quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E o outro?

Há um amor que se expande,
Uma parte de mim
Ultrapassa-me a alma
E fica outro.

E esse outro que amo,
Que quero junto a mim,
Que abraço longamente
E em silêncio contemplo.

E de olhos fechados sinto,
Os lábios que vejo sorrir
Os olhos a brilhar
E o corpo a tremer.

É o outro que também ama?
Ou sou eu a querer
Que me ame como eu amo
O outro que já vive em mim.

Olhar infinito

Ao longe vi a tua mão.
Aquela com quem converso,
Que sigo atendo
O dançar dos dedos...

E quando pára, aberta,
Pouso o meu olhar,
Tombo a cabeça
E parto a sonhar.

Que sem palavras vamos,
Mão na mão,
Num caminho infinito
E que não tem fim.

A mão que levo
Entrelaçada nos dedos
Deixou de ser a tua
E tornou-se, também, a minha.

Ouvindo música

E, com a disposição com que estás vejo-te com a cabeça encostada a uma janela, estando frio e chuva lá fora. O cenário é um mar revolto que vai e retorma em imensa espuma.

Olhas para fora sem procurar nada, sem pedir nada, apenas deixando o olhar vaguear num desconsolo de alma feminina que nem sabe do que é.

Ah… e o cigarro que fumas mescla-se com a chuva e as nuvens de fora, dando ao cenário todo um cinzento que é o da alma.
E depois desembrulha-se, afasta-se… retornonando o olhar, melancolicamente à janela.



Nunca se sabe o que o mar diz, mas que nos fala, fala. E é tão grande companhia que não há desconsolo que o mar não entenda e nos dê a mão. E fica-se junto, sem palavras, sem confissões, apenas de mão dada ao mar.

Um brinde Nazareno


Hoje no autocarro.
Assim que foi sendo possível, os traços foram acontecendo. Depois achei graça mostrar à desenhada o resultado. Ela gostou e depois ficamos a conversar agradavelmente.

O dia ficou diferente. Melhor, claro!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

E mais uma


Uma aguarela retocada.

Do sonho

Vou viver para o sonho.
Onde a vida é surreal
E tudo nasce em mim
E comigo me espanto

E aí até me entendo
Me descubro e me rio
De como me digo
E o que descubro.

E depois não acordo,
Não esqueço o que vivi,
Estou sempre lá
A surpreender-me.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fora do Tempo

Dias sem eternidade
Deixam a alma vazia,
Sem serenidade,
Apenas com a solidão.

Não há memória no tempo,
O fim é de tudo.
Fica um lastro que se apaga
Com o virar dos anos.

E nessa outra eternidade
Cheia de um nada,
Apenas vive no ser que a anima.
E que a diz por si.

Numa corrente de ar
Apaga-se o sopro
Fica-se sem passado
Porque não há futuro.

Do tempo todo e sentido
Não vive a memória.
Não se faz outro
Não vivem almas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Efeito solar

E o Sol irrompe
Por entre negras nuvens
Tudo se pinta onde pára
Com cores de sorrisos mil.

Seja um amarelo forte,
Um laranja pálido
Ou um salmão leve,
Mas nunca branco.

Branco é sem cor
É puro e leveza
Não como a luz forte e criadora
De um poder que derrete.

A alma ou a intenção
De não se ser ou querer,
É fogo que anima
Que expande e explode.

Assim se espalha no chão
À mercê de qualquer olhar
Que dele se enche
E o leva na alma.

Sorriso roubado

Menina de boca em linha
Quem te roubou o sorriso?
Foi dor no nascimento,
Má forma da criação,

Ou aquele outro beijo
Que no amor te levou
A carne dos teus lábios
E o sangue do coração.

Ó menina, tão menina...
Levanta as tuas rosetas
E enche-as do que vale o amor
Que a vida é todo o amanhã.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Coisas curiosas

Num email, como tantos que chovem na caixa de correio, vinha a publicidade a um livro cujo nome era o seguinte:

"A menina que fazia nevar"

Há duas vertentes desta título. A que é menina e que faz nevar, que promove o espectáculo e a beleza do esplendor da neve. A que faz rir todas as pessoas. Que dá alegria, satisfação e antecipa felicidade.

