domingo, 31 de março de 2013

Destino?

Hoje chovia bastante. A caminhar olhava para o chão com o intuito de não molhar os sapatos mais que o indispensável. No passo possível vejo no chão uma folha de papel de tons azulados que me era familiar e destoava na paisagem. Levei um ou dois segundos a realizar que era uma nota de 5 euros. Parei e fiz nova pausa, só que agora de espanto. "O que é que faz uma nota no chão e à chuva?"
Claro que me baixei e a apanhei.
Entrei na missa e durante um pedaço fiquei a reflectir o destino a dar ao achado. Pergunta que só fiz mais tarde. Destino dar porquê? É dinheiro igual ao que trago na carteira. Vale o mesmo. Serve para o mesmo. Ah!... mas a atitude perante este é diferente. É que estes 5 euros molhados não me pertencem! Não são meus. São de alguém que, por falta de sorte, deixou cair no chão.
E durante um pedaço de tempo senti um certo compromisso com essa nota. E, ao mesmo tempo, abre uma janela de diálogo com o espírito, com aquilo que nos faz ser diferentes.
"Porque é que fui eu que a descobri?"
"Foi para fazer alguma coisa?"
"Devia dar a alguém?"
"Devo repartir com os outros?"

A dimensão sobrenatural sempre me fascinou... 

O nosso português

"Eramos 10, não 11! Um só durou oito dias. Foi o mais sortudo!" - Frase de uma conversa casual com uma portuguesa da zona do Oeste.

Teve sorte em morrer inocente?
Sem pensar?
Sem ter consciência?
Sem se saber ser vivo?
Sem sofrer as dificuldades da vida?
Sem ter sentido o abandono?
Sem ter tido fome?
Sem ter que se fazer à visa
Sem ter tido que sofrer e crescer?

Todo um lado negro e de dificuldades. Um mar de tristezas e amarguras da vida.
Mas, e por outro lado, Não teve, também, a sorte de ter sentido a felicidade da paternidade/maternidade.
De amar e ter sido amado.
De ter sido desejado.
De ajudar e ter ajudado.
De ter sido útil.
De fazer parte de algo, casal, família, conjunto, país.

A dualidade deste sentir dual em que se sobrepõe uma vertente reflecte, não o coração de quem o diz, mas a sua circunstância de vida. Revela a sua revolta e a sua vontade de ter coisa diferente, de fazer uma roptura. De matar o presente para poder ter um melhor futuro. Diz, de certo modo, uma vingança à sorte da sua vida. Vida essa que agarra com ganas e a empurra com tenacidade. Uma mulher que muito aprecio.

Páscoa

O momento em que todo o sentido é dado à fé cristã.
É grande de mais para se abarcar todo de uma só vez.

Sentindo a partida

Sentindo a partida
Mas a que retorna
Aquela que me devolve
Ao interior de mim

As paredes de sempre
Como segunda pele
E no tecto plano
Como a minha alma

No espaço que percorro
Os caminhos do meu devir
Que se fundam em mim
Na promessa de amanhã

No tempo em que se funde
Passado e presente
O que foi, o que ficou e o que torna
São sempre o mesmo

É aquele que vive
Preso num corpo
E olha para a frente
Como se fosse um futuro.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Calado

Calado por uns dias e de repente, sem aviso prévio, uma dose poética em marcha! Apre!
Não se preocupem, pode haver também outras coisas....

Não consigo deixar de me lembrar de Torga que, às tantas queixava-se dessa sua tendência para escrever poesia. E pedia desculpa aos seus leitores. Feitas todas as diferenças e distâncias, não posso deixar de sentir o mesmo.

Desculpem lá qualquer coisinha.

Quem sou eu?

Quem sou eu?
Do espelho que me mostra
Cumprimenta-me um homem
E olha-me nos olhos.

São olhos sem alma
Vazios e opacos.
Não tem sorriso,
Apenas mostra os dentes.

E onde fica a alma
Nesse espelho que me vê
Com olhos vazios,
Opacos e sem alma?

Que vê esse espelho?
Que cruza imagem
Sem atingir a alma
Incapaz de se rever.

Essa, aninha-se na candura
Demora-se no afecto
E pede-se suavemente
"Quero ser, apenas, AMOR!"

Este é o fim!

