quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Lendo 058

"O desgraçado era poeta, e como tal tinha todas as suas grandezas, e todos os seus defeitos." Bulhão Pato, in Digressões e Novelas, re-edição Quetzal, 2004, pág. 239

Para quem escreve poesia, percebe-se esta ideia de grandeza, que se traduz, essencialmente no modo de sentir, o defeito é ser-se escravo desse modo de sentir.

Lendo 057

"Estava num destes instantes em que todo o homem tem, por melhor que seja. Sentia-me com desejos de deitar fogo, não só a Roma, mas até ao mundo inteiro, simplesmente para ver se podia destruir o meu mau humor." Bulhão Pato, in Digressões e Novelas, re-edição Quetzal, 2004, pág. 205

Não consigo sequer contar as vezes em que me enchi deste magnifico sentimento que enobrece qualquer alma. A vontade avassaladora de expurgar o mal que me indispõe ao ponto de sentir ser-me absolutamente irrelevante o efeito desse mal. Acontece, todavia, que o que resta de bom senso, particularidade que permite reconhecer esses estados de alma é, também, suficientemente presente para diminuir a intensidade deste tenebroso destino.
A grande vantagem deste sentir é a dolorosa impressão de erro, e por tal a necessidade de corrigir, e a reflexão sobre o erro é a melhor maneira de conseguir ser melhor ser humano. Ás vezes bem se podia errar tanto, caramba!

Lendo 056

"Entre a morte eminente e uma grande fadiga, talvez se resolvesse pela primeira." Bulhão Pato, in Digressões e Novelas, re-edição Quetzal, 2004, pág. 76

E não é que existe sempre alguém que se conhece a quem a vida parece um imenso frete, uma maçada incomensurável, um tédio profundo. Poucas e raras vezes os encontramos entusiasmados com algo, ou sequer a aderirem a qualquer coisa. São assim, nascem, casam, reproduzem-se ( com um enorme esforço das suas companheiras), e lá acabam com o martírio de andar por estes lados e voltam à terra.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Dúvida

Existiria tanta insistência e persistência na homossexualidade se há 50 anos não tivesse acontecido a grande alteração social da igualdade de géneros?

Venho do nada

Venho do nada,
Que também é tudo.
Uma semente lançada
Num mar de possibilidades.

Quis o destino,
E Deus em mim,
Ser-me assim,
Tal como assim sou.

Desde o que é,
Ao que virá a ser,
Tal como o que fica
E o que nunca será.

São tantas as sínteses,
Como outras tantas excepções.
Nada é lei ou regra,
A conclusão é só no depois.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Lendo 055

"- Não admira, o meu amigo é poeta, vive exclusivamente nas afastadas regiões do sentimento. Eu não. Eu prefiro o contacto de uns lábios abrazados e o fuzilar de uns olhos provocadores." Bulhão Pato, in Digressões e Novelas, re-edição Quetzal, 2004, pág. 12

Cá estou nesta dualidade que me trama. Meu caro Poeta, eu tenho um pouco de poesia em mim e na minha alma, e detenho-me, também nessas regiões do sentimentos, mas confesso-lhe que um beijo abrazado e uns olhos provocadores dão cá um sentimento que não faz a mais pequena ideia. E, acredite, desse sentimento sou, até, capaz de, na maravilhosa memória deles, descrever poesia sem fim. Ou sou poeta ao quadrado ou poeta estragado.

Lendo 054

"Os poetas são assim; a passageira impressão de um momento exprimem-na em verso heróico e passa à posteridade como documento de um afecto devorador e eterno." Bulhão Pato, in Digressões e Novelas, re-edição Quetzal, 2004, pág. 12-13

Bom... Tenho que defender duas honras, a saber, a minha e a do poeta, já que lhe visto a pele aqui e ali.

