terça-feira, 30 de abril de 2013

Complicando

Há sempre dias em que as coisas não seguem o mesmo caminho que os ponteiros do relógio. Não que tenha alguma contrariedade de maior ou que cause algum transtorno.
Incomoda.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Há tanto tempo que sinto

Há tanto tempo que sinto
Ali, no canto onde minto
Mesmo junto ao teu ouvido
As palavras de que duvido.

E nem sei como elas são
Se inteiras ou a fingir
São sons da minha emoção
Que não sabe se vestir ou despir.

E no que elas te falam
Fica dito uma intenção
Nunca a que eu quis
Mas aquela que te fiz.

E dessas, está tudo cheio
O inferno e vida
Quero alma no meio
Que me cansa esta fadiga.



Há dias assim

Há dias assim
Em que o sol arrefece
Não saio de mim
E o sentir humedece.

E não há volta a dar
Nem com que tornar
É dia de esperar
Que isto vai passar

Nem à pancada
A coisa lá vai
É dia de um nada
E nada mesmo sai.

e mais



Mais desenhos








quinta-feira, 25 de abril de 2013

Frases que ficam a remoer.

No meio de uma conversa que enche o tempo de manhã, antes dos corpos se aplicarem nas tarefas do dia, das repetições, dos cálculos e das misérias alheias, as linguas lubrificavam as mentes com conversa sem outro objectivo que não fosse acordar. O exercício é completamnete livre e entram os do costume. Os modos e os temas não variam muito. No fundo aquilo que se pode conversar no café e em voz alta e que, inevitavelmente levará a umas gargalhadas.
De repente, e dando o enquadramento a uma conversa sobre o casamento e a fidelidade solta-se esta frase:

E eu disse-lhe:
"- Olha menino, estão aqui os preservativos."
Pois não queria que viesse para casa sujo.

Enquanto contava este pedaço da sua vida, fazia-o como quem espeta mais qualquer coisa dentro da alma. A alma, coitada desse sopro que fugiu daquele corpo há tanto tempo. Não, não se pode dizer que fosse opaca de sentidos, ou que fosse fria, ou sequer ausente. Era uma pessoa presente e que se fazia notar e dar por ela. Vivia com barulho, não muito, mas sim, com barulho.
Era uma mulher que sabia bem o que queria. Vivia e actuava com certezas. Preferia dar um passo em frente do que perder tempo a pensar no que devia fazer. Não podia, no entanto dizer que era uma mulher decidida, pois que isso obrigaria a confirmar que havia uma decisão quando, na maior parte das vezes era uma questão, apenas, de afirmação. Não havia que reflectir anntecipadamente. Quase como a certeza que o mundo já tinha sido todo experimentado e, portanto, as coisas iriam repetir-se, como afinal sempre assim foi. Agia, portanto. E se houvesse estragos tudo se acabria por resolver e enquadrar no seu mumdo que era o somatório de coisas feitas. 
Assim, e dentro destas características, como é que sai uma frase destas? Disse-o, é certo. Aconteceu na sua vida, é seguro. Mas como é que se chega aqui?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Praça de Londres

Praça de Londres, cinco contos situados de Lídia Jorge.

Muito virtuosismo de escrita, muita brincadeira com as palavras de modo a mascar muito demoradamente as pequenas histórias que compõem este pequeno livro de letra grande e poucas páginas.
Escrever, para além de contar uma história, uma experiência, um sentimento ou o que se queira não deve ser atropelado por brincadeiras mais ou menos virtuosas. Podem essas brincadeiras ser a utilização de várias formas de se dizer uma coisa, repetindo-a, dizendo-a do avesso, e voltar a dizê-la, ou até trucidar por completo a pontuação. Isso poderá ser giro ou engraçado ou brincalhão numa experiência, mas não passa disso. Uma experiência. E deve ser visto como tal. Há espaço na literatura para momentos desses. Não há mal que venha ao mundo nisso. Manter essas brincadeiras e viver delas é exibir uma clara fraquesa de espírito.

Nota-se, para lá do referido, nos contos de Lídia Jorge que as ideias são engraçadas, têm algum potencial, mostram vida, alma, mas perde-se tanto nas figuras de estilo que o essencial fica a caminho. Sinceramente não dá vontade de ler mais. Fico com a impressão que há uma série infindável de floreados que se reduzidos a dez por cento tornavam a leitura mais densa, mais forte e que se lia mais alma. Perde-se demasiado tempo na forma e menos no conteúdo. É pena. Pois há mundo na escritora.

Meditando

"Há pessoas que se casam pelo casamento."

Sim. Há, de facto, pessoas que o maior virtuosismo que encontram no casamento é a posição, o status que passam a ter como pessoa casada. É como o casamento lhes conferisse uma maioridade que não sentiam, ou até uma seriedade, uma personalidade. Psssam a ser pessoas com um papel na sociedade.
Há, depois, para estes, um outro patamar que se esforçam por atingir que é serem progenitores. Terem descendência.

Não retiro nehnuma conclusão adicional sobre este conjunto de pessoas. Pois até os há que entram no primeiro grupo, mas que depois já não sentem a mesma satisfação de entrar no segundo. A forte expectativa que gostava de ter e de poder transmitir é que após estes patamares ganhassem vida própria, estímulos diferentes para a vida e que fossem pessoas realizadas. Há qualquer coisa de viver para os outros nos primeiros pressupostos que o meu melhor desejo é que isso não se perpetue nas suas vidas.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ler livros ou ler histórias?

"São livros que não acrescentam nada. Que se não tivessem sido escritos não faziam falta nenhuma." Lapidar!

Há, de facto uma série de livros que nos passam pelas mãos, e pelos olhos, e passaram. Pfffff........ Sem nenhum relevo. Nem sequer uma história bem contada. Um conjunto de fait divers sobre qualquer coisa que se apaga no momento em que o livro se fecha.
Senti isto quando li António Alçada Baptista, bem como uma coisa de David Mourão Ferreira. Neste momento leio Por detrás da magnólia de Vasco Graça Moura e apesar de ter a clara impressão que se trata de um registo de alguém muito sabedor, claramente acima da média, cheio de cultura e saber, o enredo, bem como a história em si sabe a pouco. Não há uma fagulha, uma qualquer coisa que deixe uma surpresa, uma satisfação... Apesar de ser muito melhor que os dois autores atrás referidos, fica ainda dentro do limiar da frase sobredita.

E, depois destas considerações, leio o que escrevo. Seja prosa ou poesia... Só me posso rir da minha ousadia! Ao menos eles tentaram, ousaram e apresentaram-se a público e à crítica.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Curta surreal

A cidade respirava o seu barulho normal e natural e de repente ouve-se de um omnipresente megafone invisível:

- "Encontra-se perdida uma civilização baseada no amor pelo próximo. Agradece-se a quem tenha alma que a venha buscar à caixa central do afecto."

O som repete-se e todos se quedam imóveis, sem palavras, sem capacidade para se movimentarem. 
No ar, solto, uma revoada de almas desesperadas grita uivos de dor.