Este é o fim!
A última página
Já sobre capa dura
Que não tem para onde ir

E ficam assim presas
Todas as palavras escritas
Nestas páginas caladas
Sobre capas que se fecham

E a alma que se confessa
Sai no final
Deixa-se no livro fechado
Preso a uma estante

Foram tempos vividos
Assinalados e descritos
Presente que ficou passado
Do passado reflectido.

Ainda risco mais uma

Ainda risco mais uma
Outra folha antes do fim
Um branco que se suja
Da vida dita assim.

E na próxima que vier
Abismo de tudo branco
Folhas novas para ler
Aquilo que a alma tem

Que importa isso mesmo?
São mais massacre do autor
Que se insiste assim
Dizendo a alma no fim.

Escondido a um canto

Escondido a um canto
Na sombra da minha alma
Vejo-a assim perdida
Quando neste tempo me busca

E rio-me dela
Dessa alma que se faz vida
Que veio não sabe donde
E que irá para algures.

E no tempo intermédio
Em que assim está
Finge viver desse modo
Presa algures num mundo

E aflige-se com o fim
Assim como coma  origem
De onde vem e para onde vai
As pontas que não ligam...

E Aclmo-a com um afecto
O princípio foi ontem,
E o fim não sei,
Estamos aqui. Hoje.

O caderno chega ao fim

O caderno chega ao fim
Gastando-se as últimas folhas.
Palavras que ficaram ditas
E, talvez, verdades registadas

E que importa isso,
Essa história da verdade
Se o coração que sente
Escreve o que lhe vai em mente.

É a cor de quem ama
Daquela alma que pulsa
Que anseia e se expande
No papel branco que se abre.

E no fio de tinta que fica
Que leva palavras consigo
Até frases com sentido,
O ânimo de quem escreve.

As que lhe vão na alma
E que acabam por ser
Preto sobre o branco
Apenas sinais visíveis
Que ainda sobrevive.

Imagem da Virgem da Nazaré


Uma curiosa Lenda atribui o topónimo Nazaré a uma imagem da Virgem oriunda de Nazareth, na Palestina, que um monge grego teria trazido até ao Mosteiro de Cauliniana, perto de Mérida, no século IV. No século VIII teria chegado ao Mosteiro o fugitivo Rei D. Rodrigo, último rei visigodo da Península Ibérica, depois da sua derrota, frente aos Mouros, em Guadalete. Aí teria encontrado Frei Romano que o acompanhou na sua fuga, trazendo com ele a imagem da Virgem e uma caixa com as relíquias de S. Brás e de S. Bartolomeu. Antes de morrer, Frei Romano teria escondido a imagem numa lapa, no Sítio, onde ficou guardada durante quatro séculos, sendo então descoberta por pastores, que a passaram a venerar.

As lendas são um fogo que nos aquece a alma. Esta tem o peso de tantos séculos como os de Portugal. E o que são as lendas? Histórias que vivem para além do tempo, e que nele viajaram de boca em boca. Não, seguramente, para ludibriar, enganar ou mistificar alguém. Nem tão pouco para fazer pouco do mundo. Mas porque é um afecto do povo que age dentro de uma adesão de fé. E por isso repete sempre a mesma história, ganhando a mesma a categoria de lenda.

Vale a pena o caminho.

Chovendo

Lá fora, cinza
Em nuvem permanente,
Que ocupa o horizonte,
Enchendo-o de humidade
Que se espreme
Constantemente.

E no chão cheio
Escorre sem fim
Em filas, grossas e finas
Até um mar
Que já está cheio
Como a minha alma.

Deste toldado ar
Carregado de impressão
De um mar vertical
Que não muda de posição.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Nazaré

Fui ver a praia do Norte e o famoso canhão! Estava a dormir. Não toquei. Não se incomodam monstros!

Colocar uma nota

Os dias passam. E com ele o tempo que vamos somando por esta dimensão. O calendário serve para nos irmos orientando.

Nestes dias, olho para trás e penso nos vários dias 27 de Março que vivi. De pessoas que faziam parte do nosso entourage, dos que ainda não existiam e do sentido que tinha viver este dia. Serve também esse pensamento para perceber que aos poucos me vou aproximando do papel em que via toda uma geração, e outra e ainda outra e tantas mais. O ciclo da vida e os papeis que progressivamente vamos desempenhando nesta caminhada.
Já fui bébé menino, irmão, filho, neto, jovem, namorado, marido, pai, tio e sei lá o quê mais. Nestas não posso deixar de referir que marido e pai foram e são as que mais me dão sentido. Serei outras ainda.