Dois momentos. A impressão de um momento que é mais que uma impressão, é quase uma convulsão. É algo que nos fica impressa na alma numa côr e textura que se faz digna de produzir na alma a memória desse instante. E quanto mais bela e impressionante for a impressão, maior será na alma. Não, não é na justa proporção, mas antes na absurda desproporção da alma que se deixa enredar pelos maravilhosos caminhos dos sentimentos.
O segundo momento, o verso  heróico! Só se chega a herói quando se descreve com a mesma intensidade que se sentiu a impressão, mas, por mais poeta que o poeta seja, ou se perde nas minudências da forma, ou se entrega em demasia à beleza lírica, ou foge à força do amor que o arrebatou naquele instante, pois que, afinal, não se ama um momento, ama-se o que é eterno.
Fica-se pois, e de acordo com Bulhão Pato, na intenção se ser produtor de um verso heróico. Mas, e para mim, passo ao lado dessa heroicidade, mas jamais à impressão de todos esses momentos excepcionais. Afinal, às vezes, acontece ser poeta.  

Verão

No Verão apodera-se um absoluto estado de indolência.
Arrasto-me para onde quer que seja e fico em estado alentejano.
Deixa, sequer, de existir Deus, questões morais, ou sequer metafísicas. Apenas um simples, longo e profundo "larguem-me da mão". Não quero saber. Venham-me buscar quando isto acabar, isto se é que é coisa que acabe.

Estou de férias, portanto.

E o pior, é que sei que vou-me incomodar por não me ter imposto a este estado letárgico e furiosamente ter desatado a cumprir os projectos contra a ociosidade.

Se fizessem a pequena ideia do que é isto de ser homem...

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Noite

O dia finda...
Ali, ao longe,
Mesmo lá no fundo.
Cai, cansado de tanto Sol.

Por aqui já foi prata,
Cinzento baço e sem luz.
Agora escorre a preto,
Negrume e desilusão.

Tempo da besta
E de mais incómodos.
Haverá amanhã,
Dizem....

Agora não há nada
Nem céu, nem mar
Nem luz
Apenas eu.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Lendo 053

"Sente-se sempre o que quer que seja desagradável, quando sabemos que uma mulher bonita está nas vésperas de pertencer a outro." Bulhão Pato, in Digressões e Novelas, re-edição Quetzal, 2004, pág. 10

Esta frase traduz a ideia, pelo menos absolutamente masculina ( a rapaziada mais florida que me desculpe a incapacidade de entender outro tipo) de haver esta impressão de haver a possibilidade de possuir ( no universo mental, entenda-se!) toda a mulher que se encontre no universo do desejo. Daí esse desejo desagradável descrito em 1850 ser tão igual aos de 2014.

Nenhuma mulher se ofenda ou se sinta preterida. Desejar é normal. Tudo o mais é fantasia que cada um fará como bem entender.

Férias

No princípio são 21 dias carregados de projectos. Conta-me a experiência que a meio alguma coisa se perde e quando damos por isso o tempo passou e continuamos a sonhar com esses projectos....

É isso as férias. Até essas coisas são relativizadas. Tal como o tempo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

De outras leituras

Por altura da Universidade, há quase 40 anos li um livro de Max Scheler cujo título sempre me fascinou e repito: "La ubicación del hombre en el cosmos"
A tradução mais próxima será o lugar do homem no mundo.
O google traduz : "A localização do homem no cosmos"
O latim do google diz de ubi, o onde do homem no cosmos.
A ideia de cosmos é obviamente muito maior que o planeta terra. É o conjunto da organização onde se realiza o homem.

A minha interpretação desta frase é essencialmente filosófica, ou seja como é que o homem se reconhece dentro do conjunto dos tudos oranizados onde ele é uma parte. Atribuo uma autonomia ao cosmos, ele sim é um lugar, e dentro desse imenso lugar o homem encontra uma ubi, um onde, uma localização, uma casa e desse lugar abre-se, entende e vive o cosmos. Obviamente que esta interpretação tem um fundo religioso básico. Creio, acredito e aceito a prevalência de uma entidade superior que organiza ou organizou o cosmos onde o homem se ubica. Deduz-se daqui que a esse cosmos organizado, o Homem é uma mera parte, e eu homem uma ínfima parte. Assim como fica a minha "ubicacion"?

Aceito o mundo e as suas regras, aceito a criação, assim como entendo o ser humano como fruto dessa criação que jamais é estática. Não existe maior ou menor. Há lugares.

Afinal trata-se de um texto religioso.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O autocarro 720




Depois de almoço


Desenhei as pernas da moça que estava na minha frente. Acho que deu por ela e queixou-se ao marido. Num ápice mudou de cadeira e tentou tapar as vistas.

