quarta-feira, 28 de maio de 2014

Lendo 044

Tenho especial gosto por este tipo de literatura:

"Consegue voltar para Lisboa a 3 de Junho para estar mais perto de socorros, e três meses e meio depois, defecado, exausto de forças, sem descanço, nem trégua, crendo sempre que era vítima de um reumático agudo expira no meio de incomportáveis dores de um aneurisma da aorta. Foi a sepultar a 19 de Setembro de 1871, (...) aquele peregrino espirito entregou a alma ao Criador, sem que nunca, durante o martírio do seu leito de Procusto, se lhe tivesse ouvido uma palavra praguenta, um queixume insofrido, ou uma impaciência que lhe seria desculpável."

Há lá forma mais pungente, dramática e sinceramente afectuosa de descrever a dor e sofrimento de um amigo que assim morre de um aneurisma da aorta? As letras do século XIX são um mar de entusiasmo, de labor da nossa língua de riqueza linguística.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Abuso melodramático

Dilacera-se-me o coração com tamanho alheamento
Um sinal
Apenas peço um sinal
Um drapejar do lenço
O pestanejar dos mais belos olhos
O suave roburizar das mais doces maçãs do rosto
Um suspiro que seja, pequeno até.
A esperança apenas
Como diria Brel
Deixa-me ser a tua sombra, ou a sombra do teu cão.......
"l'hombre de ton chien" Ne me quites pas
Lanço-me em desespero à restia de misericórdia que possa ainda existir nessa alma
Ouvi esta alma que se extingue por tão grande desprezo
Senhora, saber-me-ás teu e rojado a teus pés como o mais dedicado servo
Que se cumpram em mim todas as penas da humanidade se não houver a possibilidade de um amanhã com a boca mais carmim que meus olhos algums vez ousaram contemplar
Que se encerre o céu e a luz se a maus olhos não puder acontecer a contemplação do belo
Sem pinga de sangue, toca o meu coração uma pancada oca e ecoa esse som por todo o universo onde haja almas que se amem.
Como poderá o coração bater se nada já corre nas veias
Sou um espectro que percorre o caminho impossível para o fim

terça-feira, 20 de maio de 2014

Um valsa

E dançava a valsa.
Tomava-te nos braços,
E rodava o teu corpo,
Pela cintura seguro.
Verias as estrelas,
Todos os sóis.
E só sorririas,
E voltarias a dançar,
A rodear sobre mim.
Solta, sem peso
Apenas no som
Ás voltas
Sempre
E sorrias
Sempre.

E no final...
Não há final!
É um sempre
Enquanto durar a valsa.

E acontece assim

Rios de coisas,
Tudo a correr veloz,
Passando como mel,
Os engulhos do caminho.
E passa tudo,
Do princípio ao fim,
E volta ao princípio.
E o que fica no meio,
Não fica sem fim,
Voltará também
Ao princípio do fim

Incómodo

Ai o que m'apetece...
Nem sei se é d'alma,
Se de emoção
Ou, até, de coração.

É que é incómodo
Sentir vontade de mais,
Como que de partir
Nem que fosse de mim.

E nem sei onde ir.
Apartar-me do que está,
Do que parece ser,
E voltar ao que permanece.

Liberdade

Vivo as minhas penas.
Tudo o que resta é passado,
O único e possível
Porque é o que existe
E que aconteceu assim,
Tal como tinha de o ser,
Pois que o hoje é já passado.

E nem sei se tem liberdade
De se ser como foi,
Ou algo variado.
A liberdade não é antes,
Nem depois.
Vive-se durante.
E nesse tempo,
Acontece o passado.

Resulta, então,
Que a pena,
É reflexão posterior
Daquilo que ficou do instante
Da ilusão da liberdade
Que instruída pelo eu,
Nele se matou,
Pois só é possível depois.

E o depois não existe.
É construção.

