sexta-feira, 31 de maio de 2013

Vícios


Henrique Pousão. 1884. Pintura de um modelo.
Pois, eu também desenhei um modelo, mas um modelo de boa pintura portuguesa. Alentejano e natural de Vila Viçosa, Henrique Pousão é mais um ilustre representante da pintura Portuguesa do século XIX.

Ao almoço


Enquanto esperava pelo meu pedido.
Esperar, deste modo, quase se converteu num prazer...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Não há 2 sem 3



Renoir et les grandes baigneuses

Mais outra ousadia




Silva Porto. A apanha do sargaço. 1884.

Ousadias


José Malhoa. O atlier do artista.

Ok...

O que é o amanhã?

O que é o amanhã?
Repetição do hoje,
Num programa renovado
E reinventado na hora.

Mastiga-se o passado,
Todos os passados.
Os vividos e os contados,
Até, mesmo, os inventados.

E com tudo isso
Fica de fora o essencial,
A razão porque se vive
E porque há amanhã.

Nem se trata de mim
De ti ou do teu
Mas de o tudo
Aquilo que dá o sentido.

Um dia

Manhã cedo que se faz tarde e esta deixa de o ser e transforma-se na outra, a tarde. E o tique-taque que nunca pára empurra-me para a noite, essa macabra figura que me tira deste mundo e me deixa a dormir.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Insatisfeito

Quando desenho a lápis ou carvão, posso apagar e dar mais tonalidades. O facto de poder apagar chateia-me. Fico com a impressão que estou a mudar o meu traço.

Quando desenho com caneta e faço correcções, o desenho fica "sujo" de riscos. As linhas saem, por vezes sem o equilibrio das proporções e erros, também de perspectiva.

Quando pinto aguarela, consigo combinar os dois erros de cima.

Acho que nunca vou ficar completamente satisfeito com o que desenho e pinto... Depois vejo os mestres, a excelência e quase me arrependo de publicar aqui o que vou fazendo.
(ao menos na escrita o erro é menos evidente!)

Acto contínuo

Que me interessa
O acto contínuo
Se eu sou a interrupção
E a excepção no tempo?

Saído da perfeição,
Caído nesta coisa
Que é o mundo
Feito de almas como eu.

E em esforço
Juntam-se vontades
Para tentar ser-se
O possível no tempo.

Pedaços de nadas
Que se juntam
Quase feitos fio condutor
Que não se liga a nada.

Desliguei-me

E como pode assim ser
Este eu sem mim
Não o corpo que nada,
Mas a alma que o sente?

Posso eu, algum dia,
Ver-me livre de mim?
Destas dores gastas
E do sentir repetido?

De uma cruz eterna
Que se carrega sempre
Como um impressão
Que fica no pensamento.

A alma que faz de si o nada
Em que se multiplica
Iludindo-se de coisa
Pelo mero efeito da repetição.

E nem no resto zero,
na linha do nada,
Onde mal lhe chega
Nem aí sequer a toca.

Procuro tantas vezes

Procuro tantas vezes
Que me perco...
E deixo até de saber
Se é a mim que procuro.

E tudo o que busco
Respostas de tantas questões
Perguntas mil já colocadas
Em aridez de soluções.

Nesta demanda sem fim
Em eu me atropelo
Tudo o que busco
É sempre o pedaço de mim.

Pedaço essencial
Momento alfa e ómega
O que conduz
O fim ao princípio.

Na gráfica


A capa.

Lendo 017

"Ele tinha cometido a mais grave ofensa que pode ser feita à mulher: tinha sido indiferente para com a sua nudez." Almada Negreiros in Nome de Guerra.

A nudez varia do homem para a mulher? Sim! Sem dúvida. A mulher ao dar-se a um homem oferece o seu corpo, a sua nudez... E o homem não tem essa relação com a nudez. A nudez do homem é-lhe mais irrelevante. Na mulher é conquistada. É um passo na conquista da intimidade.
Por outro lado, nos estímulos visuais, o homem reage de uma forma muito mais evidente perante a nudez feminina do que a mulher, mais o homem ambiciona e deseja essa nudez. Essa nudez é, tão somente um momento de prazer e de satisfação. Há um forte prazer visual no homem. Menor na mulher.
Se isso é a maior ofensa, não sei, mas que sim, é uma ofensa, ou um incómodo ser indiferente à intimidade de uma mulher isso é sem dúvida. Quando a nudez é oferecida é um primeiro passo. Deverá ser regada, elogiada, mimada, glorificada.

Eu comigo

O barulho do sonho
Acordou a minha alma
E deu-me o odor
Do qual eles são feitos.

Mensagens de uma vida,
Pistas de soluções
Do meu eu profundo
Que assim me fala.

E é um calor imenso
Que me acompanha de manhã
Que renasce comigo
E que assim esteve

Onde fui o que sou
Sem outra razão que não essa
De me ser simplesmente
Eu comigo.

Dizer-me

Desde que escrevo poesia consigo dizer-me mais e melhor. Fico mais entendido comigo. É como a alma tivesse aberto uma porta que sei lá por que razão insistia em fechar.
Ainda bem que me trangredi!

terça-feira, 28 de maio de 2013

Eu

Quantas variedades
Cabem na minha unidade?
E de que valem elas?
Cada um por si?
Ou englobadas,
Misturadas, até
Num todo de m,iscelânea?