Perdidamente

E num decote abre-se uma linha,
Um rio num estreito vale
Entre maravilhosas encostas.
Ao alcance da melhor mão,
Que cuida daquilo que é
A maravilha da criação.

Ser, apenas, mais uma geração!

Esta mão que não é minha,
Que faz um gesto completo
De tantos antepassados,
E d'algum que lhe deu o jeito.

Rodou assim a mão,
A sua como a minha
Onde ainda hoje ele a roda
Sem que seja eu que o faça.

E quantos somos afinal
Que assim gesticulamos?
Revivemos tantas gerações
Que fazemos a eternidade.

E depois é um rir
Ou um modo de andar...
O passado que se recria
Para lá de qualquer vontade.

Ser, apenas, mais uma geração!
Que nada inventa,
Ou sequer acrescenta
A este esqueleto em movimento.

Reunião de família

Numa reunião de família onde se apresentam vários descendentes de um tronco comum que já não está presente. Conjuntos de avós, irmãos entre si, trazem partes, pedaços da sua descendência. Filhos e netos. Diversos. Sem escolha prévia, apenas os que se encontravam disponíveis para o passeio. Três gerações de descendentes de uma geração que é o ponto que segura todos.
A reunião é, como sempre, à volta de uma mesa, onde as conversas se soltam, e, às vezes as pontas se cruzam, os fios ganham novas linhas condutoras.
Um olho e um ouvido vê e ouve aqui e ali gestos, posições e frases que se repetem de onde menos se espera. Aquele esfrega as mãos como o outro. Aquela segura o talher como a outra. Nota como olha. E a entoação do discurso. Aquela careta é igual à do que não pode vir. E este sorriso! De repente, para esse olho e para esse ouvido multiplicam-se as pessoas que ali estão. Tantas gerações se riram do mesmo modo, falaram da mesma maneira, e tantos se repetem sem saberem quem repetem e porque é que o fazem. Dizem que são mensagens que viajam nos genes e se evidenciam sem pedir licença, chegando a fazer parte da individualidade dessa pessoa. Afinal essa individualidade é uma enorme multiplicidade genética.

domingo, 21 de abril de 2013

Lendo 12

"e surpreende-me que tantos detalhes tenham ficado impressos como pedaços de vidro cravados na minha  memória" João Tordo in O livro dos homens sem luz

Tantas vezes as nossas memórias são pedaços de vidro que sempre que por lá passamos não conseguimos deixar de nos magoar com as suas afiadíssimas laminas que nenhum tempo alisa. Mas são momentos em que nos surpreendemos, e logo aproveitamos para deduzir mais alguma conclusão e, quem sabe ganhar mais experiência e conhecimento sobre o nosso pequeno enorme eu.

Há, infelizmente, gente que vive nesses momentos e que com o passar do tempo conseguem juntar mais cacos de vidros. Será uma defesa ou um vício?

sábado, 20 de abril de 2013

Histórias para brincar

Estava na praia com aquele olhar perdido. Nada de concreto a habitar-lhe o pensamento. Apenas deixava que os seus olhos vagueassem pelas formas dos corpos que bailavam na sua frente. Dizem que é o olhar do homem. Fixava-nos corpos em tudo o estes tinham ora de belo, ora de diferente, ora de inusitado ou até de desequilibrado.
Nesse vagaroso passar do tempo deixou que seus olhos poisassem, e em seguida se fixassem nas ancas de uma mulher que baloiçavam com o ritmo e o balanço de um pêndulo de relógio de sala. Quase hipnotizado pelo movimento sobe, lentamente, o olhar pela cintura, centrando-se num umbigo desenhado pelo dedo de Deus. Mais um pouco e fica entregue ao suave baloiçar do peito num pequeno biquini que se preocupa apenas com o essencial do pudor, permitindo acordar toda a libido de qualquer homem.
Para grata satisfação sente a imagem se aproxima, como se tivesse a manipular uma lente da máquina fotográfica, perdendo a imagem do todo e fixando, cada vez mais, a atenção dos detalhes mais exuberantes.
Essa aproximação fá-lo, também, descer do seu universo particular de distracção e concentração, à realidade e à rapariga que observa. Assim levanta a cabeça e...
- Olá querida. Estás óptima.
- Obrigado querido. Os teus pais convidaram-nos para jantar.

Devaneio de praia.

Levanto-me e, lentamente, abro os olhos. Na minha frente, e perante algum espanto, dois triângulos brancos, generosos e com uma impressão escura e redonda ao centro. A imagem não é conforme aos arquétipos que trago em registo. A realidade está deformada, anormalmente cromatizada.
Esta fracção de tempo em que o espanto se apresenta e sevdesenvolve é suficiente para marcar uma diferença, um registo dissonante.
Adequação feita à realidade e à minha vista apresenta-se um magnífico busto feminino, claramente marcado pelo Sol que temperou todo aquele corpo com um castanho de avelã, deixando de fora uns magníficos seios onde a mão de Deus deixou o seu divino toque na criação.

Tudo o mais que se possa ter seguido, entenda-se na livre tendência de cada um, mas, e para alguns menos distraídos, a criação fez-se para a união e desenvolvimento das espécies, pelo que: " Crescei e multiplicai-vos!"

Fui à praia!


Praia grande.
Que dia magnífico.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ano sabático

João Tordo escreve bem. Gosto de ler e fico satisfeito quando chego ao fim do livro. O livro em causa foi o Ano Sabático.
A ideia, bem como as interpretações sobre certas formas de ser, nomeadamente o transcendente, é curiosa. A escrita é escorreita e prazenteira. É uma história que vai sendo contada num primeiro momento de fora, num segundo momento como se o autor estivesse no dentro/fora da trama.
Vale a pena ler.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Meditando

O padrão é uma chatice que se repete até se chegar à harmonia.

Tudo fica no horizonte.

Tudo fica no horizonte.
Nessa fina e de fundo
Igual em mim e em ti
Desde que a vista alcança.

E sobre esse mar poente
A linha que passa a mancha
Uma paleta de cores
Em absoluta harmonia.

É o horizonte que se amplia,
O certo com o múltiplo,
Cheio de tons e fragrâncias
Para o prazer de todos os olhos.

E no mergulho do Sol,
Bola de fogo e luz
Adormece a cor do mundo
E nasce o tom do sonho.

Depois, quando tudo passa
E a noite se adensa,
Volto as costas ao horizonte,
Na esperança da nascente.

Sou...

Sou tão certo de mim,
Tão seguro do que vem
Que sei que a morte apenas virá
Quando estiver a morrer.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Pendurava a realidade

Pendurava a realidade
Num cabide de madeira
Com um saco de naftalina
E fechava a luz
Escura como ela anda
Não dava pela diferença
E eu, pelo menos
Abria a janela da alma!

Ia, então, viver a valer
Não só o meu sonho
Mas todos os pequenos pecados
E tudo cheio de prazer
E já sem tédio
Voltaria a esse mundo
Onde tudo parece estar
Para assim mesmo ficar.

Não quero o amanhã

Não quero o amanhã
Presente que seria incerto
Antes a repetição
De qualquer ontem...

E repisar, eternamente,
A alma que nunca se repete.
E renasce todos os dias
Em novos modos de ser.