Lendo 043

"(...) parece que o Governo decidiu, como não lhe eram dadas condições de estabilidade, auto-suspender-se, entrou em greve."
Fernando Dacosta in Sequestraram o senhor presidente, Relógio D'água, 1983

A ideia subjacente a esta frase que já a tinha ouvido em vários locais e de modos diversos é de uma imensa curiosidade, pois que o Governo, tal como o conhecemos no Portugal de 2014 ( assim como o era no de 1983) é o orgão do poder executivo. Ora se o poder executivo se suspende, deixa de haver poder. O resultado seria a anarquia ideal. Não havendo poder, este tombaria onde se pudesse fixar, pois que não existe vazio de poder. Alguém se apropriaria da voz de comando. E a questão da legitimidade seria a história seguinte.
Mas, e voltando atrás, quando o poder se suspende é o mesmo que desertar, é fugir às responsabilidades, seham elas boas ou más, foram aceites. Em Portugal tivemos vários casos ilustrativos deste tipo de fugas. Umas evidentes, declaradas, outras encenadas. Seja em tempos de paz, seja em tempos de guerra. E a fuga não engrandece ninguém. Em circunstância alguma, nem por nenhum valor. Os últimos casos deste tipo chamam-se Vítor Constâncio, António Guterres e Durão Barroso.

Lendo 042

"Mantém a sua negativa?
"Sim, claro!"
Fernando Dacosta, in Sequestraram o senhor presidente, Relógio d'Água Editores, 1983.

Adoro estes contrastes de linguagem. 

Lendo 041

"- Vejo que não houve alterações na vossa posição...
- Não Senhor Presidente, não houve.Pelo contrário"
Fernando Dacosta, in Sequestraram o senhor presidente, Relógio d'Água Editores, 1983.

Esta pedaço de texto é absolutamente maravilhoso. Consegue transmitir a eloquência argumentativa de um determinado grupo político dado a extremos de contradição. Uma pérola.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Memórias bizarras

Tenho uma memória de galinha. Perco as memórias com uma imensa facilidade. E as da minha meninice foram as mais fustigadas. Vazio. E por bizarro que seja há uma coisa que me lembro com imensa clareza. A dificuldade que tive, miúdo, muito miúdo, em fazer um exercício gráfico que consistía em unir pontos de modo a fazer sucessivos "f". a linha segue, sobre, faz o desenho de um "l" e depois desce fazendo esse "l" para baixo e segue-se repetindo. E, sendo um exercício tão fácil, conseguia enganar-me.

Um dia, que não sei quando foi, entendi a lógica do movimento. Nunca mais deixei de o fazer e perceber porque é que era assim que se fazia. E ainda hoje me espanto pelo meu espanto na descoberta da lógica implícita do desenho.

Coisas que ainda hoje me valem. Não me dou bem bem com esquemas de repetição, mas sim com coisas que entendo. Depois de entender posso executar as repetições.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A meia idade

Cheguei à meia idade
Como assim se diz,
E da metade passada
Ainda não me refiz.

Diz-se que há coisas
Para uma certa idade
E eu, na ignorância,
Fiz o que sempre quiz!

Vou, então, tomar ar austéro.
Ser sóbrio e ponderado.
Quiça até envergonhado
E aprender a ser enrugado.

Mas, se por acaso sonhar,
Ousar e até folgazar,
É melhor não ligar.
São meras recaídas.

É que sendo o tempo circular,
Há vezes em que me distraio,
E volto ao outro tempo,
Donde, no fundo, nunca saio.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Desconcertante

O que é um covil?

A resposta certa é uma cova de feras. Porém existe uma resposta absolutamente parva e desconcertante a saber covil é um rabo infâme, torpe e que degrada o homem. Acontece, porém que mesmo seguindo o acordo ortográfico teríamos que escrever cuvil. Assim é uma graçola que funciona apenas na oralidade.
De pouca conta, insignificante, pequeno; pobre, mísero; mesquinho, humilde.

"vil", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/vil [consultado em 14-05-2014].

Curiosidade cruel

Um dos livros que relato vinha ainda com as folhas fechadas. Por abrir, portanto, peloq ue tive que munir do devido apetrecho para descortinar a necessidade da unha bem comprida e o espírito pirilampejante.

A parte cruel é que o mesmo foi oferecido com uma vistosa dedicatória

"Aos esposos Cavaco Gonçalves cordeal e afectuosamente, Queluz 7 de Maio de 1968." e os esposos não se deram ao trabalho de receber e entender todo este cordeal afecto.