Sou de um modo tal
Que vezes há
Que vem de onde não sei
A frase que assim a disse.
E com ela vem também
Aqueloutro que nela habita
Bocado de mim num ali
Eu, que por vezes estou.

E como combinar
Esse ser assim diverso?
Que é como um em cada lugar,
Uma alama que se sente
Viva neste e naquele tempo.
Ser tão plural
Tantos e de tantos modos
Faz-se ser assim
Único como sou.
Eu.

Primavera

Uma das coisas que a primavera me surpreende sempre é a capacidade de provocar dentro dos homens, em geral, é claro, a extraordinária capacidade de se renovarem, de se abrirem.

Este ano, quando esta primavera chegou tardiamente e com arremessos, deixa-nos também um pouco tementes do futuro. Deixamos a garantia da temperatura a subir, de mais luz, de mais sol e passamos a ter oscilações que provocam também, oscilações no humor.

No fundo, prefiro a estabilidade e a previsibilidade da vida e do tempo.

Lendo 016

"- Para tua mulher eu própria faço todo o serviço de casa. Para tua amante, tens de me pôr criadas." Almada Negreiros in Nome de Guerra 

Gosto de sobremaneira desta subtil diferença que reside, acima de tudo, na atitude. Não só delas como também deles. Em cada momento há que se construir toda uma encenação de modo a que o enredo da vida se faça de acordo com toda a carga moral. E essa carga não é de todos os personagens. Formas de dirimir os conflitos é alterando as proposições.

E se a amante se transforma em mulher, passa a fazer o serviço da casa? E ele, o que passa a fazer?

Nudez

"Com efeito, a Judite a dormir tinha a beleza da criança, da inocência; acordada tinha a beleza da fera, a ferocidade de uma mulher bem servida pela natureza e zangada com a vida." Almada Negreiros in Nome de Guerra.

O tema da nudez é-me sempre grato. Seja pela ideia erótica do mesma, seja pela aproximação que dá à essência, à verdade e à pureza. A nudez é algo no estado puro. Sem acrescentos.
No caso referido há o encontro da nudez nesse estado puro, límpido e a nudez intencional, provocadora. Em cada uma o seu encanto, a sua tentação. Definitivamente prefiro sempre a primeira. A natureza a respirar distraída e tranquilamente.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Não sei explicar



O que resta de uma irmã que apenas viveu uns meses e que ficou em terras africanas, Moçambique.
Por ocasião de uma visita de um irmão, lembrou-se de ir ao cemitério resgatar um afecto.
Teve a generosidade de colocar um flor por cada ujm de nós.
Passaram mais de 40 anos, mas a vida, esse mistério sente-se para lá das imagens.

Comovido e sentido. Por onde nos podem levar umas fotografias...
Muitas coisas e com igual intensidade. Mas paz e serenidade.

Da genealogia

"Nós todos, inclusive os expostos [ filhos rejeitados, deixados na roda], temos todos as nossas árvores genealógocas do mesmo tamanho. Lá no tamanho das árvores somos todos iguais. Mas é precisamente nas árvores que está a nossa diferença. Vê-se perfeitamente que a cada um aconteceu qualquercoisa que não se passou com mais ninguém. E aconteceu-nos antes de termos nascido. É a árvore genealógica. Esse seguredo do nosso segredo. Esse mistério do nosso mistério. Nós somos hoje o último fruto dessa árvore secular, secularmente secular!(...)
Claro está que todo aquele que tenha a veleidade de querer servir-se da sua árvore genealógica, como de uma estatística para deduzir-se não faz senão aleijar-se." José de Almada Negreiros in Nome de Guerra

Ora aqui está, nas palavras do grande Mestre Almada, a natureza absolutamente democrática da genealogia. Todos temos a mesma dimensão da genealogia. Todos somos filhos de um homem e de uma mulher e estes na exacta mesma medida e assim sucessivamente. Por isso mesmo possuimos a nossa característica individual que, como disse Ortega y Gasset, nós somos nós ( a genealogia) e a nossa circunstância ( tudo o que nos rodeia, e por isso mesmo nos faz sermos tal como somos).
Todo aquele que se julga superior, diferente, o que quer que seja por árvore genealógica acabará por se aleijar ( no sentido essencial do termo, de se amputar de algo, de ficar aleijado) pois suprime uma parte de si.

Assim sendo há uma igualdade evidente entre todas as pessoas e aquilo que as diferencia é o que fazem das possibilidades como pessoas no mundo. E essa será também a marca que deixaram na árvore, da qual foram um ligeiro galho que com o tempo, irá sustentar uma vetusta árvore de infinitos ramos.
Vamos, então conhecer a genealogia como quem executa a máxima socrática do conhece-te a ti mesmo. É a alma que se busca.

Crise da Humanidade

Ontem escutei a seguinte frase

"A Humanidade deixou de acreditar no homem."

A ideia subjacente não se reporta, como é de perceber, a uma atitude crediticia, mas sim valorativa. Durante os últimos anos houve todo um esforço para colocar o ser humano, a pessoa, no centro das preocupações. Ultimamente perdeu-se a pessoa e passamos a valorar as coisas que rodeiam as pessoas e, nesse sentido, a Humanidade deixou de acreditar no homem.