terça-feira, 26 de março de 2013

Sinal dos tempos

No meu país existe uma senhora que se chama Joana Vasconcelos. Seguramente como é muito espaçosa, entendeu produzir objectos igualmente espaçosos. Rapidamente entenderam dar-lhe um atributo adjectivante "artista".
Passou a produzir, ou mandar produzir objectos em tamanho XXXL nos materiais inusitados, alguns de gosto assaz duvidoso.
Como a produção e aplauso de tamanho disparate não era suficiente, entenderam os seres pensantes desta terra confundir a História do nosso país com esses objectos absurdos, admitindo-os no Palácio da Ajuda.
O mais extraordinário é que apareceu de imediato um rodopio de ignorantes a visitarem o Palácio, não para admirarem e fruirem o seu passado colectivo, mas para se babar perante tachos, panelas, e tampões higiénicos.

Sinal dos tempos

Mediatção

"Um diário é a última fonte a que o historiador deve recorrer para conhecer o autor. Ninguém se atreve a ser sincero no papel: pelo menos quando se trata de amor." Lawrence Durell

Estou completamente fustigado com estas frases. Tudo isto que por aqui deixo não são mais que tolices? Que nada disto é verdade? Que a poesia não pode ser um espelho da alma?
É óbvio que esta frase vem na sequência do romance Baltasar. Mas há um certo fundo de verdade no que diz. Até que ponto é mesmo verdade aquilo que dizemos e que escrevemos?

E se, afinal, não fosses assim,

E se, afinal, não fosses assim,
Tudo só para ti...
Houvesse um tempo também
Para gentes e almas que sentem
Que amam e que sofrem
Por te quererem também.


Chove mansamente...

Chove mansamente...
Ao som das cigarras
E da sinfonia alada
Entre cortada pela ventania.
Que agita e embrulha
Os ramos e campos.
Tempo de alagar o chão
De lhe dar com que medrem
As sementes do verão
Que renovam o tempo.
E com o mar ao longe
Tranquilo e acinzentado
Espelho de tantas nuvens
Que se desfazem mansamente.

É a paz bucólica
Do meu canto aqui sentado,
Debaixo de um alpendre
Suspirando de satisfação


A horas de me celebrar

A horas de me celebrar
Em mais um ano de vida
É como um prego
Que, assim meto na alma.

Há o tempo de glorificar,
De bem dizer a vida,
Enquanto com o olho espreito
O fim desta que se avizinha.

E claro que há a vida
O afecto, o amor e a amizade.
O mundo que se faz e constrói
Nos laços que persistem.

O calor de pensar neles
Em todos os que estão
Como aqueles que passaram
São, também, aquilo que é a minha vida.

E não a celebro para mim,
Mas para quem comigo convive,
Partilha e festeja
Mais um ano que se completa.

sábado, 23 de março de 2013

Meditação

Há os que sofrem as dores alheias, ampliando-as ao limite insuportável por, simplesmente, não terem espaço para as suas dores.

Esta frase reflecte as narrativas de tantos que se perdem em lugares comuns, ideias gastas e outros mil argumentos que satisfazem um sentimento na sequência de um momento que afecta o sentimento profundo de alguns. Situações extremas de quem fica sem solução. A posse dessa dor visa desviar a atenção de quem sofre para uma vulgaridade de sentimentos de modo a se poder ferir ainda mais quem sofre efectivamente.

sexta-feira, 22 de março de 2013

De 1989

A dor que te povoa a alma
sabendo que de mim saiu
deixa-me triste e amargo
Por ainda não saber dizer-te
Aquilo que só teus ouvidos
Devem ter para ouvir
E isto adivinharas porquê.
Se a tua mente não te disser
Teu coração, decerto te dirá
Só ele sabe, de sabe-o por nós dois...

E nas brumas de ontem,

E nas brumas de ontem,
Nessa ilusão difusa
Que cruzava o nosso olhar
Vimos o mundo a ambicionar

Era um mar de vontades,
Quimeras de expectativas
E uma enorme pulsão
De sentir o mundo na mão.

Com força o sangue fluía
E dava todo o sentido
À nossa vontade de criar
Um mundo que fosse nosso.

E nos dias d'hoje
Num mar tranquilo
Recolho a emoção
Desse mar navegado.

Com a alma exposta

Com a alma exposta
Como se fosse uma chaga
Num recanto da cidade
À espera de um amanhã.

Não quero o passado
Nem creio num futuro.
Apenas farto de mim
E desta alma extenuada.

