sábado, 31 de agosto de 2013

Dúvidas à beira mar.

Na praia os olhos vagueiam. Sem grande esforço, ou sequer cautela, lá seguem os biquinis que também estão em passeio. Noto, no entanto, é que por vezes não consigo perceber se as sereias que se movimentam trazem mesmo um fato de banho, ou se afinal, é apenas um soutiã. Também é verdade que vezes sem conta, e noutros cenários mais citadinos já fiz a mesma pergunta, só que com sentido inverso. Resta, então saber se acabou a diferença entre soutiã e o fato de banho.
Aquilo que me leva a concluir é que o soutiã ou o biquini está a perder a sua função essencial, o de segurar o peito, e desse modo aliviar o esforço dos escassos músculos que a natureza dotou o peito feminino e passou, essa peçam a ser mais um chamariz para a nunca saciada cobiça masculina.
Seja como for, é sempre simpático.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Na praia - continuação

Admito que eram viajantes em carrinhas, daqueles que andam com o mínimo das casas às costas e que acabam por ser o modo urbano actual de se ser campista da tradicional roulotte. Tinham-se conhecido numa outra praia onde ela fora, pleaneado, com um grupo de amigos para se maravilharem nas ondas do atlântico. A terra natal dela fica acima do círculo polar árctico, e se nesta altura do ano não se sabe o que é noite, no meio do inverno não se sabe em que dia se vive. Longe, portanto, do mar de ondas, de um sol que se põe ao fim de cada dia e de um calor que aquece todos os dias.
Ele era o dono da viatura. Conheceram-se durante o dia, no mar. Fizeram algumas ondas juntos e na espera de outras a conversa surgiu natural como o uso da língua inglesa. Apresentaram-se e ficaram a saber onde estavam e ao que vinham. Tudo o que importava. Daí se juntarem aos respectivos grupos e proceder à mescla de ambientes foi apenas o tempo do dia findar e o sol se deitar sobre o mar e deixar no ar a profusão de cores em que o amarelo vai sendo comido pelo encarnado, dando mil tonalidades de laranjas até este mergulhar no azul do mar que cresce até deixar a noite cair por completo. Nessa altura, e fruto do ambiente ela entra na carrinha dele, onde se tem mantido.
Não eram marido e mulher, mas homem e mulher. Vivem nessa idade em que as experiências são um sal que se prova e se toma na justa medida do desejo. A vontade é que domina os movimentos que, tal como as marés, têm os seus movimentos próprios de enchente e vazante.
O tempo dela estava a terminar. As férias não são eternas, assim como as aventuras. Tinha que voltar ao seu mundo, à sua realidade. Há uma frase que se repete na vida "os amores de verão enterram-se na areia" e, na sua cabeça, aos poucos o conhecimento, a apropriação do sentido da frase crescia dentro de si. Este seu amor de Verão ia acabar. Tinha um mundo à sua espera. A família, o trabalho e os estudos estavam lá, tal como combinado antes de vir. Sabia, no seu íntimo que estes dias seriam uma recordação que teria sempre ao longo da sua vida. Momentos quentes e doces tal como o sol que todos os dias a acordava já quente e envolvente.
O caminho dele era diferente. O seu Verão era para ser vivido na integra e até ao limite. E sempre com o mar do seu lado. E junto com esse mar, também gente. Pessoas que apareciam, amigos que ficavam e, tal como agora amores que nasciam. Não os procurava e muito menos os evitava. Sentia o fluir do momento e nesse ambiente as coisas aconteciam com a naturalidade do estilo de vida que adoptara. Não fazer contas ao amanhã e viver para o Verão. Dava aulas de surf, o que permitia a sua sobrevivência. E este tempo terminaria mal as aulas começassem, pois que deixaria de ter alunos. Findo esse tempo havia que adiar esta sua vida até ao Verão do ano seguinte, fazendo o que fosse necessário para aguentar o frio, as longas noites e a distância física do mar.
Esta mulher que o olhava com um sorriso doce e cândido, vivia já o seu adeus dos momentos passados em duo. Captava a imagem a guardar no futuro da sua memória, a imagem de um retorno eterno. Uma memória.
Ele cuidava dela como quem cuida do mundo que lhe é dado a fruir, gentilmente.
É o Verão. Tal como se manifesta. Com muita leveza.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Na praia

Uma figura feminina recorta-se na beira-mar. Está de pé e veste um fato de neoprene escuro. A seu lado, deitada na areia molhada, uma prancha de surf. Dela, seguramente. Assim esteve tempo. Não sei quanto tempo, mais que pouco. E assim permaneceu com uma imobilidade curiosa. Apenas o seu olhar se movia, seguia as ondas e aqueles que , tal como ela, faziam da espuma branca um parque de diversões.
Um outro corpo, masculino, sai da água com outra prancha debaixo do braço. Caminha aos pequenos saltos, como se estivesse a sacudir da água que insistia, naturalmente, em escorrer. Mas nesses saltos acautela movimentos mais bruscos com a cabeça, pois sabe que o seu cabelo veio com uma configuração bizarra, e disso quer tirar o devido proveito. Percebe-se no modo de olhar e de andar que vive como um sedutor, ou, pelo menos, tem a ambição a tal.
Ela segue aquele que, para qualquer espectador minimamente atento, é o seu amado. Desde que ele saiu da água, o seu corpo esguio, a sua silhueta que se recortava no horizonte adquire confiantemente os contornos do corpo de uma mulher que conhece a exuberância das suas formas. Os glúteos ficam mais salientes e o peito completamente definido. Não que fosse uma novidade para o rapaz, seja nesse fato, noutro de banho, ou até como veio ao mundo.
Como numa passarelle, ele começa a ajeitar o seu cabelo. Sabe-se desejado, cortejado por aquela mulher que insiste em olhá-lo com o sorriso mais cândido e doce. Não se consegue entender se o que aqueles lábios fazem é dar-lhe as boas vindas ou se pedir para que sem demora a abrace com a energia de quem o faz garantindo que esse abraço é o início de algo que pode fazer com que ambos se sintam ligados ao mundo e à vida. E são uns bonitos lábios...
Senta-se agora na prancha e aos poucos abre o seu fato para que ela tenha tempo suficiente para o apreciar, nomeadamente a sua compleição física. Há qualquer coisa de animal nos homens que se deixam pelo caminho de exibir os seus corpos como se estes fossem uma qualquer garantia futura de algo, uma segurança, talvez. Outros, contudo, fazem-no de um modo absolutamente narcisitico, como se na sua pose afirmassem "amem-me, pois eu, tal como o meu corpo, somos um só e toda a beleza do mundo!" Nesse campo o género feminino age com uma destreza bem mais astuta, pois que vive dando a entender a perfeição dos seus dotes, utilizando de todas as artimanhas que se possa imaginar. E que elas não só imaginam como as criam! Mas a mulher resguarda os seus dotes. Protege-se. O que ela pretende é a atenção e o cuidado do seu desejado homem. E a sereia que olhava o mar, mantém o fato de neoprene apenas aberto nas costas! Até no pescoço se mantem fechado. As formas, essas, descobrem-se debaixo do fato.
Aos poucos começam os preparativos para abandonarem a beira-mar e o areal. Sacode a areia dos pés, pois que no resto do corpo a fibra impõe-se como uma armadura à entrada de qualquer grão. Assim com a prancha debaixo do braço, ela fixa o seu olhar no mar, como quem se despede das ondas do dia, de uma liberdade, ou até de um mundo onde se vive enquanto existe vontade. Um mundo de prazer.
Cuidados graciosos levavam agora o amado a preparar o cordão de segurança, e amarrando-a gentilmente à prancha. Ele, no fundo, gostava de ser assim desejado e nesse sentido carinhosamente cuidava do que era dela, assim como dela cuidaria. Por ventura o olhar dela no firmamento fosse a certeza de que não passava de uma intenção pronta a ser desfeita assim que lhe desse o que os homens, por sua natureza cobiçam, o prazer dos corpos.
Seguiram, lado a lado e não mais os vi.