Imoralidade sem dimensão

Por duas vezes o mesmo homem encena um triste e pequeno engano no troco do café que todos os dias bebo num estabelecimento.É claro que na natureza dele vive uma vontade reprimida de enganar o mundo inteiro e apropriar-se do dinheiro dos cafés e restante despesa que as pessoas fazem. No entanto faz também parte da sua natureza ser incapaz de o fazer. Nunca será capaz de vencer o medo que tem de fazer isso, jamais passará por um pequeno aldrabão de cêntimos que desconsidera como acto imoral. E desconsidera porque a ambição da sua imoralidade e roubar todos e tudo.

sábado, 25 de maio de 2013

fim de semana

Uma serena tarde na posição horizontal, com um quente sol primaveril e debaixo de uns pinheiros.

Não mesmo para isto que foi feito o fim de semana?

Agora respirar profundamente três vezes seguidas, fechar os olhos e tentar contar as pinhas todas antes de adormecer.
A paz pode ser uma entrega a um momento na sua apreciação. Serenidade.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Quase seis meses

De espera.
Se fossem 9, podia dizer que era o tempo de espera de um filho. Não o sendo, de facto e tal como deduzimos da palavra, acaba por ser o ser, ainda que de outro modo.

Já há capa.

Ponto final.

Do amor...

Toda a vida é tempo
Passagens entre lugares,
Estados de alma
E outros de sentir.

E no meio há o Amor
Que se toca, ocasionalmente
Como uma pétala,
Ou um dente de leão
Que vivem suspensos
Na quente aragem
De um tempo único
Que é o tempo de Amar.

E depois na memória
Desse fogo essencial
Lastros de emoções
Que se repetem em mil imagens
Do Amor primordial.
Que se replica
A cada toque,
A cada momento,
E a cada beijo

Completamente.

Dá-me a tua pele

Dá-me a tua pele,
Esse teu sentir
Que larga esse perfume
Como a mais bela flor.
E acolhe-me,
No ninho do teu seio,
Entre as formas do amor,
Apenas como as tuas.

E deixa-me repousar
De todo o tormento
Sossegar por um tempo
E enfim regressar
Ao tempo...
Que foi todo o tempo,
Onde tudo coube
E nada faltava.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Feira do Livro

No sítio do costume.
Mais alfarrabistas ou vendedores de livros usados. O que, nestes tempos menos simpáticos, é uma benção!
Comprar um livro, neste caso um romance de Almada Negreiros, por 3 euros é catita.

Um passeio para abrir o apetite do almoço.

Há quem diga que ama

Há quem diga que ama
Que amou loucamnete
Perdidamente, até
E que foi tudo
Arrebatamento e paixão
Tempo sem tempo
União e unidade
Fusão mesmo.

Toque de Deus.

Adormecido de mim

Adormecido de mim
Sem sequer reconhecer
Que o tempo passa
E também por mim.

E o que era novo
É agora hábito
Como vício violento
Que corrói por dentro.

E assim pendurado
Como sem destino
Completamente desasado
Perdido e sem tino.

Não há madrugada
Que não venha da noite
Que como cosnciência
Tarda em acordar

E nessa confusão
De somas de nadas
Que crescem alturas
Que não olham para trás.

E o fim do tempo,
Essa impertinência do pensar,
Aproxima-se em segredo
E espera a alma acordar.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ser eu ou outro

Quando se muda
De actor a espectador
Ou até o contrário
É sempre uma ilusão.

Se se é capaz de ser
Aquele que é o outro,
O outro não pode ser
A minha impossibilidade.

Das minhas dores eu sei
Que sinto o que vivo
E ele sabe das suas
As que não sinto.

Mas, de tudo, algo é certo
Que nada nunca é
Tal como eu o penso
Porque o outro também o é.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Esqueci-me de morrer

Esqueci-me de morrer
Estava já livido
Sem alma ou sangue
Estava suspenso, apenas.

Nada me ligava
A nada estava ligado
Nem sequer à vida,
Permanecia, apenas.

Nem sei o durante
Se um momento ou uma vida
Nem sei já o que foi
Talvez tempo, apenas.

Nem paz nem guerra
Claro ou escuro,
Nem sequer a diferença
Etéreo apenas.

E sem repente
Impulso ou vontade
Nem sequer agonia
Para quê, então, morrer?

No retorno


E mesmo quando volto
Nunca é ao mesmo
Há sempre aquele mais
Que nunca fica para trás.

Se erro do caminho
Ou acrescento ao que sinto,
É um mais que, às vezes,
Consegue fazer a diferença.

E não a do caminho,
Ou sequer do que foi fugaz
Mas aquilo que é o todo
E que até faz o sentido.

Atordoado

Quando vinha de trás para a frente encontrei um cone à conversa com uam piramide.
A piramide de tanto rodar como provando a lisura da sua figura, acabou por cair e rodava em torno de si mesma. Ficou tonta.
No plano onde caiu estavam dois trinagulos que por mais que se juntassem, não conseguiam fazer-se sólidos geométricos. Faltava-lhes a dimensão.
Um grande sururu vinha do fundo, todas as piramides falavem da sua vantagem de serem portadoras de tantos lados quantos os que exibiam. A isósceles dizia-se poder ser perfeita e a forma certa. A quadrada de tanto rir fazos seus lados passarem de triangulos agudos a rectos ou mesmo a obtusos!
Até uma piramide de quarenta lados, que se afirmava a mentora da história do Ali-Bába, pois estava era por causa dela que a caverna se abria, bramia as suas razões.
Pobres vértices que apesar de se quererem tocar apenas se picavam nas suas pontas!