Na rua

Enquanto ouvia a música que o telemóvel seleccionava e me preparava para tentar desenhar as chaminés do edifício central da Praça do Areeiro, eis que para um carro Mercedes e duas pessoas olham para mim e começam a pedir informações.
- Qual o melhor caminho para o Cacém?
- Cacém???? - Que raio de pergunta. Em plena Avenida do Sr. Almirante de apelido Reis que não aguentou esperar o tempo necessário no dia 4 de Outubro de 1910 e revolucionariamente disparou um tiro na cabeça, aparecem estas almas simpáticas à procura do subúrbio onde o sol mal chega a nascer! - Está um pouco distante. Como está vai para o centro da cidade de Lisboa.
- Olha para o centro de Lisboa... podíamos ir, já que aqui estamos- diz logo a senhora que se presume sempre nestas circunstância como a sua querida esposa. Com aquele ar e carro era esposa de certeza!
- Mas é longe?
- Bom... Tem que fazer inversão de marcha e depois são uns 10 ou 15 quilómetros.
- Obrigado
Isto é um resumo, pois que as respostas foram sendo repetidas à medida da incredulidade dos perguntantes, bem como à insegurança. Enquanto iam testando a veracidade do informador, lá davam de novo a volta à conversa, "nunca aqui vim", "não conheço nada disto", etc... E vão-se embora.
Não! Andaram uns 5 metros e pararam o carro para instalar o GPS! Matricula francesa pelo que deduzi de imediato, são emigrantes que vêm visitar os filhos e netos que vivem na maravilhosa qualquer coisa chamada Cacém!
Uns cinco minutos depois, o cavalheiro sai do carro, ajeita o cinto e vem até ao pé de mim e pergunta:
- A máquina diz que o Cacém fica a 18,3 quilómetros de distância. Acha que posso acreditar?

Grande lição sobre confiança. Um ser humano transmite confiança, a máquina é fria. E lá se foi quando ía começando a fazer conversa sobre a sua vida, é já ía com 2.300 quilómetros feitos!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Lendo 052

"As paredes estão pintadas de um belo tom indefinível: uma mistura delicada de fumo com suor sobre uma tinta eventualmente branca ou amarela... Os banhistas começam logo por se estender sobre bancos de madeira salazarista (...) " Possidónio Cachapa, in O meu querido Titanic, Oficina do Livro, 2005, pág. 13.

Divido esta frase em dois tempos.
A descrição do espaço público e o absoluto desinteresse a que o mesmo foi votado durante anos a fio. Os anos da revolução e da democracia. Foram anos a gastar o que havia. Ninguém se interessou por actualizar, modernizar ou sequer cuidar. Podia o autor acrescentar as beatas no chão, ou num cinzeiro velho e encardido, de metal e deitado ao comprido no chão e cuja utilidade se poderia definir como mista, pois que alguns entendiam que se tratava de um escarrador. Era a visão de qualquer lúgubre repartição de um qualquer serviço do estado, fosse a simples secretaria, o corredor do Hospital Santa Maria, ou conservatória ou notário. E o banco de madeira que era de óptima qualidade, forte, robusto com décadas de uso, com patine, resistente e, imagine-se até confortável.

E o tempo presente.
Se a visita acontecer após uma "requalificação" temos um branco imaculado, belíssimas cadeiras de plástico, um sonante parquet e até uma máquina para satisfazer as nossas necessidades de cafeína ou outras mais açucaradas. Caso a "requalificação" tenha já uns tempos, há bancos partidos, sem estofos, o parquet riscado e a tinta a descolar. Mas todas estas maravilhas, não sendo salazaristas, são democráticas e com uma evidente marca de desperdício desolador.

Há um estado intermédio que raramente tem convivência.

Dificuldades


Sempre que nos vemos perante um objectivo que nos trará momentos de gloriosos de prazer há sempre uma dificuldade que somos forçados a ultrapassar!

domingo, 3 de agosto de 2014

Ai o Fado...


Ai o Fado...
Esse, o da minha alma.
Que se canta na sombra,
Escondido e magoado.