Tem continuação

Lendo 033

"(...)mas no decorrer da conversa consegui despi-lo pouco a pouco das maldades dos anos e voltei a vê-lo como era." Gabriel Garcia Marquez in Doze contos peregrinos.

Este tema é tão precioso como recorrente. Gabriel García Marquez utiliza o termo despir que revela a intenção de retirar a roupagem do tempo, ir à procura da essência que caracteriza a pessoa que sempre conhecemos num tempo anterior. A ideia está, obviamente, muito bem apanhada. Na minha modesta contribuição diria que, para além disso, também despimos o nosso afecto, pois que na procura desse outro que ficou na nossa história, ficou também a história da nossa relação com ele, e nessa relação o nosso afecto.

Isto é uma teima minha que as relações das pessoas são construídas com base no afecto, pelo que aquilo que nos recordamos delas são os afectos. O resto é cenário onde esses afectos acontecem.

Na feira

Estava numa feira em que cada um tentava, com uma frase nova, atrair os passeantes à sua banca e nela gastarem os seus euros. Seus ou do banco, do cartão de crédito ou de quem quer que sejam, pois que para estes feirantes o dinheiro não tem cor nem cheiro, nem sequer genealogia. É, tão somente, um meio, um modo de vida. Permite que essa vida de feirante se eternize. Assim, foi com alguma estranheza que ecoou no ar este pregão:
- É tudo a 1 euro que é tudo material roubado.
Um feirante que o seja não rouba ninguém, nem sequer o seu fornecedor. Um feirante vive a vida do engano, da meia verdade, do que pode ser, do que até parece. Enganar vale a vida.
Roubar, só a mulher do outro, e por uns momentos, pois que o resto é tormento.

Para descontrair um pouco

A curva que fazem as suas ancas são de um desenho feito pela mão de Deus. Não consigo deixar de as ver como o corpo de um violoncelo em que os meus dedos experimentariam os tons e com o meu braço tocaria a mais sensual melodia.
Seguramente que ela é mouca de ouvido, pois que não pára de bocejar.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O que apenas sei

O que será que sei,
Quando tudo o que digo,
Diz-se da minha alma,
Que diz aquilo que sabe.
Serão apenas estas palavras,
Estas ideias e brincadeiras,
Artes de amar e sofrer,
Querer e saber ser?
Um passo de nada, isso é!
Mais um que escreve.
Que tenta dizer-se,
Que é filho d'Alguém,
De uma Alma que é maior.
Que O fez que fosse,
Pessoa e alma pensante.
E, assim sendo,
Dir-se-á deste modo.
Aquilo que apenas  sabe.
Filho de Deus,
E também feito em homem.

domingo, 25 de agosto de 2013

O olhar

Debruado a ouro, na mais pura e fina filigrana, ela olha, assim para a sua roupa interior. Tamanho tesouro, dizia, tinha que ter roupa a condizer. A única coisa que a lastimava, ainda assim, é que tanta riqueza junta jamais fora dada a conhecer, e como tal à fruição do Mundo. Nem ao olhar do público, nem aos de conhecedores ou mesmo amantes desse tipo de riqueza. Era todo um conjunto de inexploráveis riquezas.
Estava tentada a incrustar diamantes. Poderia ser fraco o embrulho.

Fantasia surreal e insensata. Mulher com tais atributos seguramente que gente séria não lhe sairia da porta.

Ainda o Borda d'água

Desde 2001 que as minhas receitas provenientes do meu árduo esforço profissional se vêm mantidas inalteradas, salvo umas míseras sombras do que deveria ser a correcção da inflação. Comprava, nessa ano, o meu borda d'água por uns escassos 85 cêntimos, ou, porque não dizê-lo sem dramas, por 170$00 cento e setenta escudos! 24 páginas de mais completa colecção de erudição dos saberes mundanos e carregadas de toda a informação para agricultura que, infelizmente, não pratico.
Hoje, ano de 2013, a actualização desse compêndio da cultura portuguesa que nomeia já a data da morte de Leonardo Coimbra, ou a data da chegada à Índia, ou o dia do nascimento de Gulbenkian, tem agora o preço de capa de 2,00 euros!
Será que à data da minha (im)provável reforma chegará aos 5 euros?

Deixa-me desde já seguir os seus doutos conselhos e ir sem demora semear o agrião, o espinafre e o repolho, pois que caminhando para essa idade, o melhor que me saberá serão umas sopinhas do campo!