Ás tantas, quando a dor de cabeça começou a ficar esborrachante, lembrei-me da borracha e num furacção foi tudo um ar que se lhes deu e o papel voltou à normalidade

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A porta

A coisa começou assim: Abriu-se uma porta de uma letra!
Claro que a princípio foi difícil de perceber o alcance da visão, mas aos poucos todos foram aceitando a ideia que uma porta pode, claramente, abrir-se de uma letra. É como que uma saída, ainda que houvesse muitos que nela viam antes uma entrada, outros, poucos já, apenas a admitiam como passagem...
Depois de se estabelecer que uma porta se abre de uma letra, sem a dúvida do dado palpável, foi a vez de ir à procura da letra. Ah! mas isso foi já questão quase sem gente interessada. Naturalmente que o grupo que advogaram lugar a apossibilidade da porta se abrir de um acento, ou mesmo de um ponto de exclamação foi surpreendentemente barulhente, ainda que lhes fizessem notar que uma porta não se abre de um um ponto, nem de uma virgula. Caíria. Não era uma porta aberta, mas, e na melhor das hipóteses tombada, caída, arrombada até. Um desastre!
A primeira letra que foi apresentada foi o A, claro! Mas o raio da porta encravava na voltinha revirada, e houve até quem tenha tropeçado nesse acrescento! Sem sucesso. O o rolou de imediato, mas ninguém abre uma porta redonda! Nunca se sabe para onde se abre. E ao sair caiu dentro do u, deixando-o sem capacidade se explicar.
O i pôs-se logo aos saltos, mas ficaram as pintas do i espalhadas pelo chão enquanto viam a porta transformada num catavento. O e ficou ao lado do a com uma perna para cada lado.
O p da porta fez um finca-pé, mas logo lhe chamaram janela! Até o q vizinho apareceu e pôs o seu pé à janela! Uma risota pegada!
O T não sabia para onde abrir, o S estava mais torto que é costume e o Z dormia. O C estava à espera mas o braço do G não parava de o empurrar e cairam em cima do H que os levou presos na perna do R. O B tinha acabado de almoçar e espirrou de tal modo que ficou feito num D.
O M agarrou no S e torceu-o à volta do L para assim prender a porta.
E então entrou o resto do alfabeto e foi uma brincadeira que não mais acabou!

Ser mulher


Se há pouco as mulheres tomavam banho pelo gosto de se refrescarem, de comunhão com a natureza, agora voltam a casa e assumem o seu asseio como o do seu lar


Não consigo deixar de sentir frio nestas duas mulheres que agarram na água e se lavam com uma esponja. A banheira mais parece uma frigideira e elas, coitadas, limitadas a um ingrediente que se prepara.

Degas.

O que pode ser o futuro?

Dizia Clarice Lispector na audio reportagem, ou entrevista, a determinada altura a seguinte frase: "A criança vive em fantasia."

Claro que sim. O mundo da criança é esse mesmo. Cabe lá tudo e toda a qualquer maneira, modo ou circusntância. Mas a criança cresce... e esse mundo, aos poucos desaparece... Pode, assim, o futuro ser o fim da fantasia? O fim da ilusão?
E sendo ainda mais brutal, será a morte o fim de tudo isto? A completa e final sensaboria?

E chegará o verão


E chegará um dia o verão, e vou até ao lago... Um qualquer, pode ser até no fundo da imaginação, e direi que desci ao paraíso e fui um intruso numa tagarelice solta de mulheres.
Dentro da natureza, com o vento quente do verão os corpos deixam cair a sua natureza, em paz.
E as toalhas de algodão apenas servem para secar as gotas que descem do rosto refrescado e do queixo, saltam para um corpo que se deixa salpicar dessa frecura.

Renoir - les grandes baigneuses.

Diálogo impossível

Desolado, diante de um canto dizia amargurado.
- Tanto tempo perdido!
E mantinha essa desolação. Vivia esse desconforto e insistia nessa lamúria.
Um anjo que já se estava a enfadar de tão insistente lamúria com a suavidade das asas mais singelas que os anjos podem ter desceu com a suavidade do algodão sobre a ânimo do lastimante. E aos poucos acomodou-se à donsciência deste e deitou a sua cabeça na dele.
Depois de um longo suspiro diz, como se falasse com o anjo
- Porque é que perdi tanto tempo tempo?
- Mas com o quê?
- Amando o que estava próximo
- Mas amava mesmo?
- Como assim?
- Claro que amava! Sonhava com ela, viva suas palavras, perdia o meu olhar no dela...
- E não foi bom?
- Não.
- Então? QUando se ama a vida tem outra cor, outro ânimo, outra vontade.
- Pois é. Se calhar pode dar essa impressão.
- Não percebo.
- É que a rigor, não amei. Quiz sentir-me amado. E então desejei um amor.
- Então foi bom.
- Não.
- Porquê?
- Porque ela era um engano. Eu não a amava, mas queria amar-me por ela.
- E...
- Ela não merecia. E, por isso, eu não me amei.
- Posso rir?
- Não.
- Posso esquecer?
- É melhor.
- Bem me parece.

domingo, 19 de maio de 2013

Quando eu nasci

Quando eu nasci
Acordei e me vi em mim,
Perguntei-me,
E a quem sabia,
Que servia, afinal,
Este eu que nascia.

Um pedaço de algo,
Coisa incerta,
Que dia a dia se fazia
Alma.
E alma que repetia
Sempre ansiosa
A questão eterna
De ser vivo
E pensar-se.