Então, afinal, esse ontem,
Desse modo renascido,
Que tinha ele do original?
Se nem sequer o passado...

Como tudo é incerto
Nem certo é o tempo
Eu que revivo esse tempo,
Que foi apenas um momento.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Horror de mim

Horror de mim
Desse maldito que m'abita.
Tenebroso e ardiloso
Burro e fundamentalista.

Não passa de um adjectivo
Viciado em superlativo
Calá-lo torna-se imperativo
Personagem destrutivo.

E nada fica assim, solto.
Liga-se sempre ao que importa
História disto e d'outro
Coisas da cepa torta.


Lendo 11

"No passado não possuía esta autoridade sobre a beleza." Lawrence Durell in Clea

Ter autoridade sobre a beleza, ou seja em vez de ser dominado por ela, ser escravo e, de certo modo vendido a um determinado padrão estético, passar a dominar esse mesmo padrão, senão mesmo escolher as linhas mestras desse padrão. Assim adquiro a autoridade sobre a beleza, porque é a beleza que eu escolho, que eu gosto e que que quero.
Por outro lado a autoridade sobre a beleza funciona também na segurança que adquirimos sobre nós próprios, na justa medida em adquirimos o pleno conhecimento, ou pelo menos mais profundo do nosso eu e do mundo que nos cerca e, por isso, é mais fácil encontrar a nossa solução para o darão eleito por quem nos cerca. E, ainda mais, cercamos-nos de quem escolhe esse padrão. O que, também pode significar opções estéticas menos virtuosas mas mais confortáveis à vida nessa comunidade.

De fora disso fica outra coisa, a Beleza e a Arte. Dons de Deus que se contemplam à boa maneira de Platão. Poderemos, se acontecer, sentir e tentar lá chegar.

Em estado catatónico

Vou tentar descobrir a diferença entre ser uma pessoa afirmada e ser um exibicionista.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Comunicando.

Para quem já se começa a fartar de Lawrence Durell informo que me aproximo do fim do quarto e último volume do quarteto de Alexandria, pelo que poderemos, em breve, variar de autor.
Foi-me sugerido Proust e a sua busca do tempo perdido. Imaginar 7 volumes com frases para reflectir deixa-me já completamente assustado! Mas não será desta que lá irei. Está na vasta lista de espera.
O que se segue é sempre uma surpresa.

Lendo 10

"Ninguém podia adivinhar o que se escondia por detrás de um capítulo fechado de um beijo." Lawrence Durell in Clea

Vários erros inconciliáveis encontro nesta frase. Um beijo não é nunca, jamais mesmo um capítulo fechado. Um beijo é uma porta aberta, uma janela ou o que se quiser mas sempre aberto. A não ser que seja um beijo no próprio, e mesmo aí, como acto de afecto e intencional não é fechado. Tem sempre uma vontade.
Há, todavia, uma verdade irrefutável. Ninguém pode adivinhar o que se esconde por detrás de um beijo. Até aquele que avidamente avança sobre os lábios da sua presa, ou apenas o lóbulo da orelha!( esta transição mantêm a temperatura do acto mas muda radicalmente o cenário abrindo por si só uma nova base de interpretações!)
Duas ideias, portanto: Um beijo é um acto completamente aberto, para o outro, em comunhão ( ou até em sofrimento) mas é um acto para, logo impossível de fechar. E mesmo que o entenda como o resumo de uma história casual e fortuita lança raízes para memórias futuras. 
Segunda ideia, há tanto que se esconde por detrás de um beijo como de qualquer outra coisa. Desde que seja um acto tem intenção e como tal uma alma com vontade a agir.

Amores trocados


Caminhos torcidos de férias deixaram as marcas que em determinados momentos de juventude são sentidos como fundos sulcos na alma e no afecto sendo que tempos passados ficam como um experiência quente e frutuosa que deixa um lastro vivo de carinho que se mantêm vivo e reforça o ânimo.
Encontraram-se num acaso. Nem ele nem ela estavam a pensar um no outro, apenas nos seus desconsolados amores de verão, aqueles que nascem na areia e na areia se deixam. Havia um senão, a areia do verão ainda não tinha aquecido o suficiente e já havia quem se tivesse dedicado a enterrar esses amores. Eram, portanto amores pendurados, ao vento quente de verão. E eram alimentados nas músicas que ouviam, nas conversas que tinham e no olhar que ficava sobre o tempo que passavam desenhava-se a melancolia e a saudade.
Não era difícil fazerem companhia um ao outro. As emoções tocavam-se. Ninguém gosta de ficar desasado, sem caminho e sem espaço.
Nesses momentos aconteceu, entre uma lágrima e mais uma confissão um beijo de substituição. Os lábios molhados da água salgada que escorria encontraram-se e compunham uma consolação de inevitável desolação. Beijavam-se mas eram outros os que beijavam. Cada um fechava os seus olhos e era não estavam ali, naquele sítio a ouvir as mesmas tristes melodias. Ao fechar os olhos aparecia o barulho do mar, da praia, as gargalhadas e outras caras, outras mãos e outros corpos.
O sabor do beijo não era amargo, mas não era doce. Apenas caloroso e reconfortante. As mãos que se tocavam mal chegavam aos corpos. Não havia mais que beijos. Toda o caminho que os beijos abrem, não estavam abertos, não tinham sentido, não eram um caminho.
E havia amor nesses beijos? Sim, claro, mas não era amor de um pelo outro, mas de cada um pela sua imagem perdida no tempo dos amores impossíveis.

Lendo 09

"... na memória, esse antepassado da esperança..." Lawrence Durell in Clea

A esperança, enquanto desejo projectado de ou sobre algo, funda-se na memória de algo que persiste. Há uma memória inicial, a casa da nossa alma que funda a raiz profunda da esperança através do nome saudade.
E o facto de termos a palavra, o conceito é como termos a estrada, o caminho e a chave para lá chegar. Haverá quem viva bem com esta possibilidade e há quem a despreze a desconsidere. Talvez para estes a saudade seja uma palavra vazia.

domingo, 14 de abril de 2013

Cheiro a maresia

Cheiro a maresia
Que são os mexilhões
E os limos verdes
Agarrados às rochas

E o cheiro do sal
Da água em ondas
Que fica no ar
Suspenso e invisível.

E cheira a salpicos
Da água fresca
Que leva a vida
À minha alma...

Mar revolto

Mar revolto
Que mancha o verde
De uma espuma branca
Que borbulha numa fervura.

É um mar espesso
Que parte para terra.
Incessantemente...
Furiosamente.....

É um mar fechado
Onde ninguém entra
Apenas resta o olhar
Onde a alma fica a planar.

Dizem que é da Lua
Que retorna ao ponto,
Fecha mais um ciclo
E a natureza festeja.

Mais uns bonecos


Vista da janela da casa.


a dita janela


Um prédio da praça de Londres iniciado de fronte ao mesmo e completado de memória livre, muito livre.

