocarro:

“O medico adoeceu-me e desde então tem sido um calvário.”


domingo, 5 de outubro de 2014

Fui


Fui levado neste riacho
Debaixo da frescura
Da sombra de árvores.
A água sussurrava
Conversa de amiga
Que fala de tantas coisas
Quantas as folhas que caiam.
E descia tranquilamente
Mesmo até ao rio
O meu Tejo companheiro

Uma ave


Com a limpidez do ar, tentava fazer uma fotografia ao Montijo. Nem reparei que uma ave se colocou no enquadramento. É dela, portanto, a fotografia.

sábado, 4 de outubro de 2014

Lendo 073

"O amor, o amor há-de vencer o ódio
E Portugal renascerá da morte"

Teixeira de Pascoaes, in Dom Carlos, 1919

Há quanto tempo andamos todos mortos?

"À morte... só os mortos lhe tê medo..."
ibidem

Quem acorda? Quando e como?

Lendo 072

"Mas eu creio;
Creio na minha Pátria e no meu Povo.
Eu creio no meu sonho." Fala do Rei

Teixeira de Pascoais, in Dom Carlos, 1919.

A Pátria como conceito é muito mais englobante que qualquer slogan revolucionário. Por detrás dos slogans revolucionários escondem-se mentiras, medos e fugas para o desconhecido. Para ser revolucionário, apenas no amor. Tudo o mais já foi.

Lendo 071

"Sou a Alma das visões misteriosas
Venho da Sombra-mãe que nos criou
E viveram em mim todas as cousas"

Teixeira de Pascoaes, in Dom Carlos,

Tudo mais que dito ou não fora o Poeta quem é.
Aquilo que me toca sobre tudo o mais, é que este texto de 1919 diz, logo na abertura, a síntese da minha grande certeza filosófica. Nós, humanos, somos nada e nada acrescentamos. Tudo já foi dito e feito.
Ainda que alguns, imbuídos de certezas revolucionárias e racionalistas, estão convictos, têm essa crença, que lhes está reservado a grande obra de transformar o mundo de acordo com as suas racionalizações. O resultado será, invariavelmente trágico. Crer que as coisas podem ser de acordo com o meu desejo racional é tão somente uma imensa falta de humildade, pois o eu não fez o mundo, não o criou, não o formatou. Faça o que fizer, fá-lo para si e não para o mundo. Se vimos da Sombra-mãe, outros há que se entendem como os Luz-eu.

Lendo 070

"Vou desabobadar os céus da minha esperança."

Alberto de Lacerda, in Palácio, Delfos, Lisboa, 1962, pág. 11

Esta frase faz o poema. A abóbada, desde sempre a conheci como o tecto mágico e perfeito. Relembro sempre a abóbada do mosteiro da batalha, ou o céu de um tecto em Salamanca. A abóbada é uma curva ampla que sustém todo tecto, e por tal, protege.
Quem ousa desabobadar? E logo o limite da esperança!

Fica-se um homem perdido a olhar para o universo sem fim e sem ponto a fixar.

Lendo 069

"O teu barco partiu as amarras
E quebrou sem saber
O primeiro e último cais
Que o meu coração jamais conheceu."

Alberto de Lacerda, in Palácio, Delfos, Lisboa, 1962, pág. 51

O amor, essa pulsão que acorda um morto e capaz de tudo. Assim como a sua ausência e o desconsolo dela.
Acredito num Amor único, que é sempre o mesmo. E, com o decorrer da nossa circunstância vamos depositando em doses. E quando é retribuído é, sem a mais pequena sombra de dúvida um cais, uma casa, um ninho e um enorme conforto.

Lendo 068

Natal

"A festa do deus alheio
A mim e a tantos homens
Passou.
Mas é profundo o grito
- É cada vez mais fundo -
Da festa que alguém, algures
Nos negou.

Alberto de Lacerda, in Palácio, Delfos, Lisboa, 1962, pág. 56

Cada um pode abrir a sua porta, ou janela para o natal que há dentro de cada um de nós. O espírito, a emoção, a festa que se possa fazer no Natal é exactamente para quem?

Lendo 067

"Apesar de tudo há um caso de amor
Entre mim e a minha vida."
Alberto de Lacerda, in Palácio, Delfos, Lisboa, 1962, pág. 67

É o elo principal. A mão de Deus. Os racionalistas dirão milhares de outras justificações. Prefiro a simplicidade de um pobre de espírito que ambiciona chegar ao Reino dos Céus. O princípio é amor. Tudo o mais é acrescento. Até a razão, até porque há razões que a razão desconhece....

Lendo 066

"Não irei a tua casa buscar o segredo da tua infância
Porque nunca saberei onde é a tua casa
Embora saiba que tiveste uma infância."

Alberto de Lacerda, in Palácio, Delfos, Lisboa, 1962, pág. 65

O imenso e estranho mundo da nossa infância é, ao longo da vida, o sótão onde se vão guardando todas as razões, explicações e definições que dão sendo a nossa razão de ser o que somos. E essa infância é sempre a de cada um. Por mais que se viva acompanhado, rodeado de amigos, de irmãos e outros familiares é sempre do individuo. E só ele sabe, ainda que às vezes de modo confuso, o que lá está. Com o decorrer do tempo vamos fazendo uma ideia do que pode estar nesses espaços dos outros, mas é sempre uma ideia, uma construção, nunca o que cada um viveu, sentiu, experimentou e gravou.
Gostei muito desta síntese.

Agora vou ao meu jardim de infância e já venho!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O que é sempre

Cabo torcido, entrelaçado.
De tantas cordas
Quantas as variedades
Do que se diz uno.

Diversidade?
Não..
Meramente imagens
Do que é sempre.

Lendo 064

"A uma prostituta

Na noite sem certezas e sem pão
Os teus olhos de orgulho vão dizendo
O que ninguém te diz sem te pedir perdão"

Alberto de Lacerda, in Palácio, Delfos, Lisboa, 1962, pág. 16

Deixou-me sem palavras. Os olhos de orgulho é, tristemente, a sina da humanidade.