E ainda hoje repito
A questão de me ser
Ou gente ou pensamento
Ou algo que fica de permeio.
Uma coisa é certa
A dúvida permanece
Desde o primeiro dia
Que em mim
A minha alma nasceu

Mais que saber porque escrevo

Mais que saber porque escrevo,
Quero saber porque nasci.
Ter alma e pensar
Acontece antes de ser.
Escrever é escrever-me
Tal como pensar é pensar-me
E ter alma é desalmar-me!

E depois de tudo
Ainda não sei porque nasci!

Afasto-me de mim

Afasto-me de mim
Desde que me lembro
Repito-o desde sempre
Como quem nunca se teve.
E chegando a mim,
No sempre que acontece
Dia após dia, cruelmente,
Vejo que não consegui,
Sair de mim.

Fico, então perdido,
Nesse espaço igual
Que sou eu.
Do modo como o sou,
E pergunto-me como seria
Se fosse afinal
Aquele que não sei
Quem era se o fosse
Um outro que não é
Aquele que eu sou.

De fora para dentro 3

"Tem um conto meu que nem eu o compreendo bem." Clarice Lispector numa audio entrevista na Gulbenkian.

Percebo e não percebo a autora. Vou tentar explicar.
Há momentos, por ventura mais inspirados, em que a nossa ideia, a nossa inspiração toma conta de nós e reproduzimos de forma escorreita, à altura, um determinado pensamento que se nos apresenta de uma clareza e clarividência absoluta.
Mais tarde relemos o escrito e, por vezes ficamos a achar que o autor, esse desconhecido nessa altura, me está a dizer?

De fora para dentro 2

"O ideólogo não sabe o que é o amor, porque não sabe doa-se." Papa Francisco

Se entendo bem o sentido desta frase ela resume duas máximas. Não fales, age. E as teorias nada valem se não reproduzirem um acto. Ou seja o agir antes de teorizar, e só teorizar depois de agir.
Podemos extrapolar, como tudo o que se refere ao âmbito da religião e da experiência da fé, desse acto para todos os outros actos do homem. Não julgues sem saberes, e só depois de saberes estarás apto a julgar. O primado do saber adquirido para se poder chegar ao ponto decisivo da acção que interfere com a vida dos homens e, por isso, de cada homem individual.

De fora para dentro

"O Espírito Santo está a soprar." - Monsenhor Victor Feytor Pinto

Aprecio de sobremaneira esta noção de sopro da divindade, como seu modo de interferir na vida dos homens. Quer se queira, ou não, só podemos entender a divindade como algo que não se vê, não se toca, não se cheira, apenas se sente o seu sopro. O seu ar inspirador.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Queixinhas da vida

Estou condenado a ir à falência!
Ano de 2013 e já vou no fim do segundo caderno de capas pretas ( uma imitação pífia do Moleskine).
Um hábito antigo que teve vários intervalos. Desde 2001 que se dedicava quase em exclusivo à vidinha profissional. Depois de 2005 começa a ter uma vida dupla. Havia um para a minha vida e outro para a do banco. Desde 2009 que é absolutamente exclusivo.

Em casa a estante vai sendo invadida a os outros livros que estavam na mesma prateleira começam a ser empurrados, banidos mesmo do lugar. Já colecciono uma dezena deles. E tenho que procurar as preciosidades dos tempos idos. Num deles está escrito um soneto. Com a métrica e tudo. Feito cheio de rigor. Lembro-me de, na altura, ter achado que o mesmo era muito mais um exercício de matemática do que um texto com conteúdo poético. E mantenho a mesma ideia. Ou me falta a poética, ou desatino com a métrica.
Mas lembro-me das primeiras experiências poéticas para lá dos 15 anos! Que mania tão velha já! 

A preparar o fim de semana

Se eu sonhasse acordado vivia então um sonho. Mas se vivesse um sonho, será que chegaria a acordar?
NÃO!
Os sonhos são como anjos.

Coisas que me dão!

Até para pensar é preciso pensar primeiro e aprender. Nada é simples. Nada é dado. Tudo se passa num percurso. Uma constante aprendizagem.

O belo

O belo, bem como a arte, é uma longinqua ambição que dá ânimo ao homem. Que nunca morra a ambição!

De um alguém qualquer que desconheço

Todos os dias a roupa transforma a mulher que acorda sem roupa, cansada, de cabelos embrulhados na cara e as pregas da cama revolta desenhadas na pele. Senta-se na cama e deixa cair a cabeça no chão lançando um longo suspiro, tão longo como ainda quente daquela morrinha que fica. Leva as mãos aos olhos levantando a cabeça. Enquanto os esfrega sacode a farta cabeleira. Respira fundo e levanta-se.
Apenas mulher se revê em frente ao espelho. Nada seduzida pela imagem que a manhã lhe devolve, inicia o repetido processo de se transformar na personagem que dentro da sua alma dá mais sentido ao dia a dia. E todas as manhãs veste essa personagem.
A roupa interior, esse resto de mulher tem a mesma cor que todo o conjunto, negro.
Calça umas botas de cano alto. Negras também, claro. E com umas esporas, ou uma simulação destas. Nas pernas umas calças de montar. Pretas também. Coleantes, apertadas e justas e sem bolsos. Um cinto preto, forte e de cabedal. Um top justo que deixa que se evidenciem as femininas formas dos seios pequenos, mas, ainda assim, apelativos o quanto baste. Por cima a jaqueta, igualmente preta. Nos pulsos e pescoço pendura-se toda uma parafernália de quinquilharia alusiva ao mesmo tema.
O rosto esconde-se atrás de um largos óculos escuros onde a farta cabeleira, agora penteada, rouba o rosto.
E assim, afirmada deste modo, como viverá esta mulher? A imagem de amazona da noite da cidade, que cavalga a vida e toma a pulso as rédeas da sua vontade ama submissamente. Entrega-se sempre que é possível a um escriturário de uma empresa de contabilidade, homem pequeno, careca, magro, inacreditavelmente tímido e medroso. Ela desmonta do seu cavalo e ele parte com a sua Eva num remoinho primordial.
Ninguém fala de futuro, ainda que o tempo passe, e os anos da aventura se acumulem na pasta amarela da segunda prateleira, junto às guias de remessa do arquivo morto.

