segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Coisas inacreditáveis

Hoje, num tribunal, perguntei a mim próprio que sentido faz todas aquelas fatiotas do século XIX que algumas pessoas usam?
Serão capas para esconder as suas personalidades e vestirem o papel de justiça?

Será que há também camarins?

domingo, 21 de setembro de 2014

Carta a Eva


Só para te dizer que estou com fome.

Lendo 063

"Amas-me?

De pão, não tenho mais que migalhas;
De obstáculos, nada menos que muralhas..."

António Ribeiro de Aguiar, in A vida, Ota 1956, edição do autor, pág. 63

O que me atrai neste poema é a força das muralhas. E, de novo, a desilusão e o desapontamento do autor. A primeira frase é uma frase fácil em que se repete em milhares de situação, a relação pão e migalhas será, por ser tão frequente na alimentação, um lugar comum sem novidade.
Quando se refere obstáculos, sabemos que são dificuldades, mas fica sempre a impressão que estão ao nosso alcance. Uma muralha é uma parede forte, robusta, grossa e feita para não ser ultrapassada. E, nesse sentido, deixa de ser obstáculo e passa a limite.
Sendo um poema escrito em 1954, quase diria que o autor tinha obstáculos interiores.

Lendo 062

"Essa linda mulher que eu vi um dia,
Serena e meiga como as pombas mansas,
É hoje a luz de uma alvorada fria."

António Ribeiro de Aguiar, in A vida, Ota 1956, edição do autor, pág. 63

O tempo, essa escola que não aceita gazeta, furos ou partidas, cimenta conhecimentos que alguns traduzem com particular acertividade. 
A luz de uma alvorada fria pode ser serena e meiga como uma pomba mansa. Mas o frio carrega um afastamento... Há desapontamento nessa temperatura que arrefeceu, pois que se fosse apenas luz de uma alvorada fazia uma diferença emocional. 

sábado, 20 de setembro de 2014

E

Ela, sem nunca ter percebido nada de sensualidade, afasta-se teatralmente...
Olha para trás.... e nem e sua sombra vê.
E segue, certificada por si própria.

Lendo 061

"O que me falta é morrer...
Mas não quero morrer já.
Quero morrer amanhã
Só p'ra cumprir o castigo
De viver."

António Ribeiro de Aguiar, in A vida, Ota 1956, edição do autor, pág. 23

De novo às edições de autor numa tentativa para entender porque é que tanta gente, onde me incluo, se faz poeta e insiste em publicar.

Mas, e voltando ao texto, tocou-me particularmente esta noção de ter que cumprir o castigo de viver. E é claro que se Deus é eterno e o seu modo o Bem e a Felicidade, qual o sentido desta criação, por mais excelsa, maravilhosa, brilhante e amável? Cada um tem o seu sentido e até o poeta que isto escrever sabe que o castigo de viver é sobretudo a Graça de existir.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Podem passar anos mas as emoções são eternas.



No ar, pesado e denso, circulavam todos os odores....
Mas apenas um me inebriava.
As mãos transpiradas, tensas e incertas seguravam a sua cintura.
As cabeças moviam-se em conjunto.
A música servia o motivo.
Tentar sentir. Tentar tocar. Tentar comunicar.
Impossível sossegar o ritmo cardíaco.
Melhor não falar.
Desejar...
Ousar...
E antes do fim... já o mundo tinha ganho outro mundo.


Podem passar anos algumas emoções são eternas.

Lendo 060

"Ainda agora, debaixo da roupa, estava a vê-la com toda a nitidez, falei com ela. É espantoso. E sabes ainda outra coisa? Quando estou assim, deitado, e penso nela, fico triste, Deus sabe porquê, e sinto vontade de chorar. " Leão Tolstoi, in Infância, Editorial Inquérito lda, Lisboa 1941, pág 204.

Para melhor perceber este excerto, o narrador é uma criança que andará entre os 10 e os 12 anos e acaba de descobrir o amor.

A tristeza do amor, a vontade de chorar no amor é uma comoção que alguns conseguem atingir. Para além da felicidade, da excitação, do calor, do afecto e do sentimento de se ser um e plural, há, também a ressaca desse mesmo sentimento porque sabemos que somos apenas um. E nesses momentos não é a ausência do outro que comove, mas sim a consciência de não se ser todo. Pois essa unidade, como é ideal, nunca se realiza. E esse sentir só se consciencializa após se ter sentido toda a riqueza e variedade do amor.

Lendo 059

"Pela primeira vez na minha vida tinha variado de afectos e, pela primeira vez também, sentia a doçura da mudança. Era-me agradável substituir um sentimento usado por um amor cheio de mistério e de inocência. Ao mesmo tempo que deixei de amar, recomecei a amar, o que significa que amei duas vezes mais do que antes." Leão Tolstoi, in Infância, Editorial Inquérito lda, Lisboa 1941, pág 201 e 202.

