quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Nostalgia

Somos uma geração nostálgica.
Uma geração que tem saudades de um tempo que já passou e não volta. Mas passou esse tempo, mas o que jamais passará é, não só o que nele vivemos, como a intensidade com que o vivemos.

Sentimos uma calorosa saudade que projectamos não só nas música que voltamos sempre a ouvir, mas fazendo fugas ao tempo e revivitando a nossa memória para lá reencontrar o nosso tempo de sermos Adão e Eva num imenso paraíso.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Aforismos

"Não há futuro sem integração do passado e aquele que escolhe o passado fica, naturalmente, sem futuro."

Não sei se alguém deduziu isto antes de mim ou se é uma máxima de outro. Para mim tem todo o sentido e é quanto me baste neste ponto. Já basta os nossos "in"voluntários apagamentos da memória para, em momentos chave, entender que estamos a cair em erros grosseiros. E coloco o "in" entre aspas, pois que há vários tipos de ser involuntário, a saber, uns que dependem do nosso esforço para assim acontecer, e outros, mais dramáticos pelo duplo sentido que pode ter que é o efectivo apagamento da nossa memória activa. Escolher o passado é viver uma mentira. E viver essa mentira é, em absoluto, ter um objectivo para o que fazemos e agir de modo falso perante o mundo, pois que perseguimos esse objectivo e não a vida.

Conviver, então, com este tipo de devassa moral é um tormento insão. 

Ainda voltarei a este tema, pois que é um tema que me rasga a alma.

Nostalgias

Ao despique numa luta de todo o tempo a ouvir balada atrás de balada, música atrás de música que é difícil parar.

Não há tempo para parar, nem para ficar cansado...

Ai no que me calha a mente

Ao sair do autocarro recolhe da caixinha de acrílico um aviso. É bom manter-se informado e, num transporte colectivo como aquele, seguramente que a informação lhe interessaria. Transporte de massas, informação de massas.
Salta para o passeio e dispõe-se a ler o aviso. Uma exposição. Pela foto que ilustra o convite ou informação é, pela certa, uma daquelas novas exposições em que a descodificação dos objectos expostos se deduz e abre caminho a percursos diversos. Assim sendo, começa entrar no espírito da imagem e inicía a sua crítica.

"A autor utiliza os padrões cromáticos de modo integrante da paisagens imagética de um real que transporta do seu universo criacional para o suporte fisico".

Volta ao impresso e lê: "Atlier infantil de conto."
Desolado, sente o fim da sua promissora carreira de crítico de arte.  

Encantado

Era tão jovem, tão jovem que ainda contava o tempo pelos meses na expectativa de poder vir a atingir as duas centenas.Não só tinha toda uma vida pela frente para usar e abusar, como o corpo todo para a experimentar. Desde os gestos, ao andar, o rir e brincar, era tudo o que era de esperar para essa idade.
E num dedo da mão brincava ela com um anel prateado. E digo anel, pelo modo envolvente a carinhoso como o fazia rodar no dedo, pois que poderia ser confundido com uma vulgar anilha de um motor ou electrodoméstico.
O gosto com que o exibia lembrou-me fazer a pergunta da razão de ser do aro prateado.
- É o anel de comprometida! - diz com a grandeza de que afirma que todo o mundo lhe pertence.

É tão bom o Amor!

Ditados que desconhecia

Hoje ouvi o ditado que passo a transcrever:

"Não faças mal ao teu vizinho que o teu já vem a caminho."

Há lá coisa mais brilhante que este aviso à soberba, à prepotência, à altivez, à arrogância, enfim a tantos outros maus hábitos, maus modos e afins que um sem número de vezes nos invade a vontade do que o aviso que o mundo é composto de equilibrio e o que se dá é o que torna.

Há que rico povo cuja milenar sabedoria me encanta!

Caprichos

Conheço um cão. É um cão com caprichos. Um deles é o capricho de andar de rabo alçado, levandado mesmo, cheirando todos os rabos com que se cruza. Com alguns chega a sair em passeio.

Paradoxos

Há gente que passa uma vida produzindo peças, juntado coisas, fazendo um património, um legado. E no seu juízo são obras suas. Património. Valor. Até pode achar-se arte.

Os descendentes olham. Sacodem os ombros e encaixotam.
Os descendentes destes não abrem os caixotes.
Os que vêm depois limpam os sotãos.