Do Borda d'água

Comprei o meu querido Borda d'água de 2014. Não dispenso. Cada ano que passa há sempre algo que não li ou não reparei no ano anterior. A deste ano.

30 de Agosto - Dia Internacional das Pessoas Desaparecidas.
As várias leituras possíveis.

Se desapareceram, ou melhor, fugiram da vossa presença, é porque estavam, de alguma maneira, fartinhos de vos aturar. Exemplos:
- Olha, vou ali comprar um maço de cigarros e já volto. Volta mas é o diabo, fugiu com uma mocetona da freguesia vizinha que já tinha encomenda na barriga!
- Vou buscar um molho de agrião. Vou-me é daqui para fora que se faz tarde.
- Vou a Lisboa tratar desse assunto. Vou e não volto. E já agora a minha Lisboa é outro mundo.

Mas há também aqueles que nada dizem e preferem desaparecer da vida. Não é caso para outro comentário, pois que essas almas viviam já sofrimento que baste.

E há, naturalmente, os que desaparecem pelos mais variados motivos. Seja a memória que já não está lá, que são crianças e não sabem que não se devem afastar, que tudo o que pode acontecer.
A propósito deste dia, tão ineficaz como todos os outros dias de causas semelhantes, importa, antes que estas efemérides, reaprender com os outros. Se alguém desaparece, seguramente que havia outro que se distraiu, que não foi lá, que não se preocupou, que não se interessou e que deixou passar. O tema devia ser esse e não os que desaparecem.

Pedidos (in)sensatos

Um candidato a político abeira-se da sua luta eleitoral. Rapidamente se dá conta que mais que vontade, mais que argumentos, mais que apoios, é fundamental recolher capitais para a promoção e difusão da sua imagem de candidato. Assim, pergunta:
- Ó amigo, tem por acaso uns euros, mil ou dois mil que lhe sobrem?
O amigo, que não é político, sobra-lhe do mês, mais trezentos euros na dívida ao cartão de crédito, pois que as despesas superaram nessa monta as receitas. Ainda assim, não quebra e responde-lhe.
- Ó amigo, eu por ti, dou-te o que me sobra do meu ordenado deste mês! Queres?
- É de amigos como tu que este país precisa! Pessoas desinteressadas e capazes de dar tudo o que têm para ajudar quem precisa!
- Obrigado...
E desta feita ambos estendem a mão.
Ao reconhecer os equívocos, acabam por se cumprimentar efusivamente e cada um segue o seu caminho.

Nota: O final é demasiado rápido, de facto, mas as ideias estão lá.

sábado, 24 de agosto de 2013

Lendo 032

"Um bom escritor revela-se melhor pelo que rasga do que pelo que pública." Gabriel Garcia Marquez in Doze contos peregrinos.

Segundo esta máxima são as lixeiras e os caixotes do lixo as mais exclusivas bibliotecas. Ou o que não se sabe e não se leu é o que de melhor se escreveu. Ou o absurdo é uma forma de comunicação.

Não aceito a frase supra. O melhor que se escreve são momentos, fragmentos, pequenos momentos. Se o escritor os despreza e deixa que o lixo devore esse acontecimento, a rigor, o que apresenta é uma segunda escolha, o menos bom. Azar o nosso, de quem lê.

Mas Gabriel Garcia Marquez é o absurdo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Poema a Nossa Senhora

Fecho os olhos e vejo uma luz.
E em traços leves define-se um rosto.
É uma mulher que levemente sorri...
Por cortesia, baixo a cabeça.
E o sorriso resiste e persiste.

Um mal estar que se instala,
Em mim e nessa luz,
Mas jamais no rosto que sorri,
Que é ser sempre sorriso
E coração aberto simplesmente.
Alma que vive sem expectativa
E disso se faz sorriso.

Olhos que se querem abrir,
Não ao sorriso que teima,
Mas à fuga dele
Que m'atormenta dessa maneira.
E o olhar sereno,
Que olha sem pestanejar,
E fixa o seu olhar
Num todo e imenso mar.

E de joelhos me quedo
Preso à convicção
Desse sorriso e desse olhar
Que assim surgem para estar.
Condição de vir a ser
Numa alma a serenar.
Seguramente a minha
Que sorri para um fim
Que acha que é amar.
Antes sorrir para ser.

Lendo 031

"Quando vivia com o Jaime, sonhava às vezes com o André." Teolinda Gersão in Noctário em Intimidades.

Há anos, muitos mesmo, que me questiono sobre esta realidade de o amor ser, de facto, monogâmico. Não me refiro ao amor comcupiscente, físico, aquele que se diz em acto. Refiro-me ao Amor outro, o que vive sempre e para sempre. É como se existissem planos diversos de amor. Um físico, mundano, de todos os dias, das confidências, das dificuldades, do crescimento, da construção, da casa que se vai edificando. E esse é único. Não se fazem duas casas ao mesmo tempo. E sair de uma casa é sempre um abandono.

Há, depois, os outros amores. São as pessoas que nos tocaram na vida. As que nos fizeram felizes, mesmo que apenas num dia, numa conversa, com um sorriso, com uma atenção. São imensos amores que nos cabem dentro. E destes também há imensos graus. E é bom viver com todas essas pessoas. Não só com o que foram, mas, e sobretudo com o que são. É natural que na minha alma sejam sempre anjos que crescem todos os dias, mas na realidade são pessoas que, tal como eu ganham todos os dias mais um dia. Assim, e em modos de resumo, quem não sonha com os anjos? São todos os meus amigos.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Lendo 030

"Sou mulher, logo, só posso dizer palavrão em língua estrangeira, se possível, fazendo parte de um poema." Lygia Fagundes Telles in Apenas um saxofone em Intimidades.

E assim, num ápice se vai aquele ditado que a uma mulher se quer uma senhora na mesa e uma ... na cama. Afinal nem isso.
O facto da dedução da autora prende-se com a utilização da vulgaridade, da banalidade como mera forma de promoção de alguns, face à circunstância de cada um. Quando nos magoamos seriamente, por exemplo entalar o dedo, um palavrão não é um mal, é uma libertação da dor, da irritação e da frustração de nos termos magoado estupidamente. Perde uma mulher o seu charme, a sua delicadeza, a sua graça por isso? É obrigada a ir ter com Bocage para largar um sonoro palavrão? Não, de todo.