Há, depois, a vertente de adulto, mas, e a rigor, já não é a menina, é a mulher que faz frio, que congela, que fica estática, que arrefece, que molha tudo, que é desconfortável, que bloqueia a vida normal, que impede a liberdade de movimentos. A que nem sequer é branca, não são flocos.

Como é bom o mundo feito de crianças e do seu mundo!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Engrançado e triste

Vejo uma jovem bonita, engraçada fresca e pergunto-me: Que pode desejar esta mulher?

A resposta é naturalmente encontrar um parceiro ( que em tempos seria um marido) e passar pela experiência de ter um filho ( aqui seria construir uma família). Nos seus olhos e expressão há uma ambição de futuro. O seu corpo é expressão dessa intenção. Futurizar-se... Tenho alguma dificuldade em utilizar a expressão de ser para um outro, pois que cada vez mais encontro uma relutância na dimensão de entrega nas mulheres. Um filho é um desejo cuja intensidade está a perder a sua essência, e começa a ser, cada vez mais um coisa que se quer fazer, assim como uma viagem ou outro objecto qualquer...

É, indubitavelmente a desumanização da procriação.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O nosso mundo

Vivemos na absoluta tirania do mundo do eu. Acabaram-se as boas educações, o respeito, as hierarquias e, até, a base moral da convivência.

Meti-me numa conversa sobre o aborto com umas histéricas extremistas e nem uma única palavrinha sobre uma mínima circunstância que nos é completa e absolutamente alheia, o dom da vida. Só interessa se a noite ( a fatal presunção das princesas desencantadas) foi boa ou má. Se o estupor do espermatozóide, esse bandalho, esse terrível imbecil, esse canastrão, entrou dentro de um sacrossanto óvulo que, coitado se encontrava absolutamente à mercê desse violador machista agressor! Se o menor dos bons sensos recomendaria o uso de um preservativo, nem sequer pelo efeito de contracepção ( outro horror diabólico!) mas, diria mesmo, que pelos mínimos de preservação da saúde, as fêmeas de serviços devem achar que esse saco de plástico é um atentado à sua privacidade!

Para lá do absurdo supra exposto, importa parar um pouco e entender de que é que se está a falar. Não é de uma sessão de sexo. Não é da liberdade.Apenas que uma vida foi gerada. Aconteceu o milagre da vida. Está ali um ser humano. Ninguém muda a vida. A minha vida, a dos meus filhos, a da minha mulher, a dos meus pais, a de qualquer dos meus antepassados pode ter sido o resultado dessa noite de mau sexo. Mas foi por ela ter acontecido que aqui estou, tal como os meus filhos e os outros que são a história do meu existir. Ninguém tem o direito, ou a autoridade para a interromper. Seja em que momento for!

Mas, e de repente, fruto de um egoísmo exacerbado, diria mesmo um egoísmo absolutamente terrorista, o eu passou a determinar todos os outros de forma cínica, fria, calculista, racional e desumana. Interessa antes de mais nada, as minhas ancas, o meu pipi, as minhas mamas, o meu cu e mais que não me apetece escrever! Já não chega o homem ser companheiro, amigo, dono de casa, cozinheiro, homem-a-dias... E assim, com esta leviandade a natalidade é hoje um terço da geração em que nasci. Sendo o quarto filho, hoje não teria nascido, assim como mais dois dos meus irmãos. Talvez somente a minha irmã.

É toda uma escalada inversa ao conhecimento humano. Cada vez que mais se sabe, menos se reflecte esse conhecimento na acção. Impera a lei do eu e do meu prazer!

Como ser humano, como pai, como marido e como cidadão não me revejo nessa "evolução" do homem. E tudo, vejam lá. por respeito ao próprio Homem.

Tolerância ou sabedoria?

Isto de me ir aproximando do meio século de vida tens as suas consequências... Tudo vai ficando bastante mais distendido, mais suave. Será que é a nossa tolerância que aumenta ou o facto de já termos percebido como é que os filmes terminam? Será tolerância ou sabedoria?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Em estado de acelaração

Arrastando-me entre compromissos, assim como casas que se vão construindo, lá vou para mais um estágio.