Reflectir

A palavra reflectir é extremamente curiosa. Diz-me o dicionário PRIBERAM que vem do latim e tem o significado de voltar para trás.
Assim, mais que pensar, reflectir é insistir no que se pensou e tentar voltar ao mesmo ponto de partida e daí extrair alguma conclusão. Pergunta traiçoeira: poderemos, em alguma circunstância voltar mesmo para trás? Podemos reviver um momento? Claro que sim! Dentro de nós mesmo que é o local onde acontece o pensamento!

Lendo 08

"há a minha vida e depois há a vida da minha vida." Lawrence Durell in Clea

A sageza de se perceber a diferença entre aquilo que eu sou e aquilo que se reflecte do que eu sou. Em muitas circunstância e conversas as mesmas são rematadas com a seguinte expressão "mas eu sou assim." querendo com isto dizer que não há razão, motivo ou argumento que altere a conduta, modo de agir ou pensar desse indivíduo. Contudo existe a diferença crucial descrita na frase supra, que coloca duas, no mínimo, perspectivas nessa frase.
Não estou a fazer qualquer apelo à mudança, ou à alteração do individuo que produz essa afirmação. Apenas noto que existe sempre outras formas de se interpretar os dados fornecidos, até pelo actor/produtor dos mesmos.
Em resumo poderia dizer que há uma diferença entre o mundo e a reflexão do mundo. O que, levando a um exagero de raciocínio nos poderá fazer chegar à conclusão que essa diferença afirma o erro profundo da acção, ou então da reflexão, uma vez que não são coincidentes. Assim, e atendendo a essa desconformidade, onde é que se pode sustentar a verdade? Será que ela vive nas coisas e nos actos ou no pensamento e reflexão sobre as coisas e os actos?

O melhor, pelo sim pelo não é continuar a reflectir.

Voltamos aos desenhos


A aprender desenhar bonecos de outros. Para perceber o traço. 

Não gosto da série dos Simpsons, mas cá em casa são estimados. O traço não é complicado.


Uma imagem da Páscoa.


Um dos personagens que mais gosto da banda desenhada. O traço é mais complexo. Tem muitos detalhes o que enriquecem o personagem.


Primeiro um boneco, depois outro desenho que se sobrepôs.


And Mr. Luky Luke.

sábado, 13 de abril de 2013

Explicação

"E todavia sempre crera que o amor se revelava melhor na desgraça comum. Não é verdade." Lawrence Durell in Clea

O amor, portanto revela-se na graça, na ventura, na felicidade, local, portanto, apropriado do Amor! Ah! como gosto de não me surpreender! Como gosto, na verdade de confirmar-me no que outros escrevem. A essência do amor brota da harmonia, do encontro, do bem estar da alma. E esta é a base de toda a diferença. O que importa do mundo que rodeia o corpo se a alma se eleva para o(a) outro(a). Algo que é espiritual vive no espírito. O mundo e as coisas apenas servem para afirmar o que sentimos, para o transmitir. Daí que Jesus sofrendo e morrendo na cruz amava o Homem. O que importa o que rodeia o amor, quando o amor é espírito?

Lendo 07

"Por mais que queiramos reduzir a distância ficamos sempre afastados dos outros." Lawrence Durell in Clea

Esta ideia é absolutamente recorrente em tanta literatura, assim como em poesia, ou até na filosofia. Até onde o homem se abre e se, de facto, o faz efectivamente, ao mundo ou aos outros. Chega a ser penoso repetir estes argumentos na expectativa deles retirar mais algo dos que nos rodeiam.
Quem se quer dar, encontra modos de se aproximar dos outros. Quem quer exibir uma encenação vive-a sempre até ao trágico momento de se confrontar com o fim da linha. Há, no meio destes extremos, todos aqueles que passam a vida a fugir a este tipo de meditações. E, estes últimos, tendem a ser particularmente críticos de quem tem fé. Todo um mistério de compartimentação da vida.

A melhor roupa de uma mulher

A melhor roupa de uma mulher
É a sua pele.
O seu mais belo colar
São os seus lábios.
Os seus melhores adornos
São o peito que a natureza lhe deu.
O que melhor lhe cai
São as curvas do seu corpo
Onde melhor ela fica
É no espaço por onde anda.

O seu maior inimigo
São sempre os seus olhos
De fronte de um espelho.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Lendo 06

"Afinal de contas eu estava muito doente, suponho que de vergonha." Lawrence Durell in Clea

As doenças da alma, e até algumas do corpo nascem, quantas vezes nos nossos exames de consciência. Quem os faz consegue perceber a profundidade e a verdade deste pensamento. A vergonha, sentimento que nos toma quando temos consciência de estar presente de algo disforme da regra, da correcção, do comummente aceite, fere a alma de tal modo que a pode colocar num patamar perigoso. 
Até onde chega a vergonha de cada um é uma questão de verdade da alma de cada um. Há sempre momentos, gestos e/ou pensamentos que podemos mandar para debaixo do tapete da nossa consciência  sendo, no entanto que há sempre um dia em que, pela acção da vergonha, nos encontramos de frente com tudo isso. Por mais que se esforce o homem nunca consegue fugir da verdade. E não existe a verdade de cada um. Há apenas uma. O resto são versões para cuidar da alma.

Frases completamente parvas

Conheci no outro uma pessoa tão sensível, mas tão sensível, que só com o movimento da Terra ficava enjoada.

Lendo 05

"As mais belas cartas de amor de uma mulher são sempre aquelas que ela escreve ao homem a quem engana." Lawrence Durell in Clea

Completamente devassado com esta afirmação.
Se receber uma carta de amor de uma mulher devo lê-la primeiro na sua "temperatura". Se estiver morna posso deduzir que vivo na normalidade. Se a carta for tórrida, calorosa, quente, apaixonada devo, então, de imediato deduzir que sou brutalmente enganado!
Será que uma carta "fria" deduzirá um amor tórrido, ou apenas uma secura fiel?

Ao menos Fernando Pessoa é mais simpático, pois apenas as acha ridículas!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Coisas absolutamente parvas

Acabo de me deparar com a planta de emergência. Parei e procurei se no mesmo linear se encontrava a manteiga de emergência, ou mesmo a planta light. Só a planta de emergência, ainda que fluorescente.

Lendo 04

"Mas é para nossa satisfação que a infelicidade nos é outorgada." Lawrence Durell in Clea

Estas frases que são ditas pela negativa deixam um primeiro impacto negativo. Como pode haver satisfação na infelicidade? A infelicidade decorre do conhecimento ou da experiência de algo que nos dá, ou transporta  ou nos eleva para a felicidade, pelo que o sentimento de infelicidade deve, ao mesmo tempo, levar-nos para esse outro algo onde ela esteve. Mesmo que seja só em memória. E que essa seja reconstruída.

Desenhando.