Não saberei se é por já ter algumas décadas sobre os ombros, se por amar as mulheres por tudo o que elas são que não me incomoda um palavrão de quando em vez e dentro da vida própria do diálogo feminino. Palavrões a despropósito são deselegantes, seja nas mulheres sejam nos homens. Excepto se estes estiverem num taberna a fazerem concursos de como ser carroceiro.

Lendo 029

"Comecei a ficar irritadiça, inquieta, era como se tivesse medo de assumir a responsabilidade de tamanho amor. Queria vê-lo mais independente, mais ambicioso." Lygia Fagundes Telles in Apenas um Saxofone em Intimidades.

A mulher a sua capacidade de nunca ser um ser satisfeito e completo. Amada, desejada, cortejada, idolatrada. Ele em plena submissão. Não e não. Isso, apesar de ser a ambição de qualquer mulher, ser amada sem qualquer sombra de dúvida, sem superior perante as restantes, ser a rainha, a escolhida, a única... Não é suficiente, algo fica por acontecer, por ser...
E o homem, burro, tonto, imbecil não percebe que apesar de a amar incondicionalmente tem que necessariamente a desprezar de quando em vez para que ela, triste, amargurada, insegura se quebre a pedir-lhe a jura do amor eterno.

Parece absurdo? Não... são apenas mulheres. E é tão bom amá-las!

Lendo 028

"Antes, a Natureza era muito mais benigna com as mulheres. Não só as fazia mais formosas como lhes atribuía graças escondidas que um homem demorava a entender. " Lidia Jorge in Um conto do Nadador em Intimidades.

Duas frases. A autora atribui uma sequência temporal entre ambas. Talvez...
Na primeira é evidente que a juventude é o momento eterno da beleza toda, de toda a perfeição, de toda a harmonia, em que os sonhos são a viva nesse momento e instante. É o momento paradisíaco em que o homem e a mulher existem sobretudo um para o outro e ambos para serem a réplica do paraíso. E o paraíso é toda a Natureza. Logo num antes, nesse tempo tudo era benigno, e também para as mulheres. Sobretudo para as mulheres.

O tempo, esse tique taque repetitivo e cacofónico, faz demorar o entendimento, os corpos, os conhecimentos e as experiências. Assim as surpresas desvanecem-se, os véus das pequenas ilusões caem, os corpos cumprem a missão para que foram feitos, as mamas amamentam e as barrigas carregam. Até os segredos, as luas e o outro lado da mulher, o que não sorri, que não se entusiasma, que não aprecia, que não tem tempo acontece, também.

Fica, portanto, o tempo do paraíso, como o tempo de sempre, o tempo da eternidade feminina. E nesse tempo, elas são Deusas. Depois desse sempre cumpre-se sempre o ritual da adoração.

Consequências de um dia de praia.

O corpo hoje foi espremido de toda a água que lhe ía dentro, tal a temperatura que circundava.
A alma desceu abaixo da linha de água por três vezes. E arrefeceu-se um pouco. O corpo, esse grande malandro trouxe o calor dentro dele.

sábado, 17 de agosto de 2013

Dúvida

Descasquei duas cabeças de alho como quem descasca a mais bela e fina flor. Porque é que agora me persegue um odor intenso a alho, se eram flores o que descasquei?

Férias....

Tendo em conta que comecei o dia a limpar e a arrumar ( obviamente que fui que sujei e desarrumei, mas isso não interessa rigorosamente nada!), posso considerar que comecei as férias em modo não-férias.

Talvez amanhã...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

leitura

E vêm em torrente febril
Mil palavras agarradas
Umas às outras em conjunto
Como se fizessem sentido

Tudo não mais que isso
Palavras agarradas
Coladas até
Mas completamente vazias.

Não se vê uma alma
Nem sequer uma pessoa
Quanto mais um intenção
Vontade ou emoção.

Onde falta o sentido
Não é nessas palavras escritas
Mas nesta coisa que lê
Apenas letras do alfabeto.

Voltar a ti

Eu venho depois.
Sim, depois disso.
De mim e de ti,
Depois mesmo de nós.

Mendigo de um passado,
De cores e de lugares
E até de mil vontades
E outros tantos paladares.

Ah! quem me dera...
Ter esse presente agora...
Ter esse tempo,
Esse tu comigo.

E largar o amanhã,
Voltar ao hoje e ao agora,
Ao tempo de estar
Simplesmente aqui.

Do escrever

Não sou perfeccionista,
Vivo o impulso,
Aquilo que me é dado sentir.
E mais de amar.

E tudo é mão d'Outro,
Até o engenho de rimar...
Fica-me apenas a alma,
Que insiste em reclamar.

E reclama o criador
Que se queixa do criado
Alma que se quer mais
Do que para o que foi nada.

E reclama ao criador
Do engenho que lhe falta
Da vontade de se dizer
Na forma como o sente.

E reclama-se até de si
De não se ser mais
Do que aquilo que diz
Uma alma só e infeliz.

Uma questão de lastro

Em tempos que já são história, um homem conhecido, entre outras facetas, pelo seu sucesso junto de um determinado público feminino. Esse público possuía as características de viverem fora das grandes cidades, ambicionarem carros grandes, pintarem as unhas, cabelos e outras partes do corpo, até com tatuagens, ter telemóveis de ultima geração, maridos e "o filho e a filha", enfim de conseguirem ser tudo menos simplesmente mulheres. Não têm ambições de cultura para além da Joanna de Vasconcellos, Saramago e as telenovelas da TVI. O mais que leram foi Miguel Sousa Tavares, José Rodrigues dos Santos e, claro as sombras todas de Grey.
O seu sucesso tinha razão de fundo para além da sua posição profissional, pois que havendo estreiteza de horizontes e largas ambições no universo feminino, detestava estar em casa com a legítima que já o era há tempo demais. Assim, antes que ela se levantasse e o sol nascesse nas terras mais longínquas que um subúrbio, já ele se tinha afastado do leito conjugal ao qual só voltava depois de o sol se ter posto. Uma série de regras de boa convivência faziam com que a legítima engraxasse os sapatos, passasse a ferro das camisas aos factos e lhe escolhesse a roupa. O gosto, evidenciava, naturalmente essa riqueza de conteúdos, ponteado pela risca ao meio que não perdia oportunidade de lhe mexer sempre que possível.
Um dia, essa continência do tempo que faz com que as coisas aconteçam e, por isso, sejam alvo de relato, vai-se encontrando amiudadas vezes com gente de outras proveniências. A sua posição já não o obrigava a tudo aceitar e engolir. Era agora senhor de algumas circunstâncias e, nesse sentido, apto a fazer valer o que no fundo sempre o incomodara. E nesse sentido afirma:
“Meu caro, apesar de gostar muito de si e do seu trabalho, você vai-se candidatar para o lugar naquele departamento… Sabe é que você não deixa lastro…”
O sentido profundo das decisões em empresas de dimensão não é novidade, nem sequer menção de relevo. Descodifique-se o que aconteceu. Uma das amigas que o senhor se queria ver livre não se sentiu minimamente solicitada, desejada ou sequer cortejada. Ficou despeitada, nem o seu mini poder fora motivo de aproximação. Farto dessa companhia, pois que para hábitos já lhe chegavam os de casa, havia que alterar a situação.
E assim surge o lastro que ele não deixava… Nem por favor o deixaria.
 

