"A morte de Narouz começava a nascer." Lawrence Durell in Mountolive
Como é que a morte pode suportar o nascimento? São duas ideias, dois momentos antagónicos, sobretudo na mesma pessoa. Acresce ainda que a linha é inversa. Acontece a morte após o nascimento e não este após o outro. Toda uma imensa contradição na frase. Ou talvez não.
Após a morte física, a morte do indivíduo, da pessoa geradora de palavras, de pensamentos, que interage comnosco, com a qual desenvolvemos um conteúdo comum e prórprio. Após a morte, a ausência de resposta, quando o caminho para o outro se encontra como num beco sem saída, nasce, cria-se nesse momento uma outra pessoa, uma outra entidade que passa a viver dentro de nós. O nosso afecto desenvolve e acolhe todas as imagens do defunto e dá-lhe essa nova vida onde já não é a divina providência e a liberdade do indivíduo a tomar forma, mas o que preferimos guardar. E, nesse sentido, a morte de alguém nasce em nós. Nasce como sentimento, como a dor da perda, a parede que se eleva e a nossa memória dele.
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