No fim de cada acto, o actor despe-se do personagem e procura-se.

Da vida

Estava sem nada para fazer. Um daqueles momentos em que temos que nos manter num sítio e há apenas que esperar. Assim agarrei num papel e num lápis e comecei a olhar em redor para desenhar. E o premiado foi quem estava à minha frente. Quando dei por terminada a tarefa, como era hábito em mim, dei-lhe o desenho. Relato a reacção do desenhado:
- Já sabia que me adoravas, mas não era preciso tanto.
Sorri-lhe.
Gosto de desenhar e é-me irrelevante o modelo, ou aquilo que desenho. Apetece-me, tenho tempo e disponibilidade e acontece.
Só voltei a desenhá-lo uma outra vez. Mas confesso que foi para o massacrar. Garotices minhas!

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A ver se passa.

Numa espiral
E descendente
Em vez de acreditar
Fico descrente.

E de tanto rodar
Como se fora de bailar
Quase me vejo a finar
Com o ímpeto de acabar.

E não é coisa de momento
Nem da alma assunto
É um verdadeiro tormento
Ver o país assim defunto.

Estados de alma

Hoje estou como o tempo.

Cinzento. Sem chuva e sem frio.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O ontem, o hoje e o amanhã

Debaixo do título, e tendo em conta o tema da preocupação que ele aborda, essa coisa misteriosa que é o tempo, é o ponto de partida desta pequena reflexão.

A nossa vida corre durante um tempo, e nesse tempo, nessa possibilidade, fazemos uma série de planos para lá meter tudo aquilo que temos gosto em lá colocar, ao mesmo tempo que colocamos as nossas obrigações e até outros nadas que também executamos. Somos sempre, e profundamente marcados por esse escravo, esse executor que nos determina e nos pressiona para cabermos num determinado espaço de tempo onde teremos que aí permanecer.

Por vezes preferiria viver fora do tempo, como que num sonho, num estado de alma em que nada me fixa a nada e apenas me deixo ir ao sabor do que me vai ocorrendo num profundíssima distração de mim mesmo e do mundo. Não sou capaz de ficar nesse modo. Ou adormeço, ou me chamam a qualquer coisa, ou percebo que tenho que acudir a algo. Pior, não tenho consciência desses saborosissimos momentos. Apenas o gosto de saber que assim estive.

Enfim, desastres

Havia uma ideia, longa já no tempo, que as chefias, o topo das hierarquias eram dominadas naturalmente por quem havia acumulado maior saber e conhecimento. Penso que houve um tempo que as coisas foram assim. Quero, aliás, crer que assim sucedeu.

O tempo, e eventualmente, a ligeireza dos actos de alguns homens, bem como uma certa decadência moral elevou ao lugar de topo, já não a natural e normal hierarquia da sapiência, do valor reconhecido, mas a necessidade de apoios e resgate de favores. Se de início não se tinha a noção das consequências, era porque a razão de tal residia na pequena profundidade destes actos.

Hoje as hierarquias são meramente funcionais. Cada uma serve exclusivamente o degrau superior e, se por mero acaso ajudar a progressão funcional do trabalho que é suposto realizar, tanto melhor, caso contrário pouco importa pois que regra geral os trabalhadores sabem muito bem o que devem fazer.

Todo este percurso, que levou Sócrates, Durão Barroso e Passos Coelho a primeiro ministro, levou também juízes a tribunais, professores a cátedras, médicos a directores de hospitais e outros danos de igual jaez na estrutura da sociedade.

Com o sistema assim aceite, onde pode residir a expectativa de uma sociedade?

Lendo 015

Deviamos desconfiar sempre dos alienados. Estão de certo modo de má fé e sabem-no. Mas não sabem como alterar isso, e os médicos não sabem como curá-lo." Lawrence Durell in Monsieur ou Princípe das Trevas.

E pumba! Lá se vai a teoria da inocência dos alienados ( loucos?, perturbados? doentes mentais? enfim..).  Havia a ideia que estes humanos vivam uma inocência, são, muitas vezes mesmo considerados inocentes que às vezes têm comportamentos desadquados. Não tenho formação nesta matéria, pelo que mais não posso fazer que "deitar à advinhar", correndo o risco de deixar escrito um conjunto de disparates. Mas assumamos a nossa alienação e toca a deduzir.
A ideia subjacente à frase é a da intencionalidade do alienado. Mas, e mais profundamente, que o homem não é uma pessoa boa. O homem tem maldade dentro dele, e mesmo quando alienado, ou seja fora dos parâmetros comuns age intencionalmente em erro, ou no erro, ou mesmo para o erro. Assim sendo ao aliendado tem uma consciência moral superior ao seu equilibrio emocional. Será, então que é no equilibrio emocional que jaz a maturidade moral?  



