domingo, 29 de junho de 2014

A minha cor

Quando nasci deram-me uma cor
Assim como um nome.
E, tal como me fiz a essa graça,
Incendiei-me nessa luz.
E no que vejo,
Assim como o sinto,
Sou-o daquele modo
Como a cor que me deram.

De nada vale o branco,
Ou o preto mudar o tom,
Sou a cor em puro,
Aquilo que me pintou.
Uma luz que se expande,
Que sai e ilumina
Enche a minha alma
E faz-se Sol em mim.

Sou amarelo, pensando-me azul,
Nesse infinito de mar
Onde adormeço a luz.
Numa paleta de mil tonalidades,
Todas as cores de mim,
Dançam por um instante
O tom do meu som.

O dia põe-se,
Mas o Sol também não.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O amor

O amor é eterno.
Uma vez amado,
Fica para sempre.
Não carece do hoje,
Do agora ou do momento.
E o sentido que faz,
É o conforto que dá
Quando a ele se volta.
É um calor que enche.
É aquele instante
Em que se toca na eternidade.
Mais que amar esse Amor,
É amar o Amor,
E ser por um instante

A essência da criação.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Dramas de ocasião

Neste momento do ano acontece uma carnificina de pequenos duendes que, depois de mortos se instalam em plena putrefacção debaixo dos braços da população.

sábado, 14 de junho de 2014

Coisas diferentes

Baleal. Céu encoberto por forte nevoeiro. Temperatura agradável.

Uma família senta-se na esplanada. Um pai e uma criança que estão tranquilamente à espera do resto da família. Chega uma irmã e inicia-se uma muito ligeira troca de mimos sobre os lugares. A mãe da família aproxima-se e logo se queixa do lugar, do vento e da pontada. Acaba por ficar com uma toalha sobre os ombros e costas. Chega uma terceira criança e a família estabiliza nas suas necessidades. Café tomado e com os mesmos modos de quem não gosta de ser minimamente contrariada, agarra num maço de cigarros e ajeitando a toalha em cima dos ombros e do potencial resfriado, lança saudáveis baforadas sobre a assistência. Se beijar seus filhos, dar-lhes-à o simpático odor a beata.
O pai naturalmente distrai-se, pois que, ainda assim, há bonitos biquinis na praia.

Há uma essência do feminino que é prenhe de bizarria.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Lendo 048

"Nesta terra não se querem
Homens vivos sepultados!"

Basílio Gil Fernandes, in Dádiva, 1968.

Concordo. Apenas diria, a fim de dar um pouco de mais força à ideia, "Homens vivos e em pé já sepultados". Ou seja vincar um pouco mais a ideia que ao homem não se deseja a simples aceitação daquilo que lhe é dado a viver. Há que haver ganas para querer mais!

Lendo 047

"Nada mais quero deste mundo
Do que coração para amar.
Um pouco de pão bem acre
Pra beijar e pra comer;
Uma pena pra escrever
E uma unha bem comprida
Para as pulgas me coçar."

Basílio Gil Fernandes, in Dádiva, 1968

Meu caro poeta, olhe que bem tenho tentado meditar na precisão de uma unha bem comprida, seja numa possibilidade física, seja, até como uma figura de estilo, uma ideia, uma sugestão, mas tenho sérias dificuldades em sentir que tenha necessidade de uma unha comprida para coçar as pulgas, mesmo admitindo que as ditas pulgas sejam  incómodos da alma que o arreliem nos mais bizarros locais do seu ser, para o qual se tenha que munir de um perspicácia aguçada.

Lendo 046

"Vâ minhas mãos calejadas
Brancas, simples e honradas
Como se fossem brasão"

Basilio Gil Fernandes, in Dádiva, 1968.

Mais uma vez a figura de estilo. O brasão, peça heráldica que identifica uma pessoa, descreverá pelas figuras que nelas se inscrevem as famílias, e por tal personagens ilustres e honradas que tem essa pessoa na sua ascendência e por tal, no seu passado. Assim se pode entender que as mãos sejam a expressão visual de uma vida de esforço e trabalho árduo, mas o facto de se ter calos não significa que sejam valorizados positivamente, ou adjectivados de modo positivo. Mas aceite-se a figura de estilo.

Lendo 045

"O que é preciso
É o espírito pirilampejante.

De resto
Cada um dá às coisas
A forma que lhe quiser:"

Basílio Gil Fernandes, in Dádiva, 1968.

O espírito pirilampejante é que me deixa em suspenso. Mas vamos tentar deduzir. O pirilampo é um bicharoco que faz barulho e a espaços acende um luz. E fá-lo à noite. Não sei se são estas as características pirilampejantes que o autor nos mima, mas se forem suscitam-me algumas dúvidas que tenham a capacidade de, por si só, atribuírem forma específica à coisa. Mas aceitemos, com alguma boa vontade que se trata de uma figura de estilo, e que o ruído seja o fazer poesia e a luz a vontade de transpôr para a poesia o barulho que nos vai na alma. É, todavia, muito próximo do bizarro.

Edições de autor

Um livro, um CD, uma cassete ou outra qualquer forma de fixar uma expressão diz-se do autor quando foi este que entendeu, por sua inteira responsabilidade, conta e risco, dar pública forma e conhecimento.

Neste tema posso falar com alguma tranquilidade, pois que já me estreei nessa modalidade de exibicionismo.

Dada a minha curiosidade vou fazer um passeio por maravilhas e pérolas dessa arte que são as edições de autor.

domingo, 8 de junho de 2014

Ao Sol.


Há uma harmonia
Nesta cor centrada
Desde o amarelo que enche
À sombra que comanda.
E sombra do amarelo
Veio de outro maior
Também amarelo e redondo
Que me enche de cor.
E rodando a cor,
Rodo, também a sombra.
Ficando a ser a hora
Que a sombra disser
Restos dum amarelo
Que assim a faz ver.

Ser assim.


Fui na demanda da minha arte
Pedaços do que sou,
Daquilo que intimamente me diz
E, toda junta, a expus

Vi-me claramente visto.
Transparente e cheio
Tudo se tornava claro
Assim como evidente

Apenas um fio
Que segue um caminho
Que para uns é obliquo,
E para mim direito.

E quanto ao mais,
Nada fica e tudo passa.
Para quê reunir e juntar
Se apenas somos ar?

sábado, 7 de junho de 2014

Pendurado


Tenho a alma pendurada
Assim, num arame em forma.

E olho-a, desolado.
Quem te assim pôs,
Nessa forma pendurado
Sem préstimo nem futuro?
Esperas o que não vem,
Sem futuro nem quem.

E do passado o que ficou?
Nódoas nas bainhas,
Tristezas minhas...
Nem importa o amor,
Ou o tempo que passou.

Fui eu que me pendurei
Numa forma que não é minha.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Isto apaga-se amanhã






















Retorno ao centro.

Após a aparente serenidade,
Momentos de paz e tranquilidade.
Logo surge o vulcão
E novos modos de tempestade!

É o Mar que não serena,
E a regra do impulso impera.
E a um canto, aflita,
A criança, outra vez desespera.

Nada é fim e nenhum lugar o certo.
Nem o momento o desejado,
Tudo é apenas esse instante,
O de se saber que se é.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

À mulher

À mulher cansa-lhe a face,
E angula-se o rosto,
Seca-se-lhe o olhar
E prende-se nas riscas.
Que, ainda assim,
Lhe puxam os lábios
Para que, honestamente,
Aconteça o encanto do sorriso.
E nessa porta que se abre
Retorna todo o tempo
E o mundo que entra,
É ar do paraíso.

E o usual, vulgar de Lineu