Minto

Pois que, tal como dizem os meus filhos, "isso é impossível, tu não sabes estar quieto!"

Seja, vou, então, arranjar outra sarna para me coçar!

A um futuro que se anseia

Findo o dia de hoje vou entrar num cabeleireiro da alma que durante três semanas irá ter a suprema felicidade de a lavar toda por dentro. E a cada dia espero colocá-la lavadinha virada para o sol a secar todo o que não presta a ver se ficam tão secos como irrelevantes, tais temas.

Vivendo esperanças

Vagueio num mar de esperanças
Mas que sejam as que sinto
E não de quem faz minhas
As esperanças que são suas.

É que isto de viver a tantos
Leva muito mundo a ser,
Não o mundo que lhe é dado
Mas o dos outros que não sentem.

E nesse remoinho de intenções
Lá se fica por viver
As esperanças que eram minhas
E as dos outros porque não.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

mais uma meditação musical

 A vida é um progressivo afastamento da pureza e da delicadeza de sentir. Por uma música voltei muitos anos atrás e todo uma emoção revivo. É um gosto fazer esse passeio mental, conseguir voltar a uma certa meninice, rever as caras das pessoas, rever o que era. Depois com os dados dos meus filhos, dos filhos dos amigos e dos sobrinhos, consigo ainda mais intensificar essa pureza que eles são, em todo o seu esplendor, quem neste momento os vai vivendo.

A vida segue sempre em frente. Daqui a uma ou duas décadas estarei a saudar o que vivi hoje, ontem e até amanhã.

Sou, definitivamente, de uma geração muito nostálgica. O que é bom, pois que integra sempre o passado! Transporta a sua história.

Ao paladar da meninice

Ao paladar da meninice

Memória do beijo inocente
Que o foi apenas na ilusão
Da encantada meninice
Onde tudo sabia a criação.

Tantos os beijos que ficaram
Tão intensos, como belos,
E próximos como verdadeiros.
Assim como nunca os dei.

São as gavetas da memórias
De frases engasgadas
E rostos que escaldavam
De vontades nem confessadas.

E tudo ficava por olhares
Que apenas declaravam
Que havia uma inocência
Que desejava deixar de o ser.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Reflectindo

Cada vez mais chego à conclusão que o ser humano nasce com todos os conceitos positivos. Tudo tem valor mais. Com o decorrer da sua vida vai fazendo aprendizagens e interiorizações de negação desses primeiros sentimentos e emoções.

Tenho duas amigas que insistem com particular entusiasmo em obrigar-se a terem pensamentos positivos desde que acordam de modo a viverem dentro dessa emoção, essa energia. A Rita e a Catarina. Não sei se a vida delas é melhor do que seria se não empurrassem essa força, sei que se esforçam para isso. E cada vez mais vou achando que têm razão.

De certo modo o mal não está em mim, nem nas coisas, mas naquilo que deixo que aconteça.

domingo, 11 de agosto de 2013

Grito-me exilado numa ditadura!

Grito-me exilado numa ditadura!

A ditadura da mesquinhez, do menor denominador, do mais baixo, do mais fácil, do menos exigente, do que seja elevado pelos adjectivos negativos!

Pátria, Deus, Nação, Homem, Amor, Criação e Família são palavrões!

Renascer

Roubam-me a vontade,
Deixam-me exausto em mim
Desde lume de querer
E lutar com frenesim.

Matam-me a alma,
Dizem-me para calar,
A verdade e a mentira
Não é tempo de falar.

Nunca é tempo de dizer
O que se quer dizer.
É tempo para ouvir
As frases para repetir.

E do palanque o nada.
Que ilude aos moucos
Em palavras surdas
Que todos querem ouvir.

Não quero esta viver,
De mentir mascarado
Na verdade plena
Ilusão que a todos afunda.

E mais que o momento,
Afundam o futuro
Esmagam a criação
Para, apenas, se repetirem.

E o anjo celeste acordou
Abriu a alma e a a voz.
Haverá ainda tempo?
Será ainda em tempo?

E pela palavra de Pedro
Homem dos homens
O Espírito Santo revelado
Que se volte o homem a levantar!

Exausto

Em sufoco de alma!

E aplaudam em pé,
Com a alma toda!
Não com os dedos trémulos
Como quem segue outro caminho,
O do medo,
Da falsidade,
O da fantasia
E da ilusão.
Afirmem-se.
Parem de se repetir!
E repetir uns ao outros
E uns nos outros,
E estes nos primeiros.
A verdade tem cor de sangue
Que corre nas veias
De quem quer mundo
De quer ambição
De quem tem desejo
Nos outros corre óleo
Que ajuda na manutenção!
E o sangue é cor de alma
De coração que bombeia
De querer mundo,
E mais que tudo, SER!
Mas ser de si
E não ser para outro!
A vontade não é guerra
Guerra é o medo de enfrentar
O sangue de outras veias
De outras vontades,
De outros quereres.
Guerra é defesa de perder,
Medo de cair,
E vontade de chorar
Pelas saias da mãe
Onde a protecção é plena.

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

sábado, 10 de agosto de 2013

Aqui, ali e acolá.




Um tributo à Carris


dentro do autocarro


E à espera dele

Não vivo sem mulheres


É uma coisa impossível de resistir. Mulheres.