Somos pó e ao pó voltamos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Do amor

De mim me exilo,
E confirmada a sentença,
Sem recurso nem desagravo,
Fui-me de mim.

Levo o meu passado,
O tempo e o caminho.
Deixo a paz,
A vontade e a execução

Volto a projecto,
Sempre em embrião
Do que nunca falece
E vive eternamente.

De tudo o que pode ser
Do que é e do que foi.
O que dá sentido
E que é sempre

O Amor.

sendo-me

Já não sou eu
Nem sou nada.
Nem o que digo,
Nem o que escrevo.

É a vontade a cumprir-se
Ser o princípio e o fim,
Ser o ser
Sendo-me nele.

O ser que se afirma

O verbo fica no caminho,
São vontades para cumprir.
Vêem de uma alma por estrear,
Em todo um mar por navegar.

É um eterno presente
Que prepassa todo o tempo.
Sementes que ficam da criação,
Que se cumprem neste tempo.

E não se cumpre neste agora
Nem noutra promissora miragem.
Apenas um todo que se confirma
Tudo num momento que é sempre.

domingo, 24 de novembro de 2013

Do poder



Este pequeno filme, feito com a mestria absoluta de Herman José, traça de modo absolutamente hilariante o desejo dentro de cada pessoa de se sobrepor ao outro/outros pelo simples nada de se estar a ocupar uma função que visa uma parte da sociedade civil.

O indivíduo deixa de se ser fulano e passa a ser o presidente da junta. A diferença é tão mais crucial como a riqueza da nossa língua assim o determina, pois que a rigor ninguém É o presidente da junta, mas ESTÁ presidente da junta.

E estar presidente da junta é servir no que ela precisa. A noção de servir, de se ser serviço, que só é possível quando se tem um apelo para o outro, para a caridade, a noção de dar sem esperar nada em troca, é o ponto cada vez mais essencial do viver do homem.

Sigo, obviamente, a mensagem e sentir do Papa Francisco, que afirma que temos que ser para os outros.

Teatro e a criação

A falar sobre teatro e de como uma peça pode morrer pelo simples facto de ter passado tempo, e por tal tornam-se inverosímeis ou impossíveis. Passa-se que essas peças descrevem um tempo. E apenas nesse tempo o drama da peça faz sentido e que fora dele atinge patamares de irrealidade, pois que o mundo já não se coaduna com o passado, nem sequer o absorveu. Morreu o tema. Deixou de ter sentido.

Estas reflexões vinham a propósito da a trilogia de Frederico Garcia Lorca "Yerma", "A casa de Bernarda Alba" e "Bobas de Sangue" e é um facto indesmentível que dificilmente o drama que em cada uma se coloca teria sentido nos dias de hoje, à excepção da última, em que o drama se repete, sendo que não pela carga dramática de Lorca, mas mais pela concupiscência das almas, mas isso é outro departamento.

Os dramas de Lorca nascem em momentos em que a mulher adquire uma carga fundamental, quase fundacional nos ambientes e não é pelo peito exuberante, pela beleza extraordinária, pelas ancas desenhadas ou pelas pernas delgadas, ou seja não é o corpo visível, evidente e expectável da mulher, mas é a mulher útero, uma mulher mítica que, de certo modo, é a reguladora da criação e, por tal obriga-se a agir de modo a certificar o sentido que esta deve ter. O homem, quando determina uma vontade expressa, deixa de existir.

Tenho uma memória longínqua e distante da existência de universos como o das peças, mas o conhecimento é, acima de tudo, cultural e não de experiência nos mesmo, e mesmo assim, ler estas peças foi sentir o frenesim, a electricidade que elas geram.

Resumindo. Ainda que o universo de enquadramento das peças do Lorca seja impossível, o seu drama situa-se noutro patamar. Também é verdade que cada vez menos mulheres são capazes de atingir esse patamar. A natureza das mulheres está a perder a sua pujança criadora pois que cada vez mais se aproximam do homem.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cuidado

Não ouse!
Não pense
Não faça nada
Fique onde está.
Tira a mão,
Suspenda a intenção
Vá para dentro
E cale-se!

Está aqui a grande certeza
A suprema verdade
De toda a ilusão
Que te diz não!