A dedicar algum tempo ao traço de modo a fazer figuras. Acaba por ser mais uma forma de rever a realidade e as coisas.
O desenho, talvez como tudo na vida, requer que lhe dediquemos tempo. Por mais controlo que tenhamos da motricidade fina, bem como alguma estética ( a de cada um obviamente, pois ninguém comanda nessa categoria ) sem a experiência e a repetição de traço sobre traço não se apura a técnica. Dessa técnica podemos surpreender-mo-nos com o resultado. Por vezes o desenho está melhor que eu achava que era capaz de fazer. É muito o fruto da repetição do traço.
Um dia, depois de agarrar mais o traço irei à cor, essa maravilha que ainda me escapa quase por completo.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Lendo 03

"Quanto tempo estive fora? Difícil calcular, pois os calendários dão poucas indicações sobre as eternidades que separam um eu de outro eu, um dia de outro dia;" Lawrence Durell in Clea

Estas questões da multiplicidade de eus que habitam em nós é um tema ao qual já dediquei até alguns poemas. Há todo um leque de paradigmas que funcionam como chapéus de chuva onde acabamos por abrigar as nossas manias. Assim é debaixo dessa imensa diferença de opções que faz emergir a cada momento um determinado tipo de preferência, de opção ou até de atitude. Há, como é de supor, um fundo comum, uma certa "normalidade" que enquadra todos estas pequenas diferenças que nos identificam. E é nessas diferenças que nos vamos afirmando. Somos seres vivos que sentimos, amamos e vivemos com uma alma que convive a cada tempo e no seu modo.
O resultado dessas diferenças faz o conjunto da nossa capacidade de entender não só a razão de ser das nossas preferências como também das preferências dos outros. Ninguém é uma linha direita, ou uma seta. Somos, dentro de um conjunto, mais ou menos abrangente, um mar de vivências que nos indicam o rumo a seguir.

Em tempos idos, os da juventude, esta história da multiplicidade do eu não tinha esta consciência, nem sequer a profundidade do alcance. Acho que na altura era apenas o tactear de possibilidades e a noção de abismos que se abriam a cada uma. Outros calendários...

Lendo 02

"Quando se ama, sabe-se que o amor é um pedinte, um pedinte sem amor próprio." Lawrence Durell in Mountolive

O que me fascina nesta frase é a crueza da verdade de que aquele que ama se despoja de si para o outro. Essa é a verdadeira essência do amor. Há uma entrega total e absoluta. Completamente desinteressada. Larga tudo. Pede apenas amor. Já nada de si e completamente aberto ao outro.

Esta é a mensagem de Cristo, vezes sem conta repetida em tantas missas, mas parece sempre um eco de uma intenção. Mas é muito mais que isso. Difícil. Que exige muito. Que nos obriga.

Lendo 01

"Ó Nessim que coisa desagradável as pessoas amarem-nos sem lhes termos dado motivo para isso." Lawrence Durell in Mountolive

É, em alguma parte, ou de algum modo desagradável ser amado? Bem sei que a frase no livro está ligada a uma obrigação de gentileza, de humanidade perante um amante em sofrimento. Mas, e ainda assim, a caridade, a humanidade não é compatível com esse sentimento de sacudir o mínimo retorno a alguém que nos ama. Tanto mais que é normal e natural que se ama e que se seja amado. Essencialmente o homem é bom, logo objecto de amor, pelo que o simples facto de existirmos expõe-nos logo à possibilidade de sermos amados por terceiros.
Diria mesmo que o desagradável é não sermos amados sem lhes termos dado motivo para isso. Sobretudo a uma criança, a um bébé.

Meditação

"A morte de Narouz começava a nascer." Lawrence Durell in Mountolive

Como é que a morte pode suportar o nascimento? São duas ideias, dois momentos antagónicos, sobretudo na mesma pessoa. Acresce ainda que a linha é inversa. Acontece a morte após o nascimento e não este após o outro. Toda uma imensa contradição na frase. Ou talvez não.
Após a morte física, a morte do indivíduo, da pessoa geradora de palavras, de pensamentos, que interage comnosco, com a qual desenvolvemos um conteúdo comum e prórprio. Após a morte, a ausência de resposta, quando o caminho para o outro se encontra como num beco sem saída, nasce, cria-se nesse momento uma outra pessoa, uma outra entidade que passa a viver dentro de nós. O nosso afecto desenvolve e acolhe todas as imagens do defunto e dá-lhe essa nova vida onde já não é a divina providência e a liberdade do indivíduo a tomar forma, mas o que preferimos guardar. E, nesse sentido, a morte de alguém nasce em nós. Nasce como sentimento, como a dor da perda, a parede que se eleva e a nossa memória dele.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Drama!!!!!!!

Ah!!! Esse plural, pensou, mortificando-se.
Ouviu-a falar, nesta frase...
- Não nos viste na paragem?
Como é que não era eu que estava com ela? Como podia ela estar ali e com ...outro! Como sofria com esta obsessão de a pensar acompanhada por outro! Quem? Porquê? Havia necessidade dessa exposição? De o fazer sofrer desse modo?
Ele estava ali, à espera dela, como sempre. Pronto para isso. Disponível. Obediente, mesmo! Mas nunca acontecia.
Um dia ainda teve a esperança, mas a frase dela partiu-se a meio na boca dela. Alguém a distraíra nesse quase convite. Sentira o seu olhar, o sangue a aquecer do convite, da intenção... ainda ficara à espera. Muito tempo, demasiado tempo.
E agora, na paragem, acompanhada.

O drama pode continuar a desenvolver-se psicopaticamente ao limite. O interessante é apanhar uma frase e nela desenvolver uma ideia, ligá-la num propósito.

Um pouco mais de mim

Quero chorar
Ao ouvir o teu cantar
E ao som da tua voz
Sentir que nunca estou só

Percorrer os dias
Todos
E ficar por aqui
A saborear as memórias

E viver essa melancolia
De ter um passado
De ter tido esse momento
Tal como o hoje será um amanhã

E estar assim preso
E vivo dentro da minha emoção
Nela se realizando, sempre,
Um pouco mais de mim.

Pequena história de encantar.

Num tempo qualquer, longe, porque nesse tempo é sempre longe e por mais que queiramos nos aproximar apenas sentimos como essa distância é um imenso fosso que se coloca à nossa frente. Nesse tempo, então, quando te via, notava que até com os olhos conseguias sorrir. Ah! Que imagem essa! E noto agora que esse sorriso, essa luz, esse sol que se abria não tinha nem uma gota de chuva ou de tristeza.
Quanto tempo passou. Que tempo passou.
Onde ficou esse sorriso? Ficou pendurado no tempo, como quem chega a casa e pendura um casaco? Ficou perdido na tua alma? Olho para ti e não encontro esse sorriso, nem já esses olhos. O que vejo não tem fundo.
Que coisa esta de se perder assim um sorriso. Mas vou-te dizer uma coisa. Faz assim: Fecha bem os teus olhos, não digas nada, não fales, apenas abre as mãos e entra na minha memória. Agarra o sorriso e leva-o contigo. É teu.
Depois, quando voltares a sorrir, não te esqueças de voltar a olhar para mim. Assim posso voltar a reter na memória o teu sorriso.