Dizemos na Igreja que pecamos por "palavras, actos e omissões". Peço as minhas sinceras desculpas aos mais ortodoxos, mas estes pecados são sal da vida, pelo que não tenciono fazer o que quer que seja para deixar de pecar! Pecarei alegremente desenhando e pintando mulheres. A amando-as também! Pois que amar não é pecado.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sou um terrorista

O meu último texto, poema em forma, é o meu grito de raiva contra toda a massa acéfala que se deixa levar por um discurso de sorrisos e falinhas mansas. Seguem o que tem jeitinho e não causa perturbações, que diz com certeza, amém também, e promete que tudo será melhor. O hoje, que foi fruto um ontem, onde um alguém com igual discurso de sorrisos e falinhas mansas, fez o que lhe apeteceu, deixando assim o cenário que se apresenta.

São proíbidos discursos sobre o ontem, só se querem lirismos de amanhãs coloridos, de sol nascentes em brilho, onde o Sol entra pela eira e a chuva só cai no nabal!

Ser políticamente correcto é um assassinato intelectual em massa! Assumo-me como terrorista! Mate-se essa coisa! Tudo em defesa daquilo que o Criador no deu e que nos difere dos restantes seres criados, a capacidade de pensar!

Poema irreverente!

Ser politicamente correcto
Põe-me animicamente incorrecto.
Que a vulgaridade se dane!
Que se mate o comodismo.

Gente sem sangue,
Nem calor na alma.
Faz o que lhe mandam,
E repetem o que lhes cantam.

Não sobra um pergunta,
Uma questão que seja.
São máquinas de repetição,
E de talas na visão!

Ora porque sim,
E depois porque não.
Meio termo de nada
Que segue na manada.

E a voz de comando,
Num discurso de nins,
Tudo é coisa nenhuma
Gesticula-se sempre que sim.

Ninguém se compromete,
Tudo é vago e alheio,
Sacude-se de tudo,
E até da própria alma.

Estar politicamente correcto
É anestésico moral.
Uma resposta existencial
De quem vive adiado.

Brote o sangue da verdade.
Morra a ignomínia do silêncio!
Homem que não fala a alma,
É um fantoche em pé.

E deles não se faz história,
Não se cantam fados,
Matam-se aos milhares,
São cenários desfocados!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Almas vazias

Desolado desse ser,
Que impõe um hábito
E dele faz a forma
Que não tem como o vestir.

Que impõe a canção,
De ser sons repetidos,
Sem melodia nem harmonia,
Apenas as mesmas ondas.

E dita uma estética
Da beleza inovada,
Tudo em novos arquétipos
Que, contudo, nasceram já velhos.

E fecha-se numa linguagem
De palavras vazias
De sons apenas cacofónicos
Para corpos sem futuro

E sai sem alma
Apenas intenção como ordem,
Comando ou regra,
Não de se ser, mas de repetir.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Caindo ou indo? Ambas e em simultâneo

Escrevi à pouco "cair no paraíso"... e depois ri-me de mim mesmo e do que escrevo.

Alguém cai, desce, tomba, no paraíso? Não é o céu o lugar do paraíso? Não é um local elevado? A que se ascende? Como cair então?

Apenas num sentido, o de ir num torpor, na corrente, na água de um rio, de um mar que passa e assim é cair como quem vai, que é levado, solto de si, solto de tudo o mais, apenas indo...

Assim e de férias! Era a perfeição

Cair no paraíso

Fecho os olhos
A cabeça cai-me para trás e desce um peso sobre os olhos. A cadeira passa a ser um sofá e onde estou muda-se para o alpendre da minha casa. O ar sobre leve e vagamente quente. Um conjunto de anjos pegam nos meus braços e sossegam-me a alma.
Adormeceria no paraíso. Não no sono que apenas faz o tempo correr, mas no paraíso inde tudo o que é belo, tudo o que é bom, tudo o que tem sentido acontece menos o tempo a correr.

O que conta é a predisposição.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Do passado

Pendurei o passado
No cabide da minha vida.
Cheira a mofo, o coitado,
Não tem modos de arejar...

Anda gasto e bolorento
Revivendo as mesmas histórias.
De terem sido uns momentos
Presos na vida de todo o tempo.

E arrepanha logo os afectos,
E mina até a consciência.
Faz-se passar pelo essencial,
Razão de ser tanto presente.

Que está nele sempre ancorado,
Numa experiência nunca acabada.
Uma alma que se vai fazendo
No reflexo da vida revisitada.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Tempo

Eu venho depois...
Sim, depois disso.
De mim, de ti,
Até depois de nós.

Mendigo de um passado,
De cores e luzes,
De mil lugares
E tantas outras vontades.

E não tenho tempo,
Nem futuro nem presente.
Vivo preso ao que foi,
Aquilo que posso reviver.

Desfazado do momento
Que só acontece depois
Depois de viver e amar
Ou perder e chorar...

Não há este tempo
Apenas o outro que foi
E que até fica,
Mesmo aos bocados.

E a ilusão de amanhãs,
Apenas sonhos desejados
A conferir no passado
Quando for revisitado.

Conversas impossíveis

- Bom dia
- Bom dia
- Podia falar com o Senhor Otário?
- Sou eu. DIga
- Fala Tatiana Vanessa da PT para lhe apresentar um novo pacote
- Um novo pacote? De que tamanho?
- Perdão?
- Qual o tamanho do pacote?
- É um pacote que substitui o que já tem.
- Eu tenho um pacote? Onde?
- Na televisão.
- A sério? Mas a minha televisão é pequenina e fininha e está presa à parede.
- O pacote de serviços da PT telecomunicações
- Sim, já tinha dito. É de que tamanho?
- O quê?
- O pacote, claro!
- É um termo para mostrar os serviços que inclui.
- Ah, vão colocar os serviços num pacote! E qual o tamanho do pacote. Sabe a minha casa é pequena e não sei se tenho espaço...
- Não é nenhuma caixa. É um pacote
- Não?´Vem embrulhado?
- Não é isso

Podemos continuar com este registo até ao limite, apenas se tornará cansativo.

domingo, 4 de agosto de 2013

Actualização das pinturas















canseira

"A casa branca vai hoje reunir ao mais alto nível"

O que quer dizer que a reunião vai ser no sótão.