O amor é um sentimento positivo e, como tal, agrega, junta. Quando se ama, esse amor fica para sempre.
Esta frase e tema leva-me a arriscar afirmar que amar é tão próprio ao homem que este ama sempre, varia apenas a hierarquia. Há sempre um mundo de amor, e esse mundo não se fecha, está sempre aberto a ser mais preenchido. O mistério é como e de que modo como colocamos o topo dessa figura geométrica do amor.

Há, é verdade, pessoas que, por mero descuido, se colocam a si mesmas nesse vértice. Naturalmente que os seus afectos serão mais pobres, menos diversificados.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Da arte

Parou. Sentiu num instante todo o peso da sua existência e deixou-se cair, exausto de si, na poltrona onde se afunda. Desejava ter o vício de fumar para, de uma enfiada, queimar o maior número suportável de cigarros. Talvez o fumo, nos seus desenhos e figuras etéreas lhe dessem a resposta:
- Para quê a arte?
O olhar torna-se opaco, quase que sem vida.
- Para quê criar?
Não cigarro que valha esta pergunta. Nem resposta que o satisfaça.

Humor disparatado

Hoje caiu uma árvore. dizem que perdeu a aposta com a folha.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

No autocarro

Na minha companhia viajavam mais 3 ou 4 vizinhas. Umas das outras, entenda-se. Coisa dolorosa esta de ter de ficar a saber da saúde e outros pequenos vícios de alguns daquele lugar.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Liberdade

A Liberdade é um estado de alma.
É a capacidade de se soltar e de se ser completamente sem medos ou receios. É ter vontade e fazer, construir todos os sonhos. Ousar e ser-se! Absolutamente.
E é leveza, tranquilidade e, sobretudo, paz. E dentro de cada um. Não é, pois, uma mera excitação, uma alegria pueril ou um riso descontrolado.
A liberdade acontece quando se é o que se é, lá dentro, dentro de cada homem. Essencialmente.

Coisas

Cheguei à paragem do autocarro e faltavam 13 minutos para o meu transporte.
Sentei-me e esperei tranquilamente.
Momentos largos depois voltei a verificar o tempo. Faltavam 19 minutos!
Hoje até o tempo me causa arrelias!

A mudar

A mudar, não o mundo, mas o meu mundo e a minha circunstância. Nada é certo e neste momento tudo é incerto. A própria realidade é tão diversa que nela tudo cabe. Sendo o homem alguém que se futuriza, vou-me futurizar.

Mas não é isto um acto diário de qualquer pessoa?

Modo imperfeito

Quando já nada vale,
Apenas se gasta o tempo
Que virá, eventualmente,
Como o outro também veio.

Nada serve ou importa,
Tudo se queda irrelevante,
Até o tempo passa,
Assim, desinteressante.

Mas, se assim é,
Para quê escrever isso?
Não está a alma morta
E esgotada de amanhãs?

Que importa este registo?
Este somatório de palavras?
É que Deus sempre vive
E n'Ele há sempre amanhã.

Nem mesmo a morte acaba.
Tudo é tempo sem fim.
No meio dele aqui ficamos,
No modo imperfeito.

Do bréu

Quando do escuro bréu
Um nevoeiro vem,
Que importa isso
Se nem a névoa se vê?

Sem luz não há nevoeiro.
Nada há a esconder
Nem outro tanto a revelar.
É, apenas, noite.

Nevoeiro

Nevoeiro de mim
Que oculta o futuro
E humedece o passado
Deixando tudo baço.

E assim me quedo,
Nesta morrinha minha,
De vontade quebrada
E parco de amanhãs.

Para quê haver que fazer?
Trabalhos e incómodos,
Se aquilo que é sentido
É deixar de apetecer ser.

Este nevoeiro de mim,
Que vai e torna
Até ao dia que houver
Que nele me deixe ir.

Do tempo

Não!
Não é a ti que eu amo!
Já o devias saber,
Tal como também o sentes.
Quem eu amo
És o tu da minha memória.
Do fogo e da entrega,
Do sim incondicional.
De quando havia dois
Que apenas eram um.
Quantos somos hoje?

domingo, 14 de setembro de 2014

Ilusões

Quando se quer uma coisa, adquire-se uma ideia dela de tal modo magnífica e interessante que nos parecerá absurdo que não sejam o mundo inteiro a também a querer. Acontece, todavia, que esse mundo é um conjunto de eus e cada um desses eus quer, também a sua coisa. E assim a minha coisa querida sofre uma redução emocional e fica aquilo que é.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Coisas aborrecidas

Colocamos uma música que nos é simpática como som de toque no telemóvel. Passados dias ganho um reflexo pavloviano e a música deixa de ser um prazer e mal começa a tocar ponho-me logo à procura do telemóvel....