Lendo 014

"Ninguém gosta de ser homosexual, assim como ninguém gosta de ser negro ou judeu." Lawrence Durell in Monsieur ou Princípe das Trevas, 1974

Uma boa polémica é sempre uma porta aberta para o pensamento. Nada como uma frase controversa para que os enredos da nossa mente se excitem e desatem a produzir postulados sobre o tema.
Escrevi a data para se perceber que já muita água havia passado sobre ao fim da segunda guerra, pelo que os judeus já se tinham transformado, novamente, em mais um povo.

O que leio desta frase é a certificação que vivemos num mundo caucasiano e cristão. Esta é a base da nossa moral, da nossa organização ética. Assim a homosexxualidade, os negros, os judeus, bem como os indianos e os povos do norte de áfrica que vivam inseridos nos meios culturais do chamado ocidente, sabem que não aquilo que se denomina a "normalidade". Não é uma sentença, não é uma crítica, é uma verificação.
Tendo em conta que nos somos "nós e a nossa circunstância" como dizia Ortega y Gasset, não consegue o homem infuir ou dominar as suas circusntâncias, mas vivê-las, e quanto muito assumir o seu eu como diverso. As alterações legislativas não alteram as circunstâncias, antes abrem janelas de oportunidade para que alguns eus ajam e por isso alterem alguns dos seus paradigmas. A alteração desses paradigmas, sobretudo na sua vida, não é a alteração do paradigma da sociedade, ou da cultura. Essa vivem animicamente dentro de cada indivíduo que a constitui. Serenamente.

Poderia ir mais longe, e juntar aqui o conceito de liberdade, mas fica para outra oportunidade.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lendo 013

"O Bruce que eu era, e o Bruce em que me tornei enquanto vou escrevendo estas notas, um pouco todos os dias." Lawrence Durell in Monsieur ou o Princípe das Trevas.

Poderia dizer que somos sempre uma pessoa em mutação e aprendizagem, pelo que somos sempre outro quando o tempo passa, e, ao escrever isto anulava o efeito que depreendi nesta frase. Quero enfatizar que nós somos sempre àvidos de novidades e de conhecimentos e com eles incorporamos conhecimentos que nos acrescentam. Não é tema moral, pelo menos por enquanto.
Feita esta primeira paragem, o que mais se releva é que a escrita é um acto individual, pelo que o que neste caso se acrescenta não depende do exterior mas vem de dentro e das reflexões que se fazem quando vamos fixando as nossas impressões através da escrita.
Podería dizer, em brincadeira naturalmente, que é um momento em que o homem se basta a si mesmo. E, até nisto se produz uma falta de verdade, pois que ao fixar as suas impressões a expectativa é que seja lido. E ao ser lido, ser conhecido, compreendido e, eventualmente, comentado.

Lawrence Durell nos seus pequenos nadas que me levam longe. Depois do quarteto de Alexandria, entro no quinteto de Avignon.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mais diálogos absurdos

- Mas prorque é que escreves?
- Perdão?
- Porque é que escreves?
- Porque gosto.
- Mas eu não gosto do que escreves.
- Sim?
- Sim! Devias escrever de modo diferente.
- Talvez...
- Devias escrever sobre coisas.
- Coisas?
- Sim, ser mais acertivo, mais descritivo
- Como assim?
- Sei lá, ser mais viril!
- Viril?????
- Sim, viril!
- Mas...
- Não percebes nada disto.
- ...ah....
- Esqueçe, continua lá entretido com essas coisinhas.
- Mas...
- Deixa!

Uma flor que não floriu

Uma flor que não floriu
E deixou um sorriso suspenso
Solto num ar, à deriva
Que se vê à cara colado
E às vezes forçado
E até desajeitado.
E percorre o tempo
Esse sorriso desamparado
Carregado de comoção
E embrulhado numa ânsia
De saber que não floriu
No tempo da primavera
Nem de qualquer outra
E ficou, assim por ser
Um sorriso aberto
Um gargalhar de alma
E, sobretudo,
Uma flor a rir.

Em trabalhos

Meto-me em trabalhos e depois não consigo desdobrar-me o suficiente para acorrer a tudo.
No entanto, e apesar da bagunçada geral, as coisas podem seguir um bom caminho. Há que ter paciência e bom estado de alma.

A minha disponibilidade reage muito pronta a pedidos. É capaz de destapar o fim do mundo. Só que os pedidos, por vezes sucedem-se a aí, tudo se complica!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Diálogos insensatos

Vivia a sua circunstância. No seu papel, no que era suposto ser. Não, mais que isso, no que fora formado para ser. De repente pedem-lhe para ser diferente.
- Diferente, mas como?
- Como outro!
- Outro?
- Sim, outro!
- Mas como outro?
- Ser aquele!
- Mas qual?
- Aquele outro!
- ?
- Sim, ser outro!
- E...
- Ser outro, o outro!
- Mas como?
- Ser mais
- Ou ser dois?
- Não! Ser o mesmo
- Como o mesmo, se o outro?
- Não! Seres tu, sendo outro.
- Não me parece.
- Tenta!
- Não me suscita!
- Cobarde.
- Talvez também.