Até onde me leva a fobia

E num de repente, momento absolutamente rápido, que apenas permite uma fugaz visão do acontecimento, perco do meu horizonte um ser do princípio dos tempos, rastejante, de quatro patas e um cauda que se agita. Momento horribilis! Dentro de minha casa? Mais um conviva? Que tudo faz dentro de casa? E sabe-se lá onde! Num salto, tocando o menos possível no chão, atiro-me para uma cadeira e gogglo de imediato onde haverá alguém que aniquile tal ser da minha casa!
Imagino logo uma camioneta a para à porta de casa e a saírem de dentro dela uma daquelas equipas intermináveis de militares de intervenção, armados até aos dentes naquela cadência militar, sincronizada, barulhenta, que mete medo e respeito. Antes de entrar em casa, param e agitem aqueles corpos carregados de armas, mascaras, granadas normais e de fumo e toda a restante parafrenália bélica para limparem as botifarras de tanto agente militar. Acresce que não iria trocar os dejectos do rastejante pelos dejectos de outros irracionais presos nas solas dessas botas.
Os militares tomariam a posição de busca, pernas um pouco flectidas e os corpos em vaga concha, lanternas acesas e armas apontadas. A casa seria rastreada de fio a pavio! Não sobraria vivalma! Efeito gratificante!
Um berro másculo - Aqui! - apesar de ter sido proferido por uma militar, dado as suas unhas terem uma cor vermelha viva e forte! Mistérios que jamais compreenderei. Porque é que uma flor perde tempo a agir como um carroceiro? E a treinar para melhor se assemelhar a esse tipo de massa muscular acéfala. Na minha imaginação uma militar que assim fosse, andava de salto alto, calções subidos ao limite, as meias seriam opcionais desde que as pernas tivessem um tom de mel escuro, um top apenas evidenciando o peito que Deus lhe tenha dado. Todo o mais é absolutamente um excesso para as militares. Calças para quê? Para encherem os bolsos de batons e tinta das unhas? Usem uma malinha! E roupa de cima se tiverem frio podem vestir à vontade!
- Alvo centrado na mira. Aguardo instruções!. - De volta ao absurdo animal que infecta a minha casa com a sua vida.
Sobre a mira?????? Vão rebentar com o animal, a casa e todo o mais???? Alto! Algo que me salve!
Um latagão de dois metros de altura, ombros maiores que todos os cabides aproxima-se.
- Soldado Fernandes pede para falar! - Um voz inacreditavelmente fininha sai daquela massa muscular. Três risadas ao fundo, outros militares agarram-se à boca para suster uma explosão de riso.
- Concedido . Rápido, sucinto e objectivo! - Outra militar com unhas de gel. Mas esta tem um olho azul com uma risca a marcar esse mar! E cresce no final com um sinal egípcio, um olhar de Cleópatra! A vida militar deve ser muito difícil! Como não obedecer a tamanhos olhos? Era capaz de tudo!
- Como membro da liga de protecção dos animais que sofrem e de outros que também, mas que não vem ao caso, peço autorização para recolher o animal peço autorização fazer o detido refém numa caixa até o devolver ao seu habitat. - A voz de falsete quase histérico provoca um tumulto nos militares!
- Seja!
E eis que o enorme militar se prepara para deter o réptil. Com o corpo ainda mais arqueado que à pouco, retira do seu bolso uma saca de pano rosa, bordada, onde coloca dentro umas pétalas que tinha no bolso superior. O animal segue num rastejar hipnotizado até ao saco. A tropa adquire uma invulgar compostura dada o modo como aquele ser enorme conseguiu lidar com a ameaça, e aniquilar o perigo.
- Pronto, meu pequeno. Não tarda estarás junto dos teus! - Apesar do mesmo tom agudo já pouco restava da vontade de rir.
Vitorioso, apressa-se a sair de cena com o seu saquinho rosa e o fundo das costas mais arqueado que qualquer outra parte do corpo como que numa exibição cerimonial da sua vitória.
- Homofóbicos... - deixa cair num entre-dentes.

Sem militares e osgas, fico novamente de frente ao google a saber o que quer dizer a frase sibilina "Homofóbico"
A palavra é combinada de duas, de homo e de fobia. Medo, portanto dos homossexuais. A sério?
Eu não aprecio a pedofilia, serei, portanto pedofóbico? Não aprecio aos sados, serei sadofóbico? Não aprecio os masoquistas, serei masofóbico? Não gosto de anãs, serei anófóbico? Não gosto de animais, serei animofóbico? Não gosto de tudo ao molho e fé em Deus, serei issofóbico?
Absolutamente desolado com tanta fobia que me crescia e me iriçava o meu frenesim libidinso. Senti-me absolutamente mentalemente doente, a necessitar o apoio urgente de um psiquiatra que me ajude neste imenso tormento de fobias...
E aquele azul riscado de egipcio... Havia que agradecer a esses olhar...
Depois! Depois da consulta das fobias!

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Saudadinhas do passado

Youtubando um album inteiro, dos velhinhos de vinil, que ouvia de fio a pavio. E quando a agulha chegava ao fim e ficava no fescheque, fescheque, fescheque, fescheque, fescheque, voltava ao princípio, ou virar o disco e zás, mais meia hora de música. Havia que se dar bom uso à quantidade anormal de dinheiro que se tinha gasto no "Long-Play", o single era claramente um desperdício de dinheio porque apenas valia uma música.

A coisa maravilhosa desses tempo é que o conhecimento era muito superior. Hoje limito-me a ouvir, em modo de repetição o que as rádios me dão. É desodaloramente redutor! E a culpa é minha.

Continuação do anterior

- Não! Nem penses que te vais embora. Lanças as atoardas e sais como se nada fosse contigo e fosses uma consequência, uma derrota. A verdade que surge do nada, da escuridão... Ah!
- Não desfaças do que fizeste. Este é o resultado.
- Nem penses. Não aceito! És demasiado fácil e simples!

Para no meio do palco e senta-se numa poltrona.

- Já tardava este encontro!

A alma segue para a outra poltrona e senta-se também.