Volta da praia

Voltavam. A tarde já se impunha. E sol e o calor mantinham-se. A praia fora o tempo de deixar que o tempo fosse consumido pelo barulho das ondas que ritmadamente se abriam na praia.
Os corpos vinham quebrados e carregados do calor do sol e do cheiro único do sal. Ainda em manchas o sal era visível.
Aqui e ali ainda havia a areia que se cola ao sal.
No retorno o tempo foi de escorregar sobre os lençóis. Deixar que o sol se liberte lentamente dos seus corpos. Um suave dormência e uma penumbra.
A respiração aproxima-se da tranquilidade que leva ao sono, ao descanso.
No ar, o cheiro dos corpos, do mar e do calor intensifica-se. Incapazes de cair no torpor do sono, inicia-se a agitação própria dos amantes.
O sabor dos beijos temperado com o sal dos corpos leva-os à fusão.
 

Manhã

Onde andas tu Sol?
Dizes-te astro-Rei
Seguramente casaste
E com uma rainha bera!
Não te deixa sair de casa
Andaste metido com os anjos
Fizeste farras com as nuvens
E tardaste a chegar a casa.

Não me digas que adoeceste
Que apanhaste uma gripe
Dormiste com os pés de fora
E a tormenta apanhou-te
Ou foste brincar com o fogo
E logo te queimaste
E precisas desta água e frio
Para te curares.

Mas vê lá Sol amigo
Não te esqueças de nós
Ainda te aguardamos
Lá para o Verão
Para nos fazeres transpirar
Para ferveres a areia da praia
Soprares no anoitecer
E assim torrar!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pecados

Há coisas na vida que marcam. Momentos que, pela qualidade e intensidade do modo com que são vividos funcionam como chaves especiais para abrir novas portas da alma.

Um desses momentos é a diferença que se vive, que se sente antes e depois do primeiro beijo, da confirmação do amor. Quando a intenção é séria e sentida há como que uma outra dimensão da relação entre o casal que se impõe. Pode não haver muita intimidade, mas acontece uma cumplicidade que altera o modo como se vive o momento. Será a certeza do amor?

Desde menino

"Porque sou tão triste ignoro
Nem porque sentir em mim
Lágrimas que eu choro assim;
Desde menino me choro
E ainda não me achei fim."

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é O POETA. consegue numa frase dizer o mundo.
"Aquele peso em mim - meu coração".

Há nas mágicas palavras que deixou escritas tantos caminhos que é sempre uma redescoberta a sua leitura. O menino que chora é o homem que nasce e que cresce e deixa para trás essa meninice. E na meninice há, também, o aconchego, o calor, a barriga daquela que o teve. E há o afastamento normal, sucessivo e crescendo da vida que deixa um choro. Uma demanda de si mesmo de quem nunca se chega a ser ponto de chegada. Somos sempre partida para mais além do que estamos e do que somos. A cada conclusão mais se abre ao pensamento, à vontade. Sempre num caminho ascendente. E que é de choro, de separação.

Uma inspiração.

Leio e volto e retorno e recupero e revivo e volto a sentir. Pessoa é intenso.

De que é feito o amor?

De que é feito o amor?
Um sopro quente
Que invade a alma
Tomando-a por completo
Perde a compostura
Salta e pula de alegria
Dá-lhe velocidade à vida
Calor no temperamento
Ousado e atrevido
Palpita-se sem serenidade
Rouba segundos ao tempo
Entusiasma-se com nadas
E vive profundamente.
Todo o sonho é real
E não há um não.
Nada.
Apenas tudo.

E é disto que é feito o amor?
E vive-se assim, eternamente?



Inspiração?

"Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."

Fernando Pessoa

Este poema que li aos 15, aos 18, aos 20 (...) e aos 48 é tão cheio de tudo o que sinto. A profundidade deste amar, a essência da vida, a base do que nos prende à vida, tudo aquilo que nos recolhe dentro do nosso afecto é a estrutura do que nos abre para o outro dia.
Gosto particularmente.

Pensar cria cobardia?

"Desde que o exército descobriu que a covardia é essencialmente um produto da inteligência, começou a produzir sistematicamente Maskelynes, educando-os em todas as virtudes da estupidez:" Lawrence Durell in Mountolive

Esta frase traduz um aspecto curioso que, não reportando directamente à classe militar, é um dado interessante. O conhecimento torna o homem prevenido, pois que a covardia ( pelo menos deste caso concreto) é um aviso da perigosidade de determinadas preposições militares. O texto foi escrito após a segunda guerra e relata o ambiente que se vivia no antes.
O que importa mesmo é a noção do poder do conhecimento e no que ele nos pode ajudar a ir mais longe. Quando temos um determinado conjunto de conhecimentos podemos deduzir várias probabilidades nas soluções, e nessa perspectiva escolhemos caminhos. Mas pode haver ainda mais conhecimentos, outras etapas de assuntos a analisar. E, neste processo, a linha da história, o passado, é o elemento essencial, pois que trás consigo a experiência.

Mundo pequenino...

As instituições bloqueiam os computadores. Espiolham o correio, não deixam ir a determinados sítios, não deixam ver outras coisas e demais aberrações.

Pensa, quem assim o faz que está a agir na defesa de uma coisa chamada instituição. Erro profundo. Alimenta na sua alma a sua predisposição para a grotesca animalidade perversa. Hoje em dia qualquer telefone permite isso e muito mais. E mais, quem mais prevarica é quem possui melhores aparelhos.

Porque não se bloqueia o site mais visto, a saber, o jornal "A bola"?

É tão deprimente dar um poder destes a gente sem mundo!

sábado, 6 de abril de 2013

Que coisa esta

Que coisa esta
De ser assim e assado
De ser de todo o modo
Que parece, ser nada.

Ser assim e o inverso
Daqui e de acolá
De querer de um modo
E depois assim de outro.

E, notem lá, sobre as certezas
Sim, sobre elas
Todas seguras em nadas
Coisas que apenas insistem.

Ah! Claro... e depois?
Sim, no caminho do fim,
Nesse finalmente que é tudo.
Pois é! há Deus!

Saudade...

Saudade...
Terás tu um fim?
Acabarás de vez?
Descansarei?

E não ter aqui
Já nem sei o quê
Ou de que modo
Apenas esse vazio

Pedaço que nunca acaba
Que nunca se enche
Vazio de um nada
Que cresce sempre.

Essa vocação imensa,
Ansiedade infinita
De tudo dum antes
Antes mesmo de ser.

Ambivalência

Lá fora um sol quente
Luminoso e forte
Um sol afirmado
Com toda a primavera nele.

E cá dentro frio
Da noite concentrado
No corpo e na alma
Quase húmido e gelado.

E a um gesto
Feito de mil vontades
Tanto se chega ao sol
Como se fecha no frio.

A ambivalência do querer
Que recolhe de cada lado
A importância do sentir
Quando se vive acordado.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O amor...

"Os olhos não podiam mentir. Olhava para ela e sentia o mesmo olhar."

Esta devolução do olhar, este encontro de afecto nasce como? Sentem, em simultâneo uma tendência de um para o outro, ou o facto de se sentir empurra, um pouco que seja, essa adesão a amar?