Estar a meio caminho

Estar a meio caminho
E sabendo o destino,
Nunca o alcançar
Por força de se ser
Tal como se é.
Animal inacabado
Profundamente moral
E sempre insatisfeito.
Nada é fim,
Tudo fica no meio.
E só na morte
Tudo se completa.

Mais desenhos











quinta-feira, 9 de maio de 2013

Em remoinho

Em remoinho
Ou em desatino
Esta alma de menino
Está em desalinho.

E nada está
No caso que chega
Ao conforto da alma
Que está ansiosa de si

Os seus pequenos nadas
Coisas essenciais
Que são o sentir
De querer mais

Um fututro que é quieto
Parado no mesmo lugar
Em concha serenado
No conforto aninhado.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

A casa do pecado


Ontem voltei a esta casa. Mais uma reunião e mais promessas. Vale a pena acreditar no futuro.
Enquanto fazia tempo, fazia também um desenho.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sons

Há músicas que marcam uma época. Não uma época como um dado histórico, mas como uma época da minha vida. E hoje com as tecnologias que estão ao nosso dispor, consigo percorrer várias épocas e com elas sentir esse tempo.

É curioso, mas à vezes é cansativo.

domingo, 5 de maio de 2013

A alma chora a distância

A alma chora a distância
Não da terra que passa,
Mas a outra que se sente,
De um ovo que se larga.
E fica assim presa,
Ao tempo do seu sentir
Dentro da alma primeira~,
Onde guardo o que sou.

E mesmo saindo comigo
Nunca sei o que trago
Se aquilo que sinto
Se o outro que tenho saudade.
E na volta nada passa
Tudo está igual.
Vivemos outra vez os dois
Com saudades do outro

E se vou sair,

E se vou sair,
O caminho que seja curto
Quero olhar para trás
E ver o meu mundo.

Mas esse é de sentir
É um mundo por dentro
Que vejo de olhos fechados
Que assim olha para trás.

E, todavia amanhã
Noutra vez que saia,
Num caminho assim curto
Também vou ver este passado.

A dor do corpo é entretenimento

A dor do corpo é entretenimento
A da alma é tormento
Uma passa com o tempo
A outra chora a todo o momento

E vivo entre elas.
Duas dores que me chagam,
Dilaceram uma carne que se gasta,
Numa alma que não tem fim.

E dizer que isto é pouco
É coisa de quem não sente.
Não a dor do couto
Mas a ânsia de ser gente.

Três canetas na mão

Três canetas na mão
E uma alma em explicação.
Mas não se consegue dizer
Se a alma não tiver mão.
Pouco importa a tinta
O sangue que escorre na caneta
Pois não é dela que se esvai
E da alma que lhe sai.

E nem o sol,

E nem o sol,
Ou o céu todo azul,
Nem sequer o mar
Me devolve o passado
Esse segundo de ouro
Que se perdeu no tempo
Quando os olhos não viam
E só a alma sentia.
Caiu num mar fundo
Sem tempo de saudade.
Sem mim, sem nada
Deixando-me
Ansiado.

Memórias curiosas

Em frente à Guernica de Picasso um cão de fila vocifera: "No foto!" não vá alguém roubar o último arquétipo do choro comunista.

Revi, assim, pela terceira ou quarta vez o famoso quadro de Picasso. Ou é impressão minha ou este quadro parece-me cada vez mais pequeno. Não só em dimensão efectiva, mas também em dimensão política e moral. Quase reduzido a um panfleto.

Se sair

Se sair,
Para onde?
Se a minha alma me persegue
Onde quer que vá!

Sacudo-a de mim
Afasto os seus tormentos
Com as ganas de os agarrar
Até ficarem ferrujentos.

Que são grilhetas
Prisão oca na mente
Ansiedade que atira ao chão
E se fecha a cadeado.

A certo tempo

Agora volta que torna
A vontade de ser
Um momento ínfimo
Do mar da minha alma
Onde anda a maré
Esse sabor inesperado
Que é novo cada vez
Como se repete também.
E nesse novo velho
Que é novidade vivida
Abre esperanças de luz
Do passado pisado.

A certo tempo

A certo tempo
Nada é novidade
Tudo é um momento,
Às vezes com idade.

E na alma alada
Que experimenta o sopro
Fica, assim, encantada,
Do modo como sofro.

Abro-me a alma

Abro-me a alma
Como se fosse um livro
Nem sei em que língua
Nem reconheço a letra
Nem a mão que o escreveu
Fico-me pelas imagens,
Desenhos de algo
Que alguém criou.

À espera...

À espera...
Outra vez
Da minha alma
Que se foi.

E não tem como tornar
O espírito que foi
É uma imagem
Que com o tempo passou.

Apenas resta a memória
Desse tempo fecundo
Que deu azo até
A este tempo d'agora.

E assim, sem retorno
Arrasta-se-me o ser
Nas pequenas miudezas
Que é este meu viver.

Diversões em Madrid


O que mais se faz num museu... esperar pelo outro.

A vigiar o sudoku?


Entrada do prado


Esperando


A consultar um livro


Com as costas de Gala na memória!


O palhaço final!

Brincadeiras com desenhos 2




Enquanto esperava.....

Brincadeiras com desenhos


O desenho e a cópia - Bronzino e Retrato de um Jovem a fazer de São Sebastião

Mathias Srom e a Cenas de Emaus


Hopper e a rapariga no quarto do hotel


Karl Hubbuch e o retrato duplo de Hilde


Henri Manguin e as estampas


 Munch e o entardecer



 Palma el Viejo e la Belle