Diz o ditado que quem corre por gosto não se cansa, o que não é verdade, cansar, tudo cansa, a questão é mais quem corre por gosto sempre alcança. E alcança, satisfação, gosto, realização pessoal, sentido de vida... enfim, e disso gosto muito!

Há dias assim

Ontem estava um dia tão cinzento que me senti novamente em 2013 e em Novembro. Janeiro é mês para se ter frio e não para andar encharcado e a fugir ao vento.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Vou no vento

Hoje vou no vento,
Aquele que uiva-me à janela,
Que abana os vidros
E arranca árvores.
E dá vida às coisas
Fá-las dançar no ar
Assim como ideias.
E venha rajada de chuva
Que lave o que não presta
Apague as manchas
E aí nasça um rio
Que vá em torrente
De encontro a um mar
Que se agita pela Lua
Que sopra este vento
Que me uiva à janela
E me faz sorrir
Pelo que solta de mim.

E se eu voasse com ele?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A arte e a desarte

Em tempos que se perde já a ideia de quando é que aconteceram era comum dizer-se que os artistas eram incompreendidos e que eles procuravam exprimir o seu desajustamento perante a "sociedade" que enquanto um todo normativo lhes bloquearia o bem estar. Daqui vinha a irreverência e o experimentalismo e as afirmações mais remotas do que pudesse haver. Tudo era aceite por via desse lado de eventual expressão artística.

O mundo foi evoluindo e a dita "sociedade" foi perdendo o seu normativo, vivendo cada vez mais num limbo onde pouca coisa pode ser considerada não conforme. Passamos a comer com as mãos, seja pizzas ou hamburguers. O aborto passou a ser glorificado em nome da liberdade de escolha em vez da sequência de um acto. O casamento, raiz da família, deixou de ter valor intrínseco e passou a ser uma circunstância da qual se muda em função de apetites. A natural regra de dois sexos foi substituída pela obrigação de se "sair do armário" e assumir-se, se lá o que isso represente.

Com tudo isto, no mundo da arte passou a haver um verdadeira conformidade com este normativo amoral. Perdeu-se, em absoluto, a substância das coisas e vive-se numa adoração da aparência estética.

A questão fulcral é saber se é passageiro...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Deixar-me ir

O chuva cai forte. É Dezembro e é tempo disso mesmo. Não há novidade. Até pode haver frio. Na rua corre um ramo de água que se faz como um rio que desce de qualquer montanha donde ela nasceria. E desce veloz fazendo caminhos e linhas de perfil. Olhando parado, só vejo passar bolhas de ar e pequenas coisas da cidade. Acompanhado a velocidade da água, vejo barcos a descer a rua carregados com marinheiros e segurar o caminho até ao destino.
E saio de onde estou, o Sol aparece, a temperatura sobe e estou de calções a brincar num outro fio de água numa casa noutro Verão onde ainda era garoto!
Que viagem esta! Até me sinto molhado!

Ser agora

No momento do novo Ano
Recebi todo o Amor.
Toda a terra girou
E também fui nesse esplendor.

O homem que há em mim,
Virei-o do avesso.
De que vale o tempo novo,
Se não acontecer um recomeço?

Alma do Amor nascida
E nele confiante,
Que num futuro se confirma,
Dele se faz coisa substante.

Na união de todo o tempo,
A comunhão da eternidade,
Ser criado e criador por Amor,
O sentido de ser este agora.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ano Novo

E já foi... terminou!
Enrolado e sem saudade,
Embrulhado e escavacado,
Sem olhar para trás.
Não! Não é assim...
Há um eu que nele fica,
Pedaços de minutos,
E também horas,
Até alguns dias.
Mas foi tempo de futurar
Dizer que sim ao amanhã,
Que entra pleno de vontade
Como se fosse algo diferente
Carregado de promessas
Vontades para todo o Bem.
Tudo em sentido pleno
Ser Deus em cada homem.
Viver a humanidade.
E o tempo segue, implacável
Fazendo novos dias,
Novos futuros de hoje
Que serão memórias
Reflexos do que se conseguiu
Do que se ambicionou
Do que passou e marcou
O tempo que findará
No seu ciclo que se conta,
E, sobretudo, se renova.
Assim, seja então...
Renovado e recriando.