Livro 2

O segundo livro que comprei é bastante mais consistente. Não deixa, contudo, de ter aqui e ali uns belos apontamentos:

"O que é preciso
É o espírito pirilampejante

De resto
Cada um dá às coisas
A forma que lhe quiser"

ou

"Nada mais quero deste mundo
Do que um coração para amar.
Um pouco de pão bem acre
Pra beijar e pra comer;
Uma pena pra escrever
E uma unha bem comprida
Para as pulgas me coçar.

De resto
O que mais tiver
Será sem o desejar..."

Uma unha bem comprida??????? Nunca senti falta de tal.

Assina Basílio Gil Fernandes e escreveu esta Dádiva em 1968.

Novidades

Comprei na feira da ladra dois livros de poesia. Livros de autor, tal como eu publiquei o meu, pelo que foi um pouco como que a estimular esta troca de intenções poéticas. Contudo, lastimavelmente existe um contudo, um dos livros é absolutamente diferente. Chama-se Pão Ázimo e o seu autor é um avô que dedica este opusculo à sua mulher, aos seus filhos e aos netos.

Vou transcrever algumas passagens para deleite de quem se entretem neste espaço:

"Não custa ao vil a mentira,
se for de jeito mentir;
nódoa posta não se tira,
enquanto o pó a cobrir."

"Errar é como cair,
todos caímos sem querer;
tanto se cai a subir,
como se cai a descer."

"Devagar se vai distante,
mais ai dos fracos vencidos!
Os fortes vão distante,
atrás, ficam os caídos..."

e temos também ideias também um pouco diferentes, é todo um mundo conceptual que se abre. Por exemplo  "não dá frutos a verdade", "é vesga a verdade" e "é turva a própria verdade".

Vivendo e aprendendo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Lendo 040

"Acreditar é sentir
a verdade meditada;
muito se arrisca a mentir
quem não é certo de nada."

António Dalmour, in Pão Ázimo, 1971

Este verso tem poesia nas duas primeiras frases, pena é tropeçar na conclusão atribuída pela terceira frase.
A verdade meditada é um conceito aceitável em poesia que se pode chegar pelo facto que após a meditação sentimos a verdade e dela fazemos fé, acreditando no que meditámos.
Mas quem não é certo de nada, é, tão somente, quem não meditou, pelo que não sentiu essa verdade, logo não erra, pois que não agiu por dedução do pensamento, mas antes agiu por reacção e isso não é erro, é ignorância.

"Acreditar é sentir
a verdade meditada;
muito se arrisca a cair
quem não é certo de nada."

Mantem a primeira afirmação e cair casa melhor com questões de fé.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lendo 039

"Engano. Julguei que regressava.
Não se regressa."
Rui Knopfli in Da Memória

Nunca somos os mesmos. Nada se repete. Tudo é diverso. Somos inovação sempre, tudo é caminho.

domingo, 11 de maio de 2014

sábado, 10 de maio de 2014

Amanhã

Amanhã que virá,
Diverso do agora,
Serei o mesmo,
Ou o outro, de outrora?

Se o tempo passa,
Sou outro, por certo!
Mas sendo o mesmo
Sou-o diverso.

(Nota: Vagamente pessoano. Tão vagamente que me sinto a fazer um plágio descarado!)

Ás vezes...

Ás vezes canso-me de mim.
É que já não tenho novidades.
Sou-me sempre o mesmo.
E sem sequer ter diversidade!

E sem esse acrescento,
Repito-me suspirando...
Que triste insistência
De me pensar desoladamente!

Comunicação do amor

Quando me deitava,
Serenamente a teu lado
E, a tempos, falávamos
Daquilo que ousávamos.

No ar que se enchia,
Havia um nós que se erguia.
Feito do sentido silêncio
Entre cortado pelas palavras.

O tempo não tinha fim.
O princípio era o momento.
Na comunhão do silêncio
Acontecia comunicação

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O passado

Trago o ontem comigo
E até o que vem antes.
Todo o passado
Pesa-me sempre

E chega a futurar-se
A dizer-se assim
Como se fora tábua de lei
Tudo certificado.

E é mais que passado
Não como restos de mim,
Mas vida vivida
E mais uns pedaços, enfim.