Órbitas sem olhos
Que registam esse vazio
De um nada atento
Que se impregna.

Que venha a andorinha
Recriar uma emoção
Devolver a cor
De um outro negro.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Pensar

Por vezes as coisas nascem com um sentido e à medida que se vai moldando a peça, o sentido que parecia tão simples e primário, adquire outro sentido e cresce àquilo que, afinal era.

A consciência

Ter....
Aquilo que não meço,
Que não sinto
E nem sequer vejo

Ter....
Aquela luz apenas
Que fica na alma
E me ilumina

Me diz que sim
Para seguir em frente,
Para ser justo,
Para honrar o Homem,
Para estar na verdade,
Para sair de mim
E para ser,
Apenas, por ela

Essa luz.
A consciência.

Para meditar

"Para mim, esse famoso sorriso [ o da Mona Lisa ] fez-me sempre pensar no sorriso de uma mulher que acaba de enganar o marido." Lawrence Durell

Sorrir....

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quase desespero

- E agora?
- Agora, o quê?
- Que destino?
- Não sei...
- E não te interessa?
- Não.
- O propósito!
- De quê?
- Da razão de ser?
- O quê?
- Isto! De aqui estarmos...
- Não.
- Não????
- Não.
- Como não? Quando, então?
- Não sei.
- Não consigo perceber
- Eu também não...
- Ahn?....
- Não consigo perceber...
- O mundo? A vida? A existência? Deus?
- Não!
- .....
- Porque é que o meu cabelo, às vezes, fica com caracóis....

E a andorinha?

Se hoje começa a primavera quero voltar a ver as andorinhas que via no Alentejo! Ao final do dia, a rodar em volta dos ninhos, com voos rápidos e seguros. Corpos pretos e asas desenhadas a régua e com um grande sorriso na cauda.

A queda

Ah!.......
A queda!.....
O erro!.......
O pecado!....

Larva que nasce na alma
Fixa-se na consciência
E alimenta-se do meu pensar
Numa infindável tortura.

E mesmo que sacudida,
Empurrada ou justificada,
Renasce das cinzas,
Qual abutre sempre faminto.

É uma pena que se carrega
Para um sacrifício sem data.
Antecipação de uma morte,
Que já não assisto.

E mesmo depois
Fica o lastro do acto
O registo no mundo
Onde assim foi tocado!

Miséria de se ser pensante
Actor livre do meu agir
E também juíz
Do erro por corrigir.


Artista....

"Actualmente, não se compreende um artista que não seja de certo modo infeliz." Lawrence Durell

Esta frase é curiosa. Foi escrita algures em 1957. Na altura acredito que os artistas, aqueles que se ocupavam desse campo curioso da actividade humana, onde o homem se tende a ultrapassar e dizer de um modo invulgar algumas das perplexidades que se passavam pela sua alma. Por aqui andava o conceito de arte. Foi este o conceito de arte que fui aprendendo e com o qual fui convivendo ao longo da minha vida. Havia, necessariamente, perante uma obra de arte duas coisas, o homem que a executa e "algo" que se deixa, que se ama, que se admira, que fala por si. Faz com que a arte seja, de certo modo evidente. E nesse sentido a expressão de Lawrence Durell refere-se, sobretudo à evidência de um sentir, de uma angustia, de uma emoção que brota com a criação artística.

Hoje esta frase é uma piada. Ser artista é ser promovido por um lobby. Não é necessário haver um processo criativo. Um quadro branco pintado com riscas brancas e pequenas gotas brancas pode ser arte desde que haja um movimento de adeptos. É a falência dos valores e, ao mesmo tempo desta sociedade em que vivemos. Não interessa ser, mas apenas e tão somente parecer.

O que se perde nesta transição é o que perde a humanidade. Sentido.

Não há linha

Não há linha,
Nem continuidade.
Sou apenas um acaso,
Uma solução da minha alma.

Que insiste em teimar
Que o tempo persiste
Que faço um caminho
Que se correlaciona.

Mas..., e que não!
Que raio de ideia!

Do tempo que fui menino
Que não volta nunca mais
Será o mesmo que quando for velhinho
Nada que permanecerá!

E como não posso saber
Se esse tempo cessa
Ou se permanece
Passo a acaso

Circunstância apenas
Que insiste em estar!

terça-feira, 19 de março de 2013

Tenho uma lágrima doce


Tenho uma lágrima doce
Que guardo de ti.
E vive na saudade
De todo o afecto.