- Vamos conversar?
- Como se pode conversar contigo? Alma...
- Basta pensares, algo que já se foi...
- Isso! Pensar...
- Sim, é fácil. Podes te voltar a habituar.
- Ah! Que anedota! Demasiado ridícula esta conversa!
- Achas?
- Evidente! Todo o discurso é fruto do pensamento, pelo que alma minha gentil que partiste
- Não parti, fui desprezada.
- Não passas de um passado, um remorso bolorento.
- Não posso ser isso.
- És isso, e podes até ser pior!
- Como assim?
- Estás ressentida!
- Não!
- Sim. Estás tão ressentido quanto absurda de ti!
- Não é assim
- Somos isso e pior

Vindo do fundo surge um terceiro sofá

- Mas onde anda esta conversa sem sentido?

Os dois viram-se e soltam uma gargalhada

- Só nos faltava agora um a empatar! - diz o primeiro
- De facto! Agora as falinhas mansas... - a alma replica
- O descompromisso
- As meias tintas.
- Mas afinal o que é esta discussão?

Ninguém diz nada. De cima desce sobre o sofá do meio um grande relógio que começa a andar para trás.

Peça num só acto

E o actor chega à boca de cena. Segue a marca. Sabe a marca. Afinal é todo ele a encenação, a frase e a fala. Ele é o personagem. A arte. O momento. O sempre de sempre.
Coloca a voz e quando se preparava para receber em cheio a luz do foco, tal como combinado, tal como preparado e estudado. Palco vazio. Penumbra, escuro, negro. nada.. E de repente, zás! O eu! Em pleno! Efeito fulminante na audiência! A plateia imediatamente sentira a dimensão do personagem, o fulgor, a expressão, a magia da acção.
Aflição! Pausa. Respiração profunda. Ainda há tempo. Dez segundos.
Calma.
Refazer a respiração.
Recuperar a colocação de voz.
Refazer o eu do personagem.
Uma ligeira luz no fundo do cenário...
Nasce do lado, ténue, fraca.
Do outro lado do cenário surge um barulhento e penoso arrastar.
Tosse e arrasta-se ao mesmo tempo que a luz se intensifica.
Luz que vinha de cima, desce iluminando o personagem de baixo, e dos dois lados, projectando um corpo alto e grande no cundo do palco.
À frente o personagem perde, aos poucos a compostura, ao mesmo tempo que se vira de costas para o público. Os seus braços caem.

Um gravação começa a fazer-se ouvir. Alto, muito alto.

- Eu sou a alma deste eu. Gravei-me no fim do tempo, quando houve um homem neste corpo. Já nada vos tenho a dizer. Já nada sou. Nem sombra. Adornaram-me com virtudes, com galanteios, com extremos. Foi tão amado, desejado e querido que partiu. Deixou esse corpo vazio. Passou a ser um centro de cena que todos aplaudem, todos querem ver, todos querem ouvir. É a voz de todos. O que se repete. Que se diz da mesma maneira e do mesmo modo sem se dizer absolutamente nada de diferente. Apenas o que não toca, não belisca, não se sente. Até a lágrima é fingida e o sofrimento uma canalhada.
Apague-se a luz. Recomeçe a arte. O espectáculo.
Eu, alma, já me vou embora. 

Antecipando as férias

Quando o tempo adquire uma estranha capacidade de ser absorvido pelos afazeres e necessidades de terceiros fico pura e simplesmente pendurado.
E a todas as exigências, ainda se acrescentam as outras que começam nos seguintes termos:
- Já fizeste .....?
- Já trataste ....?
- Quando é vais ....?
Já não é suficiente o que se faz, há que comprometer o tempo futuro desde já, não vá eu ter a veleidade de querer fazer alguma coisinha!
Há, ainda, a versão mais sua, mas não menos dedicada. Um singular exemplo ilustrativo:
- Neste fim de semana vamos ter .... O que é fazemos.... ?
A tradução é o seguinte: Combinei isto. Trata do que é necessário.

Olho para o lado, saudoso, e vejo a brancura alva dos lençóis, amarrotadinhos como convém, e suspiro longamente...

Será que vou ter mesmo férias?

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Do tempo

Arrasto-me na avenida,
Como se a levasse comigo.
Mais que a memória do tempo,
A noite que foi até de madrugada.

E essa vida que não cessou,
Ainda em mim gargalha.
Entorpece a rigidez do corpo,
Saudoso também do descanso.

A vontade de se ter tudo
Não vale esse momento.
Ainda que na alma persista
O facto de haver futuro.

São todos os dias e todas as horas,
Sempre vontades que se somam.
O agora vale quase tudo,
Até se tornar passado…

Que pode ser mais ou menos.
Um momento que se festeja
De um nada que se almeja,
Sendo, apenas, a linha da vida.

Poesia

Momento memória

Apenas fica passado.
Memória eterna do tempo,
Quando o presente
Foi vivido dentro do ser.

Essa impressão mínima,
Que no momento fez luz
Gravou num outro sentir
Alheio da circunstância.

Fragmento de emoção
Viverá para sempre
No tempo sem tempo
O que persiste na memória.

O resto nada é.
Apenas água do mesmo rio
Que corre e marulha
Apenas enquadramento

Até quando me amarás?

E ela faz-se bela.
Alisa os cabelos,
Alteia o peito,
Rebaixa o decote
Salientado o volume.
Mostra umas pernas torneadas
Adoçadas pelo sol.
Pinta as unhas,
Até as dos pés.
Caminha com delicadez,
Como se fosse uma dança,
Ou um badalo de relógio
Que se fixa no olhar
Preso como um imã.
E nos olhos aquele olhar,
Que repete a mesma pergunta:
"Até quando me amarás?"

Se hoje, e neste instante,
Neste corpo assim apresentado,
Ou para o outro tempo,
Onde a alma se fustiga
Porque assim se apresenta.
Neste corpo de formas,
De intenções veladas,
E de vontades expressas?
Ou para o tempo da alma
De tromento e vontade,
De ser pessoa e pensamento.
Quererás Amor?
Velarás essa promessa?

E já te vejo distante,
Saciado das formas,
Alheado depois de cumprido
E já no depois disso.
Para onde foi o durante?
Onde aconteceu esse presente?
Sempre projectado,
Sempre ambicionado.
Para onde foi
Esse conto de fadas
De príncipes e futuros
Que são um eterno presente?

Até quando me amarás?
Até ao fim do nosso tempo.