Há dias assim

De um momento para o outro abre-se em jorro as goelas e tocas de escrever sem amanhã. Esta mania de não aguentar as coisas dentro de mim e desatar a pensá-las por escrito começa a ser um vício.

Expectativa

Abre-se a expectativa
E nela tudo cabe.
Da realidade ao sonho,
E até a ilusão.

Tudo fica possível
À mercê de um desejo,
Uma qualquer vontade.
Basta, apenas, querer.

E cresce em emoção
As ganas de acontecer.
A possibilidade criada
Nessa vontade animada.

Pobre cravo

O Cravo

Pobre cravo
Que foste enganado
Tiraram-te a flor
E declararam-te revolução.

E mancharam-te de cor.
Já não és branco ou azul,
Obrigam-te a ser vermelho
Como se fosse uma maldição

Passaste a argumento
Ficaste sem noiva
Nem sequer casamento
Apenas uma vaga ilusão

Deixaste de ter cheiro
E viver a primavera.
Reduziram-te a um dia.
Que se passa na lapela.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Meditando

Um resumo grosseiro e imbecil, ainda que muito próximo da realidade da sociedade actual.

Alguém entrega um conjunto de euros mensalmente em troca de tempo. Assim que isso acontece abrem-se as portas a toda uma cáfila de tenebrosos seres que vão inventar as mais sádicas e horrorosas formas de conseguirem retirar os euros onde quer que os coloquem dando uma impressão de felicidade e satisfação.

E é um ciclo sem fim. Quando se pára e se percebe que na realidade de nada disso se precisa ficamos tão desoladoramente tristes que parece que não temos nada a ambicionar, pelo que não é necessário ter um amanhã, viver o dia seguinte do calendário. Mas sosseguem, é passageiro! rapidamente nos voltamos a alienar com mil necessidades, desejos e virtuosidades a ambicionar.

Eu vou só ali morrer e já volto.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Ai se eu rebentasse


Ai se eu rebentasse 
Que seria de mim?
Ficaria assim dividido?
Mil ínfimos pedaços...

Era como um grito
De uma dor que não cala.
Que vive intensamente
A ansiedade de se ser mar...

De ter força violenta
Azul forte e temperado
E ficar chão e manso
Da lua dependente.

Ai seu eu rebentasse,
Que outro mar se abriria
Da alma então suspenso,
E somente cor restaria.

Cinco Minutos

Quando aqui cheguei
O tempo era certo.
Meia dezena apenas,
De minutos, é certo.

Passado tanto tempo,
Esse tempo tão certo
Fica absurdamente incerto.
E são os mesmos cinco minutos.

Leio-me

Leio o que escrevo
E leio-me.
Entendendo-me mais.
E chegando aí,
As palavras despem-se
E ficam autónomas.
Deus fica só uma palavra
E o resto é imensidão.

A nós

Sempre que me sorris
Vale sempre em dobro.
É a tua alma que transborda
Para dentro de mim.

E quando rimos,
Imaginas o somos?
Um enorme mar que se alastra
Para o nosso estar.

Do que se é.

O que sai de mim,
Não é meu.
Chegou-me emprestado
E assim devolvo.

E se nada é meu,
Nem o fado criado,
Como pode, então,
Ser meu, o resto?

Apenas vivo o alheio
Como se fora meu
E dou-lhe o que tenho,
Este sopro emprestado.

A memória

É como um velho ansião
Que retorna ao momento
Em que o mundo nasce
E nele se revê.

Não há mais passado
Que o seu mundo
Onde tudo cabe
Até o que lhe falta.

E vive para o futuro
Para encontrar um mundo
Onde, no centro,
Encontre esse lugar.

De volta ao paraíso

E se outra vez te abraçasse?
E assim levemente tocasse
Os lábios nos teus lábios?
Como numa inocência primeira.

Sei que nos meus olhos veria
Uma lágrima escondida
Da emoção amada
Desse beijo desejado

E parava o mundo,
O tempo e as vontades.
Viveria a eternidade
Desse momento.

E desse beijo beijado,
O amor amado,
Como a primeira vez,
A única vez.

E nas réplicas desse desejo
De retornar a um passado
Desse amor amado
E desse beijo beijado.