Sobre a inexperiência

"E, como todos os amantes inexperientes do universo, não se contentou Mountolive com deixar correr as coisas; precisava de sondá-las e analisá-las em profundidade." Lawrence Durell in Mountolive

A ideia de amantes inexperientes é como quem abre uma caixa, desembrulha um presente, enfim uma expectativa e, sobretudo, a predisposição para ser surpreendido. Esta vertente de querer viver o momento, querer sentir o momento acaba, ao mesmo tempo, por ser um egoísmo num acto que é essencialmente de entrega ao outro.
A inexperiência do amante fá-lo viver essa descoberta de conhecimento com os sentidos todos alerta a fim de absorver toda a energia que o toma nesse momento. Poderá, é certo, ir mais longe num ou outro sentido, mas é, sem dúvida uma entrega ao sentir. Nessa entrega o outro acaba por ser um meio, fundamental, mas em meio.
Mais tarde, ao "sondar" e analisar" descobrirá, ou não, esse sentimento de partilha.

Os amantes

"Os amantes não podem dizer nada que já não tenha sido dito e calado um milhão de vezes. Os beijos foram inventados para traduzir esses mil nadas em ferimentos." Lawrence Durell in Mountolive

A ideia de que os amantes não inventam nada, que se limitam a repetir não só o que já sentiram ( admitindo a existência de amores anteriores ou, pelo menos, actos de amor anteriores) é uma machada brutal ao acto de enamoramento. Pois esse momento possui uma intensidade, uma exclusividade (será?) de sentir que nesse momento tudo parece não ter fim. É como uma explosão de tudo naquele momento. E, assim, de repente, tornado corriqueiro, banal e comum é quase um crime emocional!

Os ferimentos dos beijos, que dificilmente se ligam à frase anterior, leio-a no sentido do nada de exclusividade, de originalidade que, afinal, esses momentos são. E o silêncio que o beijo obriga atira quem se sente assim para o acto de enamoramento, o qual será ao sofrimento de ter sido um momento de paraíso que foi tocado e não é uma constante.
Fica, portanto o toque, o momento, esse instante, que se perde após o beijo. O que a memória retém, ainda que em afecto, em calor, retém também como passado e não como presente. Foi. Aconteceu.

A aurora

"A juventude é a idade dos desesperos" Lawrence Durell in Mountolive

A ideia de desesperos para a juventude parece-me particularmente bem colocada. Há um tempo em que tudo surge como a primeira vez. Os primeiros pensamentos sobre a morte, sobre a vida, sobre a separação, sobre o Amor, sobre o desamor, sobre objectivos, o futuro e mais quantas outras coisas. A acompanhar estes pensamentos há a intensidade da juventude.

Tudo é na altura, de toda a maneira e com a força toda. Acontece, também que a novidade é tanta que os assuntos passam rapidamente do desespero à normalização. A síntese está muito bem encontrada.

Musica

"Eh pá, já ouves isso?"
"Olha esta está a ouvir ......"
"Descobriste agora esse som?"

É verdade que há em cada um de nós um génio, um académico da música e, sobretudo um esteta do som. Acontece, porém, que tal como em quase tudo, cada um tem a sua idiossincrasia e prefere aquilo que lhe é próprio. Não é por mal, é por ser desse modo.

Bom, depois disto já posso ouvir aquelas músicas pimbas que adoro!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Eu

Amarrado a este hábito
De ser o somatório de mim
Daquilo que por mim passou
E outro tanto que vivi

E por mais que tente
Não consigo sair disto
De ser esta coisa assim
Que se fez em mim.

E, se assim me sou
Ora que assim seja
Pelo que é normal
Que assim me veja.

Em redor de nada.

Em redor de nada
Às voltas
Como que ocupado
E, apenas avariado.

Que coisa esta,
De sentir esta maleita:
Ânsia ou expectativa
De uma vontade desfeita.

E não é vazio ou oco.
Reduz-se apenas a nada.
Coisa alguma que seja.
Uma alma desalmada.

Ponto final

O ponto final
É um fim,
Apenas uma paragem
Ou, até, uma passagem?

Vive-se numa ambição.
De tudo, até de eternidade.
Não do meu eu,
Mas do que penso que sou.

E aquilo que quero eternizar
É um arquétipo
Um mero modelo
Um foto de um agora.

E esse instante a reter
Desfaz-se todos os dias
E volta a refazer-se
É um devir permanente

Até ao ponto final.
Que sendo um fim,
Pára o recomeço
E passa a memória.

O amor partido

"- Choviam pedradas. Os pára-brisas, os faróis, tudo... Deitei-me no fundo do carro, aos berros. Apalpe o alto, aqui, no pescoço. Completamente furiosa. Depois de partir todos os vidros, agarrou num grande pedregulho e começou a desmantelar o carro, uivando "Amour, amour" por cada martelada que dava. Nunca mais quero ouvir tal palavra na minha vida." Lawrence Durell in Baltasar

Uma encantadora, comovente e verdadeira reacção à rejeição. Nada como libertar toda a amargura reprimida, tanto mais que depois de uma ruptura nada volta a ser o que era. O seu fantasma pairará sempre. É como um pé que se torce ( e desta matéria tenho conhecimento quase académico!) , podem as dores desaparecerem, não haver sequer memória da última vez que tal sucedeu, ou que seja, até possível que aconteça. Mas, numa qualquer pedra, buraco ou desnível, o pé em falso relembra que ali está uma fragilidade.

Por outro lado quem foi amado com tal violência fica vacinado contra este tipo de amor, ainda que esta reacção acaba por atrair cada vez mais essas amantes! Triste sina esta. O desamado ama desalmadamente!

Monogamia

Num bar, ambiente carregado com o que anteriormente foram vários maços de cigarros e copos cheios de cerveja que agora se acumulam a um canto da mesa.
- É desolador o homem ter uma tendência natural de monogamia.
- Nem por isso. O meu sonho é ter mais que uma.
- Não me refiro a sonhos
- Estar rodeado de mulheres.
- Isso é um desejo meramente circunstância.
- Eu dava-te a circunstância...
- É uma imagem de sonho.
- Nada disso! É desejo.
- Assim como desejas uma frota de carros
- Não, nada disso
- Assim como desejas todas as iguarias
- Claro!
- Mas no momento certo, escolhes apenas uma.
- ...
- Mas gostava de ter todas
- Mas acabas por escolher uma apenas.
- Comigo não.
- Vamos fazer um jogo?
- Sim
- Fecha os olhos
- Já está
- Quantas mulheres estão neste bar?
- Três na mesa ao lado, uma ao balcão
- Quatro, portanto
- Talvez mais duas ali ao fundo.
- Já vamos em seis.
- Sim
- Qual está vestida de amarelo?
- Sei lá!
- Então?
- Posso é dizer-te que a do balcão está com uma mini saia fantástica e tem umas pernas muito bem torneadas.
- E como estão as outras três, as da mesa do lado vestidas?
- Não reparei.
- Vês como és naturalmente monogâmico?
- Como.
- Estão 14 mulheres neste bar, Só reparaste em 4, e dessas só deste verdadeira atenção a uma.
- Ehhhhhhhhh, não é bem assim.
- Podias ter as 14 nesse teu sonho, mas preferiste uma só!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ontem

Ontem

Foi um dia que nunca existiu
Nem o nosso passado
Nem as nossas conversas
Nem as nossas querelas

Ontem, esse outro dia
Dessa coisa bizarra
Sim, isso do amor
Ou lá que coisa foi

Não ficou nada que se saiba
Nem sequer a memória
Apenas frases desastradas
Que ecoam algures

Um rasto de miséria
De um sofrimento solitário
Que foge de si mesmo
Em lágrimas de futuro

Ontem não aconteceu
Vou fazer um buraco no tempo
Deixarei lá tudo
Nada fica a transportar.