É a tristeza quente
De saber que existes
Que és assim
Alguém para mim.

E não há tempo que passe
Nem mundo que mude.
És aquele tempo
Que vive sempre.

Frases

"Imagino, logo pertenço e sou livre." Laurence Durell

A frase que segue a regra da dedução cartesiana não me parece completamente linear. Que com a imaginação se atinge a liberdade é óbvio. Aliás a liberdade só existe, só acontece no domínio intelectual e a imaginação é um indicador claro e inequívoco desse ambiente. A pertença é que me falha.
Porque pertencer? Pertencer a quê? Pertencer é fazer parte de alguma coisa. Que coisa é essa que acontece no mundo da imaginação e da liberdade? Se reduzisse a frase para "Imagino, logo sou livre" está perfeita e faz todo o sentido.

Dúvida...

terça-feira, 12 de março de 2013

A dor é solitária

A dor é solitária
E trás consigo mais solidão.
É como um buraco
Onde se cai sozinho.

Também se perde a luz,
E o mundo se perde da mão
Que se queda presa
Dentro desse escuro lugar.

E olha-se para cima
Na esperança de luz
E em modo de oração
Na esperança da salvação

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ao redor de mim

Ao redor de mim
Sem paz para nada
Apenas aquilo que sou
Uma permanente insatisfação

A qualquer lado
A sombra de uma ilusão
A vontade de um desejo
A queda para uma tentação

E no centro de tudo
Um fogo que queima
Toros de projectos
Ilusões de se ser.

E esse projecto que incendeia
Esse fogo que teima
Essa vontade que ilude
É o ser que se cumpre

Um futuro que não se cria
Mais que o desejo
De uma vontade
Que é ser sempre novidade

Descobri uma memória.

Descobri uma memória
Ah! Que tempo esse!
Quanta novidade me trouxe
E vivo-a intensamente

Ontem voltei a vivê-la
A memória descoberta
Ainda foi de afecto
Que ela me encheu

E essa memória persiste
Já passaram anos
Já não tem cheiro, nem afecto
Ficou presente residente.

Gasta de tanto uso
A memória ficou quadro
Que se pendurou
Na parede da minha alma.

Tenho a alma morta

Tenho a alma morta.
Sem gota de sangue
Uma carcaça seca
Sob um enxame de dores

Onde nada se sente
Nada se respira
Apenas ar pesado
Do que nunca foi

Ao fundo nada
Tanto como perto
Princípio no fim
Apenas um buraco.

E desse passado
Quer era tanta promessa
Não era desta alma
Que agora jaz.

Uma gota seca
Em permanente suspenso
Que espero que caia
No seu esquecimento.

Caminho

Nos seixos redondos
Dispostos no chão
Como se fosse uma estrada
Estão os pecados da minha alma

Polidos pelo tempo
Sente-se a instável segurança
Do equilíbrio que não está lá
E, contudo, são um caminho

A alma revê-se no seixo,
As arestas que poliu
Do erro cometido
Do contorno que alisou

Um caminho que fica
Traços de uma alma que insiste
Em rolar nas arestas
De seixos a polir.


quinta-feira, 7 de março de 2013

Meditação

Fazemos, ao longo do dia, diversos percursos e estamos em diversos locais repetidamente. Estivemos ontem, na semana passado, no mês e no outro mês. Aos poucos acabamos por decorar as caras e as pessoas com quem convivemos nesses locais. São pessoas com as quais partilhamos com alguma frequência os mesmos sítios e às mesmas horas.
Com a repetição vamos ganhando pequenos conteúdos. Nomeadamente o que vestem, se estão a ler, se ouvem música, se falam ao telemóvel, se estão pintadas, como se desenvolvem os movimentos, etc.
Com a repetição ganhamos, também, afectos por elas. Ligeiros, suaves e ténues, mas acabam aos poucos por serem pessoas que vivem o nosso mundo, conhecem as nossas coisas. Temos coisas em comum.

Se partilhamos esses afectos naturais no ser humano, será normal, também, que sejamos, igualmente, alvo desses mesmos pequenos, leves e ténues afectos. E isso, vale um sorriso!

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sou um insensível

Depois de 2 cafés e seis chávenas de chá preto a cabeça insiste em tombar sobre um dos meus ombros e as pálpebras acompanham esse movimento.

A vida não é fácil.

