Uma figura feminina recorta-se na beira-mar. Está de pé e veste um fato de neoprene escuro. A seu lado, deitada na areia molhada, uma prancha de surf. Dela, seguramente. Assim esteve tempo. Não sei quanto tempo, mais que pouco. E assim permaneceu com uma imobilidade curiosa. Apenas o seu olhar se movia, seguia as ondas e aqueles que , tal como ela, faziam da espuma branca um parque de diversões.
Um outro corpo, masculino, sai da água com outra prancha debaixo do braço. Caminha aos pequenos saltos, como se estivesse a sacudir da água que insistia, naturalmente, em escorrer. Mas nesses saltos acautela movimentos mais bruscos com a cabeça, pois sabe que o seu cabelo veio com uma configuração bizarra, e disso quer tirar o devido proveito. Percebe-se no modo de olhar e de andar que vive como um sedutor, ou, pelo menos, tem a ambição a tal.
Ela segue aquele que, para qualquer espectador minimamente atento, é o seu amado. Desde que ele saiu da água, o seu corpo esguio, a sua silhueta que se recortava no horizonte adquire confiantemente os contornos do corpo de uma mulher que conhece a exuberância das suas formas. Os glúteos ficam mais salientes e o peito completamente definido. Não que fosse uma novidade para o rapaz, seja nesse fato, noutro de banho, ou até como veio ao mundo.
Como numa passarelle, ele começa a ajeitar o seu cabelo. Sabe-se desejado, cortejado por aquela mulher que insiste em olhá-lo com o sorriso mais cândido e doce. Não se consegue entender se o que aqueles lábios fazem é dar-lhe as boas vindas ou se pedir para que sem demora a abrace com a energia de quem o faz garantindo que esse abraço é o início de algo que pode fazer com que ambos se sintam ligados ao mundo e à vida. E são uns bonitos lábios...
Senta-se agora na prancha e aos poucos abre o seu fato para que ela tenha tempo suficiente para o apreciar, nomeadamente a sua compleição física. Há qualquer coisa de animal nos homens que se deixam pelo caminho de exibir os seus corpos como se estes fossem uma qualquer garantia futura de algo, uma segurança, talvez. Outros, contudo, fazem-no de um modo absolutamente narcisitico, como se na sua pose afirmassem "amem-me, pois eu, tal como o meu corpo, somos um só e toda a beleza do mundo!" Nesse campo o género feminino age com uma destreza bem mais astuta, pois que vive dando a entender a perfeição dos seus dotes, utilizando de todas as artimanhas que se possa imaginar. E que elas não só imaginam como as criam! Mas a mulher resguarda os seus dotes. Protege-se. O que ela pretende é a atenção e o cuidado do seu desejado homem. E a sereia que olhava o mar, mantém o fato de neoprene apenas aberto nas costas! Até no pescoço se mantem fechado. As formas, essas, descobrem-se debaixo do fato.
Aos poucos começam os preparativos para abandonarem a beira-mar e o areal. Sacode a areia dos pés, pois que no resto do corpo a fibra impõe-se como uma armadura à entrada de qualquer grão. Assim com a prancha debaixo do braço, ela fixa o seu olhar no mar, como quem se despede das ondas do dia, de uma liberdade, ou até de um mundo onde se vive enquanto existe vontade. Um mundo de prazer.
Cuidados graciosos levavam agora o amado a preparar o cordão de segurança, e amarrando-a gentilmente à prancha. Ele, no fundo, gostava de ser assim desejado e nesse sentido carinhosamente cuidava do que era dela, assim como dela cuidaria. Por ventura o olhar dela no firmamento fosse a certeza de que não passava de uma intenção pronta a ser desfeita assim que lhe desse o que os homens, por sua natureza cobiçam, o prazer dos corpos.
Seguiram, lado a lado e não mais os vi.
Tem continuação
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