É um fado que espelha
Uma dor difusa,
Sem cor nem forma,
Longe, na minha alma.

E que importa ao fado
A voz que o canta?
Quando aquele que o sente
Descreve-o num pincel.

É um sentir desenhado
Num preto mergulhado
De quem sofre uma ansiedade
De ser coisa projectada.

E em todos os amanhãs,
Nas marés que retornam,
São um pouco desse mar
Que vive assim cantado.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Lendo 051

" D. Joana Angélica pôs de parte as marmeladas e passou a fazer versos, dizia-se que bons versos à força de martelar as sílabas dos dedos."  Aquilino Ribeiro, in A Casa Grande de Romarigães, Livraria Bertrand, Lisboa 1963, pág 133.

A poesia nasce do ócio. Razão tinha o meu bom amigo que me disse quando lhe ofereci o meu livro de poesia "Vejo que tem muito tempo livre."
Ainda assim a expressão "martelar as sílabas dos dedos" é brilhante, pois ao tempo, século XVII, a poesia era mesmo uma questão de martelar silabas contado com os dedos a sua métrica.
Hoje é mais livre e, talvez, mais poética. Ainda que alguns a confundem com absurda.

Lendo 050

"D. Florêncio redarguiu que o que fazia a fidalguia não só nas terras do Minho como no resto de Portugal era o varão.  Assim o entendiam os reis de armas e com eles os príncipes e senhores. Olha-se para quem é o pai. A mãe basta que seja formosa e honesta, vaso de eleição na pessoa e não no sangue."  Aquilino Ribeiro, in A Casa Grande de Romarigães, Livraria Bertrand, Lisboa 1963, pág 76.

O poder é masculino. A mulher é vaso ( útero, portanto). A ideia carece em absoluto de nobreza de carácter, sobretudo se lida no século XXI. Acontece, porém, que a mesma se remonta ao século XVII, algures por 1670. No contexto da época ganha sentido. Quem faz a gesta é o varão. A segunda dinastia nasce de um vaso diferente seja da Rainha desposada de D.Pedro, seja da Rainha Amada. E pouco importa esse tema, D. João I, é filho de D. Pedro e é quanto baste!

Nota para eventuais entusiastas de histerismos: O tema merece uma reflexão para a época, não para a actualidade. Sosseguem os objectos que sustêm vossos maravilhosos peitos, a não ser que o queiram fazer num ambiente mais privado, então aí desnudem com graciosidade por favor.

Lendo 049

"As mulheres porém não precisam de ser bonitas para serem amadas até a idolatria. Basta-lhes que possuam o quid magnético que chama o pirilampo para a pirilampa através do escuro incomensurável." Aquilino Ribeiro, in A Casa Grande de Romarigães, Livraria Bertrand, Lisboa 1963, pág 59.

Escrito em 1957, em plena maturidade do autor nascido em 1885, explica o amor, não como uma mera atracção animal, mas como um nada da alma que se traduz em eternidade. Esta ideia, que acompanho intimamente, necessita porém de um pequeno acrescento que ainda a engrandece mais. A idolatria que provoca este nada (quid) é generosa, é humilde, é entrega, é, no fundo, a mão de Deus. Assim é absolutamente pura e boa. Não contempla nenhuma maldade. Razão pela qual atinge a eternidade.

Amada uma vez, amada para sempre.


Meditando

"Jovem de 13 anos foge de casa por amor." - Título de notícia de jornal

Quando tinha 13 anos seguramente que, mesmo amando desmioladamente, não teria a a ousadia de fugir para seguir o coração. As pernas eram-me curtas nesse tempo. Quando as pernas começaram a crescer e a viver a possibilidade de assumir esse desejo, começava a coexistir a ideia de como sobreviver, pois que dependia de tudo do abrigo parental.

A minha filha, que conta actualmente com 12 anos, não lhe encontro maturidade mínima para essa opção. Há ainda muito ninho na vida dela.

Resumo: É claramente prematuro os 13 anos. E ainda bem que não é em minha casa, ou junto dos meus. Ainda que sendo uma história de amor, lastimo que os pais da jovem não a saibam acolher o suficiente para ela preferir sair como saiu. Mas da vida de cada um, sabe quem a vive.