"As paredes estão pintadas de um belo tom indefinível: uma mistura delicada de fumo com suor sobre uma tinta eventualmente branca ou amarela... Os banhistas começam logo por se estender sobre bancos de madeira salazarista (...) " Possidónio Cachapa, in O meu querido Titanic, Oficina do Livro, 2005, pág. 13.
Divido esta frase em dois tempos.
A descrição do espaço público e o absoluto desinteresse a que o mesmo foi votado durante anos a fio. Os anos da revolução e da democracia. Foram anos a gastar o que havia. Ninguém se interessou por actualizar, modernizar ou sequer cuidar. Podia o autor acrescentar as beatas no chão, ou num cinzeiro velho e encardido, de metal e deitado ao comprido no chão e cuja utilidade se poderia definir como mista, pois que alguns entendiam que se tratava de um escarrador. Era a visão de qualquer lúgubre repartição de um qualquer serviço do estado, fosse a simples secretaria, o corredor do Hospital Santa Maria, ou conservatória ou notário. E o banco de madeira que era de óptima qualidade, forte, robusto com décadas de uso, com patine, resistente e, imagine-se até confortável.
E o tempo presente.
Se a visita acontecer após uma "requalificação" temos um branco imaculado, belíssimas cadeiras de plástico, um sonante parquet e até uma máquina para satisfazer as nossas necessidades de cafeína ou outras mais açucaradas. Caso a "requalificação" tenha já uns tempos, há bancos partidos, sem estofos, o parquet riscado e a tinta a descolar. Mas todas estas maravilhas, não sendo salazaristas, são democráticas e com uma evidente marca de desperdício desolador.
Há um estado intermédio que raramente tem convivência.
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