Do ser humano

De obra da criação, ser pensante, motor de um mar de transformações da natureza que vieram a produzir um outro homem, com mais habilidade e capacidade para apreender e conhecer o que o rodeia. Esta coisa que é ser humano quantas vezes se prende em nadas?

O cego amor próprio, a ausência de capacidade críitca, de reflexão interior constrói cenários onde, não se revendo, desenvolve todas as justificações para o mundo, diabolizando-o.

Manifestamente tenho uma imensa dificuldade em lidar com esta gente.

Para que o mal vença, basta que o Bem nada faça. Corrói-me a alma ser testemunha dessas vitórias.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

pedinte

Estendia a mão para além do corpo. Ficava quase suspensa no ar. Tão longe daquela massa corporal que se erguia. A mão ficava no ar. Flutuando. Suspensa.
E pedia. Pedia sem saber o quê, nem já sequer porquê... O vício de estar de mão estendida, de viver de mão estendida.
E é uma mão que apenas pede o que jamais se alcança na sua alma.

Afecto.

Da tradição

Há quem venha vender-nos todo o tipo de ilusões, nomeadamente uma ideia que que a tradição era o era, sendo que num nuns casos vale por ainda o ser e noutros por já não ser o que era. Coisa confusa? Nem por isso, apenas o interesse do marketista em vender a sua ideia. Contudo, e para mim, a tradição era a Avenida de Roma ser populada por betinhos e isso, meus caros já não é o que era....

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Desanimo

Mais uma amiga, mais uma, com o cabelo a desfazer-se e a cair a rodos. Consequência do tratamento.

E olho para os seus olhos e percebo que por trás está uma imensa tristeza, um desamor maior. Como uma mão que se solta. O sorriso que fica na cara é sofrido, marcado, triste.

Não questiono a mão de Deus, nem as suas determinações. Agradeço que não seja a familiares próximos. Mas sempre que olho aqueles olhos fico com vontade de dar um imenso abraço e de algum modo dizer-lhes que as amo e que aconteça o que acontecer elas são sempre belas, lindas, charmosas, flores, perfume e brilho. São mulheres sempre.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Dos meus amores

Um fogo uma vez aceso
Arde sempre.
E mesmo sem lenha
Arde da sua memória.

Da chama, luz e calor.
Do reflexo, vermelho, na pele.
No brilho que dá nos olhos
E no sangue que pulsa.

De quanto bate
Descompasado e veloz
Suspenso nesse momento
Que se faz todo o tempo.

Arde num espelho
Que embacia o olhar,
Que dispensa palavras,
Que vive na alma.

Sempre e para sempre.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Lendo 038

"Queres-me a mim como quando queres comer uma pomba" - Garcia Lorca in Yerma.

Esta frase é magnífica quando lida no contexto da peça de Lorca. Ao gritar esta frase, no final da peça, Yerma reclama de seu marido a infertilidade do casal e culpando-o pois quando o casal se "encontra" ele quere-a como a uma pomba e não como a uma mulher dando-lhe o que ela deseja acima de tudo, um filho, ou seja a razão profunda da sua vida.

A ideia, também, é que a vida só tem sentido quando projectada em terceiros, em criação, em desenvolvimento, em crescimento. Quando se vive para se puxar o lustro ao ego, não se deixa nada, nem a imagem no espelho. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Lendo 037

"Ela e as cunhadas, sem abrir a boca, todo o dia a caiar as paredes, e esfregar o arame, a limpar as vidraças, a untar a soleira, pois quanto mais brilha a casa por fora, mas arde por dentro." Garcia Lorca in Yerma, 1934

O poder feminino para a arte da guerra interior, dos males do amor próprio. Até em silêncio se desenvolve um ambiente absolutamente explosivo. Num supor de suponhamos que a impressão significa uma intenção....
Daí a necessidade da monogamia. O homem tem que viver em tranquilidade.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Lendo 036

"Há pessoas que têm a ideia de que nós somos polícias... Quando digo nós, refiro-me àqueles de se sabe que valem alguma coisa - felizmente - como nós valemos. E como têm essa ideia, vá de nos massarem, de nos preocuparem com as suas questões, com as quais nada temos..." - Ramada Curto, in Consciência, 1939

Este excerto do primeiro acto desta peça é tão cruelmente verdadeiro! Evidencia o egoismo que se entranha em todos nós que nos faz fugir dos problemas e dramas alheios para "não sermos massados". No presente caso, o que vem massar o personagem é o acontecimento que vai despoletar a trama da peça. Há um drama, uma eventual injustiça e a intervenção de alguém para corrigir o erro.
Cada personagem desta peça é um tipo de atitude face à dificuldade de um conflito de interesses.