Diminutivos

O último que ouvi:

- E quer factura? Qual o contribuintinho?

Ainda hoje ecoam gargalhadas.

Meditação

Sobre a tolerância.

Encontro, regra geral ( que, como tal vale tanto como nenhuma regra, é uma ideia abstracta que retiro do universo no mundo em que me situo, mas, voltando ao que importa), que a tolerância, em acto, em atitude é mais vista naqueles que são acusados de intolerância.

Numa discussão há um cavalheiro ( ou donzela, não é relevante o género) que insiste numa posição que entende ser mais inovadora, mais abrangente, mais actual e verbera a mesma com entusiasmo. Naturalmente as pessoas mais conservadoras têm a sua natural relutância a essas novidades e ficam tranquilamente nas suas posições. Na grande maioria dos casos estes últimos terminam a questão a seguinte frase:

- És um intolerante!

Eu encolho os ombros. Se calhar até sou.

Dúvidas

Não há rádio que não faça o seu momento de "música dos anos 80".
Eu tenho a sorte de ter nascido um pouco antes, pelo que essa dita referência musical cai completamente dentro da música que ouvia na rádio e que consumia horas a fio. É a música da minha geração. Feita por pessoas com mais década, menos década que eu, andam todos pelos entas agora. Gosto, portanto, de a ouvir e consumo quanto baste este tipo de som.

Acontece que a par desse facto algumas questões se levantam, a saber:

1. O que é feito da criatividade, da melodia e do conteúdo das músicas? Caiu dramaticamente. Há um trabalho a fazer nessa industria, um caminho a percorrer, ou, simplesmente, o mercado para esse tipo de som acabou? O computador e os sintetizadores substituíram a criatividade? O que falta?

2. A música, tal como o homem é um devir que se vai sujeitando às circunstâncias do seu tempo, sendo que actualmente só esporadicamente é que aparece uma música que fique?

3. A velocidade com que consumimos música acabou por destruir a nossa possibilidade de abranger mais tipos de música?

Seja o que for o panorama não é animador.  

Partir

Sem espaço a andar,
Apenas distância.
Chegar a esse ponto
Que é um sentir.

Percorrer na alma
Os caminhos de lá,
Dos locais de chegada
De onde queria estar.

Suspenso nesse estado,
De migração interior,
De cá para lá
E ficar nesse recanto.

Onde a alma repousa
Num suspiro longo
De reencontro sereno
De todo o tempo.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Meditação

A todas as mulheres que me amaram...

Podia começar assim a escrever um texto de despedida, mas não é o caso. Podia também ser exclusivo do sexo masculino, mas também não é o caso. Podia, até, ser um caso pessoal, mas também não é o caso. Bom, nesse caso há que reformular a frase

A todos os que me amaram

Mas assim, a frase não reflecte apenas o amor concupiscente, mas todo o amor. Todas as relações que foram estabelecidos com base em algo mais que amizade. Estas pessoas entraram na vida de um forma tal que o seu lugar não é passageiro. Fica permanente. Pode-se dizer:

O que se amou uma vez, ama-se para sempre?




2013

Definitivamente não gosto deste ano.
Irrita-me aquele 3 preso no final do 2013.
Parece que está pendurado.
Que baloiça ali, desgraçado.
E está de costas voltado.
É um número que fecha,
Que olha para dentro.
Fecha a conversa sobre si mesmo.
Que venha o 2014.
Ao menos ficaremos sentados
À conversa, a tagarelar...

E o amor egoísta.

"É terrível depender tão completamente das forças que não nos querem bem. Ter sempre alguém nos nossos pensamentos, mas como uma nódoa sobre a realidade..." Lawrence Durell

Esta frase lembra os amores não correspondidos, onde por esse mesmo amor, o mundo fica envolto nessas nódoas, nesses pequenos amargos de presente que semeiam um passado escuro e sem luz. E, às vezes, há quem fique nestes amores tempo demais, senão mesmo o tempo todo. E, quando o tempo se finda ainda pode haver tempo para ouvir de alguém "Ajudava-a muito sentir-se um pouco amada" (Lawrence Durell)

A combinação destes dois pensamentos é uma certa exibição do modo como, às vezes, o egoísta ama. Ele ama para si, para lá do objecto amado. Ama sozinho. Mas consegue amar porque é amado. Precisa de dois amores o seu de si próprio e do outro que alimenta esse mesmo amor.

E o amor....

"Antes do meu amor ter qualquer oportunidade de cristalizar, transforma-se numa devoradora e profunda amizade. Vocês, os femeeiros, não podem compreender estas coisas. Mas logo que aquilo acontece, a paixão desvanece-se me fumo. A amizade consome-nos, paralisa-nos. Principia outra espécie de amor. Que é? Não sei. Uma ternura, qualquer coisa de fondant.[ que funde, que se funde]" Lawrence Durell in Baltazar.

O amor sofre, então nuances... e estas são, não num tempo longo, mas num espaço de tempo mais curto. São logo que aquilo acontece. E o que fica? A ternura? O afecto? Talvez uma memória quente e doce que naturalmente só agrupa conceitos positivos que se situam à volta do amor.

Meditação

Pensar... para além de ser um acto absolutamente solitário, é profundamente egoísta. Penso para mim, por mim, porque quero, no que quero e quando quero!

Eu, completamente eu! Profundamente eu!

Quando oiço uma música

Quando oiço uma música
Tu sentas-te ao meu lado
E viro-me para ti
E demoro-me a sorrir.

E volto a sentir hoje
O tempo que era teu
E como te amava
Quando por ti esperava

E a música toca
Como nos teus lábios
Toca toda a memória
Quando os teus olhos se fechavam.

O tempo que passou
Eternizou este amor
Que renasce
Sempre que a música toca.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sem lugar para ficar.

Sem lugar para ficar.
A alma está ocupada
Cheia de outros mundos
E de emoções saturada.

Repleta e sem espaços
Vive-se incompleta
De um vazio que a ocupa
Deixando-a deserta.

Não tem fogo que a acenda,
Que lhe teime a razão
Que limpe esse espaço
De tanta solidão

Ruge num choro
Enxuto de sofrimento
Que não tem futuro
E vive-se do esquecimento.

Do tempo de partilhar
Do sorriso à arte de amar
Tempo que deixou,
Como a vida, para trás.

Naquela fenda

Naquela fenda
Que deixa escapar
Um sopro da alma
Num rasto de lágrimas
De cor de sangue
Seco,
Duro,
Agreste.

Um suspiro que foi
Emoção de algo
Que marcou um momento
De um fugaz presente
Tão intenso
Quanto a cor
Que marcou
A cor da fenda