Comunicar

Talvez uma das grandes necessidades do homem contemporâneo. As ferramentas que cria e com que se rodeia são as mais variadas, ou mesmo variegadas. Da carta de outros tempos que vinha para a nossa casa, sobretudo quando estávamos de férias, surgem agora mensagens de correio electrónico que chegam para as diversas caixas de correio que acabamos por ter. E não é uma mensagem por dia, chegam a ser várias, senão mesmo conversações.
Depois há ainda o chat, locais ou apenas aplicações onde podemos ficar à conversa com uma ou várias pessoas, separadamente ou em simultâneo.
As redes sociais, cada vez mais, ao ponto de chegar à especialidade temática, como é o caso do Pinterest.
Os telefones passaram a estar no bolso, em vez de estarem à entrada de casa.

É apenas um sinal de aproximação das pessoas, ou apenas um vazio que se instala, reduzindo a comunicação a palavras que substituem os pensamentos e as emoções?

Acaba por deixar pouco espaço à saudade.

terça-feira, 5 de março de 2013

Ontem fui ao jardim

Ontem fui ao jardim
E reguei todas as flores.
Não as do meu canteiro,
Mas as que tinha à mão.

Uma primavera permanente
Cada flôr com a sua côr
E sentida fragância
Num mar de emoções.

EM todas perdi o meu olhar.
O dom de Deus na criação
Que dentro da multiplicidade
Haver tanto afecto para cuidar.

Meditação


Ao ler John Steinbeck, "A um Deus desconhecido" tropeço nesta frase:

"As pessoas fazem sempre o que está errado, quando se sentem excessivamente felizes"

Indo um pouco mais longe, às grandes vertentes da cultura helénica no espírito Apolínio e Dionisíaco, o domínio da razão ou do sentir sobre o Homem, até onde nos pode levar esta frase? Se é evidente, ou facilmente se entende o excesso de felicidade num folgazão, e que isso o leva a tolices, ou actos menos ponderados, já o mesmo não parece aplicável a alguém muito racional. Por exemplo será que o Papa Bento XVI, ou mesmo Kant cometeria um erro se estivesse excessivamente feliz?

Como reconheço melhor a queda de Dionísio do que a de Apolo, fico suspenso para essa verificação.

Mais desenhos

A entrada da Gulbenkian.

 E uma árvore no jardim da Gulbenkian.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ainda a tempo

Nessas danças havia alturas em que havia um pouco de intimidade, então os corpos aproximavam-se mais e dançava-se segredando imensas palavras... Umas de amor, outras de promessas, outras ainda a tentar perceber a permeabilidade do coração de andorinha!
E, se fechar os olhos, ainda sinto o sabor salgado do calor que havia na dança.

Fechei os olhos e voltei dançar. Tantas caras lindas que revi. Algumas até com quem nunca cheguei a dançar!

Chicago - If You Leave Me Now



O slow que mais vezes dancei.
Escolhida a eleita aproximávamos os corpos com as distâncias todas medidas. Quando era permitido podíamos encostar a cabeça um no outro, mas isso já era muito à frente. Elas colocavam as mãos nos nossos ombros e eles na cintura.
E quando o ambiente estava mais quente, ou abafado as mãos começavam a transpirar, assim como os cabelos que se chegavam a colar à cabeça. As hormonas, essas malucas que viajavam à velocidade da luz nas nossas veias eram capazes de produzir os mais incríveis efeitos. Sudação despropositada, frio nos pés, taquicárdias e mais o que viesse.
Mas, e no fundo, era um dos momentos mais esperado nas festas.
Quanta saudade desse sentir.

E viva o Estado Novo!

"Quando o Castelo de Alcobaça foi tomado pelos portugueses, era seu alcaide-mor Al-Mansour jovem e belo, voluptuoso e dissoluto, que gastava os seus lazeres a raptar moças, levando-as para o castelo, onde as sujeitava às abominações do seu sensualismo doentio."

A maravilhosa carga moral, quase poética, deste paragrafo é, para além de um texto literário, uma exaltação à fabulosa arte e escola de António Ferro.
Se os livros de história de hoje tivessem nas suas páginas momentos destes acredito que não só as aulas eram mais vivas como todos ficariam a saber que Al-Mansour era o alcaide-mor de Alcobaça e que era um jovem de fazer parar o trânsito. E, também, que utilizava a sua arte de sedução para obter os favores das jovens.
Em vez do modelo enfemininado que está na moda, havia quem quisesse ser o Al-Mansour da sua terra!

Adoro este tipo de escrita!