O mundo dos afectos

Num almoço de reunião de qualquer nostalgia de um tempo quase mítico acontece o reencontro inesperado com alguém que a vida tinha colocado em caminhos completamente diferentes. Poderia agora perder um tempo entediante a dar sentidos figurados aos caminhos desde fisicamente a psicologicamente ou moral e espiritual ou, eventualmente, social. Apenas importaria se pretendesse fixar com isso os personagens a estereótipos e criar uma moldura mais densa aos mesmos de modo a poder levar para um sem número de enquadramentos justificativos do presente com base no desenvolvimento de cada personagem. Mas vou ser mais leve.
Do reencontro renasce a amizade com as características do tempo em que esta era um dia a dia. Conversa rápida, entendimentos a meio da frase e recomposição rápida do essencial de cada um no outro. Tudo tinha sentido. O fio condutor era o mesmo e o presente não se distanciava tanto do passado. Acabava, aliás, de certo modo de o confirmar o potencial que cada um tinha e como o desenvolveu.
No entanto havia o buraco do tempo. E nesse buraco cabiam imensos pequenos pecados como outras tantas virtudes que mostravam, aqui e ali, aquilo que era mais notório de cada um. E o que importava, para além da satisfação dos momentos do presente era ir preenchendo os buracos que se encontravam em branco do tempo passado, as justificações, as histórias cómicas, os desencontros e, naturalmente, o que foi o sentir desse tempo e nesse tempo.
O relógio é uma máquina que não pára nem dá descanso ou uma paragem para fruir o presente.
Consciente que o passado é um tempo a que se volta apenas idealmente a vida segue mais generosa e com mais sentido. A integração desses passados reforçam o presente, dão mais sentido à nossa passagem no tempo e no mundo. Assim como somos alguém com sentido em outros, deixamos pelo caminhos outros sentidos que o são noutros.

É o mundo dos afectos, o que dá conteúdo à vida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Lendo 035

"Ainda não conheceram a pele de outro ninguém" Vitorino Nemésio, in Mau tempo no canal

Como se conhece a pele de outro ninguém? Numa entrega sem olhar, sem afecto na mão nem sem sentir o coração a bater nas carótidas impedindo que o ar passe regularmente quando se respira...
Como se pagasse o percorrer a pele alheia, coisa sem demora.
Ou, afinal, nunca se conheceria essa pele pois que não se estava disponível para esses conhecimentos.
Ou, finalmente, a expectativa toda para íniciar o conhecimento bíblico?

"Os sonhos são a minha realidade"

Tradução grosseira do título de uma música que teve o seu tempo em 1980. Era a música de um filme francês que elevou para o estrelato uma rapariguinha de seu nome Sophie Marceau que chegou a entrar numa sequela do 007.

O que realmente importa nesta música é que apesar de ser um magnífico exemplar de um certo pirismo musical que cresceu comigo é, ao mesmo tempo uma parte essencial do "sonhar" de um tempo. Não que seja verdade que a minha realidade fossem, ou sejam sonhos, mas a parte curiosa é que ainda hoje o sem dessa música, tal como outras de igual calibre estético, prendem a minha imaginação que recua no tempo e sinto um prazer imenso de reviver esse modo de sentir. Tão local, tão temporizado.

nem sei o que dizer ou pensar

Ás voltas com o ser humano, esse desconhecido que m'habita. Se algo me faz sentido, porque é sentido e tem nexo, porque é que me fica lasso?

Estar condenado à minha história é um drama que só eu consigo avaliar. Cada um de vós, que perde o seu tempo por aqui, ature-se assim como eu me aturo. A água vai continuar a correr, mas, e ainda assim, incapaz de lavar a alma.

As voltas do tempo

Vejo imagens de artistas que têm sensivelmente a minha idade ou mesmo que já passaram a barreira dos 50. A imagem que guardo delas é da ingenuidade da minha adolescência, da candura e de uma beleza e sensualidade. O recato dessas artistas era algo que as compunha no mundo da arte cinematográfica.

As imagens delas, hoje, são um ataque à minha ideia delas. Exibem generosos decotes, longas rachas nas saias e deixam-se fotografar como fossem modelos teenagers.

Se eu fizesse metade... acho que se dava início a um filme de terror!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Em suspenso

Sentado. Em frente a uma janela. Vidro duplo. Silêncio de fora para dentro e de dentro para fora. Apenas os olhos se movem. Nem uma aragem. As folhas tombam pelo seu peso gasto do verão.

Se abrir a janela entra uma corrente de ar que se deslocará muito devagar enchendo o espaço de ar novo.
Se continuar quieto, tudo permanece igual. Só os olhos mexem. Mas na mente não. Nesse lugar que fica em lado nenhum, pois que não penso no lado direito enm no esquerdo, nem em cima, nem em baixo. Algures atrás dos olhos... e não faz barulho. Mesmo que pense num grito, numa bomba ou num som alto não oiço nada. Nem se pensar em chuva me molho.

E um longo suspiro denuncia o tédio que estas observações me pesam na vida. Encolho os, levanto-me como se fosse uma folha do outono, porque é assim a vida. Movimento. Assim como a aragem que não sopra.

Neste momento estou certo que Deus se sentou para descançar um pouco. Só assim se entende o tédio que percorre o tempo.

Esperemos que me devolva o entusiasmo.   

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Algures

O corredor é longo, muito longo mesmo. Por mais luzes que se acendam nunca consigo deixar de pensar que o dito corredor além de longo é escuro. É, todo ele, uma penumbra que se tem que passar para se chegar de um lado ao outro.

Podia ser o princípio deum hitória, havia já uma aura misteriosa no corredor. Ao mesmo tempo com alguma carga tétrica. Os audases viam, por outro lado, que a história se iria desenvolver sobre um caminho, um percurso que se iria descobrir e nele acontecer uma luz. Outros, ainda mais audazes, logo diriam que a escuridão do corredor se deve ao sofrimento implícito da mudança.

O que ninguém sabia, e não podiam saber, pois ainda não disse, é que a casa de banho ficava na ponta do corredor!

Em frenesim

Surge-me, num repente, a ideia de desenhar uma mulher crucificada. Não com significado religioso ou outro.


Apenas a mulher e o seu corpo.
E, por mais que procure, não encontro a imagem que se desenhou na minha cabeça. Aparece sempre uma anca elevada, ou uma perna a traçar, ou o que quer que seja na demanda de um qualquer erotismo exibicionista.
O que procuro é corpo feminino retesado, com as suas formas tensas, suspenso, ferido e, sobretudo, pendurado. Ou seja no estado em que se encontraria se estivesse mesmo crucificado.

domingo, 3 de novembro de 2013

O som do silêncio

É como um fio agudo que se estardalhaça num eco.
E que cai, demoradamente, longamente e penosamente.
É o som que nada diz, nada sabe e só se houve. Pensa-se. Nele, por ele e porquê..
E depois é fugir! Como se fosse um fogo!
Acudam, acudam que me arde a alma!

Ahhhhh... barulho
Som, ruído!

Do mar

A meio caminho de uma estrada que liga o tempo, seguem juntos em direcção a um sul que se perde no calor que desaparece. Antes fosse um norte que oriente.
Por cima um sol quente aquece a alma que se tenta soltar do corpo e das suas insistências.
- Vamos tomar banho neste mar como fosse o sétimo mar do mundo, o que falta saborear.
Desconfiada, olha-o como que temendo a instalação do cenário apocalíptico da via.
- Vais sentir o último sal. E no teu corpo vais reter a totalidade dos mares e dos sonhos, dos sabores e das vontades.
No olho cresce um brilho. O do Sol que se reflecte na lágrima que se instala.
- Nenhum sal desses mares terá o sabor do sal das minhas lágrimas.
- Abre o corpo ao mar que se aproxima e verás que o sabor do mar vive no futuro.
E seca-se o olhar que fita agora a brancura da areia que reflecte toda a luz.
- Vem... - e despe-se em direcção às ondas serenas do mar
- O meu mar está morto... - e segue caminho para nenhures.

sábado, 2 de novembro de 2013

Trabalho

Sábado e desde há 5 horas agarrado ao computador a finalmente tratar de assuntos que andavam pendentes.

Só de pensar que as